"If you encounter any problems you cannot resolve yourselves, you will be assigned children, that usually works."
Hotel Manager
*9/10*
A imaginação macabra e cruelmente surrealista - e futurista - de Yorgos Lanthimos continua aguçada e provocadora. Não tão dura como Canino, mas igualmente incómoda e frontal, A Lagosta (The Lobster), a última longa-metragem do realizador grego, vem mostrar-nos o quão egoístas e egocêntricos somos, no fundo.
Num futuro distópico não tão distante quanto isso, todos os solteiros, de acordo com as leis da Cidade, são levados para o Hotel, onde se vêem obrigados a encontrar um par romântico em 45 dias. Caso contrário, serão transformados num animal à escolha e libertados na floresta.
Uma história de amores por necessidade, ou vice-versa. Dentro ou fora do
Hotel, nada parece simples. Nas suas críticas à humanidade,
Lanthimos não teme nenhuma temática e apresenta-nos argumentos geniais.
A Lagosta é tão poético como demente, tão sentimental como impiedoso. Nem a mais frágil das personagens é inocente.
Numa primeira metade mais entusiasmante, onde percebemos o desumano modo de funcionamento do
Hotel,
A Lagosta continua, ligeiramente menos surpreendente, mas
Lanthimos não deixa o seu filme perder o fulgor ao entrar na floresta e continua a surpreender pelas novas regras, paradoxais, mas não menos inacreditáveis que as anteriores.
O realizador filma este ambiente repressivo na sua singularidade tão sarcástica como lírica. Um amor de aparências, de cinismo e falsidade. Com planos provocadores e irónicos ou usando a câmara lenta para aumentar a adrenalina das caçadas de solteiros fugitivos, por exemplo,
Lanthimos não descura nenhum aspecto.
No elenco,
Colin Farrell surpreende como o protagonista
David, ele que, se falhar, quer transformar-se na lagosta que dá título ao filme,
"porque as lagostas vivem mais de cem anos, têm sangue azul como os aristocratas e são férteis toda a vida. Eu também gosto muito do mar." Frágil, desesperado, tímido, ele é mais uma peça deste jogo em que todos desejam o mesmo: continuar a sua vida como humanos.
Rachel Weisz parece-nos a mulher ideal neste filme tão surreal. Doce, decidida e apaixonada, transparece uma fragilidade muito natural. Por seu lado,
Léa Seydoux é a impiedosa líder da resistência de solteiros, uma ditadora que faz frente à também ditadura do
Hotel. Ainda de destacar são as interpretações de
Ben Whishaw,
John C. Reilly e das gregas
Angeliki Papoulia (
Canino), a mulher sem coração, e
Ariane Labed (
Attenberg), a empregada do Hotel, muito dedicada àquilo em que acredita.
Conquistou o Prémio do Júri em Cannes e chegou para nos deixar sem palavras. Tão inacreditável, mas, ao mesmo tempo, tão plausível. Uma denúncia ao egoísmo e à crueldade dos Homens, num Mundo onde nos fazem acreditar que não se pode viver sem um parceiro, custe o que custar.