Hoje vi(vi) um filme: FESTin'14: Competição de Curtas-Metragens #2

sábado, 5 de abril de 2014

FESTin'14: Competição de Curtas-Metragens #2


O FESTin continua a trazer-nos muito cinema. Em análise, desta vez, estão as seguintes curtas-metragens em competição: A Cor dos Sonhos, de João Pina, Bué Sabi, de Patrícia Vidal Delgado, Leve-me p'ra sair, de José Agripino (Coletivo Lumika), Luís, de João Lopes, e O Pacote, de Rafael Aidar - todas elas integram a sessão de Competição de Curtas-metragens 3.

Bué Sabi - 8/10

Bué Sabi, de Patrícia Vidal Delgado, é uma lufada de ar fresco e tem tudo para ser uma longa-metragem. Aliás, quando termina, o espectador sente que veria muito mais para lá dos 20 minutos da curta-metragem de estreia da realizadora. Bué Sabi retrata a amizade entre três personagens femininas: Dana, uma cigana que mora na Buraca, Isa, a sua melhor amiga cabo-verdiana, e Carolina, uma jovem de classe média-alta. Apesar dos diferentes estatutos sociais, as três criam uma amizade livre de preconceitos, até que uma noite fatídica põe tudo em causa.

Bué Sabi consegue assumir uma identidade muito própria, que vai para além de clichés e ideias preconcebidas. Temos três protagonistas com garra - de onde se destaca Inês Worm-Tirone na pele de Dana, com um bom desempenho - e uma forte amizade que, dadas as culturas e níveis sociais tão diferentes de cada uma das jovens, poderia dar ainda mais história. Patrícia Vidal Delgado oferece-nos um filme com um ritmo fluído e entusiasmante, de cores quentes que combinam com a animação e forte personalidade das protagonistas, com momentos de humor bem conseguido, e onde nem as cenas de acção faltam.

Leve-me p’ra sair - 7/10

Do Brasil, o documentário Leve-me p'ra sair, de José Agripino (do Coletivo Lumika), traz-nos uma entrevista a um grupo de adolescentes homossexuais da cidade de São Paulo, que partilham com o espectador as suas visões do mundo, sem papas na língua.

Uma ideia que pretende ser desmistificadora para a sociedade, Leve-me p'ra sair ganha pelo tom natural e cheio de cor e, ao mesmo tempo, por colocar questões certeiras. Contudo, a curta-metragem sai a perder pelo âmbito do grupo de entrevistados - todos notoriamente da mesma classe social e idade- e pelo tom demasiado positivo, onde escasseiam as experiências negativas dos adolescentes.

O Pacote - 6.5/10

Mais um título brasileiro que nos traz uma temática gay, muito bem delineada, com o mistério a perdurar até perto do final. O Pacote, de Rafael Aidar, aborda uma temática difícil e dá-nos a conhecer Leandro e Jefferson que, mal se conhecem na escolha, tem uma ligação instantânea e logo percebem que não se trata de uma amizade comum. Mas Jefferson tem algo a dizer. Se quiserem ficar juntos, Leandro deverá lidar com algo irreversível.

O desenrolar da relação entre os dois amigos é interessante de acompanhar e a plateia tenta descobrir o que se passa na cabeça de Jefferson, cujos comportamentos não são os mais comuns num jovem da sua idade. Estabelece-se uma forte ligação com as personagens, a história é tratada com subtileza até perto do final, esse sim que merecia ser melhor.

Luís - 4.5/10

Na Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, existe um exemplar da primeira edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões: é uma memória viva e ao mesmo tempo um objecto que convoca para uma viagem de fantasmas e assombramentos. Com a curta-metragem Luís, João Lopes pretende debruçar-se sobre este facto.

Com a actriz Carla Maciel a encarnar duas personagens - a mulher que investiga o passado perdido deste exemplar secular, e o próprio Luís de Camões -, Luís oferece-nos este interessante multiplicar de interpretações, acompanhado planos interessantes e uma montagem competente. Todavia, o argumento do filme fica pelo caminho, já de si com um ritmo um tanto cansativo, não acrescentando nada de novo, ou chegando à conclusão que o espectador anseia.

A Cor dos Sonhos - 3.5/10

A primeira obra de João PinaA Cor dos Sonhos, debruça-se sobre os sonhos de todos nós, em particular o sonho de uma criança nos dias de hoje, vivendo num mundo fragmentado pela crise económica que atinge também os seus pais. Mas, eis que a comunidade não fica alheia ao sofrimento da criança, materializando o sonho na vida real, que perdurará na sua memória.

A balouçar entre cenas coloridas - mas nunca demasiado vivas -, e o preto e branco, A Cor dos Sonhos não foge à temática "da moda": a crise económica. Interessante é a analogia do título com a própria cor, que varia conforme estados de espírito das personagens. João Pina traz-nos um filme cheio de boa vontade e com uma visão mais ou menos positiva da crise. Contudo, a inexperiência é notória e, tanto técnica como argumentativamente, A Cor dos Sonhos não chega ao mediano.

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