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segunda-feira, 21 de março de 2016

Judaica'16: A Minha Herança Nazi: O que os Nossos Pais Fizeram / My Nazi Legacy: What Our Fathers Did (2015)

*8/10*

Um confronto desafiante este que David Evans filmou, com argumento de um dos seus protagonistas, Phillippe Sands. Falo de A Minha Herança Nazi: O que os Nossos Pais Fizeram, que trouxe à Judaica diferentes pontos de vista, ressentimentos e negação, numa sessão de emoções fortes.


A relação entre dois homens, ambos filhos de altas figuras do regime nazi, Niklas Frank, filho do Governador-Geral da Polónia ocupada, e Horst von Wächter, filho do Governador da Galiza ucraniana, mas com noções antagónicas do papel que os pais desempenharam na II Guerra Mundial e no Holocausto. Quem faz a mediação entre os dois é Philippe Sands, advogado de direitos humanos, cuja família judia foi exterminada nos territórios do Leste europeu invadidos pelos alemães. Enquanto o trio cruza sentimentos e lugares de perda, brutalidade e culpa, surge a questão: até que ponto pode o amor de um filho pelo pai levar à negação do passado?

No dia do pai, não podia haver filme mais apropriado para ser exibido na Judaica. Como podem os filhos reagir às atrocidades que os pais fizeram quando em casa com a família faziam uma vida totalmente normal? Niklas odeia o pai, Horst admira-o e acredita que ele não teve qualquer responsabilidade pelo que de mal aconteceu - ainda por cima, nunca foi julgado. Sands está ali para confrontar os dois. Por um lado tenta encontrar em Niklas uma réstia de afecto para com o seu progenitor, por outro, tenta chamar Horst para a realidade dos factos, para a culpa do seu pai.


A Minha Herança Nazi: O que os Nossos Pais Fizeram é um duro e intenso confronto, que traz memórias difíceis para os três - e que conquista a plateia. No final da sessão, Niklas Frank, Philippe Sands e o juiz Renato Barroso, juntaram-se a José Fialho Gouveia num debate sobre o filme.

Judaica'16:Claude Lanzmann: Espectros da Shoah / Claude Lanzmann: Spectres of the Shoah (2015)

*8/10*

Claude Lanzmann: Espectros da Shoah, de Adam Benzine, foi um dos nomeados para o Oscar de Melhor Curta Documental este ano e a Judaica - Mostra de Cinema e Cultura deu a possibilidade ao público português de assistir ao filme.


Nesta curta-metragem, o realizador pretende conhecer a história do surgimento de um dos mais famosos documentários sobre o Holocausto, o épico de mais de nove horas de duração, Shoah. Em conversa com o autor, Claude Lanzmann, são desvendados os bastidores do filme que demorou 12 anos a concretizar e explica o seu conceito.

Quem viu Shoah, pode perceber aqui as escolhas de Lanzmann, conhecer pormenores sobre a sua vida e assistir a imagens inéditas de uma entrevista com um nazi, que correu mal. Quem ainda não viu, ficará com a curiosidade necessária para o descobrir,

Com Claude Lanzmann: Espectros da Shoah, Adam Benzine consegue entrar na intimidade de Lanzmann e conquista-o aos poucos, apesar da sua renitência em falar sobre algumas situações que o fazem sofrer muito só ao recordar-se delas.

Um trabalho que fazia falta e que, quando chega ao fim, deixa vontade de saber mais, de ver ou rever Shoah e admirar, ainda mais, a coragem e o trabalho do realizador.

Judaica'16: Todos os Rostos têm um Nome / Every Face Has a Name (2015)

*8/10*

A Judaica teve uma sessão solidária, cuja receita de bilheteira reverteu a favor da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR). Todos os Rostos Têm um Nome foi o filme exibido e onde Magnus Gertten (presente na sessão) entrou numa jornada histórica e emocionalmente rica, ao querer fazer corresponder um nome a cada rosto que surge nas imagens de arquivo da chegada dos sobreviventes de campos de concentração nazis ao porto de Malmö, na Suécia, no dia 28 de Abril de 1945.


O realizador sueco procura, descobre e entrevista estes sobreviventes de várias nacionalidades, judeus e não judeus. Ao mesmo tempo, Gertten estabelece ainda um paralelo com a realidade que o mundo hoje enfrenta, ao intercalar o filme da época com imagens actuais de pessoas que chegam à Sicília, em busca de refúgio, depois de uma perigosa travessia do Mediterrâneo.

Todos os Rostos Têm um Nome começa de mansinho, mas arrebata-nos o coração. O empenho do realizador na procura dos sobreviventes e seus testemunhos é fabuloso. A forma como conquista a confiança dos entrevistados, mesmo fazendo-os recordar episódios terrivelmente dolorosos, e ao mesmo tempo, recebe informações sobre outros rostos das imagens, demonstram o empenho com que mergulhou neste projecto.


Há relatos verdadeiramente impressionantes, comoventes, desarmantes. Uma forma de dar nome aos rostos, mas também de construir a história de cada uma daquelas pessoas, de semblante esperançoso ou amedrontado naquele desembarque que significava a liberdade.

Talvez o ponto menos forte de Todos os Rostos Têm um Nome seja a comparação ou paralelo que estabelece com os "novos refugiados", já que as situações são muito diferentes para serem comparadas. As imagens actuais da Sicília podem ser entendidas como uma compreensão da realidade actual, mas talvez devessem ser guardadas para um documentário sobre essa temática.


O filme de Magnus Gertten é, acima de tudo, uma homenagem sentida a todos os sobreviventes dos campos de concentração - neste caso, aos que chegaram a Malmö. O realizador e testemunhos que recolheu dão-lhes identidade e vida.

domingo, 20 de março de 2016

Judaica'16: Ellis (2015)

*8.5/10*

Ellis revelou-se uma curta-metragem simbólica e muito tocante que passou pela Judaica. Uma homenagem a todos os imigrantes que passaram por Ellis Island em busca do sonho americano ou, pelo menos, de uma vida melhor.


Por Ellis Island entraram 12 milhões de imigrantes nos Estados Unidos. Aqueles que as autoridades consideravam doentes ou incapazes de seguir caminho ficavam no hospital daquela ilha, de onde podiam ser deportados para os países de origem se não melhorassem. É nesses corredores, abandonados há mais de 60 anos – e palco da instalação ‘Unframed’ do misterioso realizador JR, com fotografias da época –, que Robert De Niro deambula para nos contar a história de tantos homens, mulheres e crianças.

Pura arte, que filma a arte, assim é Ellis. Se, por um lado, a câmara flutua entre os fantasmas e vestígios de quem por ali passou e sofreu, por outro, naquele espaço degradado é filmada uma instalação artística.

Acompanhamos Robert De Niro, o nosso narrador e guia, pelos corredores, espreitamos pelas janelas partidas, por entre espectros de homens, mulheres e crianças, cujas imagens estão coladas nas paredes, vidros e no chão. Vidas dos que entraram ou dos que foram deportados, mas marcaram o lugar para sempre.

Judaica'16: Filmes Proibidos / Verbotene Filme (2014)

*7/10*

Quem não tem curiosidade sobre um tema como o que Filmes Proibidos explora? Eu tenho e as minhas expectativas para este documentário eram altas. Felix Moeller veio à Judaica apresentar a sua obra que exigiu um enorme trabalho de pesquisa e alcançou descobertas bastante curiosas. Houve ainda tempo para uma sessão de perguntas e respostas no final da sessão.


São cerca de 40 os filmes de propaganda nazi, feitos durante o III Reich, que continuam com exibição proibida na Alemanha. As únicas excepções são os visionamentos públicos devidamente enquadrados num contexto educativo. Com recurso a excertos de algumas dessas obras e a entrevistas feitas a historiadores, sociólogos, arquivistas e cinéfilos, o realizador questiona até que ponto a propaganda nazi e antissemita ainda é eficaz e se fará ainda sentido proibir a exibição destes filmes.

Filmes Proibidos lança, desde logo, uma temática controversa, quer para alemães como para todas as outras nacionalidades. Os filmes-propaganda podem, à primeira vista, parecer inofensivos, quase inocentes, mas à luz da História, conhece-se bem as consequências para as quais contribuíram. O documentário de Moeller apresenta-nos ainda algumas curiosidades: um dos temas abordados num destes filmes é a eutanásia - temática ainda hoje tão polémica.


Que o contexto em que são exibidos possa fazer toda a diferença, quase todos parecem de acordo. Mas Filmes Proibidos mostra-nos os mais distintos pontos de vista, desde historiadores, a estudantes, passando mesmo por ex-neo-nazis, alguns com comentários muito pertinentes.

Apesar de se tornar um pouco longo de mais para o que apresenta, o documentário de Felix Moeller dá a conhecer um dos segredos ainda bem guardados da História alemã - o cinema como forma de persuasão e propaganda e suas consequências. Ainda assim, sente-se a falta de um pouco mais de confronto de opiniões e de visões que não se limitassem apenas a estes filmes

sábado, 19 de março de 2016

Crítica: Uma História de Amor e Trevas / A Tale of Love and Darkness (2015)

 "Maybe you could finally tell me, what is it about you that I love so much, you of all people?"
Fania

*5/10*

A estreia de Natalie Portman na realização não fica na História mas denota uma sensibilidade que já transparecia enquanto actriz. Uma História de Amor e Trevas, que teve a sua antestreia nacional na Judaica, baseia-se nas memórias de Amos Oz, autor do livro homónimo do filme.

Amos e os pais, Arieh e Fania, são uma das muitas famílias judias que se mudaram da Europa para a Palestina durante os anos 30 e 40 para escapar à perseguição nazi. Arieh é esperançoso quanto ao futuro, enquanto Fania (Natalie Portman) quer muito mais. Ao terror da guerra e das fugas seguiu-se o tédio da vida quotidiana, que pesa fortemente sobre a mãe. Infeliz no casamento e intelectualmente sufocada, para se animar e para entreter o filho, de 10 anos, começa a inventar histórias de aventuras e caminhadas através do deserto.


Mais do que um filme sobre o nascimento do Estado de Israel, Uma História de Amor e Trevas é uma homenagem à mãe do protagonista, a uma mulher intelectualmente fabulosa, mas desencantada com a vida. Paradoxalmente, esta é a maior força e fraqueza do filme.

Por um lado, o contexto histórico é pouco explorado e poderá gorar as expectativas de quem esperava conhecer melhor esta época. Contudo, é neste acto de amor para com a personagem feminina, ela que é o centro de todo o enredo, que criamos laços e que Portman filma momentos especialmente bonitos e tocantes.

Uma História de Amor e Trevas é, essencialmente, a história de Fania e a importância da figura materna para este jovem. Ela é apaixonada pelo filho e fascinada pela morte. A sua imaginação não conhece limites e as histórias que conta parecem ser o seu refúgio, apesar de se deixar levar pela desilusão, depressão e solidão - mas a plateia não compreende na totalidade os motivos reais para esta tristeza tão extrema.


A montagem faz-nos divagar entre o sonho e a realidade, as histórias e as premonições. Muitas das imagens que vemos farão sentido no final da longa-metragem. Visualmente, a realizadora oferece-nos planos cativantes, quer pela sua beleza, quer pela sensibilidade que detêm.

A maior fraqueza do filme de Natalie Portman é a narração, insistente, cansativa e demasiado presente. A realizadora - também argumentista do filme - revela uma grande dificuldade em contar a história apenas através das imagens e personagens, que por vezes nada nos transmitem.

Como actriz, Portman continua a ser talentosa, como realizadora, parece ter tido um início atribulado. Uma História de Amor e Trevas é uma desilusão que deixa uma doçura no ar. Saímos da sala frustrados com o que poderia ter sido e não foi, mas com um carinho por Fania e Amos que, provavelmente, só Natalie Portman seria capaz de criar.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Judaica – Mostra de Cinema e Cultura em Lisboa de 16 a 20 de Março

A 4ª edição da Judaica – Mostra de Cinema e Cultura regressa a Lisboa de 16 a 20 de Março, no Cinema São Jorge. Mais uma vez, ao cinema junta-se música, literatura e outras actividades para dar a conhecer ao público a cultura judaica. A abrir esta edição estará Uma História de Amor e Trevas, primeira longa-metragem realizada por Natalie Portman.


No dia 16, a sessão de abertura vai contar com a apresentação do livro Os Bebés de Auschwitz – Nascidos para Sobreviver, com a presença da autora Wendy Holden e de Hana Moran, uma das protagonistas da história. O filme de Portman - baseado na autobiografia do escritor israelita Amos Oz - será exibido pelas 21h30.

Em Lisboa, a temática principal recai em ‘a sobrevivência e os refugiados’ e, no total, serão exibidas 12 longas-metragens de ficção, 11 documentários e 4 curtas. 

Entre os títulos em destaque encontram-se Cântico dos Cânticos, baseado na obra de Sholem Aleichem, e Febre ao Amanhecer, que contará com a presença do realizador Péter Gárdos, também por ocasião do lançamento do livro Carta à Mulher do Meu Futuro, no qual narra a inverosímil história de amor dos seus pais, que serve de inspiração para o filme. A não perder será a exibição do nomeado para o Oscar de Melhor Curta-metragem Documental, Claude Lanzmann: Espectros da Shoah

Haverá espaço para uma Sessão Solidária com a exibição do filme Todos os Rostos Têm um Nome, de Magnus Gertten, que traça um paralelismo entre imagens da chegada de refugiados ao porto de Malmö, na Suécia, em 1945, e a situação que se vive actualmente na Europa. As receitas desta sessão reverterão a favor da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR). Depois do filme, seguir-se-á um debate com o realizador Magnus Gertten, Pedro Calado, Alto-Comissário para as Migrações, e de Rui Marques, coordenador da PAR. A conversa será moderada pela historiadora Irene Pimentel.

Ainda de destacar é a exibição do documentário Filmes Proibidos, de Felix Moeller, sobre os filmes de propaganda nazi, cuja exibição pública continua proibida na Alemanha.O realizador estará presente para responder a perguntas depois da sessão.

A Minha Herança Nazi: O que os Nossos Pais Fizeram, de David Evans, confronta dois filhos de altas figuras do regime nazi com o passado e sentimentos de culpa, raiva, amor e negação. Depois do filme, haverá um debate com Niklas Frank, filho de Hans Frank – Governador-Geral da Polónia ocupada por Hitler – e Philippe Sands, professor de Direito Internacional, cuja família foi vítima dos pais dos protagonistas.


O jornalista Henrique Cymerman também faz parte dos convidados desta edição da judaica e é co-realizador do documentário Jerusalém Oriental / Jerusalém Ocidental, que mostra como a música é capaz de vencer a discórdia entre povos.

Daniel Kahn & The Painted Bird trazem um concerto de música klezmer, desafiando as fronteiras entre o radical e o tradicional e entre o lírico e o político, no dia 19 de Março, às 22h00.

Depois de Lisboa, a Judaica estreia-se em Cascais, de 8 a 10 de Abril, segue depois para Belmonte, entre os dias 14 e 16 de Abril, e chega a Castelo de Vide, entre os dias 5 e 8 de Maio, com palestras sobre tradições judaicas, um colóquio internacional sobre Inquisição, Cripto-Judaismo e Marranismo com convidados de renome, visitas guiadas às Judiarias, degustação de produtos kosher, e mais dois concertos.

Mais informações sobre a Judaica podem ser encontradas em http://www.judaica-cinema.org/