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domingo, 22 de setembro de 2019

Sugestão da Semana #395

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português A Herdade, de Tiago Guedes, protagonizado por Albano Jerónimo e Sandra Faleiro. Lê a crítica do Hoje Vi(vi) um Filme.

A HERDADE


Ficha Técnica:
Título Original: A Herdade
Realizador: Tiago Guedes
Elenco: Albano Jerónimo, Sandra Faleiro, Miguel Borges, João Vicente, João Pedro Mamede, Ana Vilela da Costa
Género: Drama
Classificação: M/12
Duração: 166 minutos

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Crítica: A Herdade / The Domain (2019)

"Roubou-me metade da minha vida, já não me rouba mais nada".
Leonor


*8/10*

Os campos alentejanos, a política do Estado Novo e personagens intensas juntam-se para contar a história de uma família portuguesa em A Herdade. Se fosse um livro, A Herdade poderia ter sido escrito por alguém que fundisse o crítico Eça de Queirós e o apaixonado Camilo Castelo BrancoRui Cardoso Martins escreveu o guião, posteriormente alterado por Tiago Guedes, e ainda com algumas ideias de Gilles Taurand, que resulta numa história contada a três tempos.

O filme de Tiago Guedes tem uma dimensão pouco usual no cinema português. É um drama histórico, que se pode confundir, por vezes, com uma novela - das boas -, e cujo visual ficará na memória, qual quadro em movimento.


A Herdade apresenta-nos a uma família proprietária de um dos maiores latifúndios da Europa, na margem sul do rio Tejo, e leva-nos a mergulhar nos segredos da sua herdade, fazendo o retrato da vida histórica, política, social e financeira de Portugal, dos anos 40, atravessando a Revolução do 25 de Abril, até aos anos 90.

O homem rico e poderoso está habituado a dominar, ser dono e senhor das suas terras, mais ainda em tempos de ditadura. João, contudo, não é um patrão insensível e distante, bem pelo contrário, ele não quer saber de política e tem uma estreita relação com os seus trabalhadores. Na sua herdade, a lei que impera não é bem a mesma que no resto do território nacional. Já dentro das portas da sua casa, ele mantém a frieza e brusquidão com que foi educado pelo seu pai - que a primeira cena do filme, ainda antes do título surgir, nos demonstra com crueldade - e não admite a fraqueza.


João é um homem frio, poderoso, intransigente, de amores fugazes e opiniões sólidas. Albano Jerónimo é capaz de encarná-lo com dignidade, com uma sensualidade que contrasta com a sua rudez. Ao seu lado, Sandra Faleiro é a maior estrela do filme. Os seus cabelos loiros, olhos azuis, pele clara, de ar angelical, nórdico e frágil, compõem uma mulher muito mais forte e firme do que aparenta. Leonor sofre em silêncio mas não se deixa rebaixar em momento algum, acomoda-se mas não se deixa humilhar, é independente, apesar do marido infiel e do pai general da PIDE. Os seus olhos dizem muito mais do que qualquer palavra.

O tom novelesco que percorre esta história não incomoda, pelo menos até à chegada dos anos 90 em que o socio-político que até então dominava a narrativa muda o foco para a tragédia familiar. Os filhos já são adultos e não há espaço para as suas personalidades crescerem tanto como os seus corpos. Miguel - um intenso João Pedro Mamede - ganha protagonismo e a importância que sempre espreitou atrás das portas ao longo do filme; mas não chega para conquistar a plateia da mesma maneira que os seus pais já conseguiram.


Elementos fundamentais e simbólicos surgem em A Herdade, quase como parte dos protagonistas. Os cavalos de João, com quem parece ter uma relação mais próxima que com a própria família; o vento, omnipresente naqueles campos a perder de vista; o sótão dos que não querem ser encontrados; a vedação onde Miguel encontra alguma liberdade, tal como o pequeno forte em ruínas onde João se refugiava em criança; a árvore que desde o início é quase um membro da família...

Um dos mais marcantes momentos do filme de Tiago Guedes coincide com o 25 de Abril de 1974. Imagens e som de arquivo entram em cena para contar a História. Testemunhamos a revolução a nascer lá fora mas não dentro daquela casa.


Tecnicamente, A Herdade consegue proporcionar-nos imagens inesquecíveis através da direcção de fotografia de João Lança Morais (que joga da melhor forma com luz e escuridão, adequando-as através dos tempos), entre planos sequência memoráveis (o do baile, com cerca de oito minutos, não escapará a ninguém), o simbolismo das personagens que surgem nas sombras ou os planos filmados junto à árvore ao longo dos tempos. Os silêncios são trabalhados de forma eficaz pela equipa de som que merece igualmente destaque.

A Herdade é quase um épico do cinema português e Tiago Guedes teve a coragem de assumir as rédeas de um projecto de grande dimensão, quer no elenco, responsabilidade histórica, duração (166 minutos) e beleza estética. Cada personagem é toldada pela infância que teve. João, com todos os seus fantasmas e vícios, só quer salvar o património da família e manter o poder que sempre julgou seu de direito.

sábado, 4 de maio de 2019

IndieLisboa'19: Tristeza e Alegria na Vida das Girafas (2019)

*7.5/10* 


Tristeza e Alegria na Vida das Girafas é sobre crescer e sobre a auto-descoberta. Sobre os nossos amigos imaginários da infância e sobre as primeiras aventuras fora do porto seguro que é o lar. Tiago Guedes faz-nos voltar a acreditar e leva-nos de volta à imaginação e inocência que tínhamos aos 10 anos. 

Baseado na peça homónima de Tiago Rodrigues, Tristeza e Alegria na Vida das Girafas acompanha a aventura de uma menina e do seu urso de peluche suicida, chamado Judy Garland, em busca do perdido Discovery Channel. Lisboa é um território mágico, apesar da crise espreitar a cada encontro, e há que saber fugir das panteras negras e pedir ajuda ao primeiro ministro.

Eis um filme tão cómico como trágico, tão ternurento como cruel, numa mistura espirituosa entre o infantil e o maduro. Tiago Guedes e Tiago Rodrigues criam uma obra inesperadamente original e muito rica, uma viagem ao passado, com muita nostalgia.

O urso de peluche mal-criado (esqueçam o Ted, este é muito melhor) é o maior ponto de ligação com o mundo dos adultos e suas frustrações constantes, a tomada de consciência da realidade muitas vezes cruel. Como era bom regressarmos à infância, nem que fosse um dia por semana...


Para o sucesso de Tristeza e Alegria na Vida das Girafas muito contribui o belíssimo desempenho da pequena Maria Abreu, com um à-vontade e desembaraço incomum para a idade - provavelmente, filha de peixes sabe nadar. A protagonista utiliza palavras pouco próprias no vocabulário de uma criança, e é consumidora acérrima de dicionários. Directos do teatro para o ecrã, Miguel Borges é um pai desafiado pela viuvez com uma menina de 10 anos para criar, numa performance emotiva e criativa, quase inesperada; e Tónan Quito, o urso Judy Garland, que clama pela morte entre palavrões, mas é inseparável da sua querida girafa, que o guia por assustadoras aventuras.

Tristeza e Alegria na Vida das Girafas faz parte da Competição Nacional do IndieLisboa'19.

Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira
08/05/2019  -  21h30
Cinema São Jorge - Sala 3
10/05/2019  -  14h30

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Sugestão da Semana #350

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português Carga, de Bruno Gascon, com Sara Sampaio no elenco. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme pode ser lida aqui.

CARGA


Ficha Técnica:
Título Original: Carga
Realizador: Bruno Gascon
Actores: Michalina Olszanska, Sara Sampaio, Vítor Norte, Dmitry Bogomolov, Duarte Grilo, Miguel Borges, Ana Cristina Oliveira, Rita Blanco, Rui Porto Nunes, Rui Luís Brás
Género: Drama
Classificação: M/16
Duração: 113 minutos

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Crítica: Carga (2018)

"The road is long but nobody said it was easy..."
Viktoriya


*7.5/10*

Entre as paisagens geladas da Serra da Estrela e os quartos escuros de casarões abandonados, abrem-nos os olhos para a realidade cruel do tráfico de seres humanos. Carga é o corajoso filme português, realizado por Bruno Gascon, que quer despertar consciências e denunciar um problema global.

Um thriller onde as mulheres são vítimas mas igualmente heroínas, Carga é uma surpresa violenta e bem concretizada, com um leque de actores que dão tudo, e que vão de nomes conceituados como Vítor Norte à estreante Sara Sampaio, a modelo que quer ser actriz - e não se sai nada mal.

Esta é a história de Viktoriya (Michalina Olszanska), uma jovem russa apanhada numa rede de tráfico ilegal, que apenas tem uma hipótese: lutar para sobreviver; e de António (Vítor Norte), um velho camionista que se cruza no caminho da jovem, despoletando um encontro que o leva a questionar todos os seus princípios.


Eis um tema de difícil abordagem, poucas vezes filmado no cinema. Carga transmite-nos o frio, o medo e o desespero que rodeiam as personagens. A tensão é crescente e, até ao final, Bruno Gascon oferece-nos planos bem estudados e algumas mensagens subtis tanto acerca das personagens como sobre o enredo.

Carga é falado em três línguas diferentes (inglês, português e russo), e o silêncio está muito presente, quer pelas dificuldades de comunicação, quer pelo sigilo que convém guardar dos crimes e ilegalidades que se passam naquele submundo. As ameaças são muitas e a desconfiança paira sobre traficadas e traficantes. Curiosamente, todas as personagens têm uma dualidade muito realista. Têm personalidades fortes, fraquezas e segredos. Este é um dos pontos mais fortes do filme, que o aproximam ainda mais do público.

No elenco, encontramos grandes desempenhos. A protagonista Michalina Olszanska tem uma forte presença e magnetismo, incorporando todo o sofrimento de Viktoriya de uma forma muito natural.  O veterano Vítor Norte é o homem que vive numa luta interior, tão culpado como subjugado pela rede de tráfico. Dmitry Bogomolov é Viktor, manipulador, sem escrúpulos, que quase não manifesta emoções. Ana Cristina Oliveira tem poucos minutos no ecrã mas conquista todas as atenções com a sua Sveta, em especial, num fabuloso monólogo, em que revela toda a dor que carrega, ao lado de Sara Sampaio. A modelo é a cara das jovens traficadas e sai-se muito bem no seu primeiro papel, emotiva e segura de si. Duarte Grilo e Miguel Borges surgem como homens fortes de Viktor, ambos num conflito interno, lutando para não mostrar fraquezas.


Carga só peca por um clímax demasiado prolongado, onde surgem flashbacks que poderiam funcionar melhor com uma montagem diferente. A banda sonora, por sua vez, é um dos pontos fortes da longa-metragem.

Um filme cheio de girl power, que realça as mulheres como grandes lutadoras que são, Carga marca uma nova etapa no cinema português, com um certo activismo latente, numa denúncia acesa da violência que é o tráfico humano, sem receios, nem tabus. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Entrevista a Bruno Gascon, realizador de Carga: "Tentei criar uma sociedade dentro de uma rede de tráfico de seres humanos"

Bruno Gascon gosta de temas difíceis e a sua primeira longa-metragem, Carga, faz jus a isso mesmo, é sobre o tráfico de seres humanos. Com duas curtas no currículo cinematográfico, o realizador estudou em Amesterdão e, de regresso a Portugal, começou por fazer documentários e programas de televisão sobre temas sociais. Agora, nos seus filmes, são esses os temas que continua a preferir.

Bruno Gascon - Foto: Luís Sustelo
O Hoje Vi(vi) um Filme esteve à conversa com Bruno Gascon (B.G.) sobre Carga. O filme estreia nos cinemas a 8 de Novembro.

Escolheste logo um tema muito forte para a tua primeira longa-metragem...
B.G.: Sim, eu gosto de temas fortes e posso já adiantar que a minha próxima longa vai ter um tema forte também. Posso dizer que é um tema actual. Gosto de explorar o pensamento humano e a mentalidade em relação a certo tipo de temas. Às vezes, as pessoas gostam de olhar para o lado e não enfrentar os problemas. A sociedade só evolui se tu falares sobre esses temas e sendo, no meu caso, ficção, acho que é uma forma de passar a mensagem também.

Como foi todo o processo da construção do argumento, as pesquisas, etc.?
B.G.: Em Amesterdão, entrei logo em contacto com este tipo de problemas. Existe aquela ideia de que lá, no red light [district], a prostituição é uma coisa livre, mas o que a maior parte das pessoas não sabe é que muitas daquelas mulheres são traficadas. Depois voltei [para Portugal], encontrei várias histórias sobre isso e decidi contar, na minha primeira longa, um tema pesado que é um problema global. Sobretudo, tentei demonstrar que não é só um problema de terceiro mundo, como ouvi muitas vezes, e as pessoas nem sequer tinham a noção disso. Muitas vezes, esse problema está mesmo ao nosso lado, no nosso vizinho, nos nossos amigos, na nossa família.

Vocês falaram - ou pelo menos a Joana Domingues [produtora] falou - com vítimas de tráfico humano, não foi?
B.G.: Sim, eu ouvi histórias até porque não tive acesso a essas pessoas. As mulheres que foram traficadas são muito protegidas e vivem em casas protegidas. Estão muito desconfiadas e é-lhes difícil confiar nas pessoas. A minha pesquisa foi muito por aí, ter acesso às histórias e tentar recriar a realidade o mais cruel possível. O que faço muitas vezes, seja uma traficada, seja um rei do tráfico, é meter-me nos pés da pessoa e tentar perceber o que é que eu faria naquela situação. Tal e qual fui fazendo nas minhas curtas - a curta anterior é sobre suicídio e a primeira é sobre esquizofrenia. [Em Carga] Tentei criar uma sociedade dentro de uma rede de tráfico de seres humanos. Aquelas personagens têm características comuns a todos nós e o que introduzi foi esse problema global. Temos, por exemplo, o António, que é interpretado pelo Vítor Norte que é um camionista e é uma personagem que está numa situação limite. Eu gosto de pôr as personagens nessas situações limite. Ele faz aquilo por dinheiro ou desculpa-se com o problema do dinheiro, mas depois vamos perceber que isso o vai atormentando ao longo do filme.


Ia agora falar-te sobre isso. As tuas personagens são muito ambíguas... Querias que as pessoas se identificassem? Que sentissem como se fossem personagens quase reais?
B.G.: Sim, tentei dar o máximo de realidade às minhas personagens e tento sempre fazer isso. Porque acho que não existem bons ou maus. Existe todo um lado cinzento que todos temos, no nosso dia-a-dia. Temos muitas camadas. Todos já tivemos más acções, todos já tivemos boas acções e é isso que tento tirar daquelas personagens. E, como o filme retrata, todas têm uma carga, aquela carga emocional é trazida por todas elas, tal como nós, na nossa vida, temos uma carga. Todos temos problemas, todos fazemos boas acções. Se uma pessoa é mais retraída ou fala menos é porque, provavelmente, existiu alguma coisa ao longo da vida dela que a tornou assim. E é essa experiência que eu quero que as personagens tenham, sejam elas boas ou más.

Porque aqui até com os mais mauzões nós simpatizamos ligeiramente, não é?
B.G.: Sim, no fundo, eles também são pessoas e, de certa forma, também têm boas acções. Por exemplo, o Viktor, que é protagonizado pelo Dmitry Bogomolov, é o chefe da rede de tráfico mas fá-la funcionar como uma empresa. Ele não deixa de ser um ser humano que teve problemas no passado, tem o tal background e essa carga emocional sobre ele também. O Dmitry deu-lhe um cunho muito pessoal. O próprio Dmitry foi criando aqueles movimentos e aquela personagem de acordo com o que fomos falando. Aquela rede já era uma coisa que vinha da geração anterior, é um negócio de família e o Viktor sempre se sentiu subjugado pelo pai. Não queria cometer os mesmos erros que o pai, porque ele era muito emotivo, e o Dmitry é uma pessoa mais fria, mais manipuladora, e quis demonstrar que era melhor do que o pai.


Vamos passar para a Sara Sampaio. Como surgiu a oportunidade trabalhar com ela?
B.G.: Falei com ela, ela leu o guião, disse-me que o tinha lido numa viagem de avião, que tinha adorado, que existia violência no filme, é verdade, mas que não era gratuita, tinha um sentido. Quando lhe expliquei a personagem dela e que queria que ela fosse a cara e a imagem de todo aquele grupo de pessoas, ela aceitou na hora. As pessoas estão sempre à espera de ver a Sara modelo e aqui é um registo completamente diferente. A Sara aqui não está embelezada, não está a vestir roupas de passerelle, de várias marcas, a Sara aqui é a Sara actriz e as pessoas vão ficar surpreendidas com o resultado.

E relativamente aos outros actores? Alguns já conhecias, como por exemplo o Duarte [Grilo]...
B.G.: Na verdade, o único que eu conhecia era o Duarte. Todos os outros foram contactos feitos a seguir. Quando escrevi o guião já tinha pensado em todos aqueles actores para aqueles papéis. Sendo uma primeira longa-metragem, eu tinha sempre aquele receio "eles não vão aceitar, não me conhecem de lado nenhum, é uma primeira obra", mas tal e qual como a Sara, assim que eu falei uma vez, todos eles aceitaram. Ou seja, foi das partes mais fáceis, ter aquelas pessoas, aqueles actores enormes a interpretarem estes papéis. Fiquei com uma óptima relação com todos eles. Foi isso que me surpreendeu de certa forma, porque eu estava habituado a ver na televisão, no cinema, no teatro todas aquelas pessoas e ver aqueles nomes a trabalharem contigo e a serem pessoas extremamente humildes, trabalhadoras... Senti-me honrado por virem fazer este filme comigo.

Como foi trabalhar com eles?
B.G.: Foi facílimo. Por exemplo o Vítor Norte, que já tem muitos anos de experiência, é das pessoas mais humildes e com um nível de exigência enorme. Está sempre muito preocupado, em todos os takes, em todos os planos, se está bem ou não. Com a Rita [Blanco] eu aprendi muito. A Rita é um poço de energia. Estar quieto ou mal-disposto ao pé da Rita é impossível. Ela é uma pessoa extremamente inteligente e ensinou-me muito sobre cinema. É incrível... A pessoa que mais me surpreendeu, na verdade, foi a Michalina [Olszańska]...

E eu ia perguntar-te como é que a escolheram...
B.G.: É uma história curiosa. Quando chegou a altura de escolher a personagem principal eu estava à procura de alguém que falasse russo e que tivesse alguns traços russos. Quando escrevo os guiões já imagino as características das personagens e quando vi a primeira curta da Michalina achei que ela tinha as características ideais e que se ia enquadrar no papel. Falei com a Joana Domingues, que é a produtora, e disse: "olha, acho que é esta rapariga", e ela disse: "mas tens a certeza? não querias escolher uma pessoa russa? ela é polaca" e eu disse: "tenho a certeza absoluta que é esta rapariga". Mandámos-lhe uma mensagem pelo Facebook e ela pediu para enviarmos o guião. Passado um dia, mandou-me um testamento enorme a dar-me uma dica, que não posso dizer para não criar spoilers do filme. Entretanto, veio cá três dias, nós falamos um bocadinho e depois eu e a Michalina criamos uma conexão enorme e, hoje em dia, ela é quase das minhas melhores amigas. É uma pessoa extraordinária além de, para mim, ser das mais talentosas da geração dela. Tive o Miguel, o Vítor que estavam a vê-la contracenar e até eles ficaram surpreendidos como é que uma rapariga com 25 anos consegue ter aquela capacidade, para além de ela ser um prodígio. Já escreveu livros, aprendeu a tocar violino aos seis anos de idade... Mas foi realmente a pessoa que mais me surpreendeu neste filme.


Nota-se no teu filme um pouco a estética que associamos aos filmes europeus - e é europeu, é português. Foi intencional? Tem a ver com as tuas influências cinematográficas?
B.G.: Também tem um bocadinho a ver com as minhas influências mas é a primeira vez que me dizem isso e que me fazem essa pergunta. Neste momento ainda estou à procura de encontrar um estilo próprio, mas há coisas que vou sempre fazendo e isso tem a ver com as influências que tenho. Por exemplo, utilizo muito planos centrados e o Kubrick utilizava muito as perspectivas. Vejo cinema, seja ele europeu, seja ele americano. Sou uma pessoa que gosta realmente de cinema, vejo do mais autoral ao mais comercial que possas imaginar. Gosto de Kubrick, Hitchcock, Polanski... Quando vou ao cinema gosto que o filme me diga alguma coisa e poderá ser essa a explicação para eu gostar tanto de temas fortes. Gosto muito de tudo o que seja sobre a Segunda Guerra Mundial, sobre os judeus. Gostei muito de O Pianista, Os Falsificadores... Também gosto muito de cinema nórdico. Utilizam muito a técnica fria, escura, é uma coisa com que me identifico. Tens a saga Millennium ou Lars von Trier, têm muito esse lado negro. Acima de tudo quero passar uma mensagem, mesmo que essa mensagem seja negra. O mundo não é um mundo cor-de-rosa. As pessoas andam um bocadinho adormecidas e tu às vezes tens de levar aquele murro no estômago para que te apercebas que aquela realidade existe. E, se calhar, só assim é que as coisas vão mudar.

Tens aqui um filme feminista?
B.G.: Sim, pode dizer-se que sim. Tem de se começar a retirar a ideia de que só os homens têm personalidades fortes e são as pessoas fortes num filme. Até porque, muitas vezes, uma mulher é muito mais complexa do que um homem e acho que isso devia jogar a favor das pessoas que fazem cinema. Porque é que se dão sempre papéis fortes a homens? Apesar dos homens [em Carga] serem a rede de tráfico, o papel duro, físico, as mulheres têm um papel muito mais complexo e quando as pessoas virem o filme vão perceber que quem domina são as mulheres. A ideia foi, de certa forma, inverter os papéis. As mulheres aqui são traficadas, são frágeis mas o frágil não implica que as pessoas sejam fracas. Deve haver uma igualdade entre todos e a sociedade tem de evoluir para isso. Fala-se muito de feminismo e do #MeToo mas acho que ainda existe um largo caminho para isso acontecer. Não é uma questão das mulheres serem mais do que os homens mas de serem iguais. Ponto final. Tanto no cinema como na nossa sociedade as coisas devem ser igualadas. Este filme é um filme mais feminista, mas também foi com esse intuito, de mostrar às pessoas que apesar de serem frágeis, as mulheres também são extremamente complexas e, na verdade, são o sexo forte.

E é curioso porque surge no momento certo...
B.G.: Foi um timing, calhou. Quando começamos a gravar foi quando rebentou o #MeToo... Calhou. Mas é uma coisa que deve ser falada e temos de caminhar para isso. E acho que a sociedade só tem a ganhar.

Criaste um filme muito internacional, e não só pelo número de línguas em que é falado, quantas são?
B.G.: Três. Inglês, português e russo. Essa linguagem também funciona um bocadinho como uma personagem, porque tens muitas falhas de comunicação ao longo do filme. Pessoas que só falam russo, pessoas que só falam inglês, pessoas que falam português, mal falam inglês e nem sequer falam russo... e estas falhas de comunicação acontecem no nosso dia-a-dia e têm também a ver com a cultura que temos. Tentei criar um filme internacional, e como o tráfico de seres humanos é um problema global, tentei dar-lhe esse realismo. Estamos em Portugal mas, com a Internet, temos acesso a qualquer parte do mundo. Tentei que as pessoas percebessem que esta realidade existe em Portugal, existe na Rússia, existe em todo o mundo.

Criaste uma Torre de Babel...
B.G.: Tentei. Na verdade, a tentativa foi essa, criar um microcosmos, em que se perceba que existem varias pessoas da nossa sociedade metidas lá dentro, não só no nosso país mas no mundo inteiro. Tentei recriar um mundo ali.


Que motivos vão levar o público às salas de cinema para ver o Carga?
B.G.: Acho que um dos motivos será... Pergunta difícil essa! um dos motivos é o facto de termos um leque de actores fantástico. Outro é o facto de, apesar de ser um drama, também tens muitas situações de tensão. Também pela estreia da Sara Sampaio, como é óbvio. Pelo tema, que é o tráfico de seres humanos e está bem mais perto de nós do que podemos pensar. E porque é um filme português e espero que as pessoas possam dar uma oportunidade, porque o cinema português está a evoluir cada vez mais. Tem de se tirar aquele estigma de que o cinema português é chato e aborrecido.

Na Comic Con Portugal, disseram que já tinham vendido o filme para alguns países. Quais?
B.G.: Já vendemos para a China, existe interesse do Japão, da França, e já fomos vendidos para os Estados Unidos e para o Canadá. Para já é só, mas vamos passar na Rússia e no Luxemburgo, entretanto.

Queres que o Carga seja um filme activista?
B.G.: Boa pergunta. O que eu quero é que o filme chegue ao máximo de pessoas possível, que as pessoas vão ver e que tenha as salas cheias, não vou dizer que não. Mas, acima de tudo, quero que o filme passe uma mensagem, e essa mensagem tem a ver não só com o tráfico de seres humanos, como com o nosso dia-a-dia. Existem coisas subliminares que estão lá colocadas, que não são sobre o tráfico de seres humanos.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Sugestão da Semana #323

Das estreias da passada Quinta-feira, foi uma decisão bastante complicada escolher a Sugestão da Semana. No entanto, resolvi-me por dois filmes, e ficará a escolha à vossa consideração e gosto. Um filme português sobre Eusébio e um filme de terror que tem gerado um buzz imenso pelo mundo.



Ficha Técnica:
Título Original: Ruth
Realizador: António Pinhão Botelho
Actores: Igor Regalla, Álvaro Correia, António Nipita, António Simão, Dinis Gomes, Fernando Luís, José Raposo, Josefina Massango, Luís Lucas, Marcelo Urgeghe, Miguel Borges, Vítor Norte
Género: Biografia, Comédia
Classificação: M/12
Duração: 105 minutos


UM LUGAR SILENCIOSO


Ficha Técnica:
Título Original: A Quiet Place
Realizador: John Krasinski
Actores: Emily Blunt, John Krasinski, Noah Jupe, Millicent Simmonds, Cade Woodward
Género: Drama, Ficção Científica, Terror, Thriller
Classificação: M/16
Duração: 90 minutos

sábado, 28 de abril de 2018

Crítica: Ruth (2018)

"Um nome de mulher é que era o disfarce perfeito..."
Mário Melo

*7/10*

E se a contratação de Eusébio pelo Benfica resultasse numa comédia bem construída e que, ao mesmo tempo, reflecte o passado histórico português dos anos 60? Ruth é isso mesmo, bem escrito, bem interpretado e muito divertido.

António Pinhão Botelho consegue criar o equilíbrio necessário entre a guerra futebolística e a guerra colonial, em vias de despoletar. O argumento de Leonor Pinhão é uma mais valia importante para o resultado final de Ruth e para este paralelismo da narrativa.


No pior ano do regime fascista português, 1960, um jovem futebolista africano de Moçambique chega a Lisboa e é apanhado no meio da maior rivalidade clubística do país. Enquanto os ventos da mudança começam a soprar através da guerra, pirataria e outros acontecimentos históricos, Eusébio da Silva Ferreira (Igor Regalla) começa o percurso até se transformar naquilo que é: uma lenda.

Sporting e Benfica numa luta desenfreada por um dos mais promissores jovens jogadores de sempre. Na realidade, é no processo de negociações dos dois clubes com Eusébio que se centra Ruth, e em todas as peripécias que daí resultaram. O filme é "livremente inspirado" em factos reais e, portanto, à medida que nos contam a história de Eusébio também se constrói uma comédia inteligente que nos fará rir sem remorsos - e clubismos à parte!


O filme é ritmado, enérgico, e só peca por levar as negociações à exaustão, fazendo com que a plateia possa senti-lo como muito longo (e não o é, o filme tem pouco mais de hora e meia). Fica também uma réstia de esperança, até ao fim, que nos dêem um bocadinho mais de Eusébio, mas, dada a época, o jovem jogador era ainda  um rapaz muito pacato e simples, com uma timidez e ingenuidade que Igor Regalla capta na perfeição - o mesmo acontece com alguns olhares e sorrisos que facilmente nos lembram o protagonista.

O elenco é imenso e está recheado de boas surpresas: Igor Regalla, Miguel Borges, Dinis Gomes, Vítor Norte, Fernando Luís, JP Simões, Paulo Furtado, Pedro Inês, Afonso Lagarto, Almeno Gonçalves, Álvaro Correia, Lídia Franco, Henrique Feist, Ana Bustorff, Miguel Nunes, Maria Emília Correia, Rui Morisson, José Raposo, Marco Delgado, Bruna Quintas, Teresa Madruga, Bruno Cabrerizo, António Nipita, António Simão, Josefina Massango, Luís Lucas, Marcello Urgeghe, entre outros. Todos com interpretações memoráveis.


Ruth leva o nascimento da lenda para a tela do cinema e revela-se irresistível. António Pinhão Botelho pode continuar a contar-nos histórias destas que nós vamos continuar a adorar descobrir mais da nossa História.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Sugestão da Semana #320

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana recomenda Soldado Milhões, um bom filme de guerra português que nos ensina mais qualquer coisa sobre a nossa História. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme pode ser lida aqui.

SOLDADO MILHÕES


Ficha Técnica:
Título Original: Soldado Milhões
Realizadores: Gonçalo Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa
Actores: João Arrais, Miguel BorgesRaimundo Cosme, Isac Graça, Tiago Teotónio Pereira, Ivo Canelas, Graciano DiasNuno PardalAntónio Pedro Cerdeira, Lúcia Moniz
Género: Biografia, Guerra, História
Classificação: M/12
Duração: 85 minutos

sábado, 7 de abril de 2018

Crítica: Soldado Milhões (2018)

"Tu és Milhais, mas vales Milhões!" 
 
*6.5/10*

Não há ainda, em Portugal, muitos filmes que contem parte da nossa História. Sobre a intervenção portuguesa na Primeira Guerra Mundial, Soldado Milhões chega para contar os feitos de um homem que muito fez e que, actualmente, pouca gente conhece.

Aníbal Augusto Milhais (João Arrais) é um entre tantos soldados enviados para a Flandres durante a Primeira Guerra Mundial. Na Batalha de La Lys, contrariando ordens superiores, enfrenta sozinho sucessivas ofensivas alemãs de maneira a garantir a retirada dos companheiros. A sua arma – Luisinha – e um amuleto da sorte oferecido pela sua amada são os seus maiores escudos no campo de batalha. No ano em que se assinala o centenário da Primeira Guerra Mundial, acompanhamos o percurso do soldado Milhais, que valia milhões, através das suas memórias da guerra.


Gonçalo Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa dão uma lição de História aos portugueses. A partir de factos reais, constroem parte da vida de Aníbal Milhais, onde se denota o bom trabalho de pesquisa da equipa, em especial nos momentos passados na guerra. E é pena não terem ficado por aí apenas. Paralelamente, os realizadores mostram a vida do protagonista mais velho, com a família, em especial a relação com a filha Adelaide. Percebo o propósito de tornar mais humano, mas também melodramático, este filme de guerra com a opção de explorar a relação do soldado com a filha. Miguel Borges está muito bem, mas a história em si, em que um lobo surge como o inimigo em tempos de paz, não acrescenta nada.

As sequências de guerra, por outro lado, são bem conseguidas, mais ainda tendo em conta os recursos limitados que o cinema português tem. Não vemos grandes multidões, mas vemos o nervosismo, a ansiedade, o medo que espreita do outro lado das trincheiras, ao mesmo tempo que o companheirismo assume um papel muito importante.


Os quatro inseparáveis - Milhais, Malha-Vacas, Sabugal e Penacova - estão juntos para tudo, apoiam-se e partilham tristezas e as pequenas alegrias. Cada um com os seus fantasmas, cativam e criam empatia com a plateia, sem esforço. Os quatro jovens actores, João ArraisRaimundo Cosme, Isac Graça e Tiago Teotónio Pereira - mostram-se à altura das personagens, com uma maturidade surpreendente. Quatro apostas fortes na representação em português, uns já habituados às lides do cinema, outros mais associados à televisão, mas os quatro a mostrar que ali há muito talento. Ainda de destacar é a presença de Ivo Canelas, o implacável, mas tão humano como os restantes, Capitão Ribeiro de Carvalho.

O retrato de Aníbal Milhais é construído sem cair em estereótipos. Apesar da simplicidade, de ser analfabeto e muito religioso, ele é um homem de muito carácter, coragem e fidelidade. Um soldado que veio do povo, passou dificuldades, mas conquistou a mais alta condecoração militar portuguesa.


É de dar graças pela coragem de trazer a História portuguesa para o grande ecrã, numa homenagem a um herói nacional, na comemoração dos 100 anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Como o seu comandante disse: "Tu és Milhais, mas vales Milhões!" e finalmente Portugal poderá perceber o porquê numa sala de cinema.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Doclisboa'14: Pára-me de Repente o Pensamento (2014)

*8.5/10*

Jorge Pelicano (que já venceu o festival com o documentário Pare, Escute e Olhe) trouxe à Competição Portuguesa de Longas provavelmente o filme mais envolvente e poderoso de todo o Doclisboa'14. Em Pára-me de Repente o Pensamento, entramos numa viagem ao Centro Hospitalar Conde Ferreira, um hospital psiquiátrico no Porto, e partilhamos momentos com os seus doentes, que vagueiam pelos corredores entre cafés e cigarros, terapias que apelam aos sentidos e às emoções e rotinas que os puxam para a realidade. Do mundo exterior, chegamos nós, que assistimos, e o actor Miguel Borges, que ali procura a sua personagem para uma peça de teatro de comemoração dos 131 anos do Hospital, inaugurado a 24 de Março de 1883.


Nos primeiros minutos, preparamo-nos para entrar no Conde Ferreira, vemos os utentes e a sua rotina e conhecemos desde logo alguns personagens. Somos, para já, meros observadores: dos gestos, das palavras. O Sr. Abreu e o Alberto começam logo por nos conquistar e irão acompanhar-nos nesta visita. A eles juntar-se-ão outros utentes do Hospital: Zé Pedro, Joaquim Carvalho, Rosa Guedes e Torres.

A chegada de Miguel Borges torna-nos mais activos em Pára-me de Repente o Pensamento. Depressa damos por nós como parte integrante daquele local, partilhando dramas, amores e terapias. Tal como Miguel, vamos entrando no íntimo dos doentes, escutá-los e compreendê-los, sem preconceitos. E Jorge Pelicano sabe bem como nos aproximar de realidades distantes, sabe como dar um murro no estômago ao espectador, que, inevitavelmente, irá olhar com outros olhos para os doentes psiquiátricos - Miguel Borges será a personificação desse entendimento, dessa compreensão. O actor observa, questiona, sem nunca emitir juízos de valor, ao mesmo tempo que procura também ali a inspiração para escrever uma peça de teatro.

A excelente montagem do documentário contribui em muito para o envolvimento do público, bem como a realização rica em planos intimistas e curiosos (até espreitamos pela fechadura). Há uma enorme atenção aos pormenores e aos gestos repetitivos. Cafés, cigarros, moedas e a esperança depositada no euromilhões. A certo momento, Miguel pergunta a um dos doentes do Conde Ferreira: "O que é que fazias com tanto dinheiro?". A resposta parece ser simples e bem humorada: "Ficava mais tolo do que sou". Aí está um dos bons exemplos do que vamos encontrar neste filme: sorrisos, no meio de uma realidade dura que não deveria estar assim tão distante.


E vamos perder-nos entre conversas profundas ou outras extremamente divertidas - que seguimos, atentos -, mas todas elas tocantes. Tudo enquanto Miguel Borges prepara o seu papel para a peça de teatro do Hospital, em que encarna o poeta Ângelo de Lima, que ali esteve internado, e se inspira para futuros projectos. O actor quer encontrar a melhor forma de interpretar o poema que dá título ao documentário, Pára-me de Repente o Pensamento, e ultrapassa todos os seus limites para o conseguir perante o espanto do espectador e dos utentes.

E entre ensaios e preparação da personagem, alguém diz a Miguel: "Nunca tive ninguém que me inspirasse tanto". Eis a mútua satisfação e entreajuda entre actor e doentes e, muito possivelmente, uma das experiências mais marcantes da vida do actor.

Damos de caras com o desespero de alguns, com a dor, mas também com a esperança, a amizade e o amor. Depois de Pára-me de Repente o Pensamento não seremos os mesmos e Miguel também não. A magia do plano final é um culminar em beleza de um trabalho que fazia falta e que devia chegar a todos.