terça-feira, 30 de setembro de 2014

Ads & Cinema #15

Já há algum tempo ligada à marca, Gwyneth Paltrow volta a dar a cara pela Hugo Boss, desta vez para a nova fragrância Boss Ma Vie.


Tal como o anúncio nos mostra, este perfume é para mulheres femininas, fortes e independentes, à imagem de Paltrow. A preto e branco, a actriz surge cheia de classe, mas descontraída, sempre de sorriso nos lábios.

Momentos para Recordar #33

Em mais um Momentos para Recordar, a sugestão de hoje convida-nos a recuar até 1990 e a relembrar a sofredora Nikita, esta mulher de armas, que dificilmente esqueceremos. Se Luc Besson nos tem trazido grandes personagens femininas esta será, certamente, uma das melhores.

Nikita - Dura de Matar (Nikita), Luc Besson (1990)

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Crítica: Boa noite, Cinderela (2014)

*8/10*

Passou por Cannes, pelo IndieLisboa'14 e agora pelo Queer Lisboa 18, a curta-metragem Boa noite, Cinderela, de Carlos Conceição, traz originalidade ao conto da Cinderela, e uma visão fetichista desta história de encantar.


Afinal, o príncipe nem sempre é assim tão encantado, nem a Cinderela é tão apaixonada. Afinal, também nos contos de fadas podem haver segundas intenções. Eis uma versão mais arriscada e muito original de um dos mais famosos contos clássicos da infância.

Sabemos que estamos no século XIX. À meia-noite a Cinderela escapa, deixando para trás um sapato de cristal. Nos dias que se seguem, o príncipe não consegue abandonar a ideia de completar o par.

Aqui os protagonistas são dúbios - Príncipe, Escudeiro e Gata Borralheira - e o sapato cativa as atenções dos três e do público. Uma visão fetichista toma conta da história, entre pés e sapatos, prazer e ambição. Os interesses trocam as voltas ao romantismo, o ambiente é sombrio mas encantado, com fortes marcas temporais, que no entanto, não definem a época. A abordagem é corajosa e provocadora, atenta a todos os detalhes, com um interessante trabalho de fotografia e bonitas paisagens.


No elenco, três boas interpretações: o Príncipe João Cajuda (que mostra cada vez mais a sua versatilidade), o Escudeiro David Cabecinha e a Gata Borralheira Joana de Verona.

Arquiteturas Film Festival'14: Vencedores

O Arquiteturas Film Festival Lisboa terminou ontem, dia em que foram revelados também os vencedores desta edição. O festival aconteceu entre 24 e 28 de Setembro.


Melhor Longa-Metragem Nacional
In Media Res - Luciana Fina, Portugal (2012) 

Melhor Curta-metragem Nacional
Ficção
Bycicle - Luís Vieira Campos, Portugal (2014) 

Documentário
Rua da Estrada - Graça Castanheira, Portugal (2012) 

Experimental
Cinza - Micael Espinha, Portugal (2014) 

Melhor Longa-metragem Internacional
Houses For All - Gereon Wetzel, Alemanha (2013)

Melhor Curta-metragem Internacional
Ficção
The Singer - Rafael Navarro Minon, Espanha (2013)

Documentário
White Chimney – Jani Peltonen, Finlândia (2014) 

Experimental
The Column - Adrian Paci, Itália (2013) 

Prémio Lusofonia
Bernardes - Paulo de Barros, Gustavo Gama Rodrigues, Brasil (2014)

Prémio Novos Talentos (ex-aequo)
Atenção: Isto Pode Ser Um Poema - Áureo Rosa and Luiz H. Girarde, Brasil (2014)
e
Forgotten - Fabio Caccuri, Nicola Ciuffo, Ivo Pisanti, Itália (2013)

Prémio da Audiência
Precise Poetry:Lina Bo Bardi's Architecture - Belinda Ruchschcio, Áustria/Alemanha (2013)

FIKE'14: Masterclass de Patricia Casey e 39 filmes em competição

O FIKE - 12º Festival Internacional de Curtas-Metragens vai decorrer entre 21 e 25 de Outubro, simultaneamente nas cidades de Évora e Beja.


Entre os convidados do FIKE 2014 estará Patricia Casey, produtora do primeiro filme dos Monty PythonAnd Now for Something Completely Different, de 1971. Durante o festival Casey dará uma masterclass sobre produção cinematográfica.

Em Competição (nas categorias de ficção, documentário e animação) estarão 39 filmes, de 16 países. Ao todo, este ano, inscreveram-se no festival 1004 filmes, originários de 44 países. Este ano, a concurso, estarão filmes da Polónia, Israel, Irão, Roménia, Itália, Letónia, Estónia, Suíça, Holanda, França, Itália, Alemanha, Reino Unido, Espanha e também Portugal, que conta este ano com nove curtas.

O Júri Oficial do FIKE'14 é composto pela a jornalista belga Nancy Denney-Phelps, o realizador português Manuel Mozos, o realizador e professor de animação e ilustração sérvio Rastko Ciric, e ainda, os portugueses Rui Simões, realizador e documentarista, e o jornalista e crítico de cinema Rui Pedro Tendinha.

O prémio para o melhor documentário será votado pelo Júri Estação Imagem, composto por Cláudia Alves (documentarista), Pedro Letria (fotográfico) e pelo realizador Miguel Braga. O Prémio D. Quixote será atribuído pelo Júri da IFFS- International Federation of Film Societies, este ano constituído por Sylwia Hamerska, jornalista e cineclubista polaca, pelo alemão Thomas Penner, cineclubista e técnico de VFX e por Denise Cunha Silva, cineclubista e produtora de festivais de cinema.
  
Como habitualmente, será ainda atribuído o Prémio do Público, cujos jurados serão todos os espectadores presentes nas salas de Évora e Beja. 

As sessões do FIKE – Festival Internacional de Curtas-metragens decorrerão no Auditório da Universidade de Évora e no Teatro Julia Pax em Beja.

Mais informações sobre o festival aqui.

Sugestão da Semana #135

Hoje, a Sugestão da Semana é especial. Das estreias da passada Quinta-feira, o destaque recai sobre os seis filmes de Satyajit Ray.


A GRANDE CIDADE

CHARULATA

O COBARDE

O DEUS ELEFANTE

O HERÓI

O SANTO

sábado, 27 de setembro de 2014

Queer Lisboa 18: Vencedores

Foram esta noite anunciados os vencedores do Queer Lisboa 18Something Must Break, de Ester Martin Bergsmark, venceu a Competição de Longas-metragens e nas Curtas os premiados foram Mondial 2010 e Frei Luís de Sousa (Internacional e Nacional, respectivamente). Por seu lado, o público escolheu Rosie, nas longas, e Cigano, nas curtas-metragens.


Conhece aqui a lista completa de vencedores.

Competição de Longas-Metragens
Melhor Longa-Metragem: Something Must Break (Suécia, 2014) de Ester Martin Bergsmark

Menção Honrosa: Atlántida (Argentina, França, 2014) de Inés María Barrionuevo

Melhor Interpretação: Saga Becker, em Something Must Break, Kostas Nikouli, em Xenia, e Angelique Litzenburger em Party Girl.

Prémio do Público: Rosie (Alemanha, Suíça, 2013), de Marcel Gisler

Competição de Documentários
Melhor Documentário: Julia (Alemanha, Lituania, 2013), de J. Jackie Baier

Prémio do Público: São Paulo em Hi-Fi (Brasil, 2013), de Lufe Steffen

Competição de Curtas-Metragens
Melhor Curta-Metragem: Mondial 2010 (Líbano, 2014), de Roy Dib

Melhor Curta-Metragem Portuguesa: Frei Luís de Sousa (Portugal, 2014), de SillySeason

Prémio do Público: Cigano (Portugal, 2013), de David Bonneville

Competição In My Shorts
Melhor Curta-Metragem: Bonne Espérance (Suíça, 2013), de Kaspar Schiltknecht

Menção Honrosa: Gabrielle (Bélgica, 2013), de Margo Fruitier e Paul Cartron


O Queer Lisboa 19 já tem data marcada. Acontecerá de 18 a 26 de Setembro de 2015.

Arquiteturas Film Festival'14: Brasília e Farocki

No âmbito do Arquiteturas Film Festival Lisboa, a Cinemateca Portuguesa apresentou, esta Quinta-feira, dois documentários onde a arquitectura é a palavra de ordem: Brasília, Contradições de uma Cidade Nova, de Joaquim Pedro de Andrade, e In Comparison, de Harun Farocki.

BRASÍLIA, CONTRADIÇÕES DE UMA CIDADE NOVA (1968)
*7/10*

Imagens de Brasília no seu sexto ano e entrevistas a habitantes da capital, de diversas classes sociais. Uma pergunta estrutura o documentário: uma cidade inteiramente planeada, criada em nome do desenvolvimento nacional e da democratização da sociedade, poderia reproduzir as desigualdades e a opressão existentes em outras regiões do país?

É a partir desta questão que tudo nos é apresentado. O inicio da construção da cidade, tudo geometricamente planeado, arquitectonicamente estudado e executado. Mas depois vêm o resto: novos bairros nos arredores da cidade que não constavam nos planos.

Joaquim Pedro de Andrade tem aqui um belo documentário que nos dá a conhecer o início da cidade de Brasília, o sonho de cidade ideal e o acordar para a realidade mais crua. O tom político e a crítica que lhe é inerente pode, contudo, ser o ponto mais fraco deste Brasília, Contradições de uma Cidade Nova

IN COMPARISON (2009)
*8/10*

Segundo as palavras do realizador recentemente falecido, Harun Farocki, era sua intenção com In Comparison “propor um filme que contribua para o conceito do trabalho. Que compare o trabalho numa sociedade tradicional como África, com uma sociedade industrial recente como a Índia e com uma sociedade altamente industrializada na Europa ou no Japão. O objecto de comparação é o trabalho na construção de casas. Casas para viver.”

É nessa posição contemplativa e comparativa que a plateia se encontra. Não há narração explicativa, apenas algumas legendas que nos contextualizam. Aqui, apreendemos com a experiência, como se assistíssemos de perto à construção daquelas casas, hospitais, escolas, às técnicas mais ou menos artesanais de construção. Do trabalho do Homem, que tudo fabrica com as suas próprias mãos e com a ajuda de todos - homens, mulheres, crianças - às mais avançadas máquinas, ali está o trabalho, nas suas mais variadas formas, à frente dos nossos olhos. Farocki apresenta-nos as diferentes realidades, de local para local, para que possamos fazer esta comparação que o título sugere. Um curioso e bem concretizado exercício.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Já Vi(vi) este Filme, por Pedro Ponte

Já Vi(vi) este Filme
por Pedro Ponte, da revista Umbigo


A minha capacidade de me identificar com um filme e de ver nele paralelismos com a minha própria vida sempre foi elevada. Talvez isto tenha a ver com capacidade de empatia, que sempre existiu em doses exageradas em mim, mas seja como for, haveria, tenho a certeza, dezenas de filmes que me fizeram reagir com o tal "já vivi isto" que a Inês procura. Mas o mais recente a fazê-lo como um acidente de automóvel violento foi o novo de Spike Jonze, que olha para as relações - humanas, não apenas amorosas - pela perspectiva de um homem algo alienado num futuro distante ou não tão distante quanto isso onde as novas tecnologias chegaram ao ponto de permitir adquirir um sistema operativo com consciência própria. Felizmente, não sou solitário e/ou patético a esse ponto, mas acho que já o fui -- e este filme lembrou-me de forma um pouco sufocante períodos da minha vida em que senti tudo aquilo que o Theodore sente. Nos piores desses períodos, não duvido que teria cedido às pressões de uma sociedade consumista e tecnologicamente oportunista, principalmente se viesse com a voz da Scarlett Johansson. Hoje, não só não cederia como rir-me-ia da ideia. Amanhã, não sei nem quero saber.
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Obrigada pela tua participação, Pedro!

Estreias da Semana #135

Onze filmes estrearam esta Quinta-feira nos cinemas portugueses. Destaque para os seis filmes de Satyajit Ray.

A Grande Cidade (1963)
Mahanagar
Em Calcutá, Subrata vive com a mulher, Arati, o filho de ambos, os seus pais e uma irmã mais nova. Quando o dinheiro começa a escassear a esposa começa a trabalhar fora, com sucesso. Quando o marido perde o emprego, é ela quem passa a sustentar a casa, o que contraria os costumes conservadores.

Amigos para o que der e vier (2013)
Are You Here
Quando Steve Dallas (Owen Wilson), um meteorologista mulherengo, descobre que o seu amigo, Ben Baker (Zach Galifianakis), perdeu o pai que há muito se tinha afastado, os dois regressam à casa de infância de Ben para descobrir que este herdou a fortuna da família, deixando o par de amigos, sem grande preparação para a vida, em luta com a irredutível irmã de Ben (Amy Poehler) e a ter de negociar com a bela viúva de 25 anos (Laura Ramsey).

Charulata (1964)
A solitária mulher de um jornalista apaixona-se pelo familiar do marido que visita a sua casa e que partilha consigo o amor pela Literatura.

Lacrau (2013)
A víbora é surda e o lacrau não vê, assim é e assim será, tal como o campo é calmo e a cidade agitada e o ser humano impossível de satisfazer. Lacrau procura o regresso "à curva onde o homem se perdeu" numa viagem que parte da cidade em direcção à natureza. A procura das sensações e relações mais antigas dos seres humanos. O espanto, o medo do desconhecido, a perda dos confortos básicos, a solidão, o encontro com o outro, o outro animal, o outro vegetal. Um mergulho à procura de uma conexão com o mundo. Onde partida e chegada são a mesma, mas eu não.

Lullaby - A última canção (2014)
Lullaby
Aos 25 anos, Jonathan Lowenstein (Garrett Hedlund) é um jovem emocionalmente superficial, fumador compulsivo, que vive em Los Angeles, afastado da sua família rica de Nova Iorque. Um dia recebe um telefonema a avisá-lo que o pai, Robert (Richard Jenkins), que luta contra um cancro, tem apenas 36 horas de vida. Jonathan vai imediatamente para Nova Iorque para estar ao lado do pai, que revela estar cansado de lutar e que pediu para que às 8h00 da manhã do dia seguinte lhe sejam injectados analgésicos suficientes para o matar. Jonathan está acompanhado pela mãe, Rachel (Anne Archer), e por Karen (Jessica Brown Findlay), a irmã mais nova. Ao saber da decisão do pai, Karen defende que ele deve ser mantido vivo, contra a sua vontade, e está disposta a pedir uma ordem legal para o impedir.

O Cobarde (1965)
Kapurush
Perdido numa pequena aldeia após o seu carro ter avariado, um argumentista é surpreendido ao encontrar uma antiga namorada. Recordando a sua incapacidade para se comprometer e o consequente fim da relação, vai tentar acertar contas com o passado mas descobre que o tempo ainda não sarou as feridas.

O Deus Elefante (1979)
Joi Baba Felunath
O segundo filme com o Detective Feluda, no qual este parte de férias. Mas o roubo de uma imagem de Ganesh, o Deus Elefante, de uma casa de família no local obriga-o a iniciar uma investigação, que o vai colocar face a face com algumas personagens misteriosas e impiedosas.

O Herói (1966)
Nayak
De viagem para Nova Deli, onde irá receber um prémio, uma estrela do cinema indiano reavalia o seu sucesso através dos sonhos e experiências passadas dos passageiros que seguem consigo.

O Santo (1965)
Mahapurush
Uma família Hindu devota deixa-se enganar por um charlatão que se faz passar por santo.

Os Gatos Não Têm Vertigens (2014)
(João Jesus) é um jovem delinquente que cresceu num bairro problemático de Lisboa. Abandonado pela mãe enquanto criança e expulso de casa pelo pai no dia em que completa 18 anos, acaba por ir parar ao terraço do prédio onde vive a septuagenária Rosa e decide passar lá a noite. Quando Rosa descobre no seu terraço, em vez de chamar a polícia, decide acolhê-lo. Juntos, descobrem que têm muitas experiências para trocar e que há fortes laços emocionais que nascem das circunstâncias mais improváveis.

The Equalizer - Sem Misericórdia (2014)
The Equalizer
McCall é um homem que acredita ter deixado para trás o seu misterioso passado e se dedica a uma nova e tranquila vida. Mas, quando conhece Teri (Chloë Grace Moretz), uma jovem controlada por um grupo de gangsters russos, não consegue manter-se como observador neutro –e tem de a ajudar. Armado com as suas capacidades secretas que lhe permitem vingar qualquer ataque aos desprotegidos, McCall sai do seu retiro e descobre que o seu desejo de justiça se mantém vivo.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

MOTELx'14: Life After Beth (2014)

*6/10*

Life After Beth abriu esta edição do MOTELx, com muito humor negro e divertidos momentos nonsense. Um Apocalipse zombie e uma história de amor para além da morte aguçam as expectativas, o resultado não sendo surpreendente é, acima de tudo, divertido.

Zach está inconsolável com a inesperada morte da namorada, Beth. Mas quando esta regressa miraculosamente à vida, Zach quer aproveitar ao máximo a segunda oportunidade que o destino lhe deu. Contudo, a nova Beth não é bem a pessoa que era anteriormente, e a vida de Zach não vai propriamente melhorar.

Com nomes soantes como John C. Reilly, Paul Reiser, Dan Dehaan ou Anna Kendrick no elenco, Jeff Baena teve elementos fortes para a sua estreia na realização. O argumento, também da sua responsabilidade, traz-nos uma história de zombies cheia de amor, uma comédia negra pura, com um romance improvável a dar o mote. Life After Beth não será um marco no cinema de terror, longe disso, mas trará muitas gargalhadas a uma plateia pouco comprometida. É essencialmente isso que o filme de Baena pede: uma mente aberta que desfrute da tragédia daquelas personagens e se ria com todas as situações hilariantes e sem sentido a que assiste. 


A gradual mudança de Beth, potenciada pela caracterização, é inicialmente discreta mas começa a deixar-nos pouco à vontade, tal como a Zach, à medida que o filme avança. Life After Beth peca principalmente pelo final abrupto e pouco original. Depois de mais de uma hora a introduzir-nos na relação amorosa de Beth e Zach, a história merecia uma conclusão menos "esquecível".

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Arquiteturas Film Festival'14: Destaques


O Arquiteturas Film Festival'14 chega ao Cinema City Alvalade e à Cinemateca Portuguesa já no dia 24 de Setembro. Aqui ficam 14 filmes que podes (e deves) ver no festival que se prolonga até dia 28.

Wim Wenders, Michael Glawogger, Michael Madsen, Robert Redford, Margreth Olin e Karim Ainouz
“Se os edifícios pudessem falar, o que diriam sobre nós?” Cathedrals of Culture é uma colecção de seis filmes estreados este ano no Festival Internacional de Berlim e quer dar seis respostas a esta questão. O projecto, filmado inteiramente em 3D, permite que “seis edifícios emblemáticos e muito diferentes falem por si, examinando a vida humana a partir da perspectiva de uma estrutura feita pelo homem”. Os edifícios “são manifestações materiais do pensamento e da ação humana: a Filarmónica de Berlim, um ícone da modernidade; a Biblioteca Nacional da Rússia, um reino de pensamentos; Halden Prison, a prisão mais humana do mundo; o Instituto Salk, um mosteiro científico na costa da Califórnia; a Oslo Opera House, uma simbiose futurista da arte e da vida; e o Centro Pompidou, uma máquina de cultura moderna." Os seis cineastas trazem o seu próprio estilo visual e abordagem artísticas para o projecto, com estes seis edifícios únicos.

Rodrigo Areias
1960 é um home movie em registo de diário de viagem todo filmado em Super 8. Através da arquitectura e a partir do Diário de Bordo de Fernando Távora, 1960 revisita a viagem do arquitecto no ano que dá título ao documentário. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme ao 1960 pode ser lida ou relida aqui.

Luciana Fina
Partindo dos textos do arquitecto Manuel Tainha e das conversas gravadas entre 2010 e 2012, Luciana Fina propõe uma leitura cinemática do pensamento e do universo do arquitecto, um diálogo com a sua ética e a sua poética.

Frederico Lobo e Tiago Espanha
O documentário leva-nos numa viagem - muitas vezes de barco - às indústrias do vale do Rio Ave, que nasce na Serra da Cabreira e desagua em Vila do Conde. Estas foram, durante muito tempo, uma marca de desenvolvimento da região. As cidades cresceram em torno de fábricas, nas margens do rio, construíram-se estradas e auto-estradas, transformaram-se pequenas aldeias em meios urbanos aparentemente prósperos. Ao percorrermos o rio, conhecemos histórias onde o passado é lembrado, o presente vivido e o futuro talvez já não seja aquele que a industrialização prometia. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme ao Revolução Industrial pode ser lida ou relida aqui.

Fernando Lopes
Primeira experiência em vídeo de Fernando Lopes, Se Deus Quiser foi um filme do seu regresso à Várzea dos Amarelos, onde nasceu e realizou Nós Por Cá Todos Bem. Passou por ser um work in progress, com revisitações regulares à Várzea, uma espécie de diário e de reflexão sobre imagens e sons, que espero venham a ter efeito sobre futuras ficções minhas. Digamos que ver este Se Deus Quiser…é aceitar um convite à viagem, à oficina das imagens e dos sons, tal como eu as pratico, e que desejo compartilhar convosco. (Fernando Lopes)

Guillermo Amato

Hacer Ciudade dá a conhecer projectos que abordam o possível e o utópico da arquitectura no espaço diversificado e complexo da Cidade do México.

Harun Farocki
In Comparison é realizado pelo cineasta Harun Farocki, recentemente falecido. “Gostaria de propor um filme que contribua para o conceito do trabalho. Que compare o trabalho numa sociedade tradicional como África, com uma sociedade industrial recente como a Índia e com uma sociedade altamente industrializada na Europa ou no Japão. O objecto de comparação é o trabalho na construção de casas. Casas para viver.” Harun Farocki

Fernando Molina e Nicolás Bietti
Filmado ao longo de quatro anos, no sul do Chile, o documentário conta a história de um grupo de pessoas que regressam à sua cidade depois de uma erupção vulcânica, com o intuito de impedir as autoridades de abandonar o lugar. Encontram uma situação desoladora: o rio transbordou e muitas casas desapareceram completamente. Os anos passam e o veredicto final da cidade não chega. O tempo parece ter parado. Agora, vivem entre as cinzas, abandonados e perseguidos pelo Estado, tentando encontrar uma forma de defender a sua identidade.

Victor Kossakovsky
Qual seria o caminho mais curto entre Entre Ríos, na Argentina, e Xangai, a metrópole chinesa? Simplesmente uma linha recta que passa pelo centro da terra, uma vez que as duas partes são antípodas: situam-se diametralmente opostas uma à outra sobre a superfície da terra. Durante as suas visitas a quatro desses pares de antípodas, o documentarista Victor Kossakovsky capturou imagens que transformam completamente a nossa visão do mundo. Um belo pôr-do-sol, tranquilo em Entre Ríos é contrastado com as ruas movimentadas na chuvosa Xangai. Pessoas que vivem num terreno baldio estão ligadas a pessoas que habitam ao lado de um vulcão.

Jean-Nicolas Orhon
Cities of Tomorrow é um documentário sobre a resiliência dos indivíduos e capacidade de uma comunidade para se adaptar a um mundo, por vezes, hostil. Através de Mumbai, na Índia, o maior bairro clandestino da Ásia, através de um subúrbio de Marselha, através de uma comunidade indígena na região de Abitibi de Quebec, assim como de uma cidade de tendas, no estado de New Jersey e no coração de um bairro marroquino, este filme oferece uma viagem reveladora. Este documentário está no coração das terras na periferia do mundo e das vidas daqueles que o habitam. O realizador estará presente para uma sessão de perguntas e respostas no final da exibição.

Timoty Novoty
Trains of Thoughts é um ensaio audiovisual, que compara e reflecte sobre os sistemas de metro em todo o mundo. É uma exploração de um mundo dentro do mundo, bem como dos sentimentos (de fascinação, obsessão, medo) e temas (de sobrevivência, controlo e silêncio) que o envolvem. O filme leva-nos através de Nova Iorque, Los Angeles, Moscovo, Viena, Tóquio e Hong Kong, soltando a imaginação em cada destino com sua distinta paleta visual e de selecção dos sons pelos Sofa Surfers.

Gereon Wetzel
Às vezes parece que estamos a ver imagens paradas, fotografias de cidades-fantasma depois de um ataque nuclear. De que outra forma se poderia explicar que os edifícios de apartamentos nos pareçam tão desoladores? Não há nenhuma explicação para o que estamos a ver, mas os vídeos publicitários de mega-projectos imobiliários excessivamente ambiciosos, falam por si. A maioria dos espanhóis mal consegue pagar as contas – e muito menos pagar uma hipoteca – mas os especuladores continuam a construção. O filme deixa que o espectador julgue, mas realmente só há uma conclusão possível: se há um país que está realmente sofrendo com a bolha imobiliária, é Espanha.

Michael Blackwood
Em Álvaro Siza Transforming Reality, o reconhecido arquitecto de Portugal discute o seu trabalho e viaja por 15 dos seus projectos com o historiador Kenneth Frampton, que se referiu a Siza como “um dos mais importantes arquitectos da actualidade”.

Marco Bertozzi
O filme narra a transformação que Cinecittà atravessou entre 1943 e 1950, uma vez que experimentou a ocupação nazi, a criação de um campo de refugiados administrado pelos Aliados e, finalmente, o re-nascimento da chamada “Hollywood no rio Tiber”. Depois de ter sido um campo de concentração para novecentos homens que tinham sido apanhados no trimestre Quadrado nas proximidades, a 16 de Outubro de 1943, Cinecittà foi saqueada pelos nazis e 16 vagões saíram de de Roma para a Alemanha e República de Salò. Em Janeiro de 1944, os estúdios foram bombardeados pelos Aliados – foi um dos cerca de cinquenta atentados que Roma sofreu. A 6 de Junho de 1944 a cidade do cinema foi requisitada pela Comissão de Controle dos Aliados para abrigar milhares de refugiados de guerra. Este filme segue esses mesmos refugiados nos dias de hoje, deixando a sua história surgir com o seu movimento nos estúdios de hoje. Mais de 60 anos depois, o objectivo deste filme é a desenterrar memórias, para contar acerca de uma página desconhecida da nossa história do cinema italiano.

Doclisboa'14: Peter von Bagh, Abertura, Encerramento, Homenagens e Heart Beat

A 12ª edição do Doclisboa – Festival Internacional de Cinema acontece de 16 a 26 de Outubro e abre com Maïdan, de Sergei Loznitsa. A encerrar o festival estará Socialism, de Peter von Bagh. O Doclisboa 2014 será dedicado à memória deste cineasta, que faleceu na passada Quarta-feira.

Desde 2010 Peter von Bagh tornou-se uma presença regular no Doclisboa e em 2011 foi mesmo o presidente do Júri do festival. Conforme previsto, Muisteja / Remembrance, o seu penúltimo filme, e o mais pessoal, será exibido na secção Riscos e Socialism será o filme de encerramento. 


A Sessão de Abertura do Doclisboa 2014 acontece no dia 16 de Outubro, às 21h30, no Grande Auditório da Culturgest, com Maïdan. O filme retrata os protestos populares que tiveram início em Novembro de 2013 na praça central de Kiev contra o regime do presidente deposto Viktor Yanukovich. O realizador Sergei Loznitsa, nascido na Bielorrússia e criado na Ucrânia, estreou Maïdan na edição deste ano do Festival de Cannes, onde recebeu o prémio FIPRESCI.

À mesma hora da Sessão de Abertura, serão exibidos dois filmes no Pequeno Auditório da Culturgest (pelas 21h15): Medium Earth, do colectivo artístico baseado em Londres The Otolith Group, fundado por Anjalika Sagar e Kodwo Eshun. Segue-se a curta-metragem Traces, de Wang Bing, realizador já conhecido do público do Doclisboa por ter vencido o Grande Prémio do festival em 2010 e 2012. Ainda no dia 16 de Outubro, às 21h30, o Cinema São Jorge recebe o filme Ai Weiwei’s Appeal ¥15,220,910,50, do artista e crítico social e político chinês Ai Weiwei.


A 26 de Outubro, o encerramento do festival faz-se com a exibição de Socialism, um ensaio sobre o poder que o cinema tem de configurar a vida dos homens, construir ilusões ou até de mentir. Juntamente com os irmãos Mika e Akki Kaurismäki, Peter von Bagh foi co-fundador em 1986 do Midnight Sun Film Festival, na Finlândia.

Alain Resnais, Harun Farocki e Eduardo Coutinho homenageados

Homenageados nesta edição do Doclisboa estão três realizadores também falecidos este ano: o brasileiro Eduardo Coutinho, o alemão Harun Farocki e o francês Alain Resnais.

De Resnais serão exibidos os documentários Les statues meurent aussi (com Chris Marker, 1953), Toute la Mémoire du Monde (1956) e Nuit et Brouillard (1955). De Farocki, em diferentes secções, serão apresentados Catch Phrases – Catch Images (1985), Respite (2007) e Sauerbruch Hutton Architekten (2013). Em colaboração com a Nitrato Filmes, será exibido Cabra, marcado para morrer (1984), de Eduardo Coutinho. A obra será acompanhada por uma sessão com dois filmes com ele relacionados, Sobreviventes de Galileia (2014) e A família de Elizabeth Teixeira (2014).

Secção Heart Beat

A secção Heart Beat, dedicada a documentários que se constroem na relação com a música e as artes performativas, irá inaugurar este ano com o Fado Camané, de Bruno de Almeida, no dia 17 de Outubro, no Cinema São Jorge. Pela primeira vez, o Doclisboa vai ter um filme a encerrar esta secção e na véspera do primeiro aniversário da morte de Lou Reed exibe Berlin, de Julian Schnabel, no dia 26 de Outubro.


Fado Camané acompanha o processo de criação de um álbum de fado do cantor Camané. Músicos, compositores, poetas e intérprete, juntos num tempo e num espaço de criação e de escuta, num trabalho de procura da perfeição. Berlin, de Schnabel é um filme sobre o polémico álbum Berlin (1973), cuja encenação foi discutida durante mais de 30 anos e que, em Dezembro de 2006, se tornou realidade. Usando a cidade dividida de Berlim como pano de fundo, a história de Caroline e seus amantes é contada nas palavras emocionantes e provocadoras de Lou Reed.

O programa da 12ª edição do Doclisboa será apresentado amanhã, 23 de Setembro, às 11h00, na Culturgest.

domingo, 21 de setembro de 2014

Arquiteturas Film Festival'14: Filmes em Competição

O Arquiteturas Film Festival'14 começa já no dia 24 e prolonga-se até 28 de Setembro, em Lisboa. Conhece aqui quais são os filmes em competição. Os prémios serão entregues no dia 28 de Setembro às 22h00 no Cinema City Alvalade, Film Set Room.


Todos os filmes premiados farão parte do circuito itinerante nacional e internacional do Arquiteturas Film Festival 2014.

Melhor Longa-Metragem Nacional:




Melhor Curta-metragem Nacional:
Ficção




Documentário




Experimental


Obelisco Nuno Serrão, Portugal (2014)

Melhor Longa-metragem Internacional








Melhor Curta-metragem Internacional

Documentário





Ficção



Experimental





Prémio Lusofonia



Film Exercise #  - Studio MK27, Brasil (2013)




Prémio Novos Talentos




Prémio da Audiência - votado pelo público

Sugestão da Semana #134

Das estreias da passada Quinta-feira, o Hoje Vi(vi) um Filme rendeu-se ao filme português Alentejo, Alentejo, de Sérgio Tréfaut, e é ele a Sugestão da Semana. Uma declaração de amor ao Cante Alentejano, a quem o canta e a quem o escuta. A crítica ao filme pode ser lida ou relida aqui.

ALENTEJO, ALENTEJO


Ficha Técnica:
Título Original: Alentejo, Alentejo
Realizador: Sérgio Tréfaut
Género: Documentário
Classificação: M/12
Duração: 98 minutos

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Já Vi(vi) este Filme, por Daniel Curval

Já Vi(vi) este Filme
por Daniel Curval, do Unraccord


A trilogia de Richard Linklater tem para mim um valor de quase guilty pleasure, mas no sentido da expressão que ironiza com a nossa vida. Quando vi o primeiro filme "Antes do Amanhecer" (1995) tinha uns vinte e tal anos bem consolidados, passado por sustos tipo "eu sou muito novo para ser pai" e por desilusões que me levavam a procurar abrigo nas salas de cinema. Num desses dias que ansiava pelo conforto num filme, assisti ao "Before Sunrise". Foi então aí que conheci este par de namorados em Viena, assisti a tudo em real time cinematográfico, que não é o nosso tempo. Não fiquei maravilhado com o filme, já era muito exigente com os filmes na altura (imagine-se agora, burro velho), mas achei a Celine e o Jesse dois bons simpáticos amigos, daqueles que só encontramos nos filmes e nos livros. Saio da sala do cinema e só tinha uma ideia na cabeça "raio, só eu é que não encontro miúdas como aquela Celine", é preciso dizer que um tipo que responde que lê Balzac aos vinte e poucos está bem fodido com as gajas, mas subi a parada, passei a dizer que só lia banda desenhada, Astérix e coisas assim, também não acharam piada, que era coisa de putos, "foda-se, de putos?! olha-me esta a falar mal do Astérix e do Óbelix". Mudei de estratégia, "então que andas a ler?", "nada de especial" respondia com ares de desinteressado. "Vá lá" atacavam elas, "olha, leio literatura até ao século XVI e em latim", os olhos delas diziam qualquer coisa como "olha-me este tótó, vai-te foder ó pseudo-intelectual" abria-se um hiato de silêncio e falávamos do tempo, que se calhar ia chover. Em abono da verdade, que fique aqui registado, que não sei ler latim, nem grego e de português só até antes do novo acordo ortográfico. E até ao século XVI só conheço umas coisinhas leves, tipo "umas poesias". Os anos vão passando, e eu vou-me entretendo (porque como diz o poeta MF "temos de nos distrair da morte e não sabemos muito bem como.") com umas gatinhas de dia e outras de noite, que todas são pardas, night and day ao sabor de jazz, black and white ao sabor da pele. Disse-me uma há pouco tempo, que se deve sempre falar de gatinhas quando se escreve. Ela anda num curso de escrita criativa, deve saber do que fala. Onde é que eu ia? ah, com os planos orçamentais do amor a derrapar em todas as linhas dos gráficos excell, resolvi adoptar uma prática de austeridade nos gostos literários, e agora quando me perguntam o que ando a ler, respondo "clássicos e poesia, uns ensaios pelo meio, fundamentalmente sobre cinema e fotografia". Se dantes se riam ou me chamavam de parvo, agora só tenho direito ao desprezo. Elas fazem-me tão feliz no silêncio dos lençóis. And i don't give a shit. Todavia, eu sou a prova viva e humana, que aqui não há robots, que a austeridade não dá resultados nenhuns. Cheguei a 2004 na boémia e bon vivant, já tinha estado em Paris e tudo. Quando estreia o "Before Sunset" não podia deixar de ir ao rendez-vous com aqueles amigos que conheci numa sala escura de um qualquer cinema. Encontrei-os mais maduros, mais cheios de vida, tanta que nunca esqueci aquela frase de Jesse dirigida a Celine, que era mais ou menos "se me tocas, desfaço-me em moléculas", eu na altura também andava desfeito. Somando aos diálogos inteligentes, a cidade de Paris e a Nina Simone estava o caldo entornado para ficar com este filme como um afecto cinematográfico (repito muitas vezes esta palavra, para dar um toque de longa-metragem ao texto). "Antes do Anoitecer" é o meu "teremos sempre Paris". Nunca mais quis rever estes dois primeiros filmes, estou a pensar fazer agora, para ver se os afectos continuam ou se sequei que nem uma figueira. Ano da (des)graça de 2013, estou nos "entas", expressão tão feia que alguns cotas (outra feia) tanto usam, enfim, alguns tornam-se ridículos, outros novos-ricos, outros desempregados, outros políticos e outros divorciados. Eu continuo a parecer que tenho menos idade, do que aquela que marca no B.I. (ainda não tenho cartão de cidadão, que chatice). Elas agora dizem que sou como o melhor vinho do porto. Não sei. Mas gosto muito de vinho tinto, e dizem que faz bem a tudo, deve ser por isso. Como o Jesse, quando deixo crescer a barba os pêlos brancos revelam-se, dá-me um ar de bandido, diz a minha mãe. Como ele com a escrita, detesto quando me perguntam se a fotografia é para mim um hobby. Quem me faz uma pergunta dessas tem logo o meu desprezo e silêncio. Ah que me esquecia, também, adoro e acho sexy os quartos de hotel. Os três, isto é, o Jesse a Celine e eu estamos cansados da vida, do mundo, deixamos de ter tempo e paciência para a estupidez, para a inveja, a hipocrisia e o cinismo. Como ao Jesse, a mim interessa-me cada vez mais o humor, o despojamento, ele passeia entre oliveiras na Grécia, eu junto ao mar em Portugal. A Celine tornou-se a mulher dos sonhos dos homens que pouco querem, para além de paz e saúde, mesmo com aquele french big ass. Estamos todos mais velhos. Passaram-se 18 anos. "Before Midnight" é o terceiro filme, espero que termine aqui, quero apenas ficar com estes filmes-afectos como uma trilogia e não quero que se tornem numa telenovela. Richard Linklater, nosso amigo na sombra da tua câmara de filmar, não voltes a esta história, deixa-a seguir a sua vida, permite que faça a passagem de que falas no filme.

"Antes da Meia-noite" foi pensado e realizado não como um filme, mas como um livro, um romance. Divide-se em capítulos ou partes, são umas 6 ou 8, tenho de voltar a ver em DVD para melhor dissecar o filme. E passa-se em 6 cenários apenas, estando sempre presentes Jesse e Celine, são eles: no interior do carro; na casa dos amigos gregos; a passear nas ruínas; a passear na povoação; no interior do quarto do hotel, e por último, antes da meia-noite numa esplanada. Estes seis cenários são filmados com o mínimo de planos possíveis, recorrendo a enormes e belíssimos planos-sequência, enquanto assistimos a intermináveis conversas e diálogos inteligentes, outros nem tanto. O argumento, às vezes, resvala nos lugares-comuns. Como em Portugal, nalguns cinemas, se faz intervalos, achei de início a primeira parte medíocre, tinha visto a sequência da conversa entre Jesse e Celine no interior do carro em plano frontal e a sequência na casa dos amigos gregos. Até aqui, nada de especial, banalidades, conversa sobre a crise do matrimónio, da meia-idade, clichés sobre sexo, o homem e a mulher, os dejá vu habituais, etc, eu bufava de tédio e cogitava desiludido "como ficaram os meus amigos". Sete minutos de intervalo, escrevo as primeiras notas sobre o filme no meu moleskine e de imediato me lembro da frase do meu avô "o amor é cagar". Há quase um ano atrás tinha lido "O Colosso de Maroussi" de Henry Miller, o livro é sobre a passagem do Miller em 1939 pela Grécia. Depois de ler o livro fiquei apaixonado, tal como Henry, pelo país, pelo povo e pela paisagem, pela cultura já era. Quase que fiz as malas e abalava de imediato para aqueles anfiteatros de paisagens divinas e céus e mares da maravilhosa mitologia grega. Porém antes, fiz a asneira de verificar o saldo bancário. Um aventureiro nunca faz isso. Fiquei-me pelo Google Earth, a cavalo dado não se olha o dente.

Linklater, optou e bem por filmar na Grécia, o filme precisa daquela luz intensa, os personagens também. A narrativa na segunda parte torna-se forte e empolgante, cresce como uma metáfora mitológica, o filme parece que faz um volte-face, estava derreado no chão, qual herói grego e levanta-se. Todavia, não foi o macho a reerguer o filme, foi uma heroína, foi a Celine, foi a Julie Delpy que lhe dá a cara e o corpo, que agarra no filme como num minotauro, toma-lhe a rédea, e faz uma interpretação fabulosa. Isto acontece precisamente à noite, no interior do quarto do hotel. Antes, Linklater tinha andado com eles a passear e no fim, para descansar da conversa entre homem e mulher, oferece-lhes umas bebidas numa esplanada, invoca o livro de Jules Verne e o filme de Éric Rohmer e segreda-lhes a lenda do fenómeno do Raio Verde ao crepúsculo. Voltemos à espantosa sequência no interior do quarto do hotel, era para ser uma noite de amor e transforma-se numa enorme discussão e crise matrimonial, o crash instala-se, segredos por revelar como traições, questões de maternidade e paternidade, feminismo, machismo, tudo filmado com uma mestria exemplar, há uns campos e contra-campos absolutamente perfeitos, aqueles em que Ethan Hawke (Jesse) ao falar para a Julie Delpy (Celine) é filmado em plano frontal como se estivesse a falar para nós e o inverso, Julie Delpy a falar para nós também em plano frontal de corpo inteiro enfrenta o espectador. Nesta sequência ainda temos, quanto a mim, dos mais importantes planos, do peito de uma mulher de quarenta anos despidos. Não é a nudez per se, é como é filmada, sem glamour a beleza feminina em toda a sua naturalidade inocente. É uma mulher de 40 anos que estava a começar a ter sexo com o seu homem e que por causa de um telefonema, tudo descamba. Noutro filme, a personagem feminina ter-se-ia vestido ou coberto as mamas, como se existisse pudor entre um homem e uma mulher casados há vários anos e que se conhecem há 18. Claro que não há (se existir a questão é outra), Delpy (Celine) mantém-se naquela forma e estado entre o vestida e o meio-despida, a discutir como todas as mulheres o fazem tão bem, a argumentar e acabar dizendo ao seu homem Jesse (Ethan Hawke) que ele não é nenhum Henry Miller, nem na cama, nem na escrita. Poderosa. Chego ao fim do filme e fico a perceber toda aquela banalidade inicial, não é por acaso, ela é o símbolo da nossa vida de clichés, de repetições quotidianas, de palimpsestas conversas. O tédio, esse eterno companheiro de todos. Celine sai porta fora, vai para uma esplanada sozinha, Jesse vai ter com ela, diz-lhe umas graças e umas sentidas verdades, Celine rende-se ao inevitável sentimento do amor "Before Midnight".

Este texto estava para ter o título de "o amor é cagar" uma expressão muito cara e de autoria do meu avô, que a dizia muitas vezes, à janela do seu quarto com um cigarro de enrolar a queimar no canto da boca e uma boina preta basca na cabeça. Eu puto a brincar no terreiro com as ferramentas de carpinteiro dele, ouvia e só me ria de inocência, e da brejeirice das palavras sábias de um analfabeto. Esse meu avô teve sete filhos e sabia muito mais da vida do que eu sei agora.

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Obrigada pela tua participação, Daniel!

Prémios Sophia 2014: Os Nomeados

Já foram divulgados há alguns dias, mas nunca é tarde para os relembrar também por aqui. A Academia Portuguesa de Cinema divulgou na passada semana os nomeados para os Prémios Sophia 2014.

Os nomes dos vencedores serão divulgados na cerimónia oficial de entrega dos prémios que decorre no dia 8 de Outubro, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. A Academia irá ainda distinguir com os Prémios Sophia Carreira 2014: José Fonseca e Costa (Realizador), Eduardo Serra (Director de Fotografia) e Henrique Espírito Santo (Produtor).


Melhor Documentário em Longa-Metragem
- Ophiussa - Uma Cidade de Fernando Pessoa - Fernando Carrilho
- Terra de Ninguém - Salomé Lamas
- A Batalha de Tabatô João Viana


Melhor Documentário em Curta-Metragem:

- Almas Censuradas – Bruno Ganhão
- A Máquina – Mafalda Marques
- Lápis Azul – Rafael Antunes 
- Casa Manuel Vieira – Júlio Alves
- Fontelonga – Luís Costa

Melhor Curta-Metragem de Animação:
- Carratrope – Paulo D’Alva
- Outro Homem Qualquer – Luís Soares
- Ptomolus – Josemaria RRA
- Alda – Ana Cardoso e Filipe Fonseca
- Brincar – Coletivo Fotograma 24 e Coletivo de Crianças, jovens e idosos de Guimarães.

Melhor Curta-Metragem de Ficção:
- Longe do Éden – Carlos Amaral
- Lápis Azul – Rafael Antunes
- Gambozinos – João Nicolau
- Luminita – André Marques

Melhor Música:
- Rodrigo Leão – O Frágil Som do Meu Motor
- João Marco – Além de ti
- As Mercenárias, Mentis afro (Boss) e Primeiro G – Um Fim do Mundo
- Luís Cília – Até Amanhã Camaradas

Melhor Montagem:
- Pedro Ribeiro – Até Amanhã Camaradas
- Pedro Ribeiro – Quarta Divisão
- João Braz – É o Amor
- Miguel Costa, Gonçalo Frederico, Paulo Pinto, Bairro, João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata – A Última Vez que Vi Macau

Melhor Caracterização:
- Abigail Machado – A República di Mininus
- Ana Lorena e Rute Alves – RPG
- Cláudia Ferreira, Sandra Fonseca, João Rapaz, Iris Peleira, Sara Menitra e Helena Baptista – O Frágil Som do Meu Motor
- Magali Santana – 7 Pecados Rurais
- Sano de Perpessac – Comboio Nocturno para Lisboa
- Sano de Perpessac – Em Segunda Mão
- Susana Correia e Ana Ferreira – Até Amanhã Camaradas


Melhor Guarda-Roupa:

- Ana Simão – Em Segunda Mão
- Maria Gonzaga e Maria Amaral – Até Amanhã Camaradas
- Silvia Grabovwsky – 7 Pecados Rurais
- Teresa Alves – Bairro

Melhor Som:
- Carlos Alberto Lopes e Branco Neskov – Até Amanhã Camaradas
- Carlos Alberto Lopes, Branco Neskov (C.A.S), Elsa Ferreira e Pedro Melo - Quarta Divisão
- Pedro Vieira, Pedro Melo, Filipe Sambado, Ricardo Leal, Amélia Sarmento, Luís Bicudo e Paulo Abelho, João Eleutério – O Frágil Som do Meu Motor
- Vasco Pedroso e Branco Neskov – RPG

Melhor Direcção Artística:
- Augusto Mayer – Comboio Nocturno para Lisboa
- Isabel Branco e Paula Szabo – Em Segunda Mão
- João Martins – Até Amanhã Camaradas
- João Rui Guerra da Mata – A Última Vez que Vi Macau

Melhor Direcção de Fotografia:
- Carlos Lopes (A.I.P) – Quarta Divisão
- José António Loureiro – Até Amanhã Camaradas
- Mário Castanheira e Tiago Carvalho – É o Amor
- Rui Poças – A Última Vez que Vi Macau

Melhor Realizador:
- Joaquim Leitão – Até Amanhã Camaradas
- Joaquim Leitão – Quarta Divisão
- João Canijo – É o Amor
- João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata – A Última Vez que Vi Macau

Melhor Argumento Original:
- António Pedro Figueiredo, Catarina Ruivo – Em Segunda Mão
- Leonardo António e Inês Pott – O Frágil Som do Meu Motor
- João Canijo e Anabela Moreira – É o Amor
- João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata – A Última Vez que Vi Macau

Melhor Actriz Secundária:
- Beatriz Batarda – Comboio Nocturno para Lisboa
- Carla Chambel – Até Amanhã Camaradas
- Joana de Verona – Em Segunda Mão
- Julie Sergeant – Bairro

Melhor Actor Secundário:
- Adriano Carvalho – Até Amanhã Camaradas
- Adriano Luz – Até Amanhã Camaradas
- Adriano Luz – Comboio Nocturno para Lisboa
- Afonso Pimentel – Bairro
- Carloto Cotta – Bairro
- Marco D'Almeida – Comboio Nocturno para Lisboa

Melhor Actriz Principal:
- Carla Chambel – Quarta Divisão
- Leonor Seixas – Até Amanhã Camaradas
- Maria João Bastos – Bairro
- Rita Durão – Em Segunda Mão

Melhor Actor Principal:
- Cândido Ferreira – Até Amanha Camarada
- Gonçalo Waddington – Até Amanhã Camaradas
- João Lagarto – Bairro
- Pedro Hestnes – Em Segunda Mão

Melhor Filme:
- A Última Vez que Vi Macau BlackMaria
- Até Amanhã CamaradasMGN Filmes
- Comboio Nocturno para LisboaCinemate
- É o AmorLoudness Films e MIDAS Filmes
- Quarta DivisãoMGN Filmes