Mostrar mensagens com a etiqueta Michael Stuhlbarg. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Michael Stuhlbarg. Mostrar todas as mensagens

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Crítica: A Forma da Água / The Shape of Water (2017)

"I'm not competitive, I don't want an intricate, beautiful thing destroyed!" 
Hoffstetler

*8/10*

Del Toro não tinha repetido, nem de perto, a magia de O Labirinto do Fauno, até realizar A Forma da Água. Este último ainda está longe da fórmula milagrosa de fazer cinema que o filme de 2006 trouxe. No entanto, recupera a aura de magia trágica e apresenta-nos um casal de protagonistas muito particular.

A fantasia desta história de encantar começa logo no primeiro plano, com narrador a acompanhar. Não faltam o monstro nem a guerra - as mais evidentes características partilhadas com O Labirinto do Fauno.


Em 1963, no auge da Guerra Fria, Elisa (Sally Hawkins), uma solitária empregada de limpeza muda, que trabalha num laboratório governamental, vê a sua vida mudar para sempre quando, com a colega Zelda (Octavia Spencer), descobre o resultado de uma experiência ultrasecreta: um estranho ser aquático que vive num tanque.

Em A Forma da Água, o verdadeiro monstro é humano. O outro, que vive na pureza da água, pode ser tantas coisas, ter tantos significados, mas não é ele o vilão. Elisa e o ser aquático com que desenvolve uma relação são uma espécie de A Bela e o Monstro, mas, mais do que isso, são dois seres com muitas mais parecenças do que possamos pensar à partida. A água é o local onde se sentem mais à vontade, de onde ambos provêm, a origem exacta de cada um é desconhecida, e nenhum dos dois é capaz de falar, mas entendem-se perfeitamente. Ela estimula-o, acalma-o, ele fá-la feliz. O laço que criam e desenvolvem ao longo do filme é mágico, com sentimentos e emoções a flutuar sem serem precisas palavras, apenas gestos.


A direcção artística e a fotografia fazem um trabalho soberbo. Não só nos transportam para uma época de sombras e desconfiança, como criam toda a atmosfera visual e surreal que faz acreditar que tudo isto poderia mesmo ter acontecido. O facto de Elisa e o vizinho Giles viverem por cima de um cinema é uma das particularidades deliciosas de A Forma da Água. A banda sonora de Alexandre Desplat embala-nos como se estivéssemos a caminho de um conto de fadas... e não é que estamos mesmo? Mas um daqueles obscuros, sombrios e cruéis. 


Guillermo del Toro é inspirador. Voltou a sê-lo. Por muitas influências (demasiadas, por vezes) que A Forma da Água possa ter, o cineasta é capaz de criar um filme com identidade própria e com características que denunciam claramente a sua autoria - um misto de doçura, fantasia e violência.

O elenco, por sua vez, faz o resto. Sally Hawkins encarna esta mulher muda, corajosa e altruísta que parece descobrir a sua razão de viver e luta por ela. Aparenta uma imensa fragilidade mas revela-se muito desafiadora. Michael Shannon interpreta o verdadeiro monstro, de carne e osso, violento e bárbaro, com claros problemas relacionais. Uma espécie de sociopata que ambiciona mais poder e estatuto - e ele não desiste facilmente. Richard Jenkins e Octavia Spencer são personagens simpáticas que falam pelo que Sally Hawkins não diz, e conferem momentos divertidos à acção. São ainda um interessante símbolo das minorias - e são fundamentais na narrativa. E Doug Jones, claro, o actor que veste a pele do homem anfíbio tem um papel crucial e é capaz de expressar emoções tão ou mais humanas que as de outras personagens.


A violência não gera nada de bom e o amor é a melhor forma de comunicação. Guillermo del Toro prova-o em A Forma da Água e nós acreditamos e pedimos mais magia.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Crítica: Chama-me Pelo Teu Nome / Call Me By Your Name (2017)

"Call me by your name and I'll call you by mine." 
Oliver

*6.5/10*

Chama-me Pelo Teu Nome é um filme subtil, repleto de sensibilidade. Luca Guadagnino mergulha num romance que marca o final da adolescência e a descoberta da sexualidade. Uma longa-metragem bucólica, cheia de sentimentos e emoções.

É um filme que apela aos sentidos e à liberdade, com um argumento tímido, mas de momentos marcantes. Tudo acontece no Verão de 1983, no norte de Itália. Elio Perlman (Timothée Chalamet), um precoce rapaz italo-americano de 17 anos, passa as férias na casa de família, uma mansão do século XVII, a transcrever e tocar música, a ler e a nadar. Elio tem uma relação próxima com o seu pai (Michael Stuhlbarg), um famoso professor especializado em cultura greco-romana, e a sua mãe Annella (Amira Casar), tradutora. Apesar da sua educação sofisticada e talento natural, Elio continua a ser bastante inocente, principalmente em assuntos do coração. Tudo muda quando chega Oliver (Armie Hammer), um aluno do Mr. Perlman, para passar uma temporada com a família e ajudar o professor nas suas pesquisas.


Ouvimos falar em várias línguas, inglês, francês, italiano, alemão, viajamos à Grécia antiga durante os estudos de Oliver e do pai de Elio, ouvimos tocar piano e guitarra, estamos envoltos em cultura, na casa de uma família moderna em tempos ainda pouco liberais. Dois jovens, com muito mais em comum do que Elio parece sentir ao início, cruzam-se: ambos judeus, cultos, inteligentes e apaixonados.

Há um lirismo romântico a pairar sobre Chama-me Pelo Teu Nome. Tem momentos brilhantes, normalmente potenciados por um longo plano-sequência. Guadagnino filma cenas tão boas como uma conversa entre pai e filho, momentos de partilha e intimidade entre Elio e Oliver (onde não são as palavras que mais falam), a festa em que estão a dançar com amigos e surgem os ciúmes, ou os momentos de introspecção, em casa ou no campo. Por outro lado, há situações delicodoces que resultam em momentos pouco conseguidos, e dão um grande desequilíbrio ao filme. Sejam cenas banais, curtas ou de corte ríspido, que nada acrescentam, clichés românticos ou mesmo ocasionais encontros com amigos.


Visualmente, Luca Guadagnino tira partido de filmar em película, ao aproveitar a luz da melhor forma, e deixando passar para os espectadores os encantos do 35mm. A banda sonora é outro ponto forte, com temas a condizer com a época e outros com o ambiente e emoções das personagens.

Timothée Chalamet retrata a inocência, os medos e a arrogância típicas da adolescência, a par da curiosidade imensa pelo que o rodeia. Como Elio, ele interioriza as dúvidas e a paixão avassaladora que é este primeiro amor. Vive e sofre com a mesma ânsia e deixa-nos arrebatados com uma interpretação tão adulta. Michael Stuhlbarg faz de seu pai, um homem tolerante, muito à frente no seu tempo, com imensa consciência do que o rodeia. O actor tem um papel pequeno mas enche o ecrã quando surge. Por fim, destaque para Armie Hammer, o sensual e independente aluno de Mr. Perlman, Oliver. Ele é um homem bonito e interessante, trabalhador e misterioso, desperta a curiosidade de todos que com ele se cruzam. Curiosamente, nas reuniões com Perlman, Oliver muito se assemelha às estátuas gregas que estão a analisar e que parecem desafiá-los "a desejá-las".


Entre esta e outras simbologias (os pêssegos!), Luca Guadagnino constrói uma bela história de amor que só peca por não se centrar mais nos protagonistas e no ambiente que os rodeia.