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sábado, 3 de outubro de 2020

Doclisboa'20: 'Corpo de Trabalho' com filmes de Harun Farocki, Carole Roussopoulos, Elisa Cepedal ou Jonas Heldt

O Festival Doclisboa 2020 revelou o programa Corpo de Trabalho, dedicado às questões laborais, com filmes de Harun Farocki, Carole Roussopoulos, Elisa Cepedal ou Jonas Heldt.


Corpo de Trabalho resulta de uma parceria entre o Doclisboa e a Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (EU-OSHA) e quer promover a discussão, através do cinema, sobre direitos humanos e temáticas sociais relacionadas com as questões laborais. A partir desta edição, será atribuído durante o festival o Prémio Locais de Trabalho Seguros e Saudáveis - criado há 11 anos, para Melhor Documentário sobre questões laborais.

Neste contexto, será apresentada uma selecção de dez retratos contemporâneos focados no tema, exibidos no Cinema São Jorge, no primeiro momento do festival, de 22 de Outubro a 1 de Novembro.

Como complemento ao programa apresentado em sala, será programado na plataforma online da DAFilms.com um conjunto de obras que "procura fazer um mapeamento histórico da evolução da presença no trabalho nas nossas vidas no último século e das representações cinematográficas nas suas diferentes possibilidades,  com vista a estabelecer novos diálogos entre passado e presente através de uma diversificada proposta de objectos cinematográficos que tanto têm de poético como de acutilante"

Workers Leaving The Factory, de Harun Farocki; Automotive, de Jonas Heldt; El trabajo o a quién le pertenece el mundo, de Elisa Cepedal; California Company Town, de Lee Anne Schmitt; Merry Christmas, Yiwu, de Mladen Kovačević; La Mami, de Laura Herrero Garvin; The Disrupted, de Sarah Colt, são alguns dos títulos deste programa.

Dentro desta temática terá também lugar um debate online, Thinking Labour Practices Through Film, no dia 28 de Outubro, entre as 15h00 e 16h30, sobre a relação entre o cinema, o trabalho e as suas representações cinematográficas.

Mais informações sobre o Doclisboa 2020 em https://doclisboa.org/2020/.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Doclisboa'15: Die innere Sicherheit / The State I Am In (2000)

*6.5/10*

Na Retrospectiva I don't throw bombs I make films - Terrorismo, Representação, o Doclisboa'15 traz-nos uma interessante selecção de filmes. Entre eles encontra-se Die innere Sicherheit (The State I Am In), do realizador alemão Christian Petzold.


A longa-metragem de ficção centra-se num casal de alemães, com um passado de terroristas de esquerda, escondido no Algarve com a filha, que vive com normalidade um quotidiano de segredo. No entanto, uma série de acontecimentos provoca o regresso à Alemanha e o confronto com as acções passadas. A adolescente debate-se com o crescimento. A Alemanha de hoje resulta desta caixa de Pandora que é o seu passado.

A História alemã tem sido tema fulcral na filmografia de Petzold e, também neste seu trabalho de 2000, o cineasta ficciona a realidade do seu país, desta vez focando-se no terrorismo e na tentativa que esta família de ex-terroristas faz para conquistar o direito a uma vida normal.

Perseguições, desconfiança, medo, rodeiam as vidas dos três fugitivos, Clara, Hans e a filha Jeanne, que conhecemos no Algarve, onde haviam encontrado refúgio, pelo menos provisório. Mas, para lá da forte temática política, a adolescência e o crescimento ganham especial ênfase no decorrer de Die innere Sicherheit na personagem de Jeanne, com a rebeldia crescente, as paixões que despertam e a vontade de ser uma jovem como as da sua idade - um excelente desempenho de Julia Hummer.

Filmado em 35 mm, e com o grão da película visível na imagem, entramos ainda mais facilmente na época dos acontecimentos. O argumento, escrito por Harun Farocki e Petzold, desafia-nos a conhecer esta difícil realidade e prende desde o início a atenção da plateia. Contudo, o filme peca na duração, demasiado longa, com pouco desenvolvimento no enredo que o justifique.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Doclisboa'14: Respite, de Harun Farocki

*7/10*

Na secção O nosso Século XX - O Cinema face à História do Doclisboa'14, encontramos a curta-metragem de 2007, Respite, de Harun Farocki. O cineasta, recentemente falecido, oferece-nos um documento histórico, a partir de imagens filmadas em Westerbork, um campo de refugiados holandês criado em 1939 para os judeus em fuga da Alemanha. Após a ocupação da Holanda, tornou-se um “campo de trânsito”. Dali os judeus eram enviados para campos de concentração nazis e a grande maioria deles eram executados. Em 1944, o comandante do campo, Albert Gemmeker, encomendou um filme, rodado pelo fotógrafo Rudolph Beslauer, também ele judeu ali prisioneiro, que nunca chegou a ficar completo.


Respite é um filme mudo e começa por mostrar fotos do local na época, seguindo-se as filmagens de Beslauer, em 16mm. As imagens são intercaladas com intertítulos explicativos e um tanto sarcásticos, com uma forte crítica a tudo o que ali se passava e se queria mostrar. As imagens que vemos estão longe da realidade dos campos de concentração. Aqui (assim nos mostram estas imagens) os prisioneiros trabalhavam - como dentistas ou investigadores científicos, por exemplo - divertiam-se, dançavam, jogavam, tocavam instrumentos... Como lemos no filme: "We expect different images from a nazi-german camp". A incredulidade do espectador será a mesma. Mas o certo é que Westerbork era apenas um campo de trânsito. O pior estava para vir e encontrava simbolismo no comboio que partia todas as Terças-feiras.

Respite passa no dia 24 de Outubro, às 19h30, na Culturgest e no dia 25 no Cinema São Jorge, pelas 18h45.

sábado, 27 de setembro de 2014

Arquiteturas Film Festival'14: Brasília e Farocki

No âmbito do Arquiteturas Film Festival Lisboa, a Cinemateca Portuguesa apresentou, esta Quinta-feira, dois documentários onde a arquitectura é a palavra de ordem: Brasília, Contradições de uma Cidade Nova, de Joaquim Pedro de Andrade, e In Comparison, de Harun Farocki.

BRASÍLIA, CONTRADIÇÕES DE UMA CIDADE NOVA (1968)
*7/10*

Imagens de Brasília no seu sexto ano e entrevistas a habitantes da capital, de diversas classes sociais. Uma pergunta estrutura o documentário: uma cidade inteiramente planeada, criada em nome do desenvolvimento nacional e da democratização da sociedade, poderia reproduzir as desigualdades e a opressão existentes em outras regiões do país?

É a partir desta questão que tudo nos é apresentado. O inicio da construção da cidade, tudo geometricamente planeado, arquitectonicamente estudado e executado. Mas depois vêm o resto: novos bairros nos arredores da cidade que não constavam nos planos.

Joaquim Pedro de Andrade tem aqui um belo documentário que nos dá a conhecer o início da cidade de Brasília, o sonho de cidade ideal e o acordar para a realidade mais crua. O tom político e a crítica que lhe é inerente pode, contudo, ser o ponto mais fraco deste Brasília, Contradições de uma Cidade Nova

IN COMPARISON (2009)
*8/10*

Segundo as palavras do realizador recentemente falecido, Harun Farocki, era sua intenção com In Comparison “propor um filme que contribua para o conceito do trabalho. Que compare o trabalho numa sociedade tradicional como África, com uma sociedade industrial recente como a Índia e com uma sociedade altamente industrializada na Europa ou no Japão. O objecto de comparação é o trabalho na construção de casas. Casas para viver.”

É nessa posição contemplativa e comparativa que a plateia se encontra. Não há narração explicativa, apenas algumas legendas que nos contextualizam. Aqui, apreendemos com a experiência, como se assistíssemos de perto à construção daquelas casas, hospitais, escolas, às técnicas mais ou menos artesanais de construção. Do trabalho do Homem, que tudo fabrica com as suas próprias mãos e com a ajuda de todos - homens, mulheres, crianças - às mais avançadas máquinas, ali está o trabalho, nas suas mais variadas formas, à frente dos nossos olhos. Farocki apresenta-nos as diferentes realidades, de local para local, para que possamos fazer esta comparação que o título sugere. Um curioso e bem concretizado exercício.