Hoje vi(vi) um filme: Crítica: Cadências Obstinadas / Cadences obstinées (2013)

quinta-feira, 27 de março de 2014

Crítica: Cadências Obstinadas / Cadences obstinées (2013)

*4.5/10*

Fanny Ardant foi tão obstinada como as cadências de Margo, e a sua segunda longa-metragem enquanto realizadora coloca de tal forma a estética à frente da narrativa que não passa de uma tentativa falhada de entrar no dito cinema de autor. Cadências Obstinadas vem armado de personagens fortes, mas entrega-as a um argumento vazio, sem fio condutor, perdido em si mesmo. 

O elenco de luxo - que conta com nomes portugueses e internacionais como Nuno Lopes, Ricardo Pereira, Asia Argento, Franco Nero ou Gérard Depardieu - regala-nos com a sua presença, mas a mesma não chega quando falta conteúdo ao trabalho da realizadora e argumentista. Ardant descurou a história dando uma primazia exagerada e injustificável à forma, e Cadências Obstinadas perdeu todo o encanto que poderia ter, ou, pelo menos, que as suas fortes personagens poderiam prometer.

Na noite da passagem de ano, o velho Carmine lança um desafio a Furio: tem quatro meses para restaurar um velho hotel e inaugurá-lo com grande pompa. Desejoso de se mostrar à altura, Furio aceita o desafio, encorajado pela sua mulher Margo, que acredita que esta missão permitirá ao casal reaproximar-se. Enquanto o estaleiro da obra se instala, os problemas crescem em torno de Furio, que se afasta cada vez mais de Margo. Abalada, a mulher dedica-se à preparação de uma peça para violoncelo que vai interpretar na inauguração do hotel. Margo sacrificou a sua carreira de violoncelista por amor e tem agora a oportunidade de ultrapassar os seus medos e o desgosto do seu talento desperdiçado.


Ao amor à música contrapõe-se o amor a um homem. Aliada às paixões avassaladoras de Margo, está uma mal engendrada história de máfia que não nos leva muito longe. A narrativa começa por seguir a história de amor de Margo e Furio que, não sabemos bem por quê, arrefeceu. Ela esforça-se por reconquistar o marido, sem resultados, mas deixa-se facilmente tentar por outras personagens, especialmente pelo sedutor Mattia, que não percebemos bem que papel tem na trama, para além de incorporar os vícios e malícia de personagens menos abonatórias. Ao mesmo tempo, todo o restauro do hotel parece fadado ao fracasso, por entre corrupção, incompetência ou irresponsabilidade.

Margo, por seu lado, sente-se desesperada e parece pôr em causa o momento em que escolheu abandonar a carreira musical por amor a um homem. Mas tudo mais que rodeia este enredo é inconsequente e sem grande impacto ou desenvolvimento.

Cadências Obstinadas mostra-se um desperdício de actores e personagens - todas muito fortes e cheias de personalidade. É neles que reside o ponto realmente forte do filme. A protagonista  transpira paixão e garra, e Asia Argento incorpora todo o mistério que a envolve numa interpretação poderosa e sentida. A trágica Margo é o motor de Cadências Obstinadas e merecia uma história à sua altura. Ao seu lado está Nuno Lopes como Furio - um homem que amou, talvez ainda ame, mas precisa reencontrar o sentimento -, numa interpretação forte como já nos tem habituado, veste a pele de um homem rude, mas a precisar de coragem, que condena os actos que fujam à lei, apesar de compactuar com eles. Uma personagem dúbia, mas com quem iremos criar empatia, apesar de tudo. Ricardo Pereira chega como Mattia, o sedutor imoral, que merecia um papel mais consistente no filme de Fanny Ardant.

Lê a crítica completa no Espalha-Factos: "As Cadências Obstinadas de Fanny Ardant"

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