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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Crítica: Cosmos (2015)

*5/10*

Desconcertante, frenético, mas perdido nas suas excentricidades, Cosmos surge-nos como dinamite, provocando espanto, estranheza, nojo, irritação, admiração. Sentimentos opostos que, por um lado, tornam especial e marcante a longa-metragem de Andrzej Żuławski mas, por outro, descredibilizam-na.


Witold (Jonathan Genet) acaba de chumbar nos seus exames de Direito, e Fuchs (Johan Libéreau), seu amigo, abandonou recentemente o emprego numa Casa de Alta Costura parisiense. Ambos vão passar alguns dias no campo e decidem alojar-se numa residencial familiar. São recebidos por um pardal enforcado num cordel na floresta. Depois, um pedaço de madeira preso da mesma forma, uma série de estranhos sinais na parede, no jardim e no bosque. Na pousada há uma empregada – com uma boca estranha e deformada – e, Lena (Victória Guerra), a jovem filha dos donos, por quem Witold manifesta uma paixão obsessiva. Ela está casada com um jovem íntegro e honesto; mas será que ela mesma o é? Um terceiro enforcamento. Um gato, obra de Witold. Mas porquê? Poderá o próximo enforcado ser humano?

A adaptação da obra homónima, de Witold Gombrowicz, ao grande ecrã talvez possa não ter sido boa ideia, especialmente em termos narrativos. Cosmos perde-se em si mesmo, na sua análise psicológica que, no meio de um ritmo tão frenético, deixa o espectador sem rumo. O absurdo sobrepõe-se ao todo e, mesmo que seja essa a intenção, sente-se a falta de uma aura, de uma aproximação ao público para que também ele se possa "apropriar" do filme, senti-lo.


E as sensações são uma constante em Cosmos. Apela-se aos sentidos: à audição, atenta a todos os personagens que gritam, discutem e constroem novas palavras e textos; à visão, que divaga entre as cores fortes no ecrã - o batom, por exemplo -, e as belas paisagens portuguesas - Sintra, Ericeira, Serra da Estrela... -; ao tacto, na ânsia de tocar, no próprio toque, quer nas pessoas, animais, alimentos ou objectos; o paladar, nos pequenos almoços servidos na cama, que, certamente, vão agoniar o espectador, com formigas e lesmas à mistura; e, por fim, menos presente, mas psicologicamente inevitável, o olfacto, já que mesmo na sala de cinema conseguimos imaginar os odores da serra, do mar ou mesmo daquela casa. Este jogo de sensações é um dos pontos fortes da longa-metragem de Żuławski.

A realização, premiada em Locarno, é outra força do filme, com planos entusiastas, uma direcção de fotografia competente, iluminação e cores que condizem com as emoções dos personagens. O ritmo é extremamente frenético e o trabalho de mise-en-scène é fabuloso e fundamental, quando estão em cena muitos personagens e ocorrem diferentes e caricatas situações.


O tom muito excêntrico e teatral de Cosmos faz-me associá-lo a uma farsa - ainda que longe do sentido exacto do género - onde a grande entrega dos actores muito contribui para tal e, neste caso,  Sabine Azéma é mesmo a grande estrela.

Cosmos convida-nos a lidar com a estranheza, com a morte, com a obsessão, mas, ao mesmo tempo, é difícil de entranhar, de digerir, mesmo de tolerar. Fica uma relação amor-ódio, qual Witold e Lena.

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