Mostrar mensagens com a etiqueta Gasolina. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Gasolina. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

MOTELx'15: 10 curtas portuguesas em análise

Na 9ª edição do MOTELx, Miami, de Simão Cayatte, foi a curta-metragem a sagrar-se vencedora na única secção competitiva do festival e recebeu o Prémio MOV MOTELx - Melhor Curta de Terror Portuguesa. Andlit, de João Teixeira Figueira, conquistou uma menção honrosa.

Conhecidos já os resultados, faço agora uma breve análise das dez curtas em competição neste MOTELx, cuja selecção de filmes portugueses foi bastante equilibrada e de qualidade.

A Tua Plateia


Óscar Faria trouxe ao MOTELx a sua curta-metragem, A Tua Plateia, que se revela uma bela surpresa para o espectador. O interior de Portugal está cada dia mais isolado e abandonado e serve de cenário a esta história. Dão-nos a conhecer um homem misterioso, interpretado por Miguel Damião, que conduz por estradas vazias recolhendo pedras, paus e vítimas.

Até ao fim sucedem-se as mortes, mas o motivo parece não existir. Poucas falas, nenhumas explicações. A câmara, com planos que muito escondem, mostra apenas o que devemos ver, utilizando para tal ângulos menos usuais, cujo efeito é fundamental para A Tua Plateia funcionar tão bem. O suspense, esse, fica no ar até ao fim.

Andlit


Pela mão do mais jovem realizador em competição, João Teixeira Figueira, chegou Andlit, a única animação na corrida para o prémio do festival, este ano. Em stop motion, João apresenta-nos a história de um robô que vive sozinho num edifício abandonado, estudando a vida humana por um catálogo de pinturas e fingindo que bebe chá em companhia imaginária. É quando uma mulher e o seu filho recém-nascido ali se refugiam que o robô terá de aprender a lidar com humanos.

Andlit é a prova de como uma animação pode ser tão ou mais violenta e macabra como um filme em imagem real. Mais curiosa ainda é a reacção que esta curta-metragem de apenas cinco minutos pode provocar no espectador: este robô tanto pode ser encarado como um herói incompreendido ou como um sádico vilão.

Ermida


Outra boa surpresa do MOTELx foi Ermida, de Vasco Esteves, que nos conduz a uma ermida abandonada, onde uma adolescente se entrega a um rapaz, incauta para o que se esconde nas sombras.

Os locais assombrados são uma constante nos filmes de terror e, aqui, o realizador reinventa o género a partir de uma aventura de adolescentes apaixonados, mas amedrontados. O suspense está assustadoramente bem concretizado, deixando a plateia com o coração a mil e a dúvida fica a pairar, bem para lá da sala de cinema. Um bom filme para retirar diferentes interpretações e dotado de um ritmo certeiro como poucos conseguem ter.

Gasolina


Com Gasolina, João Teixeira tem, desde logo, uma premissa muito prometedora: um casal tira partido da escuridão da noite, acabando por ficar sem gasolina no carro. Ao procurarem ajuda percebem que a crise está a alastrar e a obrigar as pessoas a fazerem coisas terríveis. A par do casal protagonista, um tanto dúbio, encontramos uma personagem fortíssima, interpretada pelo veterano Carlos Santos - num excelente e incómodo desempenho. É aliás nesta personagem que reside o ponto mais forte da curta-metragem.

O suspense e o medo que se adensam com o passar dos minutos dão, por fim, lugar a alguma desilusão, já que o enredo prometia algo mais perturbador do que efectivamente oferece.

Insónia


Os perigos da noite são a proposta que Bernardo Lima trouxe à 9ª edição do MOTELx. Em Insónia, um homem solitário vagueia pela noite, tentando combater o vazio. Depois de se cruzar com uma mulher em apuros, acaba arrastado para um submundo violento.

Neste thriller, o protagonista divaga pela noite por estradas vazias, naquela que parece ser a forma de lidar com a insónia que dá título à curta-metragem. Mas ao decidir entrar no mundo subversivo que a noite esconde, há que estar preparado para arcar com as consequências. Insónia resulta num trabalho interessante mas que poderia mostrar mais, sem medo de chocar.

Miami


O vencedor desta edição do MOTELx, Miami, de Simão Cayatte, assenta menos no terror puro e duro, e mais no terror psicológico, onde a obsessão conduz aos actos mais tenebrosos. Raquel é uma adolescente que sonha ser famosa e, para isso, é capaz de tudo.

Miami é um filme muito mais realista do que se poderia pensar. A nossa protagonista - um óptimo desempenho de Alba Baptista - é uma jovem como muitas outras com uma ambição que toma conta de si, qual espírito maligno.

O Efeito Isaías


Ramón de los Santos trouxe ao MOTELx O Efeito Isaías, uma curta-metragem que é como um jogo, incómodo e assustador para o espectador. Isaías nunca ouviu falar de mecânica quântica ou de universos paralelos. Todavia, esta noite a sua percepção da realidade será irremediavelmente alterada.

Protagonizado por Rui Unas, o filme vai criando em nós - e mais ainda no protagonista - um efeito claustrofóbico arrepiante, numa repetição constante de duas músicas e da mesma situação. Longe de ser cansativo, O Efeito Isaías deixa-nos alerta e receosos.

O Tesouro


A curiosa alternativa de terror de época é-nos proposta por Paulo Araújo com O Tesouro. Três miseráveis irmãos fidalgos encontram um cofre cheio de ouro e têm que decidir como o vão dividir. Matar um deles poderá ser uma solução.

Baseado no conto de Eça de Queirós, a curta-metragem de Paulo Araújo coloca-nos no meio desta disputa de irmãos gananciosos, onde o valor da família contrapõe-se ao do tesouro que todos querem. O desenvolvimento do enredo está bem conseguido e intercala a violência, o humor negro e a ironia, com a banda sonora a condizer.

The Bad Girl


Na curta-metragem de Ricardo Machado, uma mulher de alma perdida confessa-se depois de assistir ao fenómeno milagroso de uma estátua a chorar lágrimas de sangue. Desde o inicio sabemos que algo de muito errado esta mulher fez.

No entanto, o mais importante em The Bad Girl não parece ser tanto o argumento mas sim os planos-sequência e a direcção de fotografia. A câmara conduz-nos pela igreja e acompanha a loucura e os segredos da protagonista.

The Last Nazi Hunter 2


Carlos Silva, por seu lado, trouxe a comédia negra à competição do MOTELx com The Last Nazi Hunter 2. Paixão e nazis juntam-se num filme hilariante, onde o último caçador de nazis, acamado e à beira da morte, envia o seu neto, um pacifista tímido, a Portugal para matar o sanguinário Dentista de Dachau.

Nos percalços da viagem, o protagonista depara-se com um desafio mais difícil do que supunha. E as surpresas sucedem-se, apelando às gargalhadas da plateia, num humor negro eficaz.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

MOTELx'15: Entrevistas - João Teixeira (Gasolina)

MOTELx já começou, no passado dia 8 de Setembro, e para o Prémio MOV MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2015, o único galardão do festival, estão a concorrer 10 curtas-metragens nacionais: A Tua Plateia, de Óscar FariaAndlit, de João Teixeira FigueiraErmida, de Vasco EstevesGasolina, de João TeixeiraInsónia, de Bernardo LimaMiami, de Simão Cayatte, Efeito Isaías, de Ramón de los SantosO Tesouro, de Paulo AraújoThe Bad Girl, de Ricardo Machado, The Last Nazi Hunter 2, de Carlos Silva.


Vamos hoje conhecer melhor a curta-metragem Gasolina. É, como de costume, o seu realizador, João Teixeira, que nos conta um pouco mais sobre o filme.

Ao assistir ao trailer de Gasolina senti uma aura de insegurança, suspeição, de que nada é o que parece. É isso que o seu filme pretende ser? O que pode o público esperar desta curta-metragem?
João Teixeira: Insegurança e desconfiança são sem dúvida dois pontos sempre presentes neste filme. Um casal que procura ajuda e a insegurança ao encontrá-la, leva-os para uma constante sensação de desconforto. Este filme também foi escrito para ilustrar um momento que, por um motivo ou por outro, acaba sempre por nos afectar. Momento esse em que os preços aumentam, tornando-se descontrolados e podendo mesmo implicar vidas. Mas acima de tudo, um ponto importante e que defendo ser um dos principais objectivos de qualquer filme, é ser projectado com o objectivo de fazer passar um bom momento a quem o assiste.

Como surgiu a ideia de filmar Gasolina?
J.T.: A ideia surgiu no ano passado, quando decidi filmar para o submeter ao MOTELx. Ainda sem qualquer ideia resolvi primeiro assistir à edição de 2014 do festival. A partir daí li, folheei inúmeras páginas de contos pulp (uma literatura com a qual me identifico) e só aí começou a surgir a ideia. Fiz o convite ao António Nascimento, um “velho” colega de escola com quem nunca tinha tido oportunidade de trabalhar e começámos a escrever.

Como foi trabalhar com o veterano Carlos Santos?
J.T.: O Carlos foi uma excelente surpresa neste projecto. Para quem está no início de uma carreira, comparado com ele, e ao decidir contactá-lo, rapidamente vieram à cabeça pensamentos como: “ele nem me vai responder”. E aí começa a surpresa, uma pessoa super acessível, profissional e acima de tudo humana. Foi sem dúvida uma mais valia poder ter contado com o Carlos, ter uma pessoa com as suas características ao meu lado trouxe, não só inúmeros pontos positivos, como uma aura que só ele conseguiria ter trazido.

Qual é para o João a importância de estar entre os seleccionados de 2015 para o Prémio MOV MOTELx? E o que o levou a submeter o seu filme?
J.T.: Como disse, filmei o Gasolina já com esse objectivo e ser seleccionado já foi uma conquista. Toda a estrutura do MOTELx e a “vida própria” inerente ao mesmo tornam-no num festival de referência e submeter um filme rapidamente se tornou num objectivo, tal como acabou por acontecer.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
J.T.: O papel da divulgação é importante tanto para quem produz os filmes como para aqueles que os querem ver e são os festivais que fazem essa ponte que nos dá força para fazermos aquilo que gostamos. Neles temos a oportunidade de termos contacto directo com o outro lado, o do espectador. Na verdade, esta é a peça fundamental para que tudo resulte pois é ele que se interessa, assiste e comenta todos os novos trabalhos, alimentando a força de quem os faz. O que pode ser feito neste campo é simplesmente não deixar esmorecer este ciclo, mantendo sempre viva a ligação entre quem faz o filme e quem o assiste.


Sinopse
Um casal tira partido da escuridão da noite, acabando por ficar sem gasolina no seu carro. Ao procurarem ajuda percebem que a crise está a alastrar e a obrigar as pessoas a fazerem coisas terríveis.