Hoje vi(vi) um filme: IndieLisboa'14: Alentejo, Alentejo (2014)

segunda-feira, 28 de abril de 2014

IndieLisboa'14: Alentejo, Alentejo (2014)

*9/10*

Um documentário cheio de emoção e de chamamento às raízes, Alentejo, Alentejo, de Sérgio Tréfaut, trouxe ao IndieLisboa (onde integra a Competição Nacional e Observatório) uma surpresa cheia de sentimento e um excelente retrato do Cante Alentejano. Uma viagem à tradição, ao Alentejo profundo, mas também a todos os locais por onde estes cantos deixam marcas ou renascem da boca e para os ouvidos de gente de todas as idades.

De origem popular, o “cante” alentejano sobrevive graças aos grupos que o cultivam no Alentejo e na periferia de Lisboa, os quais recapitulam em ensaio o repertório conhecido de memória, quase sem registo escrito ou sonoro e com reduzidas alterações criativas. No Alentejo, dezenas de grupos amadores reúnem-se regularmente para ensaiar antigos cantos polifónicos e para improvisar cantos sobre o tempo presente. Nascido nas tabernas e nos campos, cantado por camponeses e por mineiros, o cante alentejano deixou os campos e atravessou as fronteiras da sua região. Nas últimas décadas, com a diáspora alentejana, apareceram novos grupos na periferia industrial de Lisboa e em diversos países de emigração, acentuando o cante como traço identitário dos alentejanos onde quer que estejam.

Ainda perto do início de Alentejo, Alentejo rumamos a Lisboa, ao grande piquenique na Praça do Comércio, com um concerto de Tony Carreira. O grupo coral foi convidado a ali comparecer. Contudo, o Cante Alentejano não se deu bem na multidão alienada e barulhenta da capital. Requer a tranquilidade do campo ou, pelo menos, a atenção e disponibilidade para ver, ouvir e sentir, à flor da pele, estas vozes e palavras.

Sérgio Tréfaut parte em busca das suas raízes e leva-nos consigo para que conheçamos (ou reconheçamos) uma das grandes tradições musicais portuguesas, com a calma e ritmo certo para a sentir. Ao apresentar uma série de grupos corais, o realizador desmistifica o Cante Alentejano, que é cantado por homens, mas também por mulheres ou grupos mistos e de todas as idades. Muitos são os jovens que reavivam a tradição, cantando com a mesma emoção e dedicação que os mais velhos.


Homens e mulheres cantam e contam-nos as suas histórias - muitas de uma infância dura e pobre, onde o Cante era um dos momentos de maior alegria - e contagiam-nos com esta paixão que não vivemos, nem ajudamos a criar, mas que vamos ter vontade de preservar e ver continuar.

Muitos relatos são feitos sentados à mesa - a típica açorda não poderia deixar de acompanhar estes cantares. Tréfaut intercala a música com estas conversas à refeição, com o trabalho no campo, na padaria, na mina ou com os relatos de crianças, na escola, com familiares ligados à tradição do cante Alentejano - muitos deles emigrantes.

Alentejo, Alentejo mostra como o Cante Alentejano está vivo e deve ser escutado. Das vozes femininas às masculinas, das vozes magoadas pela terra e pela vida, aos jovens que amam a tradição e sentem cada verso do que cantam, ou às crianças que começam agora a conhecer e a aprender - mesmo longe da região mãe -, este documentário apresenta um intimo e arrepiante registo dos cantares populares alentejanos na actualidade. 

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