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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Crítica: A Rapariga Dinamarquesa / The Danish Girl (2015)

*5.5/10*

A Rapariga Dinamarquesa traz novamente para a ribalta o oscarizado Eddie Redmayne, que brilha, acompanhado por Alicia Vikander, um talento em ascensão. Tom Hooper não se esforça muito na realização e, no final, sentimos que, sem os actores nem valeria a pena assistir ao filme.


A história de amor verídica do artista dinamarquês Einar Wegener (Redmayne) e da sua esposa, a pintora Gerda Gottlieb (Alicia Vikander), numa viagem pioneira para se tornar uma mulher, nos anos 20 do século XX. Wegener viajou para a Alemanha em 1930 para se submeter a uma cirurgia em fase experimental.

Trazer para o cinema a história daquela que se pensa ser a primeira operação de mudança de sexo de sempre é, logo à partida, muito desafiante, mais ainda quando se sabe que é Redmayne que assume as rédeas da personagem transgénero.


Na primeira metade do filme há fluidez no desenrolar da personalidade de Einar, na construção da sua identidade como Lili e na relação com Gerda, mas este ritmo inicial cativante perde-se e toda a narrativa se torna atabalhoada, fugindo à veracidade do caso que relata. Mesmo tratando-se de ficção, há pressa em concluir o filme, alguns clichés tornam-se inevitáveis, bem como a previsibilidade da acção.

Ora, em contraste com o fraco trabalho de realização e de argumento estão as interpretações. Redmayne e Vikander entregam-se aos personagens sem medo nem pudor, com uma intimidade comovente. Os gestos, o olhar, os movimentos e a sensibilidade nas palavras, o sofrimento enclausurado que quer sair para sempre, custe o que custar. Enquanto Einar ou Lili, o protagonista sofre, experimenta, sabe que tem o corpo errado e, a cada pequena mudança, mais mulher se sente. Por seu lado, Gerda, companheira de todos os momentos, efectivamente a responsável pela tomada de consciência da sexualidade do marido, sofre com ele e por ele. Vê-se obrigada a abdicar do amor da sua vida pela felicidade dele - haverá maior prova de amor?


A história de Gerda e Lili merecia muito mais, mas apenas os actores deram tudo de si. O realizador deixou-se levar por eles e pouco ou nada mais fez, para além de observar e filmar sem grande empenho as suas interpretações arrebatadoras.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Crítica: Os Miseráveis / Les Misérables (2012)

 "I had a dream my life would be so different from this hell I'm living!" 
Fantine
*6/10*

Muitas adaptações depois, foi Tom Hooper quem decidiu levar Os Miseráveis, de Victor Hugo, uma vez mais, para a grande tela. Depois de O Discurso do Rei lhe ter valido o Oscar de Melhor Realizador, parece que não ponderou que este musical poderia ser “areia demais para o seu camião”.

Duas horas e meia de canções depois, onde as poucas falas não cantadas quase se contam pelos dedos, o desapontamento inunda a sala de cinema. Uma longa-metragem com a dimensão de Os Miseráveis merecia um tratamento à altura, ainda mais quando estamos perante um elenco de peso, onde os grandes momentos são-nos proporcionados, acima de tudo, por Anne Hathaway.

Com a França do século XIX como pano de fundo, a longa-metragem musical conta uma história de sonhos desfeitos, paixão, sacrifício e redenção, num testemunho intemporal da sobrevivência do espírito humano. Jean Valjean (Hugh Jackman) é um ex-prisioneiro perseguido durante décadas pelo cruel polícia Javert (Russell Crowe), depois de ter desrespeitado a sua liberdade condicional. Quando Valjean aceita cuidar de Cosette (Isabelle Allen/Amanda Seyfried), a filha da sua operária Fantine (Anne Hathaway), as suas vidas mudam para sempre.
Uma obra tantas vezes trabalhada é um desafio e tanto para qualquer realizador, mesmo para o oscarizado Hooper. O argumento não é extraordinário, mas há que fazer por torná-lo interessante e cativante para o espectador. Errada foi a opção de quase todas as falas serem cantadas. O que noutros casos poderia resultar, em Os Miseráveis tanta canção apenas se traduz numa espécie de cansaço e distracção na plateia. Mais diálogos e menos “cantigas” seria uma opção mais viável e certeira.

Os verdadeiros grandes momentos do filme são-nos oferecidos por Anne Hathaway que prova a talentosa actriz (e cantora) que ainda não havia demonstrado ser. Em 2012, O Cavaleiro das Trevas Renasce já nos revelou alguma da sua versatilidade enquanto Catwoman, mas, aqui, Hathaway prova uma sensibilidade que emociona qualquer um. Em todas as cenas onde entra, a actriz enche o ecrã com a sua forte e corajosa Fantine, e atinge o ponto alto de todo Os Miseráveis quando interpreta o tema I Dreamed a Dream de corpo e alma.
O restante elenco não brilha especialmente. Hugh Jackman, inicialmente irreconhecível, encarna de forma competente Jean Valjean, Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen foram óptimas escolhas para o casal mais divertido deste musical tão dramático, e oferecem-nos momentos leves e de algumas gargalhadas, tal como já nos têm acostumado. Amanda Seyfried e Eddie Redmayne, o par romântico da longa-metragem, não se destacam especialmente, mas valem-lhes as vozes agradáveis que possuem. Já Samantha Barks proporciona-nos bons momentos, assim como os estreantes Daniel Huttlestone e Isabelle Allen que conseguem enternecer e cativar a atenção da plateia. Por seu lado, Russell Crowe, apesar do excelente actor que é, revelou-se um erro de casting, tanto pelo péssimo cantor que se revelou, pelo menos para filmes musicais, a que acresce o tom forçado que coloca na sua personagem.

Tecnicamente não há muito a destacar, para lá de uma boa fotografia, a cargo de Danny Cohen. Hooper parece ter ambicionado tornar Os Miseráveis num grandioso espectáculo e descurou tantos aspectos verdadeiramente importantes para o conseguir. Argumentativamente, poucas histórias estão bem desenvolvidas, carecem de explicações, de profundidade, de envolvimento.

Os Miseráveis de Tom Hooper é fraco, ficando muito aquém do esperado. Há momentos intensos, mas quase todos nos são presenteados pela estrela que dá algum brilho à longa-metragem: a Fantine de Anne Hathaway.