terça-feira, 30 de abril de 2013

IndieLisboa'13: Frances Ha

*6/10*

A secção Observatório do IndieLisboa'13 trouxe-nos o mais recente filme de Noah Baumbach, Frances Ha, uma comédia a preto e branco, protagonizada por Greta Gerwig – que escreve o argumento em conjunto com o realizador. 

Em Nova Iorque, Frances é a uma aspirante a dançarina “apaixonada” pela sua melhor amiga Sophie, sem a atracção sexual. Ambas têm uma ligação muito forte, mas percebem que terão que crescer e descobrir se conseguem viver uma sem a outra. É quando Sophie muda de casa, que Frances se dá conta de que tem de continuar a sua vida sozinha.

Noah Baumbach trouxe-nos um filme que retrata o aparente medo de crescer, de ser adulto, coisa que Frances parece querer evitar a todo o custo apesar dos seus 27 anos de idade. A história é divertida, no meio das aventuras e desventuras da protagonista, mas não traz grandes novidades, com o argumento a querer ser muito mas não indo além da curiosidade inicial que desperta. Ao mesmo tempo, a espécie de adoração por uma personagem que não será, de todo, um exemplo de maturidade não é talvez um ponto muito positivo de Frances Ha.


Brilhante é a fotografia - de Sam Levy -, a preto e branco, que confere um tom mais intimo e pessoal à longa-metragem. A seu favor, está ainda o facto de grande parte das cenas terem uma espécie de musicalidade, ritmo ou mesmo coreografia, intensificado pelo facto de Frances ser dançarina. Greta Gerwig, por seu lado, é o centro do filme. É ela que o conduz e lhe oferece uma força e animação que farão as delícias de muitos espectadores, com uma interpretação cheia de garra e de momentos hilariantes.

Frances Ha peca pelo argumento, mas proporciona-nos momentos de grande beleza visual e tem ao comando uma grande actriz, na pele de uma personagem que faz surgir muitos sorrisos.

Crítica: Spring Breakers / Viagem de Finalistas (2012)

"This is the fuckin' American dream. "
Alien
*3.5/10*

"Sexo, drogas e Britney Spears" podia ser o lema de Spring Breakers, um filme que se habilita fortemente a ganhar o título de desilusão do ano. Nem a mais interessante componente técnica desculparia o vazio argumentativo que paira sobre o novo filme de Harmony Korine.

Aquilo que poderia ser uma curiosa sátira social deixa-se contagiar por esse mesmo "sonho americano" que critica, numa cultura pop degradada e ilusória, onde perdura um machismo evidente e exagerado, e em que nada se extrai do conteúdo.

Quatro jovens (as meninas da Disney, Selena Gomez e Vanessa Hudgens, juntamente com Ashley Benson - uma das protagonistas da série Pretty Little Liars - e Rachel Korine) partem para a sua viagem de finalistas, depois de alguns percalços para conseguirem o dinheiro necessário para a fazer. No meio de um ambiente de festa e loucura as quatro vêem a sua vida complicar quando são detidas. Contudo, é quando Alien, um traficante de droga, surge no seu caminho que esta viagem toma um rumo inesperado.

O argumento, demasiado básico, não oferece nada de novo ao cinema como tanto se tinha feito anunciar. Spring Breakers sustenta-se no sexo sem limites, na loucura - quase sempre levada ao extremo dos exageros -, no consumo de álcool e drogas e em rixas entre gangs rivais. A sátira a este "ideal" dos adolescentes americanos cai por terra bem cedo, com o filme a querer agradar a públicos tão diferentes que cai numa repetição de ideias, de frases, de imagens, como se a plateia tivesse dificuldades cognitivas e não compreendesse os acontecimentos à primeira. A desconstrução que é feita é tão má que tudo o que, à partida, poderia dar bons resultados se perde em minutos.

O deslumbramento que as "meninas da Disney" (a partir daqui referir-me-ei assim às quatro protagonistas) demonstram não é aproveitado para mostrar o quão ilusório é esse "sonho americano", preferindo Korine apostar no mais fácil - o deslumbramento, sim, mas de um público que se quer alienado por sexo e machismo, do início ao fim. As mulheres que aqui vemos são pouco inteligentes, sem personalidade, imitações. Toda a nudez do filme é-nos proporcionada por elas: em momento algum vemos um homem mais "exposto", bem pelo contrário, eles subjugam-nas, tal como o realizador que insiste em planos do corpo feminino, sempre explorando a sexualidade - mas repetitiva e exacerbadamente. Nem mesmo com o final do filme, que poderia contrariar essa tendência, tal consegue ser minorado, de tão artificial e improvável que o mesmo é.

Verdade seja dita, tecnicamente, Spring Breakers está repleto de competência. Tem desde logo a seu favor o facto de ser filmado em 35mm, mas nem isso compensa a pobreza - e preguiça - de conteúdo que a longa-metragem demonstra. As cores explodem num universo alucinatório, espelhando a loucura em torno do álcool e das drogas, com uma fotografia genial - sob a direcção de Benoît Debie - e uma banda sonora a condizer - onde surge a princesa da pop Britney Spears (também ela ex-menina da Disney).


Ironicamente, é Britney Spears quem oferece a melhor cena de Spring Breakers - com James Franco ao piano a tocar Everytime para as três jovens que o acompanham. É este um dos poucos grandes momentos onde assistimos ao paradoxo, que poderia ter sido o grande foco deste filme, numa alternância entre esta imagem cómica, de um rapper traficante a cantar pop, e a violência do gang de Alien - repare-se que até do nome deste personagem poderia ter saído uma subtil crítica à alienação da juventude actual.

E nem os actores salvam o filme, com James Franco numa prestação mediana e as quatro jovens protagonistas - Selena Gomez como Faith, Vanessa Hudgens como Candy, Ashley Benson como Brit e Rachel Korine (esposa do realizador) como Cotty - sem merecer grande destaque. Ainda assim, Gomez e Korine são quem parecem sair-se melhor, conferindo alguma intensidade dramática às suas personagens. Total erro de casting foi Vanessa Hudgens que provou ter apenas uma expressão facial.

É impossível perdoar a Harmony Korine por ter desperdiçado uma ideia tão boa num filme tão fraco e vazio, que se traduz numa espécie de Morangos com Açúcar para adultos. E ao fim de contas, Spring Breakers será, provavelmente, um dos mais sobrevalorizados do ano, infelizmente.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Sugestão da Semana #61

Das estreias da passada Quinta-feira, o destaque da Sugestão da Semana vai para Não, de Pablo Larraín. O filme já tem crítica no Hoje Vi(vi) um Filme, que pode ser lida aqui.

NÃO

Ficha Técnica:
Título Original: No
Realizador: Pablo Larraín
Actores: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Luis Gnecco
Género: Drama, Histórico
Classificação: M/12
Duração: 118 minutos

domingo, 28 de abril de 2013

IndieLisboa'13: Os Vencedores

A 10ª edição do IndieLisboa terminou hoje e o balanço é positivo, com 11 dias repletos de filmes. Os vencedores deste ano foram anunciados na Cerimónia de Encerramento que aconteceu na noite de Sábado dia 27, na Culturgest.

Aqui fica a lista completa de premiados do IndieLisboa'13:


Grande Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa
Leviathan, de Lucien Castaing-Taylor e Véréna Paravel (Reino Unido, E.U.A., França)

Prémio de Distribuição TVCine
Eles Voltam, de Marcelo Lordello (Brasil)

Prémio Digimaster para Melhor Longa Metragem Portuguesa
Lacrau, de João Vladimiro (Portugal)


Grande Prémio de Curta Metragem
Da Vinci, de Yuri Ancarani (Itália)

Menções Honrosas
Animação: Comme des Lapins (Chroniques da la Poisse, chap. 2), de Osman Cerfon (França)
Documentário: Resistente, de Renate Costa Perdomo, Salla Sorri (Dinamarca, Finlândia, Paraguai)
Ficção: Noelia, de María Alché (Argentina) e El Ruido de las Estrellas me Aturde, de Eduardo Williams (Argentina)

Prémio Pixel Bunker para Melhor Curta Metragem Portuguesa
Gingers, de António da Silva (Reino Unido, Portugal)

Menção Honrosa
Má Raça, de André Santos e Marco Leão (Portugal)

Prémio Novo Talento FNAC
Má Raça, de André Santos e Marco Leão (Portugal)

Prémio Novíssimos
Outro Homem Qualquer, de Luís Soares (Portugal)

Prémio Culturgest Pulsar do Mundo
La Chica del Sur, de José Luis García (Argentina)

Menção Honrosa
Donauspital - SMZ Ost, de Nikolaus Geyrhalter (Áustria)


Prémio Amnistia Internacional
The Act of Killing, de Joshua Oppenheimer (Dinamarca)

Menção Honrosa
The Devil, de Jean-Gabriel Périot (França)

Prémio Árvore da Vida para Filme Português
Lacrau, de João Vladimiro (Portugal)

Menção Honrosa
Rhoma Acans, de Leonor Teles (Portugal)

Prémio TAP para Longa Metragem Portuguesa de Ficção
É o Amor, de João Canijo (Portugal)

Prémio TAP para Documentário Português
Torres & Cometas, de Gonçalo Tocha (Portugal)

- Prémios do Público - Competição Internacional, Observatório, Cinema Emergente, Pulsar do Mundo, IndieJúnior e Novíssimos


Longa Metragem
Amsterdam Stories USA, de Rob Rombout, Rogier Van Eck (Bélgica)

Curta Metragem
Le Libraire de Belfast, de Alessandra Celesia (Reino Unido, França, Irlanda) 

IndieJúnior
De Club van Lelijke Kinderen/O Clube das Crianças Feias, de Jonathan Elbers (Holanda)

Nos próximos dias o Hoje Vi(vi) um Filme continuará a publicar artigos de opinião sobre os filmes visualizados no IndieLisboa'13.

sábado, 27 de abril de 2013

IndieLisboa'13: Sightseers

*8/10*

Sightseers chega pela mão de Ben Wheatley - realizador de Uma Lista a Abater (Kill List), de 2011 - e faz parte do Observatório do IndieLisboa'13. Um inesperado casal é o centro desta longa-metragem repleta de humor negro e sangue, onde a diversão é garantida.

Numa relação recente, mas muito apaixonada, Chris e Tina decidem fazer uma road trip de férias. Para ela, esta será uma experiência diferente de tudo o que está habituada, devido à sua ingenuidade e à pouca liberdade que a rabugenta mãe lhe dava. Em Chris, ela parece encontrar o homem com que sempre sonhou, mas, ao longo da viagem, Tina percebe que o namorado tem um rastilho mais curto do que a maioria das pessoas, e ferve em pouca água. Ainda assim, começa a acreditar que existem vários tipos de soluções para os problemas, mas esta viagem começa a ter muitos mais percalços do que se imaginava, e paz, essa, é que o casal não vai ter.

Antes de mais, Sightseers ganha pelos dois hilariantes protagonistas, que depressa nos fazem crer que os opostos se atraem. Tina é, aparentemente, uma mulher calma, frágil, inexperiente e ingénua, mas completamente apaixonada por Chris, cuja paciência tem um limite muito curto, não tolera má educação e resolve os conflitos de uma forma muito pouco comum. Sightseers passa-se entre discussões e muita paixão, mas, afinal, o amor tolera tudo e parece que eles foram feitos um para o outro.


O argumento é fabuloso, sarcástico, por vezes mórbido, e sem qualquer medo de chocar, com um humor fresco e tremendamente bem conseguido. Os protagonistas - com desempenhos encantadores de Alice Lowe e Steve Oram, também eles os argumentistas do filme - são a nossa companhia ao longo desta road trip, a que se junta, a certa altura, uma companhia canina muito especial.

Para o excelente resultado de Sightseers muito contribui a montagem fabulosa, a fotografia (dirigida por Laurie Rose), com cores suaves mas vívidas, que se adequam ao ambiente campestre repleto de paisagens deslumbrantes, e a banda sonora de Jim Williams, meia bucólica, mas onde encontramos também clássicos como Tainted Love.

Sightseers é inesperado até ao fim e uma lufada de ar fresco no IndieLisboa'13Ben Wheatley trouxe-nos uma grande surpresa, e será impossível não simpatizarmos com este casal com um feitio tão complicado, porque, afinal, ninguém gosta de má educação.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

IndieLisboa'13: Youth

*6/10*
Youth, a longa-metragem de estreia do jovem realizador israelita Tom Shoval, faz parte da Competição Internacional do IndieLisboa'13. O realizador esteve presente na sessão para responder às perguntas da plateia.


Youth, filmado em 35mm, centra-se em dois irmãos, Yaki (David Cunio) e Shaul (Eitan Cunio), que vivem com os pais numa cidade-satélite de Tel Aviv. Yaki está a cumprir serviço militar e tem autorização para trazer consigo uma arma, objecto que pode mudar a sua vida e a da sua família. O pai, desempregado, está no meio de uma depressão e, sem dinheiro, a família está em risco de perder o apartamento. Tentando encontrar uma alternativa, Shaul segue Dafna (Gita Amely), uma rapariga de boas famílias, até casa depois da escola, sempre a uma distância calculada, fazendo-nos suspeitar de que algo vai acontecer. Os dois irmãos raptam e trancam a jovem numa cave, contudo, escolheram o pior dia para contactar a família a pedir o resgate.

A tensão que a longa-metragem de Tom Shoval transmite à plateia vai crescendo à medida que os acontecimentos avançam, e a curiosidade é aguçada para descobrir quais serão as consequências dos actos dos irmãos Yaki e Shaul. O argumento está bem construído mas denota-se um problema que deita tudo a perder: não parece existir uma conclusão a retirar, por mais que todos saibamos que "brincar com armas" nunca poderia trazer bons resultados.

O foco do filme muda por mais do que uma vez, e o espectador aguarda com expectativa desenvolvimentos que não acontecem - quer relativamente a Dafne, quer quanto aos problemas financeiros que a família enfrenta. Sente-se a necessidade de uma profundidade maior a que a própria história obriga, e Tom Shoval não a alcançou. Contudo, não se pode negar que Youth é um filme intenso e violento, física e psicologicamente, com planos muito interessantes, boas interpretações e com a mais-valia de ser filmado em película.

IndieLisboa'13: Public Hearing

*5.5/10*

Da secção Pulsar do Mundo, chega ao IndieLisboa'13 o documentário Public Hearing, de James N. Kienitz Wilkins. Numa pequena cidade rural dos EUA, a construção de um grande centro comercial e o seu impacto ambiental são motivo de uma audiência pública, onde actores e não actores protagonizam os habitantes participantes no debate. 

A ideia é curiosa, a da reconstituição de um debate, de forma a mostrar como a atenção ao que os populares defendem é mínima por parte dos poderosos. Tal realidade pode adaptar-se a tantas outras situações semelhantes à da construção deste centro comercial, e que tanto desagrada parte da audiência de Public Hearing. O problema da longa-metragem é que, a certo momento, deixa de cativar, perdendo ritmo por se tornar tão longa e, ao mesmo tempo, repetitiva.

São inevitáveis algumas gargalhadas ao reparar em alguns dos comportamentos dos presentes - desde o orador que fala com a caneta na boca, ao homem que descasca uma laranja deitando a casca para o chão, por exemplo, mas isso não chega para Public Hearing chegar ao resultado ideal. De louvar é o facto do filme ter sido filmado em 16 mm, bem como o bom trabalho de fotografia, a preto e branco.

IndieLisboa'13: Novíssimos

Os novo talentos portugueses passam pelo IndieLisboa na Novíssimos. O Hoje Vi(vi) um Filme assistiu a uma das sessões desta secção e aqui fica o rescaldo.

MEMORIES FROM THE CROSS - 8/10
Vítor Carvalho trouxe uma boa surpresa à secção Novíssimos. Memories from the Cross é um documentário que apresenta memórias de vários ex-alunos residentes do Holy Cross Campus. É através destes testemunhos que podemos construir a identidade do lugar, mesmo quando, na realidade, ele enfrenta a sua destruição.

Testemunhos positivos e negativos, boas, más e péssimas experiências dos antigos alunos deste colégio são encaixadas de forma perfeita e, por vezes, perturbadora, com as imagens actuais de um local abandonado, degradado e condenado à destruição. Para uns, é doloroso recordar um lugar onde sofreram, para outros o local é sinónimo de recordações felizes. Vítor Carvalho faz-nos, a partir destas memórias, construir a nossa própria imagem da antiga escola.

ADOLFO, O RAPAZ GALINHA - 7.5/10
João Carrilho trouxe-nos uma curta-metragem animada com Adolfo, O Rapaz Galinha, uma história com tanto de divertido como de macabro. Adolfo é um rapaz que rouba galinhas para fazer experiências maléficas na sua cave. Ele tem um plano: transformar todas as pessoas em galinhas e, assim, dominar o mundo. Contudo algo corre mal e Adolfo acaba por ser vítima da sua perversidade.

A animação em stop motion e a preto e branco, é acompanhada por uma narração em verso. Uma história original de um rapaz obcecado por galinhas com uma conclusão surpreendente.

DE MANHÃ - 7/10
A estreia de Flávio Gonçalves na realização é a curta-metragem De Manhã. Às primeiras horas de uma manhã, Tiago regressa a casa, mas não vem sozinho - consigo vem um estranho, ainda embriagado depois de uma noite de descoberta dos bares da cidade que visita. Tem um avião daí a poucas horas.

Com uma temática pouco comum entre as curtas do IndieLisboa, De Manhã é uma aposta corajosa e pertinente sobre a descoberta da homossexualidade. Nota-se uma sensibilidade pouco comum nos filmes do género, que vem conferir a esta curta-metragem uma aura especial.

ADEUS SR. ANTÓNIO - 6.5/10
Também estreante na realização é João Costa, que apresentou Adeus, Sr. António. A curta-metragem filmada em Super 8, tem por base um texto de Fernando Pessoa - Carta da Corcunda ao Serralheiro, do heterónimo feminino do poeta, Maria José.

A carta é-nos lida com a intensidade perfeita por uma voz feminina - Maria José (interpretada por Sandrine Cordeiro) -, acompanhada por imagens de uma casa, muito provavelmente a sua. O texto escolhido é o ponto forte desta curta-metragem, deixando a plateia presa ao ecrã.

SOULLEIMANE - 5/10
Paulo Pancadas trouxe ao Novíssimos Soulleimane, que conta a história do protagonista que dá nome à curta-metragem. Ele é um imigrante ilegal que procura uma solução para o seu problema, e é aí que conhece Teresa.

É do encontro entre estas duas personagens que reside o teor mais emocional deste trabalho. Apesar de tudo, sente-se que falta algo à história para a fazer valer.

DE VOLTA ÀS RAÍZES - 3/10
Gonçalo Cardeira tem a sua estreia com o documentário De Volta às Raízes. Um conflito de territórios entre o Homem e a Natureza, em que este se apodera de pedaços de terra para erguer os seus espaços é o que serve de mote à curta-metragem. Contudo, quando o ser humano deixa de preservar o seu espaço ocupado, a Natureza regressa com todas as suas forças, para retomar um território que nunca deixou de ser seu, criando, lentamente, ruínas humanas.

O propósito parece interessante, mas De Volta às Raízes não transmite a mensagem que pretende. Às imagens de uma casa a ser construída seguem-se as do abandono que faz a Natureza voltar. À concretização falta a sensibilidade que a ideia pede, e que não existe neste trabalho.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Estreias da Semana #61

O feriado do 25 de Abril vem repleto de estreias e é um óptimo dia para ir ao cinema. São oito os novos filmes nas salas nacionais, e vários títulos se destacam desde já. Não, que abriu o IndieLisboa'13 e esteve nomeado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Homem de Ferro 3, o regresso de Danny Boyle com Transe, e duas estreias portuguesas - É o Amor e O Frágil Som do meu Motor -, são alguns dos motivos para ir ao cinema.

A Rapariga de Parte Nenhuma (2012)
La fille de nulle part
De França, chega A Rapariga de Parte NenhumaMichel é um professor de matemática reformado, vive sozinho desde que a sua mulher morreu e ocupa os seus dias a escrever um ensaio sobre as crenças que moldam a vida quotidiana. Certo dia, acolhe Dora, uma jovem sem-abrigo. A sua presença traz alguma frescura à vida de Michel mas, a pouco e pouco, o apartamento transforma-se no palco de fenómenos misteriosos.

É o Amor (2013)
Depois de Sangue do meu Sangue, João Canijo regressa com É o Amor. O palco desta longa-metragem é Caxinas, freguesia de pescadores em Vila do Conde, onde a relação entre a mulher e o pescador tem por base uma confiança vital, numa dependência recíproca e total para a sobrevivência da família. Neste filme acompanhamos um grupo de mulheres das Caxinas no seu dia-a-dia, no trabalho quotidiano e com a família. Tudo com a ajuda de uma actriz que se torna mais uma entre estas mulheres.

Fintar o Amor (2012)
Playing for Keeps
Uma comédia romântica sobre uma antiga estrela de futebol, interpretada por Gerard Bulter, que regressa à sua cidade para colocar ordem na sua vida. Enquanto tenta reconstruir o relacionamento com o seu filho, acaba recrutado como treinador da equipa infantil de futebol. Só que as tentativas de melhorar o seu comportamento acabam goradas quando se vê perseguido pelas mães dos seus jovens jogadores.

Gladiadores (2012)
Gladiatori di Roma
A animação chega-nos de Itália com Gladiadores. Na Roma imperial, órfão após a terrível erupção de Pompeia, o jovem Timo é adoptado pelo general Quíron e criado na Academia de Gladiadores mais famosa de Roma. Mas Timo não foi feito para ser gladiador! Ele só quer estar com os amigos, Ciccius e Mauricius, e evitar as sessões de treino. No entanto, tudo muda quando Lucilla, a filha de Quíron, regressa da Grécia. De repente, o único interesse de Timo é tornar-se um corajoso gladiador, para conquistar o coração da sua adorada amiga de infância e convencer Quíron a aceitá-lo como futuro genro.

Homem de Ferro 3 (2013)
Iron Man 3
Tony Stark está de volta, frente a frente com um inimigo que não conhece barreiras. Quando Stark encontra o seu mundo pessoal destruído, embarca numa angustiante busca para encontrar os responsáveis. Encostado à parede, Stark terá de lutar sozinho, contando apenas com o seu engenho e instinto para proteger os que lhe são mais próximos. Na luta para regressar, descobre a resposta à questão que secretamente o tem atormentado: o homem faz o fato ou o fato faz o homem?

Num período marcante da história Chilena, o referendo que ditaria a continuação ou não de Pinochet como Presidente, o jovem publicitário René Saavedra, interpretado por Gael García Bernal, é convencido pelos líderes da oposição a gerir a campanha a favor do Não. Sob o olhar da ditadura e com um orçamento reduzido, o protagonista e a sua equipa têm de traçar um plano para vencer e libertar finalmente o país do clima de opressão em que vivia. A escolha tem de ser certeira para que os 15 minutos de antena que lhes cabem dêem frutos.

O Frágil Som do Meu Motor (2012)
Gabriela é enfermeira num hospital da capital. Apesar de trabalhar em Lisboa, ela vive num vale frio do norte do país com o marido Pedro, um ex-polícia reformado, vítima de um tiroteio que o deixou paraplégico. Com o casamento em declínio, Gabriela começa a receber cartas de um admirador secreto e rapidamente é conduzida para uma relação intensa e misteriosa, que assenta numa fantasia: vendar-se a si própria, a pedido do amante, para não conhecer a sua identidade quando estão juntos. Ao mesmo tempo, Vítor, um investigador que foi colega de Pedro, tem em mãos um complicado caso de assassínios em série, onde as vítimas, todas mulheres, são queimadas vivas nas suas próprias casas por alguém que, meses antes, as engravidara. Gabriela, que trabalha na Unidade de Queimados, está a tratar da única sobrevivente a estes ataques. A enfermeira colabora então com Vítor, cuidando da vítima, e, ao mesmo tempo, de outro internado, um estranho homem, parcialmente queimado e com uma aparente perturbação psicológica. Com o desenrolar das investigações, Gabriela começa a desconfiar que o seu amante poderá ser o assassino. Muitos homens presentes na sua vida serão os seus principais suspeitos.

Transe (2013)
Trance
Simon (James McAvoy) é um leiloeiro de arte, que se junta a um grupo de criminosos para roubar uma valiosa obra de arte. Contudo, depois de sofrer uma pancada na cabeça durante o assalto, Simon acorda e percebe que não tem qualquer memória sobre o paradeiro da pintura. Ao verificar que as ameaças físicas e tortura não conseguem respostas, o líder do grupo criminoso, Franck (Vincent Cassel), contrata a hipnoterapeuta Elizabeth Lamb (Rosario Dawson) para explorar os recantos mais sombrios da mente de Simon. Conforme ela penetra no seu subconsciente, os riscos tornam-se muito mais elevados e as fronteiras entre realidade, desejo e sugestão hipnótica começam a diluir-se...

quarta-feira, 24 de abril de 2013

IndieLisboa'13: Competição Portuguesa - Curtas

A 10ª edição do IndieLisboa é marcada por muito cinema português no programa, sejam curtas ou longas-metragens. A Competição Nacional de Curtas conta com uma selecção de 16 títulos e o Hoje Vi(vi) um Filme dá a conhecer nove dos filmes portugueses a concurso.

O Coveiro - 9/10
André Gil Mata já é repetente no IndieLisboa e este ano trouxe uma óptima surpresa ao festival. O Coveiro, que também faz parte da secção Cinema Emergente, foi filmado - e também projectado em sala - em 35mm (uma raridade que merece louvores hoje em dia) e inspira-se no culto popular, mais propriamente no conto de cordel tradicional português. Uma criança nasce e a sua mãe morre de susto ao vê-la, destino que terá também, mais tarde, o seu pai, o coveiro da aldeia. Depois disso, a criança cresce, substituindo o seu pai nessa função. Mas a chegada de um homem sem cabeça irá mudar o destino do pobre coveiro órfão.

Uma voz imponente e obscura - a de Adolfo Luxúria Canibal - narra toda a história, sempre em verso. André Gil Mata, fiel a si mesmo, traz-nos um filme a preto e branco, repleto de cenários sombrios e arrepiantes, cheios de influências expressionistas. O Coveiro é, acima de tudo, uma bela e terrível história de amor. Uma surpreendente lufada de ar fresco na Competição Nacional deste ano.

Imaculado - 8/10
Gonçalo Waddington realiza, escreve e protagoniza Imaculado, regressando ao festival depois de Nenhum Nome, em 2010. A acção passa-se no interior do país rural, onde um homem tenta compreender um estranho fenómeno que está a acontecer no seu corpo. Vive na companhia da avó velha e de um pássaro na gaiola, e as incertezas não o deixam. Assistimos à sua rotina, entre o trabalho no campo e os momentos passados no seu quarto, que nos faz colocar algumas questões.

Waddington oferece-nos aqui uma boa surpresa com o seu Imaculado, que, no meio de cenários frios e de uma aparente solidão, nos faz descobrir possibilidades impossíveis, num conjunto de acontecimentos com interpretações em aberto, mas todas elas válidas. É sempre bom sinal quando um filme nos desafia.

Rhoma Acans 7/10
Estreante no IndieLisboa, a jovem realizadora Leonor Teles tem o seu Rhoma Acans em três secções do festival. Para além da Competição Nacional, o filme marca presença igualmente no Cinema Emergente e IndieJúnior. Para realizar esta curta documental, Leonor inspirou-se na sua própria história de família: é filha de pai cigano e mãe não cigana, e grande parte dos seus antepassados ciganos quebraram, de uma ou outra forma, a tradição da comunidade. A realizadora foi assim em busca de respostas para perguntas que também são suas, tentando perceber como teria sido a sua vida se o pai, inspirado pela sua própria mãe, não tivesse quebrado a tradição onde nasceu. É aqui que surge a jovem Joaquina, de 15 anos, ela sim inserida na comunidade cigana.

A curta-metragem começa com um tom demasiado pessoal, mas que depressa se percebe ter razão de ser. A realizadora narra a sua própria história familiar, ao mesmo tempo que algumas fotos de família desfilam no ecrã. Depois desta introdução é que Joaquina nos é apresentada, e com ela desconstrói-se um mundo quase desconhecido para quem está fora da comunidade cigana. O título inglês Gypsy Eyes adequa-se perfeitamente ao que assistimos, quer pelas raízes partilhadas por realizadora e protagonista, quer mesmo pelos planos, muito intimistas, das jovens ciganas que vemos no ecrã. A cor abunda, numa alegria que associamos a esta comunidade, reforçada pela música que acompanha a curta-metragem.

Rhoma Acans é um processo de auto-descoberta com um resultado muito interessante, onde duas jovens aparentemente tão diferentes descobrem que, afinal, até podem ter muito em comum.

Terra - 6/10
Pedro Lino é mais um repetente nesta edição do IndieLisboa. Consigo traz Terra, um documentário experimental sobre lutas de touros. Tudo começa a partir de uma citação de Miguel Torga. Depois disso, seguem-se planos do corpo do animal protagonista e ouvimos a sua respiração. Uma multidão espera-o lá fora.

Apesar da temática controversa, Pedro Lino trabalha-a de forma isenta e, ao mesmo tempo, confere às cenas de luta uma força perturbadora, proporcionada pela excelente conjugação de som e imagem. Um trabalho experimental muito interessante.

Plutão - 4.5/10
Jorge Jácome regressou ao IndieLisboa com Plutão. Um cientista explica que Plutão deixou de ser considerado um planeta. Os sentimento de desilusão e nostalgia, e a impossibilidade de não poder voltar a certos momentos da sua vida, levam-no a encontrar na história de David uma resposta para o que quer que exista para lá da ciência e da razão.

Plutão parece querer fazer uma analogia entre a desclassificação de Plutão como planeta e o fim de um amor de Verão, intercalando a história de David e Joana com as explicações do cientista. A ideia poderia despertar alguma curiosidade, mas a concretização não é a melhor, com o filme a perder ritmo e a não chegar a uma razão de ser. O elenco de actores é um ponto forte do filme, com os protagonistas - David Cabecinha e Joana de Verona - a partilharem o nome com os seus personagens.

A Herdade dos Defuntos - 4/10
Patrick Mendes é quase presença assídua no IndieLisboa. Este ano é A Herdade dos Defuntos que nos chega pela sua mão. O cenário dos acontecimentos é um ferro-velho, onde uma mulher obesa vestida de mecânica está a assar um leitão. É quando um homem surge e desfalece sob um sol abrasador que descobrimos mais acerca desta mulher.

O universo "sujo" e macabro de Patrick Mendes regressa nesta curta-metragem que, apesar de tudo, nos faz esperar mais do que nos dá.

Fragmentos de uma Observação Participativa 3.5/10
Também já não é a primeira vez de Filipa Reis e João Miller Guerra no IndieLisboa. Este ano trouxeram consigo um trabalho documental que acompanha três mulheres brasileiras que residem em Portugal. Fragmentos de uma Observação Participativa (também presente na secção Cinema Emergente) coloca-nos junto de Monique, Paulinha e Verônica, testemunhando o seu quotidiano e as suas conversas, numa curta-metragem cheia de cor.

No entanto, Fragmentos de uma Observação Participativa não passa disso mesmo: fragmentos, algo de incompleto que não oferece nada de novo à plateia - mesmo tendo sido explicado que o filme faz parte de um trabalho maior, só podemos julgar aquilo que vemos: uma curta-metragem. Assistimos a conversas banais, apesar de divertidas, mas que pouco contribuem para a força do todo. Ao mesmo tempo, alguns pontos fracos técnicos vão sendo detectados, fazendo cair por terra até mesmo a naturalidade das conversas a que assistimos no ecrã.

Entre Paredes - 2.5/10
Gonçalo Robalo e Tânia S. Ferreira disseram ao início da sessão que tudo nesta curta-metragem foi feito apenas pelos dois - excluímos aqui o trabalho dos actores - e tal é de valorizar. Entre Paredes pretende retratar a rotina de um casal na sua casa. São 24 horas entre quatro paredes que os realizadores quiseram filmar. Sem falas, esta curta tem como protagonistas um homem, uma mulher e uma casa.

Apesar do bom trabalho de iluminação, Entre Paredes transmite um vazio argumentativo indesculpável para um filme em competição. Uma monotonia instala-se do início ao fim e a mensagem não passa.

Quatro Horas Descalço - 1.5/10
Presente na Competição Nacional e Internacional, Quatro Horas Descalço, de Ico Costa, é uma ficção sobre um filho que mata o pai com as próprias mãos e caminha durante quatro horas até à esquadra, de pés descalços, para se entregar, numa aldeia montanhosa do interior de Portugal.

Uma respiração ofegante - que se torna exagerada - acompanha-nos ao longo da curta-metragem, que não nos oferece mais do que o desespero de um jovem desde o momento em que comete o crime até chegar à esquadra. Não nos são dadas razões, apenas um percurso, longo e tumultuoso, por entre o terreno montanhoso, que o assassino percorre descalço (quem sabe como penitência?). Certo é que o abuso dos planos muito longos não abona em nada a favor da curta-metragem, já de si muito fraca, com um ritmo e emoções sem qualquer evolução.

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Da Competição Nacional de Curtas fazem ainda parte A Dupla Coincidência dos Desejos, Dive: Approach an Exit, Forbidden Room, Gingers, Má Raça, O Facínora e Sizígia, filmes a que não tive oportunidade de assistir.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Crítica: O Frágil Som do meu Motor

"Não me podes ver... Não me podes tocar..."
*6.5/10* 

É já na Quinta-feira, dia 25 de Abril, que chega aos cinemas mais uma produção nacional. O Frágil Som do meu Motor, a primeira longa-metragem de Leonardo António, fez parte da selecção oficial da Mostra Internacional de São Paulo, Novos Realizadores e promete trazer muitas surpresas e um novo fôlego para um género quase inexistente no cinema português: o thriller. Com um título sonante e uma protagonista feminina, a longa-metragem é pouco aconselhável aos mais sensíveis, repleta de erotismo, aliado a uma aura pesada e violenta.

Gabriela (Alexandra Rocha) é enfermeira num hospital da capital. Apesar de trabalhar em Lisboa, ela vive num vale frio do norte do país com o marido Pedro, um ex-polícia reformado, vítima de um tiroteio que o deixou paraplégico. Com o casamento em declínio, Gabriela começa a receber cartas de um admirador secreto e rapidamente é conduzida para uma relação intensa e misteriosa, que assenta numa fantasia: vendar-se a si própria, a pedido do amante, para não conhecer a sua identidade quando estão juntos.

Ao mesmo tempo, Vítor, um investigador que foi colega de Pedro, tem em mãos um complicado caso de assassínios em série, onde as vítimas, todas mulheres, são queimadas vivas nas suas próprias casas por alguém que, meses antes, as engravidara. Gabriela, que trabalha na Unidade de Queimados, está a tratar da única sobrevivente a estes ataques. A enfermeira colabora então com Vítor, cuidando da vítima, e, ao mesmo tempo, de outro internado, um estranho homem, parcialmente queimado e com uma aparente perturbação psicológica. Com o desenrolar das investigações, Gabriela começa a desconfiar que o seu amante poderá ser o assassino. Muitos homens presentes na sua vida serão os seus principais suspeitos.


As desconfianças de Gabriela e da plateia perduram do início ao fim do filme de Leonardo António, que não teve medo de arriscar e veio oferecer ao público português um trabalho que vai muito para além do habitual. O Frágil som do meu Motor tem um mote prometedor, sem qualquer dúvida, com um argumento original e o suspense muito bem construído. As suposições vão sendo feitas mas os mistérios perduram até ao último minuto. O thriller é assim experimentado em português com competência e interesse para um primeiro trabalho. Por outro lado, sente-se alguma divagação ao longo da história, que parece querer complicar sem necessidade, e pode deixar o espectador confuso ou perdido no meio de tantos “ornamentos” desnecessários. Sente-se a presença de uma série de narrativas paralelas ao centro da acção que faz o filme perder algum fôlego. Ideia interessante, apesar de utilizada em excesso, é a do “feto narrador” que inicia a longa-metragem e vai acompanhando a narrativa, como um guia do espectador.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

IndieLisboa'13: When Night Falls

*7/10*

Da China, When Night Falls chegou hoje à secção Cinema Emergente do IndieLisboa'13. Liang Ying quis, através do cinema, denunciar  a nível internacional o que de errado se passa na China, trazendo até nós um filme baseado na história verídica de Yang Jia e da sua mãe Wang Jinmei. O jovem, de 28 anos, foi preso por andar de bicicleta sem licença. Depois de um interrogatório onde foi agredido, tentou processar a polícia. Mas a justiça falhou e, certo dia, Jia entrou numa estação de polícia nos subúrbios de Xangai, matando seis agentes. A mãe foi internada durante 143 dias num hospital psiquiátrico, sem possibilidade de defender o filho, condenado à morte sem julgamento.

É esta realidade que Liang Ying ficciona em When Night Falls, e que, acima de tudo, cumpre uma função documental. O realizador utiliza no início e final da longa-metragem uma narração - que supomos ser da "verdadeira" mãe de Yang Jia -, que conta toda a história desde os primeiros acontecimentos, prisão do filho e internamento da mãe, sempre acompanhada por fotografias reais. A ficção apenas nos mostra os poucos dias entre a libertação da mãe e a execução de Jia. A dor e a angústia de uma mãe que tudo faz para evitar a morte do filho, quer quer reunir e apresentar provas que o ilibem: é este o principal foco deste filme-denúncia. Curiosamente, o ano dos acontecimentos, 2008, é o mesmo dos Jogos Olímpicos de Pequim, um paradoxo curioso e que aumenta, mais ainda, a principal intenção desta longa-metragem.


A actriz principal é Nai An, que interpreta Wang Jinmei, e faz um trabalho exímio, transmitindo na perfeição o estado psicológico desta mãe desesperada e que se vê se mãos atadas. Os prémios que actriz e realizador venceram no Festival de Locarno não foram, de todo, em vão. 

As autoridades chinesas tentaram comprar When Night Falls, para impedir a sua distribuição internacional, como vemos, sem sucesso. A família do realizador foi interrogada e Liang Ying encontra-se exilado em Hong Kong. Acima de tudo, When Night Falls é uma prova de coragem de Liang Ying e da sua equipa. Não são as mais-valias técnicas que o tornam num bom filme - nota-se rapidamente que o orçamento foi muito baixo -, mas sim o valor do material que reúne, da história que conta, que não conseguiu ser abafada por um regime político.

IndieLisboa'13: Sinapupunan


*7/10*

Sinapupunan (ou Thy Womb) chega ao Observatório do IndieLisboa'13 pela mão de Brillante Mendoza. Com ele viajamos até às Filipinas e conhecemos Shaleha (Nora Aunor), uma parteira que, ironia do destino, não pode ter filhos. Contudo, num casamento religioso e tradicional como o seu, a continuidade da família é uma das condições para a felicidade plena de uma união e esta mulher parece disposta a lutar para que o marido se sinta feliz.

Uma mulher que procura uma nova esposa para o marido, apenas para que ele se sinta realizado por ter o filho que Shaleha não lhe pode dar. O mote que Brillante Mendoza nos dá é, desde logo, cativante e pretende fazer reflectir. Sinapupunan é um excelente retrato de uma cultura que os ocidentais desconhecem. Deparamo-nos aqui com outra religião e costumes, um estilo de vida bem diferente e mentalidades muito distintas das ocidentais. 


Visualmente fabulosa, a longa-metragem é rica em cenários deslumbrantes repletos de cores fortes e vibrantes, com uma excelente direcção de fotografia de Odyssey Flores. A acompanhar, dois partos reais são-nos mostrados - um deles a iniciar o filme -, simbolizando em pleno a ironia que envolve a protagonista.

A angústia de Shaleha e, ao mesmo tempo, a coragem e vontade que demonstra para contrariar o seu próprio destino, deixam a plateia atordoada. Sinapupunan é um filme corajoso como a protagonista que nos leva a mergulhar nas límpidas águas filipinas e entrar, por alguns momentos, numa cultura muito diferente.

Sugestão da Semana #60

A Sugestão da Semana poderia recair sobre vários dos filmes estreados na passada Quinta-feira. Apesar da escolha ser difícil, o nomeado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Professor Lazhar, é o destaque de hoje.

PROFESSOR LAZHAR


Ficha Técnica:
Título Original: Monsieur Lazhar
Realizador: Philippe Falardeau
Actores:  Mohamed Fellag, Sophie Nélisse, Émilien Néron
Género: Drama
Classificação: M/12
Duração: 94 minutos

domingo, 21 de abril de 2013

IndieLisboa'13: Francine

*5.5/10*


Brian M. Cassidy e Melanie Shatzky trazem à Competição Internacional do IndieLisboa'13 um drama protagonizado pela oscarizada Melissa Leo. Na sessão de Sábado, dia 20, na sala Manoel de Oliveira no Cinema São Jorge, esteve presente a realizadora que respondeu a algumas questões no final da sessão.

Quando sai da prisão, Francine instala-se numa pequena cidade rural norte-americana, onde leva uma vida solitária, evitando criar laços afectivos com as pessoas, mas oferecendo todo o seu carinho aos animais. Este amor parece dominá-la de tal forma que não hesita em agir em defesa deles.

Há que reconhecer, desde logo, a originalidade temática que dá origem a esta longa-metragem: a do amor incondicional pelos animais que leva uma mulher solitária a um estado pouco recomendável. Aliada a essa relação, junta-se a dificuldade em estabelecer ligações com os outros seres humanos, que mostra o quão paradoxal pode ser Francine. Mulher de poucas palavras, todos os empregos que lhe conhecemos envolvem animais, mas só a meio do filme a vemos mais próxima de outras pessoas, com as quais estabelece relações pouco comuns. Ainda perto do início, contudo, vemos o único momento onde Francine parece sentir-se inserida no meio de pessoas como ela: numa cena onde assiste - e sente profundamente -  um concerto de metal.


Todavia, a linha argumentativa, que tem tanto para dar, perde-se em situações não explicadas e inesperadas que nada contribuem para a construção da personagem e desenvolvimento da narrativa. As relações com os habitantes do bairro onde vive, por exemplo, não contribuem para a formação da sua personalidade, que já sabemos ser muito perturbada. O mesmo relativamente ao amor "exagerado" pelos animais. Na realidade, é chocante observar o desenrolar dessa situação, que vai do estado psicológico de Francine, ao da sua casa e dos próprios animais, como observamos mais tarde. No entanto, falta um rumo para esses acontecimentos, uma conclusão muito mais forte que a que o filme tem, que desilude verdadeiramente.

Francine não peca, em momento algum, pelo seu ritmo lento, que se adequa à história e personagem, mas sim por não saber agarrar uma temática com tanto para oferecer. Melissa Leo é, definitivamente, o melhor do filme, com uma interpretação arrepiante, acompanhada por uma banda sonora pesada e que se adequa, na perfeição, à acção.

IndieLisboa'13: Não / No

*7.5/10*

No (ou Não), de Pablo Larraín, foi a escolha para a abertura desta 10ª edição do IndieLisboa, na passada Quinta-feira, dia 18 de Abril. O filme relata o que aconteceu nos bastidores do plebiscito de 1988 no Chile, em que se decidia se Pinochet continuaria ou não no governo.

O jovem publicitário René Saavedra, interpretado de forma muito competente por Gael García Bernal, é convencido pelos líderes da oposição a gerir a sua campanha a favor do Não. Sob o olhar da ditadura e com um orçamento reduzido, o protagonista e a sua equipa têm de traçar um plano para vencer e libertar finalmente o país do clima de opressão em que vivia. A escolha tem de ser certeira para que os 15 minutos de antena que lhes cabem dêem frutos. 

Pablo Larraín traz até nós o universo da publicidade num momento crucial da história de um país. Duas campanhas políticas confrontam-se - o Sim e o Não -, tendo à cabeça, de um lado, Saavedra, do outro, o seu próprio chefe. O mundo da publicidade é-nos desvendado, com as perseguições aos homens do Não a serem retratadas, num clima de medo, mas igualmente de vontade de mudar.


O realizador tomou opções muito curiosas em termos técnicos. A longa-metragem foi filmada no formato U-Matic, o mesmo que era utilizado na televisão à época dos acontecimentos. Ao mesmo tempo, a colocação de imagens de arquivo, que se misturam com as restantes - e ser-nos-á quase impossível distingui-las -, transportam-nos mais ainda para o Chile de 1988. 

O ritmo é original e muito se assemelha ao de um documentário - quer mesmo pelos factos relatados -, que se vê reforçado pelos planos e movimentos de câmara, que quase tornam o filme mais real do que ficcional, e pela curiosa opção de montagem. Realidade e ficção confundem-se em No de uma forma genial.

A passagem para o grande ecrã de acontecimentos tão importantes para o Chile valeram à longa-metragem de Larraín uma nomeação para Melhor Filme Estrangeiro nos Oscars deste ano. O filme leva-nos, acima de tudo, a mergulhar de cabeça na campanha publicitária do Não e a sentir o ambiente de opressão que se vivia, como se o presenciássemos. No é a inteligência de uma equipa que quer a alegria e a liberdade de volta ao seu país.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Crítica: Os Amantes Passageiros / Los Amantes Pasajeros (2013)

*7/10*

Pedro Almodóvar regressa aos tempos animados de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos com o seu mais recente trabalho, Os Amantes Passageiros. Cor, dança e estereótipos não faltam no novo filme do realizador espanhol, onde nem a crítica social deixa de marcar presença.

O cenário dos acontecimentos é um avião, que se depara com um problema em um dos trens de aterragem e, enquanto não há solução à vista, o céu é a única possibilidade para os caricatos passageiros e tripulação. Todos ficam alterados pois começam a acreditar que estão a viver as últimas horas de vida. O desespero geral força-os a fazer confissões inesperadas sobre os seus pecados e sobre as suas últimas vontades.

Desde os primeiros momentos - onde Penélope Cruz e Antonio Banderas fazem as nossas delícias por uns minutos -, sabemos que vamos divertir-nos com este voo repleto de figuras hilariantes. Para além de uma espécie de nonsense que paira ao longo da acção, há muito sarcasmo por detrás das personagens e acontecimentos. Desde a virgem com poderes premonitórios, aos comissários de bordo homossexuais, ao actor quebra-corações, etc., certo é que muitos nos remetem para as suas próprias histórias paralelas, onde o sentimentalismo aparente não passa de ironia e crítica social. 


Desde a referência ao rei de Espanha e suas supostas amantes, aos passageiros da classe económica que foram "adormecidos" para não se darem conta dos problemas que acontecem durante o voo, muitas são as temáticas sérias subtilmente encaixadas num argumento que aparenta ser somente leve e divertido. E nem as redes sociais escapam à ironia de Pedro Almodóvar, com o twitter a entrar em cena bem cedo.

O álcool e as drogas contribuem para a animação que sobrevoa Espanha, onde não falta sequer música e dança, proporcionadas pelos três comissários de bordo. Todas as personagens cativam o espectador, pelas suas particularidades e pelas boas prestações por parte do elenco, onde se destaca Joserra, o comissário  de bordo que não consegue mentir, interpretado por Javier CámaraNorma Boss (Cecilia Roth), dona de uma empresa de prostituição de luxo, e Bruna, a virgem vidente, com um desempenho muito divertido de Lola Dueñas.

Leve, mas muito menos do que aparenta, Os Amantes Passageiros marca o regresso de Almodóvar às comédias - depois do registo pesado de A Pele Onde Eu Vivo -, mas provando que o cinema precisa de muito mais do que gargalhadas. Um filme que vai, certamente, dizer mais aos espanhóis, já que se debruça sobre a sua realidade, mas que será impossível passar despercebido ao resto do mundo. Para ver de mente aberta, com sentido de humor, mas também com atenção aos pormenores, desde o primeiro minuto.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Crítica: Professor Lazhar / Monsieur Lazhar (2011)


*7/10*

Nomeado ao Oscar para Melhor Filme Estrangeiro pelo Canadá, Professor Lazhar transborda delicadeza e, ao mesmo tempo, reúne em si duas temáticas quase paradoxais: a morte e a infância. Escrito e realizado por Philippe Falardeau, a longa-metragem canadiana oferece uma profundidade que não perdia se tivesse chegado mais longe.

Numa escola primária de Montreal, Bachir Lazhar, um imigrante argelino, surge em boa hora para substituir uma professora que se suicidou na sala de aula. Enquanto tenta ajudar os alunos a lidar com a dor, a sua recente perda é também revelada.

Duas histórias distintas unem-se na mesma pessoa – Lazhar – para retratar a dor que se sente quando se lida com a morte. Neste caso temos, por um lado Lazhar, que perdeu recentemente a mulher e as filhas, e a turma da professora suicida, composta por crianças que revelam a normal dificuldade em lidar com a morte. A esta relação espiritual, junta-se a problemática, levemente abordada, acerca das rígidas regras no comportamento professor-aluno, onde nenhum tipo de toque é permitido e que fazem o professor de educação física da escola levantar interessantes questões.


O foco do argumento divide-se entre estes temas, a que se junta um possível mas muito desnecessário romance que envolve uma das colegas do protagonista. A longa-metragem ganharia muito com uma opção que excluísse este lado romântico que se revela sem desenlace e nada contribui para os temas principais de Professor Lazhar.

De extrema importância para toda a narrativa são as duas crianças que se deparam com a professora morta. Alice, por seu lado, é uma menina muito madura para a idade, com ideias firmes e sem medo de se exprimir. Já Simon é um jovem frustrado e problemático, que carrega uma dor demasiado pesada para si. Eles, como toda a turma, revelam as marcas que um suicídio de alguém próximo lhes causou. É neles que a atenção da plateia se prende maioritariamente, e toda esta situação de compreensão de uma atitude inexplicável merecia um maior tempo de reflexão no filme de Philippe Falardeau. A história do professor, por sua vez, serve como complemento, provocando uma maior identificação com a turma – porque também ele enfrentou uma muito dolorosa perda, e porque aí se encontravam igualmente duas crianças, as suas filhas.