quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Crítica: Midsommar - O Ritual (2019)

*4.5/10*


Ari Aster caracteriza-se melhor enquanto realizador e argumentista a cada novo filme que faz. As ideias parecem borbulhar, mas aplicá-las e desenvolvê-las não é com ele. Ou, pelo menos, não vai muito longe na sua abordagem. Torna-se preguiçoso e, ao mesmo tempo, rocambolesco... Quer tanto chocar e criar uma realidade macabra, que se perde por caminhos desconhecidos, sem chegar a bom porto. 

Foi assim em Hereditário, é assim em Midsommar. Apesar de serem filmes bastante diferentes dentro do género do terror, os dois fazem o mesmo percurso que sabe despertar a curiosidade no espectador, que se entusiasma com algumas ideias pouco exploradas, mas cedo perde o interesse. Em Midsommar, o terror está mais na ideia macabra da seita protagonista, do que propriamente no ambiente, mais de comédia dramática, menos de suspense.


Dani (Florence Pugh) e Christian (Jack Reynor) são um jovem casal americano cuja relação está à beira de se desmoronar. Após continuarem juntos devido a uma tragédia familiar, Dani, em fase de luto, junta-se a Christian e aos seus amigos numa viagem a um festival de Verão, numa remota aldeia sueca. O que começa por serem umas descontraídas férias numa terra de sol eterno, sofre uma reviravolta sinistra quando os aldeões convidam os visitantes a participarem nas festividades, que tornam o paraíso campestre cada vez mais inquietante e perturbador.

É-nos colocada a curiosa perspectiva de que, afinal, mesmo que a noite não exista o terror manifesta-se. Naquele local idílico, a noite não existe e eis uma inspirada escolha para o local da acção. Tudo acontece em campos verdes repletos de luz solar, povoados por pessoas vestidas de branco que cantam e usam coroas de flores.


Neste cenário bucólico, Ari Aster cria uma história repleta de clichés e preconceitos. À excepção da personagem de Vilhelm Blomgren, todos os homens do filme são pouco dotados de inteligência ou perspicácia. Mas a falta de personalidade e empatia contagia todos os intervenientes, até mesmo a talentosa Florence Pugh. É pela protagonista Dani que podemos nutrir algum tipo de simpatia o apreço. Os seus ataques de pânico proporcionam momentos intensos que entoam - por vezes o som incomoda realmente - mais profundamente na plateia. Mas nem ela escapa ao previsível desenrolar dos acontecimentos.

Ari Aster volta a afirmar nesta obra a sua predilecção por personagens com algum tipo de deficiência - apesar de, neste caso e ao contrário do que acontecia em Hereditário, a personagem não chegar a ter grande relevância. Insiste em tentar chocar o espectador com tudo o que possa servir-lhe. O realizador começa a ser pró em desperdiçar ideais com potencial, enquanto se exibe como talento atrás da câmara. Mas a beleza visual não chega para fazer vingar Midsommar.

E Ari Aster é muito bom a filmar, sem dúvida. Os movimentos de câmara atordoantes e o efeito de uma natureza intrusiva e viva que consegue colocar nas imagens são inspiradores. Em Midsommar, a Natureza ganha tal relevo que quase se personifica na protagonista, Dani. Esta fusão é uma das grandes forças da longa-metragem.


Contudo, o humor negro paira de uma forma pouco subtil, humilha a seita, o seu culto pagão e sacrifícios e desencoraja o espectador a olhar com seriedade para as outras problemáticas que lança como a família, a solidão e a integração de que tanto Dani como Pelle comungam.

Atentando aos desenhos exibidos em diversos momentos do filme - que começam desde logo no plano inicial - a plateia depressa os verá como premonitórios - e pouco subtis - para o desenrolar da acção. A história, já de si previsível, torna-se ainda mais expectável. Eis que, no final de Midsommar, levamos pouco connosco para recordar. Ou Ari Aster se torna menos ambicioso ou mais ponderado.

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