sábado, 7 de maio de 2016

Crítica: Axilas (2016)

"A axila da mulher tem uma beleza misteriosamente inefável que nenhuma outra parte do corpo feminino possui"
*8/10*

Axilas, o derradeiro filme de José Fonseca e Costa, é um presente cheio de humor negro e muita personalidade. O cineasta escrevia na nota de intenções para esta longa-metragem que seria "um conto do absurdo, insólito a tal ponto que vai fazer rir a partir da matéria de que são compostos acontecimentos pelos quais se chora, embora se saiba que a morte vive dentro de nós desencadeando-se, as mais das vezes, quando por ela não se espera." As intenções cumprem-se mas com um pesar adicional, já que não se esperava que, aquando da estreia, Fonseca e Costa já não estivesse entre nós (o filme foi terminado por Paulo Milhomens). E ele faz-nos mesmo rir com as desgraças, um humor fúnebre mas inteligente e jovial.


A partir do conto homónimo do escritor brasileiro Rubem Fonseca, Axilas apresenta-nos Lázaro de Jesus (Pedro Lacerda), filho adoptado de uma senhora rica de Lisboa, a quem chama Avó (Elisa Lisboa). É ela que o apresenta ao Padrinho (André Gomes), um grande empresário que o toma como seu protegido, e a Angelina (Margarida Marinho), a mulher com quem a Avó pretende que ele se case. Mas Lázaro tem outros interesses ocultos, o mais importante dos quais é uma fixação obsessiva pelas axilas femininas. Quando vê a violinista Maria Pia (Maria da Rocha) a tocar, Lázaro apaixona-se de imediato e passa a viver em função dela, o que irá precipitar um final imprevisível.

A educação extremamente católica molda todos os acontecimentos do filme e será a responsável pelo inesperado final. A Avó, o padre, a beata ideal para casar e a confissão diária dominam a existência de Lázaro, que vê assim anulada a sua personalidade, na Lisboa dos seus pecados.


Numa primeira metade mais sombria, com um humor negro que quase nos culpa por lhe acharmos graça, as descobertas do protagonista fazem-no mudar e construir uma personalidade sua, que acompanhamos ao longo da segunda metade. Num tom mais apaixonado e enlouquecido, com um humor alegre e sarcástico, seguimos os passos de Lázaro, que, influenciado pelos segredos e fetiches do falecido avô - as axilas e o seu lado sexual - nos surpreende. A beleza e a poesia que descobre na axila feminina são o motor que desencadeia esta súbita mudança, no protagonista e na longa-metragem. Parece que vemos dois filmes num só, que se encaixam, justificam e completam.

Axilas é feito de analepses que nos fazem compreender melhor a timidez, recato e submissão de Lázaro. Ao mesmo tempo, há uma crítica social óbvia, quer aos ociosos que vivem da riqueza da família, como à ganância e falta de moral dos que se dizem religiosos. Os trocadinhos provocadores e os diálogos, que vão do mais ordinário ao mais palavroso, são outra das singularidade de Axilas.


Pedro Lacerda é irrepreensível como Lázaro, um actor que sabe usar como ninguém as expressões faciais, transmitindo tormento e dor ou ausência de arrependimento. Ele, um poeta, que é o fruto da falsidade e repreensão constante (lê Camilo, não come bolo) e sem razão.

Original, irónico e mordaz, José Fonseca e Costa deixou-nos uma despedida em grande. Axilas é triste e alegre, insólito mas cheio de verdades. Uma comédia negra bem acompanhada pela música clássica e pelas axilas da violinista, qual perdição de Lázaro.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Estreias da Semana #219

Onze novos filmes estrearam esta Quinta-feira nas salas de cinema portuguesas.

Anjos e Sombras (2016)
Exposed
A jovem professora Isabel De La Cruz surge numa fotografia que está entre as limitadas provas encontradas pelo detective Scotty Galban, durante a investigação do homicídio do seu parceiro. Ao aproximar-se da resolução do crime, Galban acredita que Isabel pode ter testemunhado o crime. A situação fica ainda mais complicada quando estranhas ocorrências afectam a religiosa Isabel depois de testemunhar um milagre.

Axilas (2016)
Lázaro de Jesus é o filho adoptado de uma senhora rica de Lisboa, a quem chama Avó. É ela que o apresenta ao Padrinho, um grande empresário que o toma como seu protegido, e a Angelina, a mulher com quem a Avó pretende que ele se case. Mas Lázaro tem outros interesses ocultos, o mais importante dos quais é uma fixação obsessiva pelas axilas femininas. Quando vê a violinista Maria Pia a tocar, Lázaro apaixona-se de imediato e passa a viver em função dela. É um amor total e sufocante, a que Maria Pia não corresponde e que irá precipitar um final imprevisível.

Janis: Little Girl Blue (2015)
Janis Joplin é uma das cantoras rock mais respeitadas e emblemáticas de todos os tempos, uma figura trágica que emocionou milhões de ouvintes e abriu novos caminhos criativos antes de sua morte em 1970, aos 27 anos. Janis: Little Blue Girl explora a história de Joplin, apresentando um retrato íntimo e perspicaz de uma artista inovadora e complexa. O documentário é narrado pela cantora Cat Power,

Mudar de Vida. José Mário Branco, vida e obra (2014)
Mudar de Vida. José Mario Branco, vida e obra é um documentário sobre a vida e obra do músico, compositor, poeta, actor, activista, cronista, produtor musical, José Mário Branco, um homem dos sete ofícios que usa as suas canções, cuja actualidade se mantém, como instrumento transformador da realidade. A rodagem começou em Abril de 2005 e durante sete anos passou por Portugal e França, por ensaios, gravações de discos, conversas e concertos. No filme, José Mário Branco fala de música, das suas convicções, da sua geração, do Estado Novo, da guerra colonial, da sua prisão e exílio. Trata-se do retrato de um homem que marcou o panorama artístico e cultural português e para quem a cantiga foi [sempre] uma arma.

Negócio das Arábias (2015)
A Hologram for the King
As culturas colidem quando um empresário americano (Tom Hanks) é enviado para a Arábia Saudita para fechar o que ele espera ser o negócio de uma vida. Perplexo com os costumes locais e frustrado pela burocracia que atrasa dia após dia a sua apresentação ao rei, ele finalmente encontra o equilíbrio com a ajuda de um motorista de táxi espertalhão (Alexander Black) e de uma bela médica saudita (Sarita Choudhury).

O Nosso Milagre (2016)
Miracles from Heaven
Na sequência de um acidente, uma jovem descobre estar milagrosamente curada da doença rara que a afligia.

Ratchet e Clank (2016)
Ratchet and Clank
Ratchet e Clank são os heróis a quem cabe a missão de impedir que o vilão Drek conclua o seu processo de "desplanetização". Ratchet é um corajoso lombax, o último da espécie, e cresceu sozinho num longínquo planeta. Clank é um pequeno e desajustado robô com mais cérebro do que músculos. Quando se deparam com uma arma perigosa capaz de destruir planetas inteiros, juntam forças com a equipa dos Rangers Galácticos. E o sonho de Ratchet pode estar prestes a concretizar-se quando finalmente conhece o seu herói, o Capitão Qwark, líder dos Rangers.

Rio Corgo (2015)
Silva, um velho vagabundo, chega, de trouxa ao ombro, a uma aldeia portuguesa isolada, onde se instala numa casa abandonada. Conhece Ana, com quem cria uma relação de amizade e iniciação. Fascinada por este homem com uma história de vida romanesca, a jovem desliza progressivamente para o seu universo imaginário, povoado de seres sobrenaturais, dos quais a figura principal é a amada e defunta Carolina. Mas Silva sofre estranhas crises que o levam inevitavelmente para o hospital, onde uma dúzia de mulheres benevolentes entram nele. Conseguirão elas salvá-lo?

Sobrevivente (2015)
Survivor
Uma funcionária do Departamento de Estado na embaixada americana em Londres é acusada de um crime que não cometeu. Forçada a fugir, tenta limpar o seu nome e impedir um ataque terrorista em grande escala previsto para Times Square durante a véspera de Ano Novo.

Tini - Depois de Violetta (2016)
Tini - El Gran Cambio de Violetta
Filme sobre uma nova fase da actriz sensação, Martina "Tini" Stoessel. Numa história que conta capítulos da vida real da estrela adolescente, Violetta deixa para trás o mundo que foi retratado na série de sucesso e embarca numa nova aventura de um verão sem fim, que a vai definir não só enquanto pessoa, mas também fazê-la emergir como uma nova artista.

Viver À Margem (2014)
Time Out of Mind
George (Richard Gere) é um homem desesperado. A vida parece ter passado por ele. Sem alguém a quem recorrer, encontra-se à deriva nas ruas de Nova Iorque. Após esgotar todas as hipóteses de encontrar uma casa, George procura refúgio no Bellevue Hospital, o maior centro de acolhimento de Manhattan para homens sem-abrigo. Num ambiente hostil e desconcertante, George torna-se amigo de outro morador do abrigo (Ben Vereen) e recupera a esperança de reparar a sua relação com a filha (Jena Malone).

quarta-feira, 4 de maio de 2016

FESTin'16 começa hoje em Lisboa

Entre 4 e 11 de Maio, o FESTin - 7º Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa chega ao Cinema São Jorge. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é a homenageada desta edição.


A abrir o festival está Cartas de Amor São Ridículas, de Alvarina Souza e Silva. A encerrar estará Jonas, de Lô Politi. Ao todo, serão exibidos 74 filmes, entre longas e curtas-metragem, divididos pelas várias secções do FESTin: Competição de Longas, Competição de Curtas, Competição de Documentários, Homenagem a CPLP, FESTin Arte, Mostra Brasileira, Mostra Social, FESTin+, Festinha e Cultura +.

Alguns títulos a destacar na Competição de Longas são, por exemplo, Zenaida, de Alexis Tsafas e Yannis Fotou, filme cabo-verdiano que aborda o tráfico de mulheres; Histórias de Alice, de Oswaldo Caldeira, ficção sobre um realizador brasileiro que vem em busca das suas origens portuguesas; ou Mundo Cão, de Marcos Jorge, que deambula entre a justiça e o desejo de vingança; 

Na Competição de Documentários, destaque para A Loucura Entre Nós, de Fernanda Vareille, sobre um hospital psiquiátrico; Central, de Tatiana Seger e Renato Dorneles, que entra na realidade de uma penitenciária brasileira que já foi considerada a pior do país e denunciada por violação dos Direitos Humanos; e Deportados, de Paulo Cabral, sobre os jovens cabo-verdianos deportados dos EUA.

África Abençoada, de Aminata Embaló, é um dos documentários que compõem a Mostra CPLP, e retrata a vida de Quintino na Pana, que, pelo quarto ano consecutivo, pedala mais de mil quilómetros entre a Guiné-Bissau e a Mauritânia para defender uma causa. Também nesta secção está Beatriz, de Alberto Graça, sobre um jovem casal de brasileiros que se muda para Lisboa.

Entre os eventos paralelos, o FESTin apresenta a Oficina de Cinema, Educação e Comunicação Comunitária e a mesa redonda O Cinema como Forma de Fomentar o Turismo.

Toda a informação sobre os filmes e o FESTin pode ser consultada em http://festin-festival.com/.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Crítica: A Lagosta / The Lobster (2015)

"If you encounter any problems you cannot resolve yourselves, you will be assigned children, that usually works."
Hotel Manager
*9/10*

A imaginação macabra e cruelmente surrealista - e futurista - de Yorgos Lanthimos continua aguçada e provocadora. Não tão dura como Canino, mas igualmente incómoda e frontal, A Lagosta (The Lobster), a última longa-metragem do realizador grego, vem mostrar-nos o quão egoístas e egocêntricos somos, no fundo.

Num futuro distópico não tão distante quanto isso, todos os solteiros, de acordo com as leis da Cidade, são levados para o Hotel, onde se vêem obrigados a encontrar um par romântico em 45 dias. Caso contrário, serão transformados num animal à escolha e libertados na floresta.

Uma história de amores por necessidade, ou vice-versa. Dentro ou fora do Hotel, nada parece simples. Nas suas críticas à humanidade, Lanthimos não teme nenhuma temática e apresenta-nos argumentos geniais. A Lagosta é tão poético como demente, tão sentimental como impiedoso. Nem a mais frágil das personagens é inocente.


Numa primeira metade mais entusiasmante, onde percebemos o desumano modo de funcionamento do Hotel, A Lagosta continua, ligeiramente menos surpreendente, mas Lanthimos não deixa o seu filme perder o fulgor ao entrar na floresta e continua a surpreender pelas novas regras, paradoxais, mas não menos inacreditáveis que as anteriores.

O realizador filma este ambiente repressivo na sua singularidade tão sarcástica como lírica. Um amor de aparências, de cinismo e falsidade. Com planos provocadores e irónicos ou usando a câmara lenta para aumentar a adrenalina das caçadas de solteiros fugitivos, por exemplo, Lanthimos não descura nenhum aspecto.


No elenco, Colin Farrell surpreende como o protagonista David, ele que, se falhar, quer transformar-se na lagosta que dá título ao filme, "porque as lagostas vivem mais de cem anos, têm sangue azul como os aristocratas e são férteis toda a vida. Eu também gosto muito do mar." Frágil, desesperado, tímido, ele é mais uma peça deste jogo em que todos desejam o mesmo: continuar a sua vida como humanos. Rachel Weisz parece-nos a mulher ideal neste filme tão surreal. Doce, decidida e apaixonada, transparece uma fragilidade muito natural. Por seu lado, Léa Seydoux é a impiedosa líder da resistência de solteiros, uma ditadora que faz frente à também ditadura do Hotel. Ainda de destacar são as interpretações de Ben WhishawJohn C. Reilly e das gregas Angeliki Papoulia (Canino), a mulher sem coração, e Ariane Labed (Attenberg), a empregada do Hotel, muito dedicada àquilo em que acredita.

Conquistou o Prémio do Júri em Cannes e chegou para nos deixar sem palavras. Tão inacreditável, mas, ao mesmo tempo, tão plausível. Uma denúncia ao egoísmo e à crueldade dos Homens, num Mundo onde nos fazem acreditar que não se pode viver sem um parceiro, custe o que custar.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Sugestão da Semana #218

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Cemitério do Esplendor, de Apichatpong Weerasethakul.

CEMITÉRIO DO ESPLENDOR


Ficha Técnica:
Título Original: Rak ti Khon Kaen
Realizador: Apichatpong Weerasethakul
Actores: Jenjira Pongpas, Banlop Lomnoi, Jarinpattra Rueangram
Género: Drama, Fantasia
Classificação: M/14
Duração: 122 minutos

IndieLisboa'16: Os Dois Amigos / Les Deux Amis (2015)

*6/10*

A estreia de Louis Garrel na realização de longas-metragens chegou ao IndieLisboa graças ao Herói Independente deste ano Vincent Macaigne, presente na sessão. Em Les Deux Amis (Os Dois Amigos), Garrel é realizador, actor e co-argumentista - com Christophe Honoré.

Nesta comédia romântica, Vincent Macaigne é Clement, um tímido actor que pede ajuda ao seu amigo extrovertido, Abel (Garrel), para seduzir Mona (Golshifteh Farahani), uma empregada num café - que ele não sabe que está presa. Quando os dois se interessam por ela, a relação entre ambos complica-se.


Uma história simples e já muito repetida em comédias românticas, mas filmada com uma sensibilidade muito "francesa", provavelmente inspirada pelo trabalho do pai, Philippe Garrel. Louis não tem uma estreia estrondosa mas proporciona momentos divertidos e emotivos, trabalhando bem a personalidade de Mona - sem dúvida, a mais interessante dos três protagonistas. Ao mesmo tempo, a amizade de Clement e Abel proporciona bons momentos de humor.

Golshifteh Farahani é a grande força do filme. Veste a pele de Mona, a presidiária em regime aberto, que trabalha num café na Gare du Nord. Cumpridora de horários e ansiosa para sair da prisão e voltar para junto da mãe, Mona vê a sua vida complicar-se ao perceber que Clement está apaixonado por ela. A actriz é um turbilhão de emoções e está envolta em sentimentos contraditórios, ansiando pela liberdade, mas assustada com a ideia de perder o comboio que a leva de regresso à prisão. Entre o amor e a liberdade, Mona transpira energia e sensualidade. Vincent Macaigne é um Clement sensível e apaixonado, com uma infantilidade inerente, e faz uma dupla cheia de química com o seu "melhor amigos"Abel, Louis Garrel.


Amizade, amor, sexualidade e mentiras são os principais ingredientes que constroem Les Deux Amis. Garrel, o filho, estreia-se de mansinho, explorando os temas e cenários que lhe têm sido próximos ao longo da sua carreira como actor.

IndieLisboa'16: Vencedores

O IndieLisboa terminou este Domingo e ficamos a conhecer os vencedores desta edição. Jia (The Family) conquistou o Grande Prémio Cidade de Lisboa. Na competição portuguesa de longas, Sérgio Tréfaut viu premiado o seu Treblinka.


Eis a lista completa de vencedores:

Competição Internacional de Longas Metragens
Grande Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa
Jia/The Family, Shumin Liu (Austrália, China)

Prémio Especial do Júri Canais TV & Séries
Kate Plays Christine, Robert Greene (EUA)

Competição Internacional de Curtas Metragens
Grande Prémio de Curta Metragem
Nueva Vida, Kiro Russo (Argentina, Bolívia)
Menções Especiais
Animação
Velodrool, Sander Joon (Estónia)
Documentário
La impresión de una Guerra, Camilo Restrepo (Colômbia, França)
Ficção
Another City, Lan Pham Ngol (Vietname)

Competição Nacional
Prémio Allianz – Ingreme para Melhor Longa Metragem Portuguesa
Treblinka, Sérgio Tréfaut (Portugal)

Nescafé Dolce Gusto – Ingreme para Melhor Curta Metragem Portuguesa
The Hunchback, Gabriel Abrantes, Ben Rivers (Portugal, França)

Prémio Novo Talento Fnac – Curta Metragem
Campo de Víboras, Cristèle Alves Meira (Portugal)
Menção Honrosa
Viktoria, Mónica Lima (Alemanha, Portugal)

Prémio FCSH/NOVA para Melhor Filme na secção Novíssimos
Maxamba, Suzanne Barnard, Sofia Borges (Portugal, EUA)

Prémio RTP para Longa Metragem na Secção Silvestre
Eva no duerme, Pablo Agüero (França)

Prémio FIPRESCI (Primeiras Obras)
Short Stay, Ted Fendt (EUA)

Prémio Format Court (Silvestre Curtas)
World of Tomorrow, Don Hertzfeldt (EUA)

Prémio Árvore da Vida para Filme Português
Ascensão, Pedro Peralta (Portugal)
Menção Honrosa
Jean-Claude, Jorge Vaz Gomes (Portugal)

Prémio IndieJúnior Árvore da Vida
Le nouveau, Rudi Rosenberg (France)

Prémio Amnistia Internacional
Flotel Europa, Vladimir Tomic (Dinamarca, Sérvia)
Menção Honrosa
Balada de Um Batráquio, Leonor Teles (Portugal)

Prémio Culturgest Universidades
Flotel Europa, Vladimir Tomic (Dinamarca, Sérvia)

Prémio Culturgest Escolas
Le gouffre, Vincent Le Port (França)

Júri do Público
Prémio Longa Metragem
Le nouveau, Rudi Rosenberg (França)

Prémio IndieMusic Schweppes
Sonita, Rokhsareh G. Maghami (Alemanha, Suíça, Irão)

Prémio Curta Metragem Merrell
Small Talk, Even Hafnor, Lisa Brooke Hansen (Noruega)

Prémio IndieJúnior Trinaranjus
The Short Story of a Fox and a Mouse, Camille Chaix, Hugo Jean, Juliette Jourdan, Marie Pillier, Kevin Roger (França)

domingo, 1 de maio de 2016

IndieLisboa'16: Competição Nacional de Curtas

Na Competição Nacional de Curtas-metragens do IndieLisboa estão 17 filmes na corrida. O Hoje Vi(vi) um Filme assistiu a 15 e faz aqui uma breve análise a cada um deles.

Ascensão - 9.5/10
Cannes recebe Ascensão na Semana da Crítica, o IndieLisboa deu-nos a oportunidade de vê-lo já. Pedro Peralta deixa-nos extasiados com Ascensão, onde, através de três fantásticos planos sequência nos conta uma história de milagres, usando o cinema como obra de arte. Um grupo de camponeses tenta resgatar o corpo de um rapaz de um poço. As mulheres velam em silêncio, os homens resistem no limite das suas forças. No centro de todos eles: uma mãe aguarda o resgate do filho. As personagens, que nos olham directamente, desconfiadas, parecem-nos, por momentos, representações religiosas - qual Maria com o seu Jesus nos braços. A mestria de Peralta é arrepiante e emocionante (com claras referências a Manoel de Oliveira na forma de filmar), e todo o ambiente, sombrio, onde uma névoa paira sobre a acção, vai desaparecendo com o nascer do dia e o desenrolar desta Ascensão. Excelente trabalho.

Campo de Víboras - 8/10
Cristèle Alves Meira vai ao Festival de Cannes com o seu Campo de Víboras, mas antes passou pelo IndieLisboa. Numa aldeia no nordeste de Portugal ocorre um drama inexplicável. Num jardim cheio de víboras é encontrada morta uma senhora idosa. A sua filha Lurdes desapareceu sem deixar rasto. Os rumores sobre o que se poderá ter passado e o destino da casa começam a espalhar-se rapidamente. O mistério assola esta aldeia perdida em Trás-os-Montes, onde Lurdes - uma fabulosa interpretação de Ana Padrão - não se sente em casa. Solitária e atormentada pelas constantes exigências da mãe doente, esta mulher deseja voltar a França e, certa noite, percebe que está a ser perseguida por um careto, qual fantasma insistente. Um trabalho empolgante de Cristèle Alves Meira.

Viktoria - 8/10
Mónica Lima mostra uma notória evolução desde O Silêncio Entre Duas Canções (Novíssimos no IndieLisboa'14)Viktoria traz uma realizadora mais madura, mais envolvente e consistente. Uma excelente surpresa neste IndieLisboa, que augura futuros trabalhos promissores. A protagonista, Viktoria, é uma campeã de corrida em cadeira de rodas que se descobre de novo a andar. Os medos, as dúvidas, as decisões difíceis de tomar. A braços com esta mudança inesperada, a jovem continua os seus duros treinos para as próximas competições e descobre o amor. Com um argumento forte e de alguma originalidade, Viktoria é uma curta-metragem envolvente que faz-nos querer que continue. Óptima interpretação de Anjorka Strechel.

Balada de um Batráquio - 7.5/10
Vencedor do Urso de Ouro no Festival de BerlimBalada de um Batráquio, de Leonor Teles marcou presença no IndieLisboa. Rebelde e de regresso às origens, a realizadora volta a abordar a comunidade cigana. Neste caso, vem quebrar o preconceito e a "tradição" de colocar um sapo à porta dos estabelecimentos comerciais para impedir a entrada de pessoas desta etnia. Balada de um Batráquio é uma curta-metragem activista e corajosa, filmada em Super 8.

Macabre - 7.5/10
Jerónimo Rocha e João Miguel Real trazem à Competição Nacional a sombria animação Macabre. Um homem tem um acidente de carro num bosque, o que o leva a uma enorme casa solitária. Muito ligado ao cinema gótico, o filme constrói-se e desconstrói-se a si mesmo, numa história onde o suspense perdura e algum terror espreita atrás de nós - e do protagonista. Macabre é um filme labiríntico com um excelente trabalho de animação, onde predominam preto, branco, cinzentos e vermelhos. O som confere um ambiente ainda mais aterrador à curta-metragem e é fundamental para provocar o espectador.

Chatear-me-ia Morrer Tão Joveeeeem… - 7/10
Filipe Abranches viaja no tempo e leva-nos consigo até às trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Chatear-me-ia Morrer Tão Joveeeeem... é uma animação dura e triste, que mergulha na lama, gases tóxicos, sangue e corpos sem vida das guerras que se sucedem ao longo dos anos e nos vários cantos do mundo. Um alerta para a desolação, horror e morte sem razão.

Menina - 7/10
Simão Cayatte leva-nos a viajar no tempo, até ao Estado Novo, e apresenta-nos uma mulher que começa a suspeitar dos atrasos do marido. Ela é a Menina do título, a mulher "ideal" para a mentalidade da altura. Cayatte recria uma época de forma competente, com algum suspense pelo meio a adensar os medos e as dúvidas da protagonista. As interpretações de Joana Santos Pedro Carmo são outro ponto forte do filme, que poderia funcionar ainda melhor como longa-metragem.

A Guest + A Host = A Ghost - 6.5/10
Marcel Duchamp formou o jogo de palavras A Guest + A Host = A Ghost. Por sua vez, Jorge Jácome continua a associação livre em equações visuais até chegar à solução. Uma curta-metragem experimental que pretende fazer-nos resolver esta equação à nossa maneira, conforme as imagens que nos apresenta. As mãos, o toque, as linhas das mãos e aquelas que se desenham nas rochas, os sinais na pele e as estrelas no céu, a natureza e o homem em paralelismo. Uma ideia desafiante para a plateia.

O Desvio de Metternich - 5.5/10
A preto e branco, Tiago Melo Bento apresenta-nos Leopoldina de Hasburgo, que viaja para o Brasil para encontrar o marido, D. Pedro (IV de Portugal, I do Brasil). No caminho, pára num paraíso no meio do Atlântico. O Desvio de Metternich filma São Miguel com esta aura paradisíaca e poética, enquanto ouvimos os desabafos da protagonista, encantada com o local, tal como nós.

Live Tropical Fish - 5/10
Essencialmente, Live Tropical Fish é um exercício de estilo de Takashi Sugimoto. O director de fotografia estreia-se na realização a preto e branco, com longos planos fixos que cativam o olhar. Ainda assim, e apesar de alguns momentos curiosos, a curta-metragem não se destaca para além disso.

Cabeça D’asno - 4/10
Pedro Bastos traz-nos uma curta-metragem experimental que varia entre o diário filmado e o ensaio sobre a natureza das imagens. Numa casa degradada e solitária, seguimos os traços que se desenham nas paredes, imagens religiosas pairam sorrateiramente, e descobrimos negativos de filmes porno. Cabeça d'asno é um apelo à memória e ao tempo que passa.

Heroísmo - 4/10
Em HeroísmoHelena Estrela Vasconcelos leva-nos a um centro comercial abandonado, onde um rapaz vive escondido. Quando uma rapariga vem visitá-lo, recordações e desolação ocupam os espaços vazios. A companhia é momentânea mas serve de consolo a este jovem solitário. Heroísmo convida à introspecção e à reflexão, enquanto exploramos, com as personagens, os recantos abandonados do centro comercial.

O Sul - 4/10
Uma ideia promissora traduz-se num filme algo decepcionante. Afonso Mota revela como poderia ter feito uma curta-metragem muito interessante, subordinada à mesma temática: as memórias de uma viagem à América do Sul, apresentadas sob vários formatos - cartas, fotografias e vídeos. Contudo, O Sul perde-se no meio de tanta informação e alguma desconexão. Ficam, contudo, as boas intenções.

Rochas e Minerais - 3.5/10
A ideia era boa: ver como algumas amizades de infância podem perder o encanto quando se cresce. Em Rochas e Minerais, Miguel Tavares coloca duas amigas num hotel repleto de memórias de quando eram crianças, num Verão onde predominam os silêncios e os banhos de Sol. Após as fotografias e lembranças do passado juntas, a curta-metragem não nos oferece muito mais para além dos silêncios incómodos e das férias das duas amigas que pouco conversam.

Sem Armas - 3.5/10
Sem Armas entra no mundo violento que a adolescência pode trazer consigo. Num prédio em ruínas, juntam-se uns rapazes, mas a amizade pode não ficar em primeiro plano. Tomás Paula Marques não consegue tirar partido da ideia que trouxe para o ecrã e a plateia não leva muito desta curta-metragem.


* Não tive possibilidade de assistir a duas curtas-metragens em competição: Transmission from the Liberated Zones, de Filipa César, e The Hunchback, de Ben Rivers e Gabriel Abrantes.