sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Crítica: Lion - A Longa Estrada para Casa (2016)

"I'm not from Calcutta... I'm lost."
Saroo Brierley

*5/10*

Sabe-se que o epíteto "baseado numa história verídica" nem sempre é sinónimo de qualidade e Lion - A Longa Estrada para Casa é mais um exemplo disso. Realmente, o argumento do filme tem por base o passado de um homem com muito para contar. Denuncia desigualdades e problemas muito preocupantes no que respeita às crianças indianas, contudo, isso não chega.

Há que olhar muito para lá da história comovente. Garth Davis está cheio de boas intenções com a sua primeira longa-metragem de ficção, todavia o seu principal objectivo parece ser chegar, a todo o custo, ao coração da plateia mais sensível.

Em Lion, seguimos um rapaz indiano de cinco anos, Saroo, que se perde do irmão mais velho e, por engano, embarca num comboio que o leva até às ruas de Calcutá. Perdido e sem saber como regressar a casa, sobrevive a diversos perigos e acaba por ser adoptado por um casal australiano. Passados 25 anos, quer descobrir a família biológica.

O argumento tem uma boa premissa, abordando diversos temas em parte desconhecidos do mundo ocidental: a pobreza, o elevadíssimo número de crianças perdidas na Índia, etc. Contudo, a procura de Saroo pela família biológica estende-se demasiado, sem acrescentar nada de novo, entrando numa espiral repetitiva. A relação do protagonista com a personagem de Rooney Mara é outro dos factores dispensáveis da narrativa, e para além de demarcar mais ainda o isolamento e a obsessão de Saroo, nada mais traz à história.


Os grandes pontos fortes de Lion - A Longa Estrada para Casa são as interpretações de Nicole Kidman, que enche o ecrã sempre que surge, num desempenho sentido, cheio de amor e dedicação aos filhos adoptivos; e Dev Patel, o Saroo adulto incansável, em busca do caminho que o leve de regresso à família biológica, num trabalho esforçado e competente do actor.

Por sua vez, a direcção de fotografia de Greig Fraser consegue tirar excelente partido das paisagens quer da Índia, quer da Austrália e da luz tão característica dos dois países, onde abundam os tons quentes e secos na primeira, e as cores vivas e frescas na segunda.

A montagem é uma das grandes fraquezas do filme de Garth Davis, com uma primeira metade bastante ritmada, torna-se depois insistente e cansativa. Opta-se por intercalar imagens do passado de Saroo, enquanto, já adulto, investiga o paradeiro da família, que, mais do que flashbacks, pretendem intensificar a obsessão do protagonista, sem qualquer necessidade de tal. Ao longo da segunda metade de Lion essa ideia é repetida até à exaustão.


Lion conta uma difícil e persistente história de vida, mas não toma as melhores opções para a tornar verdadeiramente apetecível de conhecer. Perde-se na repetição de ideias e acaba por ser essencialmente suportada pelas boas interpretações do elenco.

1 comentário:

António Caroço disse...

Não estou totalmente de acordo. É um extraordinário filme e, se comparado com o vencedor do Óscar, é incompartávelmente superior.ACaroço