segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Sugestão da Semana #208

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Trumbo, que valeu a Bryan Cranston uma nomeação para os Oscars. O filme, apesar de não sair do patamar do mediano, revela-se interessante na medida em que dá a conhecer um pouco melhor um difícil momento para os argumentistas de Hollywood nos anos 40 e 50.

TRUMBO


Ficha Técnica:
Título Original: Trumbo
Realizador: Jay Roach
Actores: Bryan Cranston, Diane Lane, Helen MirrenLouis C.K., Elle Fanning, John Goodman, David Maldonado, David James ElliottRoger BartChristian BerkelDean O'Gorman
Género: Biografia, Drama
Classificação: M/12
Duração: 124 minutos

Balada de um Batráquio vence Urso de Ouro em Berlim

É portuguesa, tem 23 anos e é a mais jovem realizadora de sempre a vencer o Urso de Ouro para melhor curta metragem no Festival de Cinema de Berlim. Leonor Teles triunfou com Balada de um Batráquio.


Depois do seu primeiro filme, Rhoma Acans - que vimos no IndieLisboa'13 e gostámos -, a realizadora continua a explorar as suas origens ciganas no cinema. Em Balada de um Batráquio, Leonor debruça-se sobre a xenofobia que assenta na tradição portuguesa de colocar sapos de loiça à entrada de estabelecimentos comerciais para que pessoas de etnia cigana não entrem. "Através da minha história pessoal pretendi chamar a atenção para um comportamento crescente que se aproveita da crença e da superstição como forma de menosprezar e distanciar outros seres humanos", explica a realizadora.

Foi com o seu documentário interventivo e social que Leonor Teles conquistou a Berlinale. Por cá, resta-nos esperar para assistirmos a esta Balada de um Batráquio.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Estreias da Semana #208

Cinco filmes chegaram às salas de cinema esta Quinta-feira. Mustang, Trumbo Zoolander No. 2 estão entre as estreias da semana.

A Floresta (2016)
The Forest
Sara (Natalie Dormer) viaja até ao Japão em busca da sua irmã gémea desaparecida. A procura acaba por levá-la até à floresta de Aokigahara, um local tradicionalmente usado por suicidas que pretendem pôr fim à vida. Apesar dos avisos para se manter nos trilhos, Sara acaba por entrar nas profundezas da floresta onde é confrontada com as almas atormentadas dos mortos que perseguem quem quer que se atreva a cruzar os seus caminhos.

Mustang (2015)
No início do verão, numa aldeia no norte da Turquia, Lale e as suas quatro irmãs terminam as aulas e divertem-se na praia com colegas de escola. O seu comportamento, apesar de inocente, provoca um escândalo de consequências inesperadas. Órfãs de pai e mãe, as cinco irmãs estão à guarda da avó conservadora e à mercê dos caprichos de um tio retrógrado. A casa da família transforma-se lentamente numa prisão, a escola é substituída por aulas de tarefas domésticas e culinária, e os seus casamentos começam a ser arranjados. Movidas pelo mesmo desejo de liberdade, as cinco irmãs procuram por todos os meios contornar as regras que lhes são impostas.

O Julgamento: Fronteira de Esperança (2014)
Sadilishteto
Numa pequena e pobre aldeia na Bulgária, localizada perto da fronteira com a Turquia e a Grécia, Mityo perde o emprego vê-se forçado a trabalhar para o seu antigo comandante de forma a manter a casa e pagar os empréstimos. A sua missão é contrabandear imigrantes sírios através da fronteira Búlgaro-Turca para a União Europeia.

Trumbo (2015)
A carreira de sucesso do argumentista Dalton Trumbo (Bryan Cranston) durante os anos 40 termina de forma abrupta quando ele e outras personalidades de Hollywood são colocadas na Lista Negra devido às suas crenças políticas. Trumbo narra a história da sua luta contra o governo dos EUA e os chefes dos estúdios.

Zoolander No. 2 (2016)
A última vez que vimos Derek Zoolander (Ben Stiller) e Hansel (Owen Wilson), o duo divertia-se no Centro Derek Zoolander Para Crianças Que Não Sabem Ler Bem E Querem Aprender A Fazer Outras Coisas Bem Também e Mugatu (Will Ferrell) estava atrás das grades. Mas uma catástrofe força o duo ao isolamento. 15 anos depois, Derek e Hansel seguiram caminhos diferentes e permanecem bem longe do resto do mundo. É então que lhes chega um convite especial para participarem num grande evento de moda em Roma. Derek e Hansel conhecem os excêntricos designers que dominam a moda actual e depressa percebem como tudo mudou drasticamente.

Crítica: Mad Max: Estrada da Fúria / Mad Max: Fury Road (2015)

"If I'm gonna die, I'm gonna die historic on the Fury Road!"

Nux
*8/10*

George Miller está aí para as curvas. Mad Max: Estrada da Fúria veio prová-lo. A relação que une o cineasta à personagem data de 1979, com Mel Gibson a encarnar o protagonista em Mad Max - As Motos da Morte. Daí em diante, surgiu uma saga conduzida por Miller, com outro filme em 1981, que culminou com o terceiro em 1985. Ora 30 anos depois, o herói regressou aos ecrãs pela mão do seu criador.

Tom Hardy é quem dá agora corpo a Max, mas a energia e o ambiente tresloucado criado por Miller em 1979 mantém-se, com uma modernidade avassaladora, que em nada faz esquecer as origens da saga.


Temporalmente, não há ligação entre o filme de 2015 e os anteriores (mas os fãs da saga vão encontrar algumas referências). Em Mad Max: Estrada da Fúria, Max acredita que a melhor forma de sobreviver é não depender de mais ninguém para além de si próprio. Ainda assim, acaba por se juntar a um grupo de rebeldes que atravessa a Wasteland numa máquina de guerra conduzida por uma Imperatriz de elite, Furiosa (Charlize Theron). Este bando está em fuga de uma cidadela tiranizada por Immortan Joe, a quem algo insubstituível foi roubado. Exasperado com a sua perda, o Senhor da Guerra reúne o seu gang e inicia uma perseguição aos rebeldes e uma feroz Guerra na Estrada.

Um cenário pós-apocalíptico australiano absorve-nos para um deserto onde não queremos viver: sem lei, uma terra infértil, onde reina a fome, a sede e a submissão a um vilão demoníaco. A história ganha ritmo com a fuga de um grupo de rebeldes - todas mulheres -, que se insurgem contra o temível ditador. No início da perseguição, Max junta-se a elas, e perde muito do protagonismo para a sua líder, Furiosa. Muitos apelidaram Mad Max: Estrada da Fúria de um filme feminista, devido ao grupo de "heroínas". Eu considero-o antes um filme anti-machista. Mulheres oprimidas querem apenas ser livres.

Mas Mad Max é, principalmente, técnico. A fantástica realização proporciona-nos um espectáculo visual assombroso, o som e a montagem dinâmica realçam a acção e o suspense na medida certa sem frenesim desnecessário, a caracterização é eficaz, quase a funcionar como uma forma simples de distinguir o lado bom do mau. Ao mesmo tempo, a opção de Miller pela fotografia repleta de cor e a direcção artística a proporcionar-nos imagens cheias de beleza no meio da decadência, num corajoso contraste, demonstram a sua forte faceta autoral.


Nas interpretações, Tom Hardy é o nosso herói solitário sem nada a perder que se junta a quem precisa da sua ajuda. Um Max mais comedido, mas com o mesmo sentido de justiça. Charlize Theron usa do seu lado mais obscuro ao vestir a pele de Furiosa e é quem mais se destaca, numa interpretação poderosa de uma mulher pronta para a guerra, cansada de ser subjugada. Ainda de realçar é a interpretação segura de Nicholas Hoult como Nux.

As cores fortes pintam a desolação deste mundo apocalíptico dominado por homens demoníacos. Mad Max regressou ao grande ecrã em grande forma e, desta vez, até é ofuscado pelo brilho das mulheres de armas que lutam pela dignidade dos seus. Uma surpresa cheia de acção, girl power, com George Miller ao comando a mostrar como, fiel ao original q.b., Mad Max também se sabe actualizar.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Sugestão da Semana #207

Das estreias da passada Quinta-feira, a escolha é imensa e variada. A Sugestão da Semana destaca o filme de super-heróis que está a surpreender o público: Deadpool. E, já agora, nada como espreitar também o ciclo de Andrei Tarkovsky.

DEADPOOL


Ficha Técnica:
Título Original: Deadpool
Realizador: Tim Miller
Actores: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, T.J. Miller, Gina Carano, Ed Skrein, Brianna Hildebrand, Stefan Kapičić
Género: Acção, Aventura, Comédia
Classificação: M/16
Duração: 108 minutos

domingo, 14 de fevereiro de 2016

BAFTA Awards 2016: Os vencedores

Os BAFTA estão a ser anunciados esta noite na Royal Opera House de Londres. Conhece aqui os vencedores.


Melhor Filme
The Big Short (A Queda de Wall Street)
Bridge of Spies (A Ponte dos Espiões)
Carol
The Revenant - O Renascido
Spotlight (O Caso Spotlight)

Melhor Filme Britânico
45 Years (45 Anos)
Amy
Brooklyn
The Danish Girl (A Rapariga Dinamarquesa)
Ex Machina
The Lobster

Melhor Primeira Obra de um Realizador, Produtor ou Argumentista Britânico
Alex Garland (realizador) - Ex Machina
Debbie Tucker Green (argumentista/realizador) - Second Coming
Naji Abu Nowar (argumentista/realizador) & Rupert Lloyd (produtor) - Theeb
Sean McAllister (realizador/produtor) & Elhum Shakerifar (produtor) - A Syrian Love Story
Stephen Fingleton (argumentista/realizador) - The Survivalist

Melhor Filme Estrangeiro
The Assassin
Force Majeure (Força Maior)
Theeb
Timbuktu
Wild Tales (Relatos Selvagens)

Melhor Documentário
Amy
Cartel Land
He Named Me Malala
Listen to Me Marlon
Sherpa

Melhor Filme de Animação
Inside Out (Divertida-Mente)
Minions (Mínimos)
Shaun the Sheep Movie (A Ovelha Choné - O Filme)

Melhor Realizador
Todd Haynes - Carol
Alejandro González Iñárritu - The Revenant - O Renascido
Adam McKay - The Big Short (A Queda de Wall Street)
Ridley Scott - The Martian (Perdido em Marte)
Steven Spielberg - Bridge of Spies (A Ponte dos Espiões)

Melhor Argumento Original
Bridge of Spies (A Ponte dos Espiões)
Ex Machina
The Hateful Eight (Os Oito Odiados)
Inside Out (Divertida-Mente)
Spotlight (O Caso Spotlight)

Melhor Argumento Adaptado
The Big Short (A Queda de Wall Street)
Brooklyn
Carol
Room (Quarto)
Steve Jobs

Melhor Actor Principal
Bryan Cranston - Trumbo
Matt Damon - The Martian (Perdido em Marte)
Leonardo DiCaprio - The Revenant - O Renascido
Michael Fassbender - Steve Jobs
Eddie Redmayne - The Danish Girl (A Rapariga Dinamarquesa)

Melhor Actriz Principal
Cate Blanchett - Carol
Brie Larson - Room (Quarto)
Saoirse Ronan - Brooklyn
Maggie Smith - The Lady in the Van (A Senhora da Furgoneta)
Alicia Vikander - The Danish Girl (A Rapariga Dinamarquesa)

Melhor Actor Secundário
Christian Bale - The Big Short (A Queda de Wall Street)
Benicio del Toro - Sicario - Infiltrado
Idris Elba - Beasts of No Nation
Mark Ruffalo - Spotlight (O Caso Spotlight)
Mark Rylance - Bridge of Spies (A Ponte dos Espiões)

Melhor Actriz Secundária
Jennifer Jason Leigh - The Hateful Eight (Os Oito Odiados)
Rooney Mara - Carol
Alicia Vikander - Ex Machina
Julie Walters - Brooklyn
Kate Winslet - Steve Jobs

Melhor Banda Sonora Original
Bridge of Spies (A Ponte dos Espiões)
The Hateful Eight (Os Oito Odiados)
The Revenant - O Renascido
Sicario - Infiltrado
Star Wars: The Force Awakens (Star Wars: O Despertar da Força)

Melhor Fotografia
Bridge of Spies (A Ponte dos Espiões)
Carol
Mad Max: Fury Road (Mad Max - Estrada de Fúria)
The Revenant - O Renascido
Sicario - Infiltrado

Melhor Montagem
The Big Short (A Queda de Wall Street)
Bridge of Spies (A Ponte dos Espiões)
Mad Max: Fury Road (Mad Max - Estrada de Fúria)
The Martian (Perdido em Marte)
The Revenant - O Renascido

Melhor Design de Produção
Bridge of Spies (A Ponte dos Espiões)
Carol
Mad Max: Fury Road (Mad Max - Estrada de Fúria)
The Martian (Perdido em Marte)
Star Wars: The Force Awakens (Star Wars: O Despertar da Força)

Melhor Guarda-roupa
Brooklyn
Carol
Cinderella (Cinderela)
The Danish Girl (A Rapariga Dinamarquesa)
Mad Max: Fury Road (Mad Max - Estrada de Fúria)

Melhor Maquilhagem e Cabelo
Brooklyn
Carol
The Danish Girl (A Rapariga Dinamarquesa)
Mad Max: Fury Road (Mad Max - Estrada de Fúria)
The Revenant - O Renascido

Melhor Som
Bridge of Spies (A Ponte dos Espiões)
Mad Max: Fury Road (Mad Max - Estrada de Fúria)
The Martian (Perdido em Marte)
The Revenant - O Renascido
Star Wars: The Force Awakens (Star Wars: O Despertar da Força)

Melhores Efeitos Visuais
Ant-Man (Homem-Formiga)
Ex Machina
Mad Max: Fury Road (Mad Max - Estrada de Fúria)
The Martian (Perdido em Marte)
Star Wars: The Force Awakens (Star Wars: O Despertar da Força)

Melhor Curta de Animação Britânica
Edmond
Manoman
Prologue

Melhor Curta-metragem Britânica
Elephant
Mining Poems or Odes
Operator
Over
Samuel-613

Revelação do Ano
John Boyega
Taron Egerton
Dakota Johnson
Brie Larson
Bel Powley

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Crítica: A Ponte dos Espiões / Bridge of Spies (2015)

"We have to have the conversations our governments can't."
James Donovan
*7.5/10*

Steven Spielberg é excelente a filmar históricos. Se ainda alguém tinha dúvidas, A Ponte dos Espiões chegou para as dissipar de vez. O realizador trouxe agora para o grande ecrã a Guerra Fria e uma história pouco conhecida. Espiões e advogados, Estados Unidos e Rússia, Spielberg conta-nos tudo.

Durante a Guerra Fria, James Donovan (Tom Hanks), um advogado de Brooklyn, é recrutado pela CIA para negociar a troca de um espião russo capturado, por um piloto americano abatido enquanto sobrevoava território soviético.

Spielberg mune-se dos actores ideais, e dá-nos mais uma lição de história, com personagens bem exploradas e um suspense de invejar. Mais ou menos conhecedores desta época, é impossível tirar os olhos do ecrã e o tempo - quase 2h30 de filme - passa a voar.


A montagem é inteligente, oferecendo-nos um mistério ritmado, potenciado mais ainda pela direcção de fotografia - sempre ao estilo de Spielberg -, que joga com luz e sombra de forma brilhante. As negociações que pareciam ser improváveis (ou impossíveis) entre americanos e russos fazem-nos temer por Donovan e mesmo pelo espião russo. Afinal, poucos são como Spielberg a fazer-nos compreender as personagens e ficar do seu lado.

A reconstituição histórica - óptimo trabalho da direcção artística - tem momentos inesquecíveis como a edificação do muro de Berlim e a violência do lado oriental e ocidental do mesmo. A desconfiança paira nas sombras, nas ruas geladas e inseguras, nas salas de negociação, sempre acompanhada pela banda sonora de Thomas Newman, a tornar o ambiente ainda mais desconcertante. Também o trabalho sonoro intensifica as emoções da plateia.


Tom Hanks é sempre uma mais-valia no elenco. Como James Donovan o actor mostra-se muito à vontade e competente no seu tipo de personagem: seguro e de fácil empatia. Já o espião russo, Rudolf Abel, é interpretado por Mark Rylance. Um desempenho comedido, de ar frágil, mas com uma presença muito forte, capaz de comover o público.

Em A Ponte dos Espiões, Spielberg trata com respeito e zelo mais um importante momento histórico, filma-o como ninguém e arrebata-nos novamente com a sua mestria cinematográfica.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Crítica: Quarto / Room (2015)

"When I was small, I only knew small things. But now I'm five, I know everything!"
Jack
*5/10*

Querem arruinar uma boa história? Quarto ensina-vos como. Nos cativantes primeiros 50 minutos, a longa-metragem esgota totalmente a ideia que tinha ainda muito por explorar e transforma-se em mais um filme sentimental, a chamar pela lágrima fácil.

São conhecidos alguns casos verídicos muito semelhantes ao de Quarto. Jovens raptadas anos a fio e escondidas em divisões desconhecidas da casa do agressor, que aparentemente leva uma vida normal. Muitos anos depois, uma desconfiança de vizinhos leva à libertação das vítimas que, em alguns dos casos, deram à luz, nesse período de reclusão, filhos do raptor.

Quarto conta uma história semelhante. Jack tem cinco anos e vive com Ma, a sua mãe. Ma dedica-se a manter Jack feliz e seguro, alimentando-o, dando-lhe calor e amor e fazendo coisas normais como jogar jogos e contar histórias. No entanto, as suas vidas estão confinadas a um pequeno quarto sem janelas - apenas uma clarabóia - onde Ma criou todo um universo para garantir que, mesmo neste ambiente reduzido, Jack é capaz de viver uma vida completa e gratificante. Contudo, à medida que a curiosidade da criança cresce e a resiliência da mãe atinge um ponto de ruptura, os dois elaboram um arriscado plano de fuga que, em última análise, os vai colocar perante algo que pode vir a ser ainda mais assustador: o mundo real.


A premissa é um autêntico catalisador de atenções. A ideia de poder filmar do ponto de vista das vítimas - apenas e só - faz-nos considerar as imensas possibilidades que o realizador, Lenny Abrahamson, tem à disposição. E, afinal, utiliza-as com competência enquanto a acção se resume ao espaço fechado do quarto. A câmara irrequieta é como o nosso olhar de "mosca", a descobrir o pequeno mundo de Jack. O medo de Ma - e de Jack também -, as tentativas desesperadas de elaborar um plano de fuga eficaz, as histórias fantasiosas com que tenta justificar ao filho as perguntas difíceis, tudo está bem espelhado nas opções do realizador.

Contudo, quando a porta do mundo real se abre, Quarto perde toda a identidade que tinha até então e entra apenas e só no drama familiar e a adaptação - ou readaptação, para Ma - à realidade. De repente, um turbilhão de clichés toma conta do ecrã e, a redenção só chegará no final. Ao mesmo tempo, a narração do protagonista, que surge de tempos a tempos desde o início do filme, revela-se uma má opção, desnecessária. Nem tudo precisa ser dito por palavras.


Nas interpretações, Brie Larson está competente na sua personagem trágica, mas é o pequeno Jacob Tremblay que brilha verdadeiramente, numa interpretação realista, cheia de coragem, medos e muita curiosidade sobre tudo o que o rodeia - dentro e fora do quarto. A inocência da idade funde-se com a da personagem, mas, como actor, Jacob demonstra uma maturidade imensa.

Quarto quer ser demasiado e começa em alta, para se traduzir num filme mediano e quase uma desilusão. A doçura de Jack é, provavelmente, o seu ponto mais forte. Fica por satisfazer a vontade de ver explorado, até à exaustão, o quotidiano dos dois no pequeno cubículo onde a criança cresceu, e a intimidade entre mãe e filho, em tais circunstâncias. Talvez outro cineasta tenha um dia coragem para filmar algo semelhante..