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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Crítica: Moonlight (2016)

"In moonlight, black boys look blue. You're blue"
Old lady
*8/10*

Barry Jenkins
coloca no ecrã uma bela história de vida, com uma realização de génio forte. Marcante e atordoante, a câmara do realizador transporta-nos para um filme que de comercial e hollywoodesco só tem o argumento e, mesmo aí, quebra tabus. Falo de Moonlight, um trabalho rigoroso, que faz realizador e actores brilharem ao luar.

Uma vida em três actos é a proposta de Jenkins, baseada na peça In Moonlight Black Boys Look Blue, de Tarell Alvin McCraney, que nunca chegou a ser produzida, e cujo título surge nas linhas de diálogo de Moonlight.


Seguimos Chiron ao longo de três momentos da sua vida: em criança, adolescente e jovem adulto. O protagonista cresce num bairro problemático de Miami, onde o tráfico de droga é uma constante. Vive com a mãe, sofre de bullying na escola e luta por encontrar o seu lugar no mundo.

Moonlight é um filme de auto-descoberta, com um argumento que explora a toxicodependência, o bullying e a homossexualidade. Não sendo a narrativa muito original, trata os dois primeiros assuntos de forma cruel e exímia, com a experiência do próprio realizador, que cresceu com uma mãe viciada em droga, a traduzir-se numa muito realista relação mãe-filho. Barry Jenkins aborda igualmente sem rodeios a temática do bullying e só é pena que não tenha sido tão directo no que à homossexualidade diz respeito. Ainda assim, o tema é introduzido através de uma óptima introspecção dos actores. Subtil, mas eficaz - especialmente para Hollywood.


Contudo, é tecnicamente que Moonlight se ilumina. A realização que recorre frequentemente à hand-held camera persegue as personagens e faz-nos entrar nos seus sentimentos e sensações. Jenkins arrisca nos planos sequência estonteantes, nas cores hipnóticas, fazendo-nos sentir medo ou desnorte. Ao mesmo tempo, a direcção de fotografia tira o melhor partido das cores e da noite, com o luar a iluminar o bom trabalho de James Laxton, e a inesperada banda sonora transporta-nos para uma realidade intemporal num excelente trabalho de Nicholas Britell.


O elenco é outra força do filme, com os secundários a destacarem-se: Naomi Harris tem uma interpretação atordoante como Paula, com uma degradação física e psicológica imensa ao longo do filme; e Mahershala Ali faz-se notar, numa prestação muito emotiva na pele de Juan. O casting foi também certeiro no que toca aos três actores que interpretam ChironAlex R. Hibbert, o mais jovem e estreante nas lides da representação, oferece-nos um Chiron solitário, revoltado e assustado. Por sua vez, Ashton Sanders reforça a revolta contra o mundo, mas intensifica a auto-descoberta típica da adolescência. Trevante Rhodes, o Chiron mais velho, mantém as suas principais características em criança, com muito mais independência, coragem e controlo.

Moonlight apregoa a liberdade de ser, escolher e sonhar, para que todos possam brilhar como o luar, sem preconceitos.

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