sábado, 7 de abril de 2018

Crítica: Soldado Milhões (2018)

"Tu és Milhais, mas vales Milhões!" 
 
*6.5/10*

Não há ainda, em Portugal, muitos filmes que contem parte da nossa História. Sobre a intervenção portuguesa na Primeira Guerra Mundial, Soldado Milhões chega para contar os feitos de um homem que muito fez e que, actualmente, pouca gente conhece.

Aníbal Augusto Milhais (João Arrais) é um entre tantos soldados enviados para a Flandres durante a Primeira Guerra Mundial. Na Batalha de La Lys, contrariando ordens superiores, enfrenta sozinho sucessivas ofensivas alemãs de maneira a garantir a retirada dos companheiros. A sua arma – Luisinha – e um amuleto da sorte oferecido pela sua amada são os seus maiores escudos no campo de batalha. No ano em que se assinala o centenário da Primeira Guerra Mundial, acompanhamos o percurso do soldado Milhais, que valia milhões, através das suas memórias da guerra.


Gonçalo Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa dão uma lição de História aos portugueses. A partir de factos reais, constroem parte da vida de Aníbal Milhais, onde se denota o bom trabalho de pesquisa da equipa, em especial nos momentos passados na guerra. E é pena não terem ficado por aí apenas. Paralelamente, os realizadores mostram a vida do protagonista mais velho, com a família, em especial a relação com a filha Adelaide. Percebo o propósito de tornar mais humano, mas também melodramático, este filme de guerra com a opção de explorar a relação do soldado com a filha. Miguel Borges está muito bem, mas a história em si, em que um lobo surge como o inimigo em tempos de paz, não acrescenta nada.

As sequências de guerra, por outro lado, são bem conseguidas, mais ainda tendo em conta os recursos limitados que o cinema português tem. Não vemos grandes multidões, mas vemos o nervosismo, a ansiedade, o medo que espreita do outro lado das trincheiras, ao mesmo tempo que o companheirismo assume um papel muito importante.


Os quatro inseparáveis - Milhais, Malha-Vacas, Sabugal e Penacova - estão juntos para tudo, apoiam-se e partilham tristezas e as pequenas alegrias. Cada um com os seus fantasmas, cativam e criam empatia com a plateia, sem esforço. Os quatro jovens actores, João ArraisRaimundo Cosme, Isac Graça e Tiago Teotónio Pereira - mostram-se à altura das personagens, com uma maturidade surpreendente. Quatro apostas fortes na representação em português, uns já habituados às lides do cinema, outros mais associados à televisão, mas os quatro a mostrar que ali há muito talento. Ainda de destacar é a presença de Ivo Canelas, o implacável, mas tão humano como os restantes, Capitão Ribeiro de Carvalho.

O retrato de Aníbal Milhais é construído sem cair em estereótipos. Apesar da simplicidade, de ser analfabeto e muito religioso, ele é um homem de muito carácter, coragem e fidelidade. Um soldado que veio do povo, passou dificuldades, mas conquistou a mais alta condecoração militar portuguesa.


É de dar graças pela coragem de trazer a História portuguesa para o grande ecrã, numa homenagem a um herói nacional, na comemoração dos 100 anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Como o seu comandante disse: "Tu és Milhais, mas vales Milhões!" e finalmente Portugal poderá perceber o porquê numa sala de cinema.

Sem comentários: