Hoje vi(vi) um filme: Já Vi(vi) este Filme, por Miguel Lourenço Pereira

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Já Vi(vi) este Filme, por Miguel Lourenço Pereira

Já Vi(vi) este Filme
por Miguel Lourenço Pereira, do Cinema e Em Jogo

O Cinema é a vida, uma forma perfeita de reflectir no espelho das vaidades o que nos faz sentir. O que nos faz viver. Todos vivemos um filme. Todos vivemos mil. Mesmo aqueles que nunca vimos. Histórias que se cruzam nos canais escondidos da nossa alma e que em celulóide ficam sempre melhor. Se há algo que faz do Cinema algo bigger than life é essa capacidade única de reproduzir episódios e sentimentos que são de muitos. E que são genuínos. A história pode ser filmada no deserto de Gobi com protagonistas estilizados à la Hollywood. Mas a alma é sempre a mesma. A Humanidade (ou a falta dela, tantas vezes) que nos toca a todos.


Poucas cinematografias mundiais entendem melhor esse existencialismo comunitário dentro do individuo como a argentina. Há uma centena de filmes que o representa com o coração, para lá dos postais sacados da Patagónia ou das casas coloridas de Buenos Aires. O cinema, feito em argentino, soa melhor, sabe melhor, vê-se melhor. Que se entranhe na nossa alma não estranha. Afinal, é parte de nós. Dentro de todos esses filmes – a lista não tem principio, nem sequer fim – há um em concreto que tem o poder de reunir tudo aquilo que para mim significa a infância, a adolescência, a idade adulta e a velhice. Na minha escada cronológica vou sensivelmente a meio caminho mas adivinho um fim que não seja muito distante do reproduzido até porque todos os caminhos vão dar a esse momento de definição interna. Luna de Avellaneda é uma obra-prima em tantos sentidos que reduzi-la a tal parece blasfémia. É um exercício dramático, cómico e musical – música que ecoa dentro do coração ao ritmo da batida do sangue na entrada da aorta – que nos desarma e despe. Nus, sem medo ao pudor, ficamos expostos a essa crueza humana que também é nossa. Ramon Maldonado (eu, tu, nós), é a encarnação moderna (com toda a complexidade inerente) do George Bailey capriano. Gere um clube de bairro que foi dos seus pais durante a sua infância e que poderá vir a ser dos seus filhos se encontrar caminho para esquivar a bancarrota impiedosa que se lhe aparece no horizonte. À sua volta, uma corte de homens e mulheres, tão frustrados e ambiciosos com a vida como ele, dá cor a essa busca pela felicidade mais humilde e genuína. Fraternidade, paternidade, carnalidade, tudo se cruza numa passadeira multicolorida onde o desporto, o valor das origens e o amor pela comunidade são mais protagonistas que as caras que lhes dão forma. Juan José Campanella – esse génio que fez de El Secreto de sus Ojos o filme perfeito da década passada – dirige com alma de artesão esse complexo conjunto de fios que se misturam na(s) história(s) de actores imensos como Eduardo Blanco, Valeria Bertucelli, Mercedes Morán, Lopez Vazquez e o inimitável Darin, esse Paul Newman pós-moderno e latino.

Luna de Avellaneda é mais do que um filme. Para mim é um reflexo perfeito da vida, da sua beleza e complexidade. Da sua alma genuína e do seu destino trágico. No fim tudo volta ao principio. No principio ninguém pode antecipar o fim. Sofre-se, ri-se, chora-se, grita-se e dança-se a cada pulsar nas entranhas. Se a vida fosse um filme, seria este. Como a vida, no fundo, são muitos recortes de película, a coisa complica-se. No meu corta-e-pega gigantesco, poucos frames são tão largos como o olhar perdido de Darin a contemplar-me sem o saber.

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Obrigada pela tua participação, Miguel!