Hoje vi(vi) um filme: Já Vi(vi) este Filme, por Daniel Curval

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Já Vi(vi) este Filme, por Daniel Curval

Já Vi(vi) este Filme
por Daniel Curval, do Unraccord


A trilogia de Richard Linklater tem para mim um valor de quase guilty pleasure, mas no sentido da expressão que ironiza com a nossa vida. Quando vi o primeiro filme "Antes do Amanhecer" (1995) tinha uns vinte e tal anos bem consolidados, passado por sustos tipo "eu sou muito novo para ser pai" e por desilusões que me levavam a procurar abrigo nas salas de cinema. Num desses dias que ansiava pelo conforto num filme, assisti ao "Before Sunrise". Foi então aí que conheci este par de namorados em Viena, assisti a tudo em real time cinematográfico, que não é o nosso tempo. Não fiquei maravilhado com o filme, já era muito exigente com os filmes na altura (imagine-se agora, burro velho), mas achei a Celine e o Jesse dois bons simpáticos amigos, daqueles que só encontramos nos filmes e nos livros. Saio da sala do cinema e só tinha uma ideia na cabeça "raio, só eu é que não encontro miúdas como aquela Celine", é preciso dizer que um tipo que responde que lê Balzac aos vinte e poucos está bem fodido com as gajas, mas subi a parada, passei a dizer que só lia banda desenhada, Astérix e coisas assim, também não acharam piada, que era coisa de putos, "foda-se, de putos?! olha-me esta a falar mal do Astérix e do Óbelix". Mudei de estratégia, "então que andas a ler?", "nada de especial" respondia com ares de desinteressado. "Vá lá" atacavam elas, "olha, leio literatura até ao século XVI e em latim", os olhos delas diziam qualquer coisa como "olha-me este tótó, vai-te foder ó pseudo-intelectual" abria-se um hiato de silêncio e falávamos do tempo, que se calhar ia chover. Em abono da verdade, que fique aqui registado, que não sei ler latim, nem grego e de português só até antes do novo acordo ortográfico. E até ao século XVI só conheço umas coisinhas leves, tipo "umas poesias". Os anos vão passando, e eu vou-me entretendo (porque como diz o poeta MF "temos de nos distrair da morte e não sabemos muito bem como.") com umas gatinhas de dia e outras de noite, que todas são pardas, night and day ao sabor de jazz, black and white ao sabor da pele. Disse-me uma há pouco tempo, que se deve sempre falar de gatinhas quando se escreve. Ela anda num curso de escrita criativa, deve saber do que fala. Onde é que eu ia? ah, com os planos orçamentais do amor a derrapar em todas as linhas dos gráficos excell, resolvi adoptar uma prática de austeridade nos gostos literários, e agora quando me perguntam o que ando a ler, respondo "clássicos e poesia, uns ensaios pelo meio, fundamentalmente sobre cinema e fotografia". Se dantes se riam ou me chamavam de parvo, agora só tenho direito ao desprezo. Elas fazem-me tão feliz no silêncio dos lençóis. And i don't give a shit. Todavia, eu sou a prova viva e humana, que aqui não há robots, que a austeridade não dá resultados nenhuns. Cheguei a 2004 na boémia e bon vivant, já tinha estado em Paris e tudo. Quando estreia o "Before Sunset" não podia deixar de ir ao rendez-vous com aqueles amigos que conheci numa sala escura de um qualquer cinema. Encontrei-os mais maduros, mais cheios de vida, tanta que nunca esqueci aquela frase de Jesse dirigida a Celine, que era mais ou menos "se me tocas, desfaço-me em moléculas", eu na altura também andava desfeito. Somando aos diálogos inteligentes, a cidade de Paris e a Nina Simone estava o caldo entornado para ficar com este filme como um afecto cinematográfico (repito muitas vezes esta palavra, para dar um toque de longa-metragem ao texto). "Antes do Anoitecer" é o meu "teremos sempre Paris". Nunca mais quis rever estes dois primeiros filmes, estou a pensar fazer agora, para ver se os afectos continuam ou se sequei que nem uma figueira. Ano da (des)graça de 2013, estou nos "entas", expressão tão feia que alguns cotas (outra feia) tanto usam, enfim, alguns tornam-se ridículos, outros novos-ricos, outros desempregados, outros políticos e outros divorciados. Eu continuo a parecer que tenho menos idade, do que aquela que marca no B.I. (ainda não tenho cartão de cidadão, que chatice). Elas agora dizem que sou como o melhor vinho do porto. Não sei. Mas gosto muito de vinho tinto, e dizem que faz bem a tudo, deve ser por isso. Como o Jesse, quando deixo crescer a barba os pêlos brancos revelam-se, dá-me um ar de bandido, diz a minha mãe. Como ele com a escrita, detesto quando me perguntam se a fotografia é para mim um hobby. Quem me faz uma pergunta dessas tem logo o meu desprezo e silêncio. Ah que me esquecia, também, adoro e acho sexy os quartos de hotel. Os três, isto é, o Jesse a Celine e eu estamos cansados da vida, do mundo, deixamos de ter tempo e paciência para a estupidez, para a inveja, a hipocrisia e o cinismo. Como ao Jesse, a mim interessa-me cada vez mais o humor, o despojamento, ele passeia entre oliveiras na Grécia, eu junto ao mar em Portugal. A Celine tornou-se a mulher dos sonhos dos homens que pouco querem, para além de paz e saúde, mesmo com aquele french big ass. Estamos todos mais velhos. Passaram-se 18 anos. "Before Midnight" é o terceiro filme, espero que termine aqui, quero apenas ficar com estes filmes-afectos como uma trilogia e não quero que se tornem numa telenovela. Richard Linklater, nosso amigo na sombra da tua câmara de filmar, não voltes a esta história, deixa-a seguir a sua vida, permite que faça a passagem de que falas no filme.

"Antes da Meia-noite" foi pensado e realizado não como um filme, mas como um livro, um romance. Divide-se em capítulos ou partes, são umas 6 ou 8, tenho de voltar a ver em DVD para melhor dissecar o filme. E passa-se em 6 cenários apenas, estando sempre presentes Jesse e Celine, são eles: no interior do carro; na casa dos amigos gregos; a passear nas ruínas; a passear na povoação; no interior do quarto do hotel, e por último, antes da meia-noite numa esplanada. Estes seis cenários são filmados com o mínimo de planos possíveis, recorrendo a enormes e belíssimos planos-sequência, enquanto assistimos a intermináveis conversas e diálogos inteligentes, outros nem tanto. O argumento, às vezes, resvala nos lugares-comuns. Como em Portugal, nalguns cinemas, se faz intervalos, achei de início a primeira parte medíocre, tinha visto a sequência da conversa entre Jesse e Celine no interior do carro em plano frontal e a sequência na casa dos amigos gregos. Até aqui, nada de especial, banalidades, conversa sobre a crise do matrimónio, da meia-idade, clichés sobre sexo, o homem e a mulher, os dejá vu habituais, etc, eu bufava de tédio e cogitava desiludido "como ficaram os meus amigos". Sete minutos de intervalo, escrevo as primeiras notas sobre o filme no meu moleskine e de imediato me lembro da frase do meu avô "o amor é cagar". Há quase um ano atrás tinha lido "O Colosso de Maroussi" de Henry Miller, o livro é sobre a passagem do Miller em 1939 pela Grécia. Depois de ler o livro fiquei apaixonado, tal como Henry, pelo país, pelo povo e pela paisagem, pela cultura já era. Quase que fiz as malas e abalava de imediato para aqueles anfiteatros de paisagens divinas e céus e mares da maravilhosa mitologia grega. Porém antes, fiz a asneira de verificar o saldo bancário. Um aventureiro nunca faz isso. Fiquei-me pelo Google Earth, a cavalo dado não se olha o dente.

Linklater, optou e bem por filmar na Grécia, o filme precisa daquela luz intensa, os personagens também. A narrativa na segunda parte torna-se forte e empolgante, cresce como uma metáfora mitológica, o filme parece que faz um volte-face, estava derreado no chão, qual herói grego e levanta-se. Todavia, não foi o macho a reerguer o filme, foi uma heroína, foi a Celine, foi a Julie Delpy que lhe dá a cara e o corpo, que agarra no filme como num minotauro, toma-lhe a rédea, e faz uma interpretação fabulosa. Isto acontece precisamente à noite, no interior do quarto do hotel. Antes, Linklater tinha andado com eles a passear e no fim, para descansar da conversa entre homem e mulher, oferece-lhes umas bebidas numa esplanada, invoca o livro de Jules Verne e o filme de Éric Rohmer e segreda-lhes a lenda do fenómeno do Raio Verde ao crepúsculo. Voltemos à espantosa sequência no interior do quarto do hotel, era para ser uma noite de amor e transforma-se numa enorme discussão e crise matrimonial, o crash instala-se, segredos por revelar como traições, questões de maternidade e paternidade, feminismo, machismo, tudo filmado com uma mestria exemplar, há uns campos e contra-campos absolutamente perfeitos, aqueles em que Ethan Hawke (Jesse) ao falar para a Julie Delpy (Celine) é filmado em plano frontal como se estivesse a falar para nós e o inverso, Julie Delpy a falar para nós também em plano frontal de corpo inteiro enfrenta o espectador. Nesta sequência ainda temos, quanto a mim, dos mais importantes planos, do peito de uma mulher de quarenta anos despidos. Não é a nudez per se, é como é filmada, sem glamour a beleza feminina em toda a sua naturalidade inocente. É uma mulher de 40 anos que estava a começar a ter sexo com o seu homem e que por causa de um telefonema, tudo descamba. Noutro filme, a personagem feminina ter-se-ia vestido ou coberto as mamas, como se existisse pudor entre um homem e uma mulher casados há vários anos e que se conhecem há 18. Claro que não há (se existir a questão é outra), Delpy (Celine) mantém-se naquela forma e estado entre o vestida e o meio-despida, a discutir como todas as mulheres o fazem tão bem, a argumentar e acabar dizendo ao seu homem Jesse (Ethan Hawke) que ele não é nenhum Henry Miller, nem na cama, nem na escrita. Poderosa. Chego ao fim do filme e fico a perceber toda aquela banalidade inicial, não é por acaso, ela é o símbolo da nossa vida de clichés, de repetições quotidianas, de palimpsestas conversas. O tédio, esse eterno companheiro de todos. Celine sai porta fora, vai para uma esplanada sozinha, Jesse vai ter com ela, diz-lhe umas graças e umas sentidas verdades, Celine rende-se ao inevitável sentimento do amor "Before Midnight".

Este texto estava para ter o título de "o amor é cagar" uma expressão muito cara e de autoria do meu avô, que a dizia muitas vezes, à janela do seu quarto com um cigarro de enrolar a queimar no canto da boca e uma boina preta basca na cabeça. Eu puto a brincar no terreiro com as ferramentas de carpinteiro dele, ouvia e só me ria de inocência, e da brejeirice das palavras sábias de um analfabeto. Esse meu avô teve sete filhos e sabia muito mais da vida do que eu sei agora.

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Obrigada pela tua participação, Daniel!

1 comentário:

Os Filmes de Frederico Daniel disse...

Nunca vi a trilogia, mas espero ver.