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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Crítica: Democracia em Vertigem / The Edge of Democracy (2019)

"Eu e a Democracia brasileira temos quase a mesma idade..."
Petra Costa


*8/10*

Petra Costa já deu provas no cinema documental - Olmo e a Gaivota, de 2015, será o título mais sonante por terras lusas - e arrisca tudo com o seu mais recente Democracia em Vertigem, que surge num dos momentos mais críticos do Brasil. O filme tem o selo Netflix, pode ser visto no serviço de streaming e teve estreia no IndieLisboa 2019.

O documentário analisa um dos períodos mais dramáticos da história do Brasil, no contexto da actual crise democrática. Com um acesso sem precedentes a vários líderes nacionais passados e presentes, incluindo Dilma Rousseff e Lula da Silva, em combinação com relatos sobre o passado político e industrial complexo da sua própria família, a cineasta Petra Costa traça a ascensão e queda destes dirigentes e da nação tragicamente polarizada que resultou dos escombros. 


Petra Costa realiza e é igualmente a narradora de Democracia em Vertigem. A intimidade que coloca na sua própria participação no filme torna tudo mais pessoal e pode ser vista por muitos como subjectiva e imparcial. Contudo, no decorrer da longa-metragem percebemos as razões desta opção um pouco polémica: a narradora e a Democracia nasceram na mesma época. Cresceram juntas e têm os mesmos antepassados. Com a democracia ameaçada também Petra vê o seu futuro condicionado. A Democracia é uma mulher num país que voltou a ser machista e extremista, onde o fascismo foi espreitando, camuflado, ao longo dos anos e nunca se enterraram os fantasmas da ditadura militar - e, ainda há três anos, Jair Bolsonaro invocou um deles no parlamento...


Apesar da subjectividade do documentário, Democracia em Vertigem insiste em mostrar-nos os dois lados em que o Brasil se dividiu, qual muro imaginário. Dilma e Lula são filmados mais intimamente, mas também Jair Bolsonaro falou com a realizadora, ainda antes de ser eleito Presidente do Brasil.

É-nos feito um interessante resumo da História do país, e a divisão actual esquerda/direita é-nos apresentada com o exemplo da própria realizadora. Famílias dividem-se por causa da política, novamente. Será que vale a pena? A luta devia ser pela Democracia, unidos. Essa parece-me a principal mensagem de Petra Costa.


A realizadora filma manifestações de apoio à esquerda e à direita, apresenta detalhes da operação lava-jacto - não falta, claro, Sérgio Moro -, o impeachment de Dilma, a prisão de Lula. E, no final, entre a decadência e a desilusão de ver um país em crise, com a liberdade ameaçada, muito passará a fazer um sentido perverso à luz do que sabemos da actualidade política brasileira. 

Democracia em Vertigem é sinónimo da coragem de Petra Costa em confrontar o Brasil e o Mundo com a sua assustadora realidade.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Sugestão da Semana #227

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Olmo e a Gaivota, de Petra Costa e Lea Glob. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme pode ser lida aqui.

OLMO E A GAIVOTA


Ficha Técnica:
Título Original: Olmo & the Seagull
Realizadoras: Petra Costa e Lea Glob
Actores: Olivia Corsini, Serge Nicolai
Género: Documentário, Drama, Família
Classificação: M/12
Duração: 82 minutos

sábado, 18 de junho de 2016

Crítica: Olmo e a Gaivota (2015)

*7.5/10*


Olmo e a Gaivota é uma surpreendente vertigem de emoções e sentimentos, num exercício corajoso e arriscado de desconstrução da maternidade.

​​Nesta docuficção realizada por Petra Costa e Lea Glob, os actores Olivia Corsini e Serge Nicolai do Théâtre du Soleil (Paris) descobrem que Olivia está grávida quando estão a preparar a peça A Gaivota de Anton Tchekov.​ ​A actriz confronta-se com a ausência de poder sobre o seu próprio corpo e o casal tem de aprender a conviver com a nova realidade.

As fronteiras entre realidade e ficção não se conseguem delimitar. O argumento funde-se com a vida real do casal protagonista e, enquanto os dois actores vivem a gravidez do primeiro filho, seguem também orientações das realizadoras neste Olmo e A Gaivota. E este filme é dos quatro, um registo de realidade e ficção de um momento único da vida do casal. São explorados e exteriorizados sentimentos fortes e difíceis de lidar.


Há questões que surgem: e quando a família interfere com a vida profissional (e vice-versa)? Como aceitar as inesperadas reviravoltas de uma gravidez que se adivinhava tranquila? E todas as mudanças hormonais, de humor, as inseguranças e medos?

As realizadoras fazem-nos mergulhar num turbilhão de emoções, neste filme extremamente sensorial. Os actores entregam-se a dobrar, numa tentativa de encenação da sua própria vida. Olmo e a Gaivota é uma experiência original, intensa e sentida.