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quarta-feira, 28 de novembro de 2018

LEFFEST'18: Vox Lux (2018)

"They wanted a show. I gave them a show,"
Celeste


*8.5/10*

Vox Lux é um turbilhão de emoções que vai da violência brutal ao âmago da cultura pop e superficialidade. Brady Corbet parte de uma ideia com pontos de contacto com o seu filme de estreia, A Infância de um Líder, onde as crianças têm o comando da narrativa. Mais de metade do filme é-nos contado num tom sóbrio e directo, tenso. Mas os anos passam, Vox Lux avança e a protagonista cresce. O tom muda totalmente, e eis uma explosão de música, cor, neuroses, escândalos e tudo mais que a cultura pop adora.

Corbet avança sem receios, com a sordidez que o começa a caracterizar enquanto cineasta. Celeste, uma criança, é o veículo para transmitir a mensagem. 

Um rapaz problemático aparece numa aula de música, mata a professora à queima-roupa e dispara sobre os alunos adolescentes. Celeste (Raffey Cassidy), uma das alunas, recusa-se a ser intimidada e tenta, sem sucesso, chamar a atenção do rapaz, que acaba por atingi-la no pescoço. Este incidente terá repercussões inesperadas. Em recuperação no hospital, Celeste dedica-se à música e, numa vigília pelas vítimas, canta uma pungente canção que escreveu com a irmã, e de imediato capta a atenção do país. Celeste é lançada no mundo do espectáculo aos 14 anos de idade transformando-se numa estrela pop de sucesso com a ajuda da sua irmã (Stacy Martin) e de um produtor talentoso (Jude Law).  Passados 18 anos, Celeste (Natalie Portman) regressa à sua cidade natal para um concerto de promoção do seu novo álbum Vox Lux, depois de escândalos terem afectado a sua carreira.


A imagem vale mais que o talento. Esta estrela emerge da obscuridade, de um acontecimento violento e traumatizante, mas que, para ela, foi acima de tudo a oportunidade que, de outra forma, certamente não chegaria - a sua talentosa irmã que o diga. Brady Corbet é certeiro na sua ironia mordaz. A super-estrela surge através da tragédia. A crítica politico-social é evidente em Vox Lux, por mais que Brady Corbet possa negar. Há muitos Trumps mascarados, os jornalistas são incómodos, as armas são o grande inimigo. Há idolatria um pouco por todo o lado, desde a infância.

No decorrer do filme - e dos anos - temos uma breve lição de História dos 2000s, com destaque para alguns dos atentados terroristas que ficaram na memória: o Massacre de Columbine, o 11 de Setembro de 2001, ou o Atentado de Sousse, na Tunísia, em 2015, mesmo que com uma ou outra ficcionalização. Todos eles acontecimentos utilizados por Corbet na construção desta realidade demasiado hipócrita e violenta.

Dividido em três actos, Vox Lux mostra um excelente e complexo trabalho técnico, onde montagem e direcção de fotografia não passam despercebidas. No elenco, Natalie Portman deixou a música clássica e rendeu-se ao pop. As comparações à personagem de Cisne Negro ficam pela ligação à música e a alguma caracterização. De resto, são totalmente diferentes: Celeste é mimada, pouco talentosa, irresponsável e de maus modos. E talvez por isso mesmo, pela versatilidade que Portman demonstra a cada novo desafio, aqui temos mais um dos seus melhores papéis. E se tantos nomes que ascenderam ao estrelado ainda adolescentes cedo se envolveram em escândalos (Justin Bieber, Miley Cyrus, Britney Spears...), porque é que Celeste seria diferente?

Por seu lado, a prometedora actriz Raffey Cassidy - que surge neste filme a dobrar - interpreta a Celeste jovem e algo inocente, que depressa se torna intimidante e perturbada. Mesmo que nunca o admita, está claro que ela quer a fama, custe o que custar - doa o que doer, sim, porque a dor nunca a larga. O sucesso não chegaria sem pedir algo em troca, parece-me.


Brady Corbet é mesquinho para o espectador, espicaça a sua atenção e curiosidade acerca de Celeste e cria uma espécie de monstro no íntimo daquela personagem - somos testemunhas. No final, não nos mostra as consequências. Deixa no ar o espectáculo que é o mundo actual em torno de fenómenos como Celeste. Parece que o próprio realizador se desinteressa daquilo em que a protagonista se tornou sem nos oferecer uma conclusão em equilíbrio com o chocante início de Vox Lux. Talvez seja essa falta de consistência que possa desiludir a plateia e, com certeza, é propositada. São os tempos em que vivemos.

Brady Corbet apresentou o seu mais recente filme no Lisbon & Sintra Film Festival e conversou com o público após a sessão.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

LEFFEST'18: In My Room (2018)

*6.5/10*


In My Room, de Ulrich Köhler, esteve Em Competição no Lisbon & Sintra Film Festival e trouxe consigo uma nova leitura de um mundo pós-apocalíptico onde toda a humanidade desaparece... menos um homem.

Somos introduzidos a Armin, um homem imaturo, cuja vida livre e boémia se está a tornar pouco digna. Contudo, um dia, após uma breve reunião com a família, enquanto tenta recuperar da ressaca, Armin repara que tudo mudou e que, para sobreviver, ele também tem de mudar. De um dia para o outro, toda a humanidade desapareceu.


O filme poderá dividir-se em três partes distintas. A primeira - cuja cena inicial é hilariante - mostra-nos como é Armin na sua vida de solitário freelancer; a segunda leva-nos a conhecer a família, reunida por motivos menos felizes, com a avó à beira da morte; a terceira, por seu lado, é como acordar noutra dimensão, ou de um pesadelo demasiado real. Armin não sabe o que aconteceu e não perde muito tempo a pensar nisso, prefere concentrar-se em sobreviver agora como único Homem no Mundo.

Ulrich Köhler tem sucesso especialmente a partir do momento em que Hans Löw é o único em cena, um papel exigente e bastante físico, do homem em harmonia com a Natureza, com todas as desarmonias que isso possa implicar. Aprender a sobreviver é o lema. E Armin sofre uma transformação física e psicológica que era o que realmente precisava. De repente, é independente e quase auto-suficiente. A mudança que surge a dado momento na acção poderá condicionar o futuro da Humanidade, mas serve, principalmente, para dar ainda mais profundidade ao protagonista.


In My Room só se torna verdadeiramente cativante no momento em que a distopia acontece. A plateia irá tentar encontrar motivos para o sucedido, sem sucesso. Fica o convite para acompanhar Armin nesta sua nova vida ligado à terra e aos animais, montado a cavalo, de arma às costas, tal como no poster do filme.

O protagonista Hans Löw esteve à conversa com o público presente após a sessão de dia 23 de Novembro, no Cinema Medeia Monumental.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

LEFFEST'18: Caminhos Magnétykos (2018)

"O dinheiro não é tudo..."

*7/10*

Em Caminhos Magnétykos, Edgar Pêra regressa à ficção surrealista a que já nos tem habituado, criando uma realidade que relembra ditaduras passadas, tão depressa como utiliza as ideias mais actuais e futuristas. O filme guia-nos por cenários que vão do tradicional ao moderno, sempre com distorções de imagens e sons, de luzes e cores alucinogénas.

Eis esta nova ditadura ultraliberal, um liberalismo ultraconservador, ou nem uma coisa nem outra. Mas temos um primeiro-ministro-celebridade televisiva com algo semelhante às conversas em família de Marcelo Caetano; Donald Trump surge sorrateiramente e os poderosos continuam a mandar no país. É novamente de admirar como mais um conto de Branquinho da Fonseca consegue ser tão bem adaptado na actualidade. Edgar Pêra inspira-se no autor pela terceira vez, após Rio Turvo e O Barão.


Em Caminhos Magnétykos, Raymond (Dominique Pinon), 60 e poucos anos, parisiense, autor de filmes fotográficos e BDs, veio para Portugal com o 25 Abril, apaixonou-se e ficou, onde reside há 40 anos. A sua actividade entrou em decadência e Raymond vive na dependência económica da sua mulher Gertrudes. Caminhos Magnétykos desenrola-se no dia do casamento da sua filha de 21 anos, Catarina (Alba Baptista), com Damião (Paulo Pires), um homem rico mais velho que ela. Em Lisboa, vive-se uma guerra civil.

Entre alguma paródia, surge o drama familiar e os dilemas de um pai que acaba de casar a filha preferida. Um existencialismo latente em Raymond vai-se desenvolvendo ao longo do filme, com o protagonista a questionar a sua vida e crenças. As ruas da cidade levam-no a encontrar-se com velhos amigos de ideais místicos ou revolucionários.

Após o encontro com a personagem de Ney Matogrosso, a expressão "o dinheiro não é tudo" passa a atormentar Raymond até ao final, num ambiente por vezes fantasmagórico.


No elenco, destaque para o protagonista Dominique Pinon, mas também para os papéis de Ney Matogrosso, Albano Jerónimo, Alba Baptista, Paulo Pires, António Durães e Teresa Ovídeo. Ao mesmo tempo, a banda sonora é outro ponto forte do filme de Pêra, com a música a cargo de Manuel de Oliveira, Paulo Furtado e Tó Trips.

Caminhos Magnétykos são mais um inspirado trabalho de Edgar Pêra, repleto da sua marcada estética e com ideias provocatórias e inebriantes.

domingo, 25 de novembro de 2018

LEFFEST'18: Vencedores

O LEFFEST'18 termina hoje, dia 25 de Novembro, e já são conhecidos os filmes vencedores desta edição. The River, de Emir Baigazin, conquistou o Prémio para Melhor Filme LEFFEST.


O Grande Prémio do Júri João Bénard da Costa foi entregue a dois filmes: John McEnroe: In The Realm of Perfection, de Julien Faraut, e Sedução da Carne, de Júlio Bressane. Richard Billingham venceu o Prémio Especial do Júri para Melhor Realizador pelo filme Ray & Liz

Os filmes premiados voltam a ser exibidos ao longo do dia de hoje:

THE RIVER (Prémio Melhor Filme LEFFEST) – 21h00, Sala 1, cinema Monumental
JOHN McENROE: IN THE REALM OF PERFECTION (Grande Prémio do Júri João Bénard da Costa – ex aequo) – 18h30, Sala 1, cinema Monumental
SEDUÇÃO DA CARNE - (Grande Prémio do Júri João Bénard da Costa – ex aequo) – 14h00, Espaço Nimas
RAY & LIZ (Prémio Especial do Júri para Melhor Realizador) – 13h30, Sala 2, cinema Monumental

domingo, 18 de novembro de 2018

LEFFEST'18: High Life (2018)

"Do I look like my mother?"
Willow


*8/10*

Um futuro distópico traz-nos um pai e uma filha a viajar no espaço sem perspectiva de regresso à terra. O buraco negro que parece ser o seu destino assemelha-se ao que a vida daquele homem se tornou desde que embarcou naquela nave. High Life é a proposta violenta e aterradora de Claire Denis dentro da ficção científica, com Robert Pattinson, adulto e paternal, ao comando.

High Life carrega uma visceralidade totalmente distinta da que podemos facilmente associar a outros filmes de ficção científica. Abundam corpos e fluídos, mas igualmente amor e cuidado. A perversidade anda a par com a pureza, entre passado e presente.


Nos confins do espaço, muito além do nosso sistema solar, Monte (Robert Pattinson) vive isolado com a filha pequena, Willow, a bordo de uma nave espacial. Monte, um solitário que usa uma severa auto-disciplina como protecção contra o desejo – o seu e o de outros – tornou-se pai contra sua vontade. O seu esperma foi usado para inseminar Boyse (Mia Goth), uma jovem que deu à luz Willow. Ambos eram membros de uma tripulação de prisioneiros espaciais, condenados à pena de morte. Usados como cobaias pela perversa Dra. Dibs (Juliette Binoche), são enviados numa missão ao buraco negro mais próximo da Terra.

A sociedade parece ter encontrado uma nova forma de se livrar dos delinquentes e criminosos e essa não passa pela reinserção, pelo menos no planeta Terra. Curiosa analogia com os tempos extremistas que correm no globo. Em High Life, os condenados estão livres no espaço, mas totalmente aprisionados dentro de uma nave, à mercê de uma experiência perversa.

Um filme incómodo, repleto de abusos e com uma forma muito inusual de encarar a sexualidade e a reprodução - eis que estas surgem extremamente intrusivas e desesperançadas. Reduzem-se a pouco mais que processos químicos? É difícil definir o lugar do desejo e do prazer naquela nave tão doentia. Curiosamente, ali os alienígenas são seres humanos.


Rumo ao desconhecido, as emoções parecem sugadas para o vácuo, a personalidade de cada um vai-se perdendo, aos poucos, tal como a vontade de viver. Mas no meio da despersonalização dos indivíduos daquela nave, há um jardim que os liga à Terra e às emoções reais, às saudades de casa e de si próprios. E é este visual marcado da nave que também nos faz divagar entre a familiaridade das relações e sensações terrestres, à nave, tão descaracterizada. A direcção de fotografia sabe jogar com esta dualidade, criando ambientes totalmente distintos.

Juliette Binoche é Dibs, a doentia médica responsável pela experiência naquela nave. A actriz é fenomenal ao tornar a sua desequilibrada personagem totalmente repugnante para o espectador, encarnando uma mulher totalmente louca. O visual de cabelo escuro muito longo, bem como os seus movimentos, e as suas atitudes, passadas e presentes, revelam, ao longo de High Life o porquê dos restantes tripulantes a apelidarem de bruxa.


Já o protagonista, Robert Pattinson é o contido Monte, tão paternal e cuidador como resignado à sua sorte. A sua auto-disciplina ajuda-o a lidar com o passado que o persegue e o presente que se revela um desafio inesperado. O actor continua a mostrar-se capaz de enfrentar todo o tipo de papéis.

E, a navegar universo dentro, Claire Denis foi capaz de criar uma assustadora história que ultrapassa o habitual na ficção científica. Que surpresa perturbadora - mas verdadeiramente eficaz.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

LEFFEST'18: 25 Filmes a Não Perder

O Lisbon & Sintra Film Festival começa amanhã, dia 16 de Novembro e prolonga-se até dia 25, com muito cinema entre Lisboa e Sintra. O Hoje Vi(vi) um Filme não vai faltar e, para começar, dá-te algumas sugestões de filmes que não deves perder ao longo do evento.

Em Competição

L'HOMME FIDÈLE, de LOUIS GARREL
Marianne deixa o jornalista Abel por Paul, o melhor amigo deste, de quem está grávida. Oito anos mais tarde, Paul morre e Abel e Marianne voltam um para o outro. Contudo, esta nova relação vai desencadear ciúmes tanto no filho de Marianne, Joseph, como na irmã mais nova de Paul, Eva, a qual tem, desde jovem, uma paixão secreta por Abel.

TRANSIT, de CHRISTIAN PETZOLD
A história decorre em Marselha, numa amálgama de diversas décadas, inserida num imaginário histórico marcado pela ocupação alemã. Certos cidadãos do outro lado do Reno, como Georg, precisam de fugir do continente, de barco, para escapar ao regime. Na cidade de Marselha, Georg espera obter um visto e, como tantos outros, espera e vagueia sem propósito. O seu caminho vai cruzar-se com o de um escritor que cometeu suicídio e cuja identidade Georg assume.

VOX LUX, de BRADY CORBET
Durante um massacre numa escola, um rapaz problemático aparece numa aula de música, mata o professor à queima-roupa e dispara sobre os alunos adolescentes. Celeste, uma das alunas, recusa-se a ser intimidada e tenta, sem sucesso, chamar a atenção do rapaz, que acaba por a atingir no pescoço. Este incidente terá repercussões inesperadas. Em recuperação no hospital, Celeste dedica-se à música e, numa vigília pelas vítimas, canta uma pungente canção de sua autoria, que de imediato capta a atenção do país. Celeste é assim lançada no mundo do espectáculo aos 14 anos de idade.

Fora de Competição

AT ETERNITY'S GATE, de JULIAN SCHNABEL
O filme reúne cenas baseadas nas pinturas de Vincent Van Gogh (interpretado por Willem Dafoe), acontecimentos, rumores e histórias da sua vida, ou outras que são simplesmente inventadas. A arte dá-nos uma oportunidade de criar um corpo palpável que expressa uma razão de viver, se é que tal coisa existe. Apesar de toda a violência e tragédia associadas à vida de Van Gogh, ela era rica em magia, mantendo uma profunda ligação com a natureza e o maravilhamento da existência. O trabalho de Van Gogh parece ter transgredido a morte e encorajado outros a fazer o mesmo.

HIGH LIFE, de CLAIRE DENIS
Nos confins do espaço, muito além do nosso sistema solar, Monte (Robert Pattinson) e Willow, a sua filha pequena, vivem juntos a bordo de uma nave espacial, em isolamento total.  Monte, um homem solitário cuja severa auto-disciplina é uma protecção contra o desejo – o seu e o de outros –  tornou-se pai contra a sua vontade. O seu esperma foi usado para inseminar Boyse (Mia Goth), uma jovem que deu à luz Willow. Ambos eram membros de uma tripulação de prisioneiros: encarcerados espaciais, condenados à pena de morte. Usados como cobaias pela perversa Dra. Dibs (Juliette Binoche) são enviados numa missão ao buraco negro mais próximo da Terra.  Agora, somente Monte e Willow permanecem. Mas Monte não é o mesmo. Através da filha, e pela primeira vez, experimenta o nascimento de um amor avassalador. Pela sua parte, Willow cresce, tornando-se numa menina e depois numa jovem mulher. Juntos e sozinhos, pai e filha aproximam-se do seu destino final – o buraco negro onde o tempo e o espaço deixam de existir.

OS IRMÃOS SISTERS, de JACQUES AUDIARD
Dois irmãos, Charlie (Joaquin Phoenix) e Eli Sisters (John C. Reilly), vivem num mundo selvagem e hostil e têm sangue nas mãos: sangue de criminosos e inocentes. Não têm quaisquer escrúpulos em matar, é esse o seu trabalho. Charlie, o irmão mais novo, nasceu para matar. Eli, no entanto, sonha viver uma vida normal. São contratados para encontrar e matar um homem. Do Oregon à Califórnia, começa assim uma implacável caçada, uma jornada iniciática que testará o laço inquebrável entre os dois irmãos. Será este um percurso que os guiará para a sua humanidade?

ROMA, de ALFONSO CUARÓN
Uma história que narra a vida de uma família na Cidade do México no início da década de 70. O filme segue Cleo, uma jovem doméstica que trabalhava para uma família de classe média no bairro de Roma. Cuáron entrega uma carta de amor à mulher que o criou, inspirando-se na sua própria infância e desenhando um retrato emotivo da vida doméstica e da hierarquia pessoal social no seio do tumulto político desta década.

SHOPLIFTERS - UMA FAMÍLIA DE PEQUENOS LADRÕES, de HIROKAZU KOREEDA
Um homem de meia idade, Osamu, e um jovem rapaz, Shota, entram numa mercearia. Calmos e sem falarem um com o outro, trocam sinais através de olhares e gestos. Enquanto um distrai, o outro vai roubando produtos, acabando por sair da loja com um bom pecúlio. Pelo caminho, Osamu e Shota encontram uma menina ao frio e levam-na para a sua pobre mas feliz casa. Ainda que a mulher de Osamu não queira mais uma boca para alimentar, quaisquer planos para entregar a criança são descartados após a descoberta de marcas de abuso no seu corpo.

Retrospectiva João Botelho

A CORTE DO NORTE, de JOÃO BOTELHO
Esta é a história de Emília de Sousa (Ana Moreira), a melhor actriz do teatro português do final do século XIX, que desistiu da sua carreira para se tornar baronesa Madalena do Mar, na ilha da Madeira. A sua beleza igualava a de Sissi, a imperatriz da Áustria, com quem conviveu no Inverno de 1860-1861. Para seu entretenimento, Emília inventou um mistério que perdurou por quatro gerações. Rosamunde, sua descendente, tenta descobrir o segredo, o que leva a consequências trágicas. Baseado no romance de Agustina Bessa-Luís.

UM ADEUS PORTUGUÊS, de JOÃO BOTELHO
Alguns anos após a morte do seu filho, na guerra colonial, um casal de idosos que vive na província desloca-se pela primeira vez a Lisboa para encontrar a ex-nora, que, entretanto, procura refazer a sua vida. No meio da estranheza que lhes causa o ambiente citadino, o casal é confrontado com as memórias dolorosas do passado.

FILME DO DESASSOSSEGO, de JOÃO BOTELHO
Um quarto de uma casa na Rua dos Douradores. Um homem inventa sonhos e estabelece teorias sobre eles. A própria matéria dos sonhos torna-se física, palpável, visível. O próprio texto torna-se matéria na sua sonoridade musical. E, diante dos nossos olhos, essa música sentida nos ouvidos, no cérebro e no coração, espalha-se pela rua onde vive, pela cidade que ele ama acima de tudo e pelo mundo inteiro. Filme desassossegado sobre fragmentos de um livro infinito e armadilhado, de uma fulgurância quase demente mas de genial claridade. O momento solar de criação de Fernando Pessoa. A solidão absoluta e perfeita do EU, sideral e sem remédio.

Retrospectivas: Mike Leigh

SEGREDOS E MENTIRAS, de MIKE LEIGH
Após a morte da mãe adoptiva, Hortense, uma jovem negra de 27 anos, decide encontrar a sua mãe biológica. Quando finalmente se encontram, Hortense fica espantada ao descobrir que a mãe, Cynthia, é branca e tem uma filha de 20 anos. No início, Cynthia fica perturbada ao ver a filha que havia esquecido há muito tempo. Contudo, mais tarde, decide desenvolver um relacionamento profundo. Cynthia depara-se então com a tarefa de fazer a sua família aceitar o facto de ter uma filha negra...

VERA DRAKE, de MIKE LEIGH
Londres, ano 1950. Vera Drake (Imelda Staunton) vive com o marido e filhos, mas tem uma vida paralela que mantém em segredo e esconde de todos. Apesar de ser ilegal, Vera ajuda mulheres a interromperem gravidezes indesejadas. Tem sempre um sorriso e uma palavra de compreensão para estas mulheres, a quem ajuda sem qualquer tipo de remuneração. No entanto, um dos abortos corre mal e a respectiva investigação leva até Vera. A partir daí, a sua vida e a da sua família desabam.

Retrospectivas: Paul Schrader

NO CORAÇÃO DA ESCURIDÃO, de PAUL SCHRADER
O ex-capelão militar Toller (Ethan Hawke) está devastado pela perda do filho, que ele mesmo encorajou a alistar-se no exército. A sua fé é testada quando a jovem Mary (Amanda Seyfried) e o seu marido Michael (Philip Ettinger), um ambientalista radical, lhe pedem ajuda. Consumido pela ideia de que o mundo está prestes a ser destruído por grandes e implacáveis corporações, Toller decide levar a cabo um acto altamente arriscado, na esperança de conseguir redescobrir a sua fé. Ethan Hawke interpreta o atormentado reverendo Toller, reflectindo a imagem de um homem pronto para tudo, a fim de recuperar uma dimensão espiritual num mundo massacrado por interesses económicos.

Homenagens: Walter Salles

CENTRAL DO BRASIL, de WALTER SALLES
A viagem emocionante de uma ex-professora, Dora (Fernanda Montenegro), que escreve cartas para pessoas analfabetas, e um menino, cuja mãe acaba de morrer, em busca do pai que ele nunca conheceu. Dora aproveita-se dos que querem escrever cartas para as suas famílias e fica com o dinheiro sem nunca enviar os envelopes. Um dia, Josue, o filho de 9 anos de um dos seus clientes, é abandonado quando a sua mãe é morta num acidente de autocarro. Relutante, Dora junta-se ao rapaz numa viagem para encontrar o seu pai há muito desaparecido.

Homenagens: Mario Martone

TEATRO DI GUERRA, de MARIO MARTONE
1994. A guerra na ex-Jugoslávia decorre há três anos. Em Nápoles, um jovem actor chamado Leo ensaia uma peça que irá encenar num pequeno teatro de Sarajevo, dirigido por um encenador famoso antes da guerra. A trupe de Leo ensaia num minúsculo forte do quarteirão espanhol. A peça é Seven Against Thebes, sobre um cerco e uma guerra entre irmãos.

Homenagens: Darezhan Omirbayev

CHOUGA, de DAREZHAN OMIRBAYEV
Inspirado em Anna Karenina. Chouga vive em Astana, a nova capital do Cazaquistão. Aos 30 anos, é rica e amada pela família. Apaixona-se perdidamente por um outro homem, filho de uma família pobre. Levada pela paixão, abandona o marido e o filho para ficar com ele. Porém, o amor revela-se um logro e a paixão uma emboscada. Sem esperança de regresso, suicida-se.

Sessões Especiais
Wainting for Mr. Lynch

TWIN PEAKS: THE RETURN - EP.1&2, de DAVID LYNCH
Twin Peaks, também conhecido como Twin Peaks: The Return, é uma série dramática americana de terror e suspense, continuação da série do mesmo nome de 1990-91. Passados 25 anos desde os eventos da série original, a nova temporada segue vários enredos, muitos dos quais associados ao trabalho do agente especial Dale Cooper e da sua investigação do homicídio de Laura Palmer, rainha do baile do liceu de Twin Peaks, décadas antes.

PSYCHOGENIC FUGUE, de SANDRO MILLER
No filme do fotógrafo americano Sandro Miller, Psychogenic Fugue, o actor John Malkovich é retratado na pele das mais icónicas personagens da obra de David Lynch. Nas palavras de Sandro Miller, o filme desenvolve-se em torno do conceito de “disfunção dissociativa, em que uma pessoa se liberta da sua identidade para ganhar uma outra, uma nova vida”. Estabelece um paralelismo com o trabalho de actor, a adesão a uma nova identidade e o conceito de fuga como o momento em que a memória se anula e a identidade se liberta.

Sessões Especiais

CAMINHOS MAGNETYKOS, de EDGAR PÊRA
“O Dinheiro Não é Tudo” Raymond, 60 e poucos anos, parisiense, autor de filmes fotográficos e BDs de animação francês, veio para Portugal com o 25 Abril, apaixonou-se e ficou, onde reside há 40 anos. A sua actividade entrou em decadência e Raymond vive na dependência económica da sua mulher Gertrudes. Caminhos Magnéticos desenrola-se no dia do casamento da sua filha de 21 anos, Catarina, com Damião, um homem rico da sua idade. Em Lisboa, vive-se uma guerra civil. Raymond irá experienciar uma revolta interior e uma viagem caleidoscópica por uma cidade em vias de se desmoronar. Será também o colapso das suas convicções.

Ciclos Temáticos: Neoliberalismo - A Semente do Populismo e dos Novos Fascismos?

EU, DANIEL BLAKE, de KEN LOACH
Diagnosticado com um grave problema de coração, Daniel Blake, um viúvo de 59 anos, tem indicação médica para deixar de trabalhar. Mas quando tenta receber os benefícios do Estado que lhe concedam uma forma de subsistência, vê-se enredado numa burocracia injusta. Durante uma espera numa repartição da Segurança Social conhece Katie, uma mãe solteira com duas crianças, a precisar de ajuda urgente. Daniel e Katie, dois estranhos cujas voltas da vida os deixaram sem forma de sustento, vêem-se assim obrigados a aceitar ajuda do banco alimentar. E é no meio do desespero que se tornam a única esperança um do outro…

TEMPOS MODERNOS, de CHARLIE CHAPLIN
Nesta obra prima da comédia, encontramos o icónico Charlot a trabalhar numa fábrica com tecnologia de ponta, onde a maquinaria o domina totalmente, e onde sucessivos contratempos o fazem ir parar à prisão. Entre as suas estadias na prisão, conhece e torna-se amigo de uma rapariga órfã. Em conjunto e separadamente, tentam lidar com as dificuldades da vida moderna, com Charlot a trabalhar como empregado de mesa, e eventualmente, como artista.

Ciclos Temáticos: O Desejo Chamado Utopia

A QUIMERA DO RISO, de PRESTON STURGES
Sullivan é um realizador de sucesso de filmes “fluff”. Bem-sucedido, mimado e ingénuo, com um coração de ouro, decide fazer um filme sobre os pobres e oprimidos. Para desgosto dos seus produtores, veste-se de vagabundo, esvazia os bolsos, e faz-se às ruas, em busca da pobreza em primeiro mão. Fica chocado com a realidade que encontra.

FRAGMENT OF AN EMPIRE, de FRIDRIKH ERMLER
Filimonov, o protagonista do filme, é um jovem que perdeu a memória durante a Primeira Guerra Mundial. Recuperando-a anos mais tarde, olha para o mundo de 1928 e para a nova sociedade soviética através dos olhos da era czarista de 1915. Nada corresponde à sua memória, incluindo o facto de São Petersburgo se chamar agora Leninegrado e se ter tornado uma cidade modernizada. Lembra-se também que tinha esposa e decide procurá-la. O filme é uma mistura vencedora de parábola política, sátira social e complexa psicologia, além de revelar uma exímia fotografia de exteriores.
Será exibida uma versão extensa e restaurada. A sessão será acompanhada por música ao vivo, a cargo de Rodrigo Amado Motion Trio. O restauro em causa é disponibilizado pelo San Francisco Silent Film Festival e pelo EYE Filmmuseum em parceria com a Gosfilmofond (Rússia). 

TORRE BELA, de THOMAS HARLAN
A ascensão e queda de um movimento cooperativo revolucionário foi estabelecida numa grande quinta privada do Ribatejo, em Portugal, de Março a Dezembro de 1975 (a maior parte das ocupações de terras ocorridas no Alentejo foram promovidas pelo partido comunista). Em discurso directo, às vezes em frente à câmara, às vezes entre si, os trabalhadores rurais sem instrução expõem a sua miséria, o seu sofrimento, as suas esperanças e, finalmente, o seu desespero - quando um governo socialista ordena a restituição da terra aos seus proprietários primitivos e estes transformam a terra numa reserva de caça.

O programa completo do LEFFEST'18 e outras informações podem ser consultados em http://www.leffest.com/.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

LEFFEST'17: Q&A com Robert Pattinson

Foi no dia 25 de Novembro que Robert Pattinson esteve no Cinema Medeia Monumental para responder às perguntas dos fãs e apresentar o filme Good Time, de Benny e Josh Safdie, no Lisbon & Sintra Film Festival. Na noite anterior, o actor marcou presença no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, onde apresentou o filme Cosmopolis, de David Cronenberg.


Aqui fica um pequeno vídeo que regista o momento.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Crítica: Roda Gigante / Wonder Wheel (2017)

"When it comes to love we all turn out to be our own worst enemy." 
Ginny


*7/10*

Woody Allen mantém a inspiração mediana, mas continua a oferecer às actrizes papéis de garra e extremamente emocionais. Desta vez, contudo, o visual do filme eleva-o a um estatuto de que já tínhamos saudades.


O realizador entra literalmente num mundo de fantasia ou não estivéssemos num parque de diversões junto à praia. No entanto, a história não é especialmente fantasiosa: as vidas de quatro personagens cruzam-se no meio da agitação do Parque de Diversões de Coney Island, nos anos 50. Ginny (Kate Winslet) é uma emocionalmente volátil ex-actriz que trabalha agora como empregada de mesa numa marisqueira; Humpty (Jim Belushi) é o severo marido de Ginny e operador de carrossel; Mickey (Justin Timberlake) é um bonito nadador-salvador que sonha ser dramaturgo; e Carolina (Juno Temple) é a filha de Humpty, que se esconde de gangsters no apartamento do pai. 

Os temas habituais na obra de Woody Allen regressam: traição, sonhos desfeitos, paixões impossíveis. Há novamente ligações ao teatro e à interpretação, há a máxima de "o amor não escolhe idades", há adultério, resignação e até mafiosos. Há ainda uma jovem personagem que quebra a já instável rotina da personagem principal, um filho pré-adolescente com tendências pirómanas - um dos melhores elementos de humor.


Tão teatral como os seus personagens, Roda Gigante é expansivo - com Kate Winslet a dominar o ecrã, emotiva e radiosa -, com bons momentos de humor e o estilo do realizador a imperar. O texto chega a ser denso, a roçar o repetitivo, e torna-se, por vezes, um ponto fraco na acção, que não avança. Mas o grande trunfo da longa-metragem reside no director de fotografia: o veterano Vittorio Storaro pinta quadros de emoções com as cores brilhantes, luminosas ou néon que iluminam cenários e actores. Mais do que as expressões faciais, a cor faz-nos ler sentimentos nas mentes das personagens. Também a direcção artística é fabulosa ao retratar a década de 50, sendo que a viagem no tempo é inevitável.


Woody Allen, fiel a si, vai, aos poucos, chamando a magia que caracterizou a sua obra ao longo de alguns anos. Ainda longe do seu auge, o cineasta recupera em Roda Gigante algum do brilho que o caracteriza, mas ainda sabe a pouco.

LEFFEST'17: Cocote (2017)

*6/10*


Nelson Carlo de Los Santos Arias trouxe Cocote ao Lisbon & Sintra Film Festival. Um filme onde religião, costumes e honra se misturam com a Natureza, a da Terra e a dos Homens.

Alberto, um jardineiro evangélico, regressa à sua terra natal para o funeral do pai, que foi assassinado por um homem poderoso da região. Para chorar a sua morte, é forçado a participar em ritos religiosos que são contrários às suas crenças e à sua vontade.

O realizador joga com a alternância de formatos de imagem, bem como cenas a preto e branco e a cores, explorando um lado experimental nesta longa-metragem que, em alguns momentos, parece ter um tom documental (as cerimónias fúnebres são o melhor exemplo disso).


Cocote embrenha-nos numa cacofonia de rezas, choros e gritos, de diferentes origens que se juntam entre os corpos sem forças ou auto-controlo. A luz é intensa e a câmara de Santos Arias acompanha as cerimónias, as discussões familiares e o desconforto do protagonista no regresso à comunidade onde nasceu mas que não sente como sua.

Alberto vagueia entre o dever de vingança que lhe é imposto pelas irmãs, o confronto com a realidade injusta e revoltante da Republica Dominicana e a espiritualidade.

Cocote conquistou o Prémio Especial do Júri João Bénard da Costa no Lisbon & Sintra Film Festival.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

LEFFEST'17: Os Vencedores

O Lisbon & Sintra Film Festival terminou no passado Domingo e foi o filme russo Tesnota (Closeness) o grande vencedor desta 11.ª edição.


O Prémio de Melhor Filme Jaeger-LeCoultre foi para Tesnota (Closeness), de Kantemir Balagov, e a actriz Olga Dragunova conquistou o Prémio Revelação TAP. Cocote, de Nelson Carlo de los Santos Arias, recebeu o Prémio Especial do Júri João Bénard da Costa. O Prémio do Público foi para a longa-metragem Chama-me Pelo Teu Nome, de Luca Guadagnino.

Eis a lista completa de premiados: 

Prémio Melhor Filme Jaeger-LeCoultre
TESNOTA, de Kantemir Balagov

Prémio Especial do Júri "João Bénard da Costa" 
COCOTE, de Nelson Carlo de Los Santos Arias

Prémio Revelação TAP – Melhor Actriz
Olga Dragunova em TESNOTA

Prémio NOS Melhor Filme - Escolha do Público
CHAMA-ME PELO TEU NOME, de Luca Guadagnino

Prémio para a Melhor Curta-Metragem (escolas)
A MAN, MY SON, de Florent Gouëlou - LA FEMIS, Paris, França

Menções Honrosas: 
LES YEUX FERMÉS, de Léopold Legrand - INSTITUT NATIONAL SUPÉRIEUR DES ARTS DU SPECTACULE, Bruxelas, Bélgica

HEIMAT, de Emi Buchwald - THE POLISH NATIONAL FILM TELEVISION AND THEATER, Lodz, Polónia

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Crítica: O Senhor das Moscas / Lord of the Flies (1963)

"Kill the pig! Slit her throat! Bash her in!"

*9/10*

A inocência é perdida após poucos dias numa ilha deserta e os instintos mais selvagens transformam crianças em monstros. O Senhor das Moscas, de Peter Brook, é uma alegoria à anarquia que se instaura quando as regras desaparecem e a figura de liderança não existe. Um filme arrebatador e sem receios que mostra, através dos mais puros, como o mal pode tomar conta do homem.


Depois do avião em que viajavam se despenhar, um grupo de crianças britânicas vê-se isolado numa ilha deserta. O ambiente selvagem e paradisíaco, onde não existe a autoridade dos adultos, faz com que o grupo de divida e se transforme numa organização tribal violenta.

Peter Brook constrói um filme violento e brutal, num retrato cru de como o Homem dito civilizado depressa se pode transformar numa besta primitiva e sem valores, basta que deixe de haver autoridade legítima. Para este retrato, o realizador adapta ao cinema o livro homónimo de William Golding, que coloca as crianças como protagonistas desta história chocante. E se rapazes tão pequenos entram em tal escalada de violência e actos irracionais, não nos espantemos com as ditaduras que por todo o mundo ainda vingam nos tempos que correm. Querem filme mais intemporal?


O Senhor das Moscas é uma chamada de atenção para os perigos a que todos estão sujeitos. Mais incómodo tudo se torna com protagonistas tão jovens. Do inofensivo (?) bullying típico da idade - mas obviamente condenável -, ao confronto de opiniões que resulta numa votação democrática, para que aquela pequena comunidade possa funcionar com regras, depressa um grupo se insurge e quer mais poder, menos responsabilidades. Acima de tudo, o poder. A libertinagem confundida com liberdade.

Tantas serão as metáforas encontradas no filme de Peter Brook que vale a pena ver e retirar a lição devida desta longa-metragem. Para além da fenomenal história, os jovens actores merecem todo o mérito, com interpretações corajosas e a direcção de fotografia proporciona-nos momentos únicos a preto e branco, usando a luz com mestria, fazendo o fogo ganhar vida e brilho no meio da noite. A banda sonora remete-nos para as tribos e seus rituais, e aumenta a tensão que as imagens já de si transmitem.


O Senhor das Moscas leva-nos numa escalada de loucura à criação de uma sociedade violenta e anárquica liderada por crianças. O medo e a ânsia de poder dominam as motivações, crenças e valores do ser humano.