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terça-feira, 20 de março de 2018

Crítica: Loveless - Sem Amor (2017)

"I think I've made a terrible mistake." 
Zhenya


*7.5/10*

Há quem não nasça para ser pai ou mãe, há filhos que nascem para sofrer. E nós assistimos, impotentes mas revoltados, com a distância de um ecrã a separar-nos das personagens frias e cheias de culpa do filme de Andrey Zvyagintsev. Loveless - Sem Amor é mais um título forte da filmografia ainda curta do realizador russo. Não tão assombroso como o anterior Leviatã, o filme volta a focar as relações familiares numa sociedade cheia de fragilidades, que se aproxima mais de Elena, de 2011.

Um casal em processo de divórcio é forçado a unir-se para encontrar o filho que desapareceu após mais uma das suas discussões.


A mãe olha mais para o telemóvel do que para o filho, o pai insiste em repetir cobardemente os mesmos erros, que já sabe que vão dar mau resultado. Não há qualquer simpatia pelos progenitores, cuja imagem vai mudando ligeiramente ao longo do filme e onde a mãe sai favorecida, após uma terrível imagem inicial. No entanto, não os move mais do que a culpa, o peso na consciência. Não há amor, nem ternura, nem carinho. A criança era apenas um obstáculo que os impedia de seguir as suas vidas de solteiros, como se o casamento não tivesse existido. Responsabilidades não são com eles.

A fotografia volta a ser soberba, onde os cenários gélidos ganham vida, e se assemelham às personagens. Há planos que ficam na memória, símbolo de tempos que passam mas onde a mágoa perdura como uma fita presa numa árvore gelada. Tal como o próprio filme, que faz-se convidado a voltar connosco para casa e obriga-nos a reflectir sem perdoar as personagens.


A crítica social está presente, como não poderia deixar de ser, mas é muito menos aguerrida e direccionada à Rússia do que no anterior Leviatã. Continua a observar-se um país ineficiente, mas onde a corrupção não é o foco. Há antes uma maior critica à sociedade moderna em geral, obcecada pelas redes sociais e pouco ou nada pelas relações humanas.

Ninguém pede para nascer. Loveless - Sem Amor mostra-nos consequências de uma realidade que existe, por muito camuflada que tente parecer. Progenitores impassíveis há por todo o lado e filhos negligenciados, outros tantos. Uma família disfuncional que tão bem poderia ser um país - provavelmente, o do próprio realizador.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Crítica: Leviatã / Leviathan (2014)

*8.5/10*

Eis o desmoronamento de uma Rússia, sem ética, moral, valores ou justiça. Andrey Zvyagintsev trouxe ao cinema um irónico e provocador retrato de uma sociedade em crise e decadência, onde o poder, a religião, a política e as influências dominam a lei e as decisões.

Kolya é o nosso protagonista, que mora numa pequena cidade à beira do mar de Barents, no norte da Rússia. Tem uma garagem ao lado da casa onde vive com a mulher Lilya e o filho Roma, de um casamento anterior. O Presidente da Câmara da cidade, Vadim Shelevyat, deseja apropriar-se do terreno de Kolya, da sua casa e da sua garagem. Tem projectos para aquela propriedade. Inicialmente tenta comprá-la, mas Kolya não suporta a ideia de perder tudo o que possui e que faz parte da sua vida desde que nasceu. É então que o Presidente da Câmara se torna mais agressivo e o caso vai a tribunal.

A luta de Kolya é uma sátira que entristece e revolta, não fosse o problema mais real do que gostaríamos. Aí está a burocracia que só atrapalha, a incerteza que rodeia os que cumprem a lei, a falta de esperança ou confiança nos que nos rodeiam ou nos que governam... enfim, uma realidade dura e crua, em alguns aspectos semelhante a tantas outras, mas muito russa, nem que seja pelo apelo à história política que encontramos, por exemplo, nas fotografias dos mais famosos políticos do país. E é aí, nessa identificação politico-geográfica, que surge a maior provocação de Leviatã: Putin surge numa moldura na parede do gabinete de um corrupto, algumas personagens resolvem divertir-se com o tiro ao alvo às fotografias de antigos líderes russos ou fala-se em Boris Yeltsin como um bêbedo - de quem os nossos protagonistas parecem seguir as pisadas, com a vodka a comandar.


E num circulo vicioso de ligações de poder e influências que derrotam qualquer um, seguimos esta história, atentamente e sem grandes expectativas de justiça. O desespero e a mentira sobrepõem-se à esperança, nesta Rússia gelada, perdida e solitária. A corrupção e a vodka dominam e aquecem a trama, que se desenrola com a religião a pairar, até mesmo sobre o protagonista, qual Job e as suas provações (cujo livro bíblico muitos têm comparado a Leviatã). A última cena do filme faz um irónico resumo de tudo o que observamos, qual espectador atento mas passivo, ao longo de mais de duas horas.

Além do argumento brilhante de Oleg Negin e Andrey Zvyagintsev, tecnicamente, Leviatã distingue-se pela extraordinária fotografia de Mikhail Krichman, que nos proporciona planos e paisagens inesquecíveis, que acompanham na perfeição a banda sonora intensa de Philip Glass. Por outro lado, Zvyagintsev coloca-nos a assistir a muitas das cenas através de um vidro (seja o vidro que divide duas salas, o vidro de um carro ou de uma janela), num jogo que desafia o espectador, e onde o realizador reforça a nossa posição passiva perante os acontecimentos e, ao mesmo tempo, símbolo dos entraves que se colocam no caminho de Kolya, nesta dura batalha para proteger o que é seu.

Leviatã, com o seu tom pesado mas descomprometido e provocador, é um alerta para o mundo, que não lhe ficou indiferente. Uma provocação, mas, acima de tudo, uma chamada de atenção, para que esta Rússia aqui filmada não perdure, e para que o espectador se indigne e revolte contra o "estado das coisas", e não se contente em ficar sentado a chorar junto ao esqueleto de uma baleia, por muito bela que a imagem seja.

terça-feira, 10 de março de 2015

Sugestão da Semana #158

Das estreias da passada Quinta-feira, o destaque do Hoje Vi(vi) um Filme vai para o filme russo, nomeado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Leviatã.

LEVIATÃ


Ficha Técnica:
Título Original: Leviathan
Realizador: Andrey Zvyagintsev
Actores: Aleksey Serebryakov, Elena Lyadova, Roman MadyanovAnna Ukolova
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 140 minutos