sábado, 28 de abril de 2018

Crítica: Ruth (2018)

"Um nome de mulher é que era o disfarce perfeito..."
Mário Melo

*7/10*

E se a contratação de Eusébio pelo Benfica resultasse numa comédia bem construída e que, ao mesmo tempo, reflecte o passado histórico português dos anos 60? Ruth é isso mesmo, bem escrito, bem interpretado e muito divertido.

António Pinhão Botelho consegue criar o equilíbrio necessário entre a guerra futebolística e a guerra colonial, em vias de despoletar. O argumento de Leonor Pinhão é uma mais valia importante para o resultado final de Ruth e para este paralelismo da narrativa.


No pior ano do regime fascista português, 1960, um jovem futebolista africano de Moçambique chega a Lisboa e é apanhado no meio da maior rivalidade clubística do país. Enquanto os ventos da mudança começam a soprar através da guerra, pirataria e outros acontecimentos históricos, Eusébio da Silva Ferreira (Igor Regalla) começa o percurso até se transformar naquilo que é: uma lenda.

Sporting e Benfica numa luta desenfreada por um dos mais promissores jovens jogadores de sempre. Na realidade, é no processo de negociações dos dois clubes com Eusébio que se centra Ruth, e em todas as peripécias que daí resultaram. O filme é "livremente inspirado" em factos reais e, portanto, à medida que nos contam a história de Eusébio também se constrói uma comédia inteligente que nos fará rir sem remorsos - e clubismos à parte!


O filme é ritmado, enérgico, e só peca por levar as negociações à exaustão, fazendo com que a plateia possa senti-lo como muito longo (e não o é, o filme tem pouco mais de hora e meia). Fica também uma réstia de esperança, até ao fim, que nos dêem um bocadinho mais de Eusébio, mas, dada a época, o jovem jogador era ainda  um rapaz muito pacato e simples, com uma timidez e ingenuidade que Igor Regalla capta na perfeição - o mesmo acontece com alguns olhares e sorrisos que facilmente nos lembram o protagonista.

O elenco é imenso e está recheado de boas surpresas: Igor Regalla, Miguel Borges, Dinis Gomes, Vítor Norte, Fernando Luís, JP Simões, Paulo Furtado, Pedro Inês, Afonso Lagarto, Almeno Gonçalves, Álvaro Correia, Lídia Franco, Henrique Feist, Ana Bustorff, Miguel Nunes, Maria Emília Correia, Rui Morisson, José Raposo, Marco Delgado, Bruna Quintas, Teresa Madruga, Bruno Cabrerizo, António Nipita, António Simão, Josefina Massango, Luís Lucas, Marcello Urgeghe, entre outros. Todos com interpretações memoráveis.


Ruth leva o nascimento da lenda para a tela do cinema e revela-se irresistível. António Pinhão Botelho pode continuar a contar-nos histórias destas que nós vamos continuar a adorar descobrir mais da nossa História.

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