sexta-feira, 1 de abril de 2016

Crítica: Os Oito Odiados / The Hateful Eight (2015)

"The nigger in the stable has a letter from Abraham Lincoln?"
Chris Mannix
*8.5/10*

Quentin Tarantino nunca me desilude. Os Oito Odiados é mais um trabalho cinematográfico fabuloso, mesmo ao estilo do realizador: muito sangue, violência, um argumento especialmente bem construído, inesperado do início ao fim.

Um western na neve, com os oito protagonistas confinados, na maior parte do tempo, a um único espaço - uma pequena estalagem onde se abrigam da tempestade que se faz sentir lá fora. Só os mestres conseguem fazer cinema assim. Polémico, mordaz, divertido e filmado em 65 mm. Que mais podemos nós pedir?

Alguns anos após o final da Guerra Civil, uma diligência atravessa a paisagem invernosa do Wyoming. Os passageiros, o caçador de prémios John Ruth (Kurt Russell) e a sua prisioneira Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) vão a caminho da cidade de Red Rock onde Ruth entregará Domergue à justiça. Pelo caminho encontram dois desconhecidos, o Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), antigo soldado da União que também se dedica a caçar criminosos foragidos, e Chris Mannix (Walton Goggins), um antigo rebelde sulista que afirma ser o novo xerife da cidade. Um nevão obriga-os a procurar abrigo numa estalagem onde são recebidos por quatro estranhos. Bob (Demián Bichir) - que está a tomar conta do estabelecimento enquanto a proprietária visita a mãe - Oswaldo Mobray (Tim Roth), carrasco em Red Rock, o cowboy Joe Gage (Michael Madsen) e o antigo general confederado Sanford Smithers (Bruce Dern). À medida que a tempestade se espalha sobre o vale, os nossos oito viajantes ficam a saber que podem nunca chegar a Red Rock...


Premonitório desde os primeiros planos, mas completamente imprevisível, até ao último momento, Os Oito Odiados traz-nos Tarantino no seu esplendor, com actores de fibra, personagens bem trabalhadas, desconhecidos que vamos descobrindo, desmascarando e surpreendendo a cada plano e, mais ainda, através da analepse fulcral que põe tudo em pratos limpos. Numa segunda visualização, um novo ponto de vista, somos o nono odiado e sabemos demais.

Quentin Tarantino sabe contar histórias como ninguém e filma-as com impacto, com o movimento de câmara certo, arrisca, desconstrói. Os Oito Odiados têm tudo isso: argumento forte e bem engendrado, ao pormenor, com tiradas certeiras, diálogos inteligentes, realização a provar como o formato 65 mm também sabe fazer-se valer em espaços fechados; a direcção de fotografia que varia entre as paisagens gélidas e o ambiente quente e violento da estalagem; a banda sonora que, finalmente, deu um Oscar ao genial Ennio Morricone, a intensificar as tensões e ódios sentidos naquele local.


No elenco, oito protagonistas odiosos e fabulosos: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Walton Goggins, Demián Bichir, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern e a única mulher Jennifer Jason Leigh. Entre os colaboradores regulares do realizador, descobrimos surpresas à altura como Goggins e Leigh. Bichir, RothMadsen e Dern surgem mais discretos que os restantes, mas eficazes e fundamentais para o desenrolar da trama. Jackson, o Major Marquis Warren, é inteligente, perspicaz e provocador, sem medo das consequências. Um desempenho excelente do actor. Russell é John Ruth, empenhado em levar com vida até à forca a criminosa procurada. Cauteloso - ainda que não o suficiente -, é hilariante observar a sua relação com Domergue ao longo do filme. Walton Goggins é a personagem que mais nos diverte. Ele é o xerife Chris Mannix em quem ninguém acredita, mas vale-se do título para tentar instaurar alguma ordem naquela estalagem. Todos os seus modos, comentários e atitudes são cómicos e será, até ao fim, uma excelente surpresa. Finalmente, a grande mulher da história: ela é a causa de tudo o que acontece nesse filme, a prisioneira insolente e, aparentemente sem nada a perder. Daisy Domergue mostra o poder das mulheres entre os homens, mesmo que seja apenas uma no meio de sete. Jennifer Jason Leigh é assombrosa na pele da personagem, numa junção entre o ordinário, o mimado, o infantil e traiçoeiro. Vamos gostar dela por mais odiosa que venha a ser.

Os Oito Odiados chega para nos divertir e surpreender. Quentin Tarantino reinventa-se, tem uma criatividade e imaginação infindáveis - felizmente - e sabe muito bem qual é a equipa certa com quem trabalhar. Quem dera que todos os "ódios" fossem assim!

1 comentário:

Ivonne Martínez disse...

Eu amo o elenco deste filme! Uma história muito bem executada (um filme que tem que assisitr da HBO ONLINE ) , interessante! A premissa do filme é simples, mas a execução é impecável. Temos algumas tomadas memoráveis e trilha sonora de primeiríssima, mas seu ponto mais forte está nos diálogos, que retratam bem o período no qual a película é situada sendo ao mesmo tempo modernos e ainda relevantes. Também há uma certa sensação claustrofóbica por não se ter para onde fugir e o fato da gravação ter boa parte sido feita em locação (ao invés de estúdio) ajuda nisso, pois percebe-se que estamos definitivamente diante de um ambiente gelado e que isso não é mera obra de computação gráfica. O elenco também está afiadíssimo, com destaque especial para Samuel L. Jackson, que pode muito bem estar diante de uma possível indicação ao Oscar, ainda que não se possa descartar nenhum dos atores para a honraria.