Hoje vi(vi) um filme: Declaração de Amor ao Querido mês de Agosto

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Declaração de Amor ao Querido mês de Agosto

Sou amante da Sétima Arte. E porque não tentar explicar o meu amor pelo cinema português pegando num único exemplo recente? O filme chama-se Aquele Querido Mês de Agosto, data de 2008 e é realizado por Miguel Gomes, o mesmo que, quatro anos mais tarde nos trouxe Tabu, o filme que conta uma história de amor em Moçambique, e encantou o mundo. Mas agora o amor é português.

Só tive oportunidade de assistir a Aquele Querido Mês de Agosto depois de ver Tabu. Se um me convenceu, o outro apaixonou-me. O que tem de tão especial prende-se com a cultura de um país – Portugal, claro -, a tradição, a sua gente e, a par de tudo isso, o facto de jogar brilhantemente com os segredos do cinema, balançando entre a ficção e o documentário, desconstruindo, sem medo, o processo de produção de um filme, e, ao envolver-nos, toma-nos como parte dele.


Qualquer português irá sentir como seu Aquele Querido Mês de Agosto. Está lá toda a magia de fazer parte do povo lusitano – pelo menos em Agosto. As festas populares, os bailes onde a música “pimba” não falta, as procissões e a religiosidade, as concentrações motards – mais propriamente a de Góis -, os emigrantes que regressam às suas aldeias natal (e mesmo quem resiste por cá vai sentir as saudades)... A par disto, temos uma história de amor de Verão, mais ou menos proibido, os boatos típicos das terras pequenas, os personagens que partilham parte da vida com os seus actores – a maior parte deles escolhidos de entre as gentes do local. Não vamos esquecer Paulo “Moleiro” e as suas hilariantes aventuras no rio Alva, nem mesmo os ficcionais Tânia e Hélder ou Domingos, o pai da protagonista.

Aquele Querido Mês de Agosto convida-nos a entrar naquele Portugal real, profundo, nas entranhas de ser português, com tudo o que isso tem de mais castiço e de mais caricato. O filme é sincero, por vezes irónico, faz-nos rir às gargalhadas ou mesmo chorar com os desgostos de amor, põe-nos a dançar com o Baile de Verão ou o Meu Querido Mês de Agosto (e faz-nos trautear a letra), dá-nos vontade de visitar aquelas paisagens, conhecer aquelas pessoas – quer os actores, quer as personagens criadas para o efeito.


Por outro lado, não são todos os filmes que nos proporcionam uma entrada nos bastidores cinematográficos, fazendo com que da ficção à realidade a fronteira seja ténue ou quase não exista. Tudo para nos fazer apaixonar e deixar aquelas personagens sair do ecrã, chegarem bem perto do seu público.

Miguel Gomes trouxe-nos aqui um óptimo exemplar de como o cinema português tem tanto para dar e pode surpreender da forma mais divertida, simples e profunda, em simultâneo. E sendo o cinema cultura, Aquele Querido Mês de Agosto faz um óptimo resumo da identidade cultural nacional com tudo e todos os que a constituem, ao mesmo tempo que se revela uma das grandes obras – algo desconhecidas do grande público – do cinema português actual, mas que até passou pelo Festival de Cannes.

E quem é que não espera ansiosamente que o próximo Agosto chegue?

_____

Texto escrito em Setembro de 2014 para a página de facebook do Gerador.

2 comentários:

escrevergay.com disse...

Desde que saiu o filme que o estou para ver (ainda por cima adorei o Tabu), desta semana não passa! Obrigado pela 'lembrança' =)

Inês Moreira Santos disse...

Vê! :) É tão bom. Ficas logo com vontade que seja Agosto outra vez.

Cumprimentos cinéfilos.