Hoje vi(vi) um filme: Já Vi(vi) este Filme, por Ricardo Rodrigues

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Já Vi(vi) este Filme, por Ricardo Rodrigues

Já Vi(vi) este Filme
por Ricardo Rodrigues do Espalha-Factos


Desde que acabei o ensino básico tinha a mania de passar a vida no videoclube mais próximo da secundária. Gostava de olhar para a capa dos filmes, estudá-las minuciosamente e decidir quais eram os três filmes sortudos que vinham para minha casa, nessa altura a semanada era gasta na promoção do “leve 3, pague 2” da House Movie e foi assim que tropecei no Submarine.

Lembro-me como se fosse hoje. Tinha eu perto dos meus 16 anos quando olhei para uma curiosa capa de um DVD, ela tinha um rapaz atravessado por uma linha azul e Submarine escrito em letras maiúsculas amarelas e encarnadas. Achei curioso e nada sabia do filme, nem olhei para sinopses mas algo me disse para o alugar, assim o fiz.

Logo nos primeiros minutos senti a conexão. A cena em que Oliver Tate, perfeitamente encarnado por Craig Roberts, vai perguntando para o ar quem ele era, indagando sobre si mesmo, especulando sobre a vida no geral. Lembro-me de pensar que aquela personagem tinha sido escrita para mim, só o podia ser! Ela percebia demasiado bem o meu interior, a minha agitada e importunada alma de um adolescente que quer descobrir o significado da vida e o seu papel no mundo.

Tate vai fazendo uma lista dos seus problemas e duas suas questões fulcrais, dá como exemplo as vezes em que se imagina numa realidade completamente desconexa para saber mais sobre a sua própria vida. Lembro-me que ele especula como seria o mundo se, do nada, ele partisse. E, sendo eu um miúdo bastante à parte do resto da comunidade do secundário, dava-me vezes sem conta a especular e divagar entre cenários de diferentes géneros, ia desde finais apocalípticos a sociedades distópicas, namoros proibidos a entediantes vidas passadas na terrinha, viagens pelo mundo a previsões futurísticas. O mundo dentro da minha cabeça era, simplesmente, muito mais interessante ao monótono dia-a-dia a que estava agrilhoado e senti que Tate também pensava desta maneira.


Lembro-me de chegar ao fim do filme completamente abalado. Submarine tinha-me tocado como muitos outros filmes não o conseguem fazer, a história, a personagem e os problemas da mesma eram demasiado idênticos. Aos 16 anos descobri este filme, mas sinto que ele é que me descobriu. Fez-me ficar mais apaziguado comigo mesmo, saber que as inseguranças e os frenéticos pontos de interrogação que assombram a nossa cabeça são mais que normais numa idade de descoberta que é a adolescência. Fez-me sentir, pela primeira vez no meu secundário, integrado em algum lado e o cinema passou a ser, de uma vez por todas, a minha maior preocupação.

É simplesmente incrível o poder que o cinema consegue ter, abala-nos, marca-nos e instala-se nos nossos corações por longos, longos anos. Ele é mágico e enfeitiça-nos de uma maneira que só seremos libertados no fim dos nossos tempos. 

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Obrigada pela tua participação, Ricardo!