Hoje vi(vi) um filme: Doclisboa'14: Father and Sons / Fu Yu Zi (2014)

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Doclisboa'14: Father and Sons / Fu Yu Zi (2014)

*5/10*

O grande vencedor do Doclisboa'14 não reuniu o consenso entre o público. Father and Sons, de Wang Bing, conquistou o grande prémio do festival mas não convenceu, mesmo que as intenções do realizador fossem as melhores.

A sinopse prometia algo mais marcante do que o filme nos oferece. Essencialmente contemplativo, Father and Sons debruça-se sobre a vida da família de Cai que, em 2011, levou os dois filhos para o seu local de trabalho, uma fábrica em Fuming, onde trabalhava com pedra, e arranjou-lhes uma escolha. Desde aí que têm vivido numa cabana da fábrica, apenas com uma cama. O realizador quis acompanhar a vida desta família, começando a filmar a 2 de Fevereiro de 2014; mas, na manhã do dia 6 a equipa foi ameaçada e parou as filmagens.


A crítica ao regime chinês continua a ser evidente neste filme de Wang Bing, todavia, o documentário não nos oferece mais do que o quotidiano daquela família, que vive em condições complicadas. O tom provocatório que se podia esperar não existe. Father and Sons resultaria muito mais eficazmente em forma de curta-metragem, tornando-se, como longa que é, num trabalho monótono para o espectador.

Observamos, ao longo de 87 minutos, a pequena divisão partilhada pela família, num acumular de roupa e outros objectos, com uma única cama - um colchão suportado por tijolos -, e vários cães que dormem ou passeiam pela divisão. Temos tempo para observar todos os pormenores, mas não retiramos muito mais do que isso do documentário. Apenas que as condições em que aquela família vive são difíceis e degradantes, mas que parecem ser encaradas de forma normal pelas crianças que desde que chegam não largam o telemóvel nem a televisão, que está sempre ligada, em jeito de companhia. Muito observativo, Wang Bing oferece-nos longos planos fixos onde praticamente nada acontece. Ainda assim, um dos pontos positivos desta opção prende-se com a temporalidade do filme. Pela luz que entra no quarto, sentimos o dia a passar, desde o sol da manhã, ao escurecer da passagem do dia, até ao momento em que a escuridão do local obriga a acender a luz.

Father and Sons poderia ter sido um grande filme, se se tivesse filmado o que inicialmente estava previsto, antes das ameaças e da retirada. Desta forma temos apenas um trabalho que se sente como inacabado - cuja contextualização é apenas dada no fim - e sem uma mensagem clara, por muito que a crítica social lhe seja intrínseca.

Sem comentários: