segunda-feira, 14 de outubro de 2019

8º Family Film Project até 19 de Outubro no Porto

O Family Film Project – Festival Internacional de Cinema de Arquivo, Memória e Etnografia começa esta Segunda-feira, dia 14, e prolonga-se até dia 19 de Outubro, no Porto. O programa coloca-se sobre as fronteiras conceptuais do cinema e no diálogo com outras artes e áreas do pensamento, e inclui sessões de cinema, uma masterclass, performances, uma oficina para crianças e vídeo-instalações.


Dentro das zonas temáticas do festival encontram-se Vidas e Lugares (com enfoque no registo voyeurístico, biográfico ou documental de habitat de quotidianos), Memória e Arquivo (dedicada a olhares criativos a partir de testemunhos e found footage) e Ligações (centrada nas dinâmicas interpessoais e comunitárias), com um espaço dedicado também à Ficção e Animação, com a produção nacional a ocupar um lugar de destaque este ano. Catarina Mourão (O Mar Enrola na Areia), David Doutel e Vasco Sá (Agouro), Dídio Pestana (Sobre Tudo Sobre Nada), Ivo M. Ferreira (Equinócio), João Salaviza (Altas Cidades de Ossadas), João Vladimiro (Anteu), Leonor Noivo (Tudo O Que Imagino) e Regina Pessoa (Tio Tomás, a Contabilidade dos Dias) são alguns realizadores com obras no Family Film Project 2019.

Cláudia Varejão é a artista convidada desta edição: Ama-San, a sua mais recente longa-metragem, é exibida na noite de abertura do festival e No Escuro do Cinema Descalço os Sapatos, documentário de 2016 para assinalar os 40 anos da Companhia Nacional de Bailado, é apresentado pela realizadora na cerimónia de entrega de prémios. Haverá ainda uma sessão com a trilogia de curtas-metragens Fim-de-semana, Um dia Frio e Luz da Manhã e uma conversa sobre a obra da cineasta moderada pelo crítico de cinema Luís Miguel Oliveira.

Jaimie Baron vai abordar a relação entre estética e ética na apropriação de materiais de arquivo com carácter privado ou íntimo para fins cinematográficos numa masterclass intitulada (Re)exposing Intimate Traces: Archive, Ethics and the Multilayered Gaze. A norte-americana é autora do livro The Archive Effect: Found Footage and the Audiovisual Experience of History, e tem vindo a firmar-se como um nome importante do pensamento contemporâneo sobre o tema do arquivo e do cinema de found-footage.

Pela primeira vez, o Family Film Project estabelece um intercâmbio cinematográfico com o (In)appropriation – Festival de Cinema Experimental de Found-footage. Haverá uma sessão inteiramente dedicada ao cinema de arquivo, com uma selecção de dez curtas-metragens cedidas pelo festival parceiro norte-americano.

A vídeo-instalação está de regresso e, à semelhança das edições anteriores, o ciclo Private Collection apresenta propostas performáticas de abordagem ao arquivo, à memória, ao corpo e às imagens: Nymphomaniac, de Aurora Pinho, rEVOLUÇÃO, de Beatriz Albuquerque, Diaporama v.2, de Cesário Alves, A morte do artista / Not my cup of tea, de Mara Andrade e ainda o jantar-performance LandMarks #5 – The delay or vicious cycle, de Rebecca Moradalizadeh.

Tio Tomás, a Contabilidade dos Dias, de Regina Pessoa

Para os mais novos, há uma oficina de cinema de animação orientada pelas realizadoras Joana Nogueira e Patrícia Rodrigues. Imagens lá de Casa é uma oficina que visa a sensibilização em torno da memória e da história da família. Os participantes são convidados a criar e a reflectir sobre as suas fotografias de família e, através de exercícios que permitem a ilusão de movimento na imagem, será explicado como funciona a criação da animação.

Este ano, o Family Film Project acontece no Cinema Trindade, Cinema Passos Manuel, Maus Hábitos e Coliseu Porto Ageas.

Toda a informação sobre o festival em familyfilmproject.com.

domingo, 13 de outubro de 2019

Em Português: As Armas e o Povo (1975)

Os tempos que correm têm feito emergir movimentos fascistas, ódios e ideias que pensávamos ultrapassadas há muitos anos. Um país que viveu uma revolução como a do 25 de Abril de 1974 deveria, sempre, recorrer-se da sua História recente para evitar erros do passado. A luta de muitos, o sofrimento e pobreza de outros tantos, a alegria espelhada nos olhos de quem viu, finalmente, alcançada a liberdade de pensar e falar, saiu para a rua nos dias após a Revolução dos Cravos, culminando numa manifestação grandiosa no dia 1 de Maio de 1974 - apenas cinco dias após a queda do Estado Novo. O Dia do Trabalhador, há tantos anos reprimido pela ditadura, foi dia de júbilo de milhares (ou milhões, por todo o país) que sentiram na pele a Liberdade de expressão.


As Armas e o Povo é o registo destes dias, assinado pelo Colectivo de Trabalhadores da Actividade Cinematográfica (entre os nomes que colaboraram no filme encontramos Acácio de Almeida, José de Sá Caetano, José Fonseca e Costa, Eduardo Geada, António Escudeiro, Mário Cabrita Gil, Fernando Lopes, António de Macedo, João Moedas Miguel, Glauber Rocha, Elso Roque, Henrique Espírito Santo, Artur Semedo, Fernando Matos Silva, João Matos Silva, Manuel Costa e Silva, Luís Galvão Teles, António da Cunha Telles e Monique Rutler). Eles filmaram a História a acontecer na película das suas câmaras; recuperaram imagens dos dias entre 25 de Abril e 1 de Maio (filmadas em película de 8mm a 35mm) e criaram um documentário que é um pedaço da História de Portugal. Um filme que deveria estar em cada casa, ser exibido nas escolas, universidades e televisão, com regularidade. Em breve, tudo isto poderá ser mais fácil com a edição em DVD de As Armas e o Povo. É fundamental preservar a memória e, felizmente, a Cinemateca tem feito - e bem - este trabalho.

As Armas e o Povo mostra-nos as grandes movimentações de massas, os discursos de Mário Soares e Álvaro Cunhal, a libertação dos presos políticos e as entrevistas de rua do cineasta brasileiro Glauber Rocha, no dia 1 de Maio de 1974. A emoção é dominante, as boas vibrações e a esperança que se sente nas ruas contagiam e inspiram. Vemos imagens do Rossio, Praça da Figueira, dos bairros de lata da periferia de Lisboa, onde a pobreza era óbvia e abundante, da Avenida Almirante Reis, do Estádio 1.º de Maio, onde centenas escutavam os discursos dos políticos do amanhã; e ainda do Barreiro e do Funchal.


Na sessão de apresentação à imprensa da cópia digital restaurada de As Armas e o Povo - no passado dia 11 de Outubro, na Cinemateca Portuguesa -, estiveram presentes Fernando Matos Silva e Luís Galvão Teles, que partilharam algumas das experiências que viveram durante a rodagem do documentário. Galvão Teles recordou a importância de aprender "como filmar no meio de uma multidão, sem ser absorvido nela" e destacou a localização da equipa, no Estádio 1.º de Maio, de modo a "cobrir os discursos e a reacção" do povo. Matos Silva acrescentou que, na época, os realizadores como que anteviram que o palanque onde discursavam Cunhal e Soares era um pouco como uma visão do futuro político de Portugal. Destaca ainda alguma "agressividade revolucionária" nas entrevistas de Glauber Rocha, mais um símbolo da liberdade de ideias que finalmente tinha chegado.

Eis o cinema a fazer (parte d)a revolução.

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As Armas e o Povo será apresentado na edição comemorativa do 10.º aniversário do Festival Lumière (dedicado ao património cinematográfico mundial), na secção Tesouros e Preciosidades, que decorre de 12 a 20 de Outubro em Lyon, França. O filme terá duas apresentações, a primeira a 14 de Outubro, às 17h00, no Cinéma Opéra, e a segunda, no dia 15 de Outubro, às 21h30, na sala Lumière Fourmi.

A cópia de As Armas e o Povo foi digitalizada pela Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema e será lançada brevemente em DVD. A cópia digital (DCP 2K) apresentada em Lyon estará depois disponível para pedidos de empréstimo em Portugal e no estrangeiro. Este DCP teve origem na digitalização 4K do negativo em 35 mm, conservado pela Cinemateca. A correcção de cor foi feita usando uma cópia de época como referência. Já o som foi digitalizado a partir da banda óptica de uma cópia de época conservada pela Cinemateca Portuguesa.

Sugestão da Semana #398

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o documentário Varda por Agnès, o derradeiro filme da realizadora Agnès Varda, falecida a 29 de Março de 2019, aos 90 anos.

VARDA POR AGNÈS


Ficha Técnica:
Título Original: Varda par Agnès
Realizadora: Agnès Varda
Elenco: Agnès Varda, Sandrine Bonnaire, Nurith Aviv
Género: Biografia, Documentário
Classificação: M/12
Duração: 115 minutos

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Passos No Escuro chega ao Cinema Passos Manuel a 30 de Outubro.

O Cinema Passos Manuel inicia a série de ciclos Passos No Escuro, dedicados ao cinema de culto, no dia 30 de Outubro. A abrir está o cinema de Dario Argento.

A partir de dia 30 de Outubro, todas as quartas-feiras vão ser dedicadas a Passos no Escuro, onde cada sessão pretende mostrar filmes cujo legado se mantém dentro da cultura pop, ao mesmo tempo que se dá uma segunda vida a títulos que merecem ser descobertos. Em véspera de HalloweenO Mistério da Casa Assombrada (Profondo Rosso) será o primeiro de quatro filmes de Dario Argento a ser exibido.


O Ciclo Dario Argento, que durará até 20 de Novembro, trará ainda aos espectadores Ténebre (Tenebrae)Phenomena Terror na Ópera (Opera).

CICLO DARIO ARGENTO

Todas as quartas-feiras
De 30 de Outubro a 20 de Novembro
Cinema Passos Manuel, Porto

30 de Outubro - O Mistério da Casa Assombrada (Deep Red / Profondo Rosso) // 1975 // 127min.

Um pianista inglês a viver em Roma testemunha o brutal homicídio da sua vizinha, uma conhecida psíquica. Com a ajuda de uma jovem e persistente repórter, e usando métodos pouco convencionais, o par segue um rasto de pistas alucinantes e vê-se envolvido numa teia de demência, selvajaria e violência interminável.

6 de Novembro - Ténebre (Tenebrae) // 1982 // 101 min.

Peter Neal (Anthony Franciosa) é um escritor de romances policiais americano que chega a Roma para promover o seu último livro, Tenebre. Mas uma bizarra sequência de chocantes homicídios ocorre logo após a sua chegada, estranhamente semelhantes aos crimes descritos no seu livro, e ele próprio torna-se objecto das mais horríveis ameaças. Embora a polícia esteja incrédula e confusa, Neal decide envolver-se na investigação com a ajuda do seu agente.

13 de Novembro - Phenomena // 1985 // 116 min.

A jovem Jennifer Corvino (Jennifer Connelly) é enviada para um colégio interno de raparigas na Suíça, onde faz duas surpreendentes descobertas: o seu poder telepático de comunicar com insectos e o rasto sangrento deixado por um assassino com uma lâmina. Conseguirá um amável professor (Donald Pleasence) guiar o seu dom de forma a travar o banho de sangue do psicopata?

20 de Novembro - Terror na Ópera (Opera) // 1987 // 107 min.

Cristina Marsillach é Betty, uma jovem cantora de ópera, que vê a sua grande oportunidade quando substitui a vedeta da encenação de Macbeth, e se torna no objecto de adoração e perseguição de um psicopata.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Doclisboa'19: Programa completo

A 17.ª edição do Doclisboa anunciou a sua programação completa. O festival documental acontece entre os dias 17 e 27 de Outubro.


A Competição Internacional conta com 14 filmes, com um olhar singular sobre o mundo e sobre o cinema. L’ULTIMU SOGNU - Dernier rêve à Petra Bianca, de Lisa Reboulleau, Journey Through a Body, de Camille Degeye, Spit on the Broom, de Madeleine Hunt-Ehrlich, 中孚 61. The Inner Truth, de Sofia Brito, Tribute to Judas, de Manel Raga-Raga, In Ashes, de Camila Rodrigues Triana, Um filme de verão, de Jo Sefarty, Just Don’t Think I’ll Scream, de Frank Beauvais, Noli Me Tangere, de Christophe Bisson, Eu não sou Pilatus, de Welket Bungué, Santikhiri Sonata, de Thunska Pansittivorakul, Under-ground, de Wook Steven Heo, A New Environment: Heinrich Klotz on Architecture and New Media, de Christian Haardt e Tinnitus, de Daniil Zinchenko compõem esta secção competitiva.

A Competição Nacional apresenta 11 filmes. São eles: Fantasmas: Caminho Longo para Casa, de Tiago Siopa, Viveiro, de Pedro Filipe Marques, history with no capital letter, de Saguenail, Prazer, Camaradas!, de José Filipe Costa, Vulcão: O que sonha um Lago?, de Diana Vidrascu, Raposa, de Leonor Noivo, Três Perdidos Fazem Um Encontrado, de Atsushi Kuwayama, Curtir a Pele, de Inês Gil, Cerro dos Pios, de Miguel de Jesus, Outside the oranges are blooming, de Nevena Desivojevic e War Diaries, de Luís Brás.

Riscos

Na secção Riscos é apresentada uma homenagem a Barbara Hammer, por alguns dos seus amigos mais próximos, os realizadores convidados da secção são Ghassan Salhab e Sofia Bohdanowicz, e, dentro do programa temático Six Portraits XL serão apresentados os últimos filmes de Alain Cavalier (Living and Knowing You’re Alive) e James Benning (TELEMUNDO), Danses macabres, squelettes et autres fantaisies, de Rita Azevedo Gomes, Pierre Léon e  Jean-Louis Schefer, e Serpentário, de Carlos Conceição, entre outros títulos.


As outras temáticas exploradas nesta edição na secção Riscos são Políticas do Corpo e Território Mental (destaque para Sovar, de Ava Aghakouchak, e A Passage, de Rouzbeh Akhbari); Retratos da Dor: O Desejo Sem Lei (onde está por exemplo Six Portraits of Pain, de Teresa Villaverde); Corpo Futuro (destaque para A Moon for My Father, de Mania Akbari e Douglas White, The Hottest August, de Brett Story, e Black Sun, de Maureen Fazendeiro); História Natural; e Dois Tempos.

Heart Beat

A secção Heart Beat vê a sua programação fechada com a adição de novos títulos. Dois são dedicados ao mesmo homem: Hi, How Are You Daniel Johnston, de Gabriel Sunday, um documento biográfico, germinado de uma entrevista íntima com o músico, falecido a 11 de Setembro de 2019, que reencontra e junta o artista aos seus sonhos mais expansivos e às personagens do seu passado; e o filme-concerto The Angel and Daniel Johnston - Live at the Union Chapel, de Antony Crofts, que celebra Johnston num dos momentos mais aclamados da sua carreira. 

Em português, a poesia de Sophia de Mello Breyner é celebrada com a estreia mundial de Sophia, na Primeira Pessoa, de Manuel Mozos. Um documentário que traz a escritora ao local onde a memória social se encontra com um intenso trabalho de pesquisa. Do Porto a Lisboa, da Granja a Lagos, do Mar Atlântico ao Mediterrâneo, da Grécia ao 25 de Abril, viajamos pelas paixões e decepções de uma vida e obra dedicadas à busca pelo real, a liberdade e a justiça.

Por fim, uma homenagem ao trabalho de D.A. Pennebaker, com uma cópia restaurada de Don't Look Back, um retrato de cinema verité que revê Bob Dylan durante a sua digressão por Inglaterra em meados dos anos 60.

Da Terra à Lua
  
Também a secção Da Terra à Lua vê completa a sua programação. Un Film Dramatique, de Éric Baudelaire, dialoga com as intuições criativas de 20 alunos da escola Dora Maar nos subúrbios parisienses num projecto experimental que reúne quatro anos de trabalho. O filme debate a urgência de questões como etnia, descriminação, entre outras representações de poder e identidade, enquanto uma geração que cresceu com selfies e YouTube se debate com a natureza colaborativa do cinema.


Pierre-Marie Goulet traz ao Doclisboa O Último Porto - Além das Pontes, um filme que, a partir de dados topográficos e culturais portugueses e turcos, tece os laços entre dois universos aparentemente tão distantes um do outro. 

Em Judenrein, de Daniel Blaufuks, é-nos apresentado um trabalho pessoal que resgata imagens amadoras de uma velha bobine de cinema da década de 80, obtida no e-bay, e que vem a examinar a história de uma pequena aldeia polaca, constituída na sua maior parte por população judaica, agora desaparecida no rescaldo do seu retorno de campos de concentração. 

Sonhámos um País, de Camilo de Sousa e Isabel Noronha, denuncia a história dos campos de reeducação, em Moçambique. O filme analisa, nos dias de hoje, uma realidade pós-colonial pouco conhecida, onde o antagonismo da libertação pós-independência no país é fortemente explorado através da utilização de arquivos fílmicos de Camilo de Sousa (captados, na altura, para a FRELIMO, com propósitos propagandísticos), em combinação com uma conversa entre os realizadores.

Ainda de destacar são os filmes 143 rue du désert, de Hassen Ferhani, sobre uma mulher que recebe camionistas, sem-abrigos e sonhos no meio do deserto Argelino; Suzanne Daveau, de Luísa Homem, que traça o esboço de uma mulher aventureira que atravessa o século XX,  até aos dias de hoje, guiada pela paixão da investigação geográfica; Zustand und Gelände, de Ute Adamczewski, que procura representar a ‘custódia protectiva’ e debruça-se sobre a supressão e resistência de oposição política, experiências traumáticas, através de uma grande amplitude de materiais de arquivo; Adolescentes, de Sébastien Lifschitz, que pinta um retrato raro de França e da sua história recente na sua ilustração de duas adolescentes que, dos 13 aos 18 anos, sofrem transformações radicais que marcam as suas vidas diárias para sempre; e La Vida en Común, de Ezequiel Yanco, que mistura a História com pequenas histórias, contornando identidades complexas em primeiro plano numa comunidade indígena no norte da Argentina.

Estas novidades juntam-se às já anteriormente noticiadas aqui. Toda a programação, horários e outras informações sobre o Doclisboa'19 podem ser consultadas em https://www.doclisboa.org/2019/.

Porto/Post/Doc 2019 coloca identidades em debate

O Porto/Post/Doc 2019 quer debater as questões identitárias na sociedade contemporânea. 

Off Frame AKA Revolution Until Victory, de Mohanad Yaqubi 

Da resistência palestiniana à condição não-binária de género, do antropoceno à geografia de afectos, o Fórum do Real e um programa de filmes paralelo servirão como ponto de partida para conversas em torno da noção de identidade e da sua relação intrínseca com o dispositivo cinematográfico.

O Fórum  do Real decorre entre os dias 27 e 29 de Novembro, no Cinema Passos Manuel, e conta com três painéis de oradores: o primeiro, Da Terra, problematizará a relação entre a construção identitária e o território; o segundo, Do Pensamento, visa uma aproximação de teor filosófico ao próprio conceito de identidade e de identidades, no plural; por fim, o terceiro painel, Das Imagens, pretende reflectir sobre o cinema contemporâneo e o seu entretecimento com os mais diversos fluxos identitários, individuais e colectivos.

Álvaro Domingues (geógrafo), António Guerreiro (crítico), Ben Rivers (realizador), Christiana Perschon (realizadora), Daniel Ribas (investigador), Pedro Mexia (crítico), Susana de Matos Viegas (antropóloga) e Valérie Massadian (realizadora) são algumas das presenças confirmadas no fórum, cuja entrada é gratuita.

Paralelamente, o Porto/Post/Doc apresenta uma selecção de curtas e longas-metragens, num programa especial dedicado ao tema, que pretende colocar em diálogo clássicos da história do cinema, como Persona, de Ingmar Bergman, Rua da Vergonha, de Kenji Mizoguchi ou La Salamandre, de Alain Tanner, com algumas descobertas e produções contemporâneas.

Serão exibidas três curtas-metragens da activista e realizadora suíça Carole Roussopoulos, rodadas durante a década de 1970. De carácter eminentemente político e militante, estes filmes dão a ver algumas das principais lutas sociais francesas à época, como é o caso da F.H.A.R. (Front homosexuel d'action révolutionnaire). Destaque ainda para a exibição de Ghost Strata e Now, At Last, de Ben Rivers, apresentados pelo próprio; o regresso de Gürcan Keltek (vencedor da edição de 2017) com a curta-metragem Gulyabani; e para a sessão especial de Off Frame AKA Revolution Until Victory, de Mohanad Yaqubi realizado a partir de imagens de arquivo da luta palestiniana, produzidas entre os anos 60 e 80. Esta sessão será seguida de debate com o cineasta, moderado por Nuno Lisboa.

No programa estão também os filmes She Is The Other Gaze (Sie ist der andere Blick), de Christiana Perschon, Sol Negro, de Laura Huertas Millán e Coffee Coloured Children, de Ngozi Onwurah.

O festival Porto/Post/Doc 2019 decorre entre 23 de Novembro e 1 de Dezembro no Teatro Municipal do Porto – Rivoli, Cinema Passos Manuel e Planetário do Porto.

Estreias da Semana #398

Esta Quinta-feira, chegam aos cinemas portugueses nove novos filmes. JudyProjeto GeminiVarda por Agnès e o português Viriato são algumas das estreias.

Guerra das Correntes (2017)
The Current War
A história da "guerra das correntes" entre os gigantes da electricidade, Thomas Edison (Benedict Cumberbatch) e George Westinghouse (Michael Shannon), associado a Nikola Tesla (Nicholas Hoult). Um confronto de ideias e de poder que determinaria qual o sistema eléctrico que alimentaria o mundo moderno. Edison optou pela corrente contínua, mais cara de de alcance limitado. Westinghouse tenta provar que a corrente alternada pode trabalhar em distâncias mais longas a um custo significativamente menor. Cada lado compete para que as cidades dos Estados Unidos usem o seu sistema. Edison lança rumores falsos de que a corrente alternada é perigosa, envolve-se numa guerra publicitária e luta para encontrar maneiras de tornar a corrente contínua mais acessível. Ao mesmo tempo, Westinghouse defende os méritos técnicos da sua escolha e tenta fazer com que o sistema de alta tensão da corrente alternada funcione com motores. O confronto decisivo surge quando ambos apresentam propostas para iluminar a Feira Mundial de Chicago.

Judy (2019)
Em 1968, Judy Garland (Reneé Zellweger) chega a Londres para uma série de concertos. Passaram 30 anos desde foi lançada para o estrelado no filme O Feiticeiro de Oz. Está cansada, assombrada por memórias de uma infância perdida para Hollywood, agarrada ao desejo de voltar para junto dos filhos, mas determinada a nunca desapontar os fãs.

Le Dindon: Amantes Acidentais (2019)
Le dindon
Pontagnac apaixona-se por uma loira vistosa que ele acompanha todos os dias no trajecto para o trabalho. O que ele não esperava é que Victoire fosse a esposa de um dos seus amigos, Vatelin. O marido não é ciumento, mas Victoire não lida bem com a situação. Esta desventura lança um jogo em torno de fidelidade um do outro. Quando entram em campo Rediop - que suspira também pela loira - e Suzy - uma antiga paixão de Vatelin- tudo se torna ainda mais complicado. De porta em porta, da sala de estar ao quarto de hotel, todos se encontrarão no meio de mal-entendidos e aventuras, que perturbarão o relacionamento entre os casais e as suas certezas.

Maya (2018)
Dezembro de 2012. Após quatro meses de cativeiro na Síria, dois repórteres franceses são libertados. Gabriel, o mais novo, não tem ainda 30 anos. Após um dia de interrogatórios e exames médicos, Gabriel é autorizado a ir ver os seus entes queridos. A mãe vive na Índia, onde ele cresceu, e cortou os laços com a família. Umas semanas depois, Gabriel decide partir para a Índia. Muda-se para a sua casa de infância, em Goa, e conhece Maya, uma jovem indiana.

O Caso DeLorean (2019)
Driven
Apanhado pelo FBI a contrabandear cocaína no seu avião, Jim Hoffman (Jason Sudeikis) passa a trabalhar como informador e é colocado com a família num rico subúrbio de San Diego. Para sua surpresa, descobre que tem o ícone da indústria automóvel John DeLorean (Lee Pace) como vizinho. Rapidamente cresce uma relação de amizade entre os dois homens, enquanto DeLorean se prepara para lançar o seu novo projeto – A DeLorean Motor Company, no qual Jim se envolve ativamente. Com o FBI a pressioná-lo para denunciar o seu fornecedor e o projeto de DeLoren a atingir um ponto critico por falta de financiamento, as coisas estão longe de serem idílicas. Quando Jim traz o seu fornecedor de droga para o projeto, o cenário está montado para o incrível e por vezes absurdo caso que se tornou num dos escândalos mais célebres dos anos 70.

Projeto Gemini (2019)
Gemini Man
Henry Brogan (Will Smith), um antigo atirador de elite das Forças Especiais, trabalha agora para uma organização governamental clandestina quando se torna no alvo de Junior, um misterioso assassino com capacidades de combate incomparáveis e que consegue antecipar cada um dos seus movimentos. A perseguição desenrola-se por todo o mundo, dos estuários do estado norte-americano da Geórgia, às ruas de Cartagena e Budapeste.

Vadio (2018)
Vadio - I Am Not A Poet
Abandonando um passado de pequenos delitos, David encontra no fado o seu desígnio. Perseguindo incessantemente o sonho de ganhar a vida como fadista, frequenta com o amigo Adriano o circuito tradicional do Fado Vadio, com o intuito de se aperfeiçoar. Mas enquanto Adriano obtém reconhecimento e propostas de actuações pagas, David só encontra dificuldades. Por isso, decide participar num concurso anual de fado cantando um poema de sua autoria, numa tentativa de chamar a atenção.

Varda por Agnès (2019)
Varda par Agnès
Documentário de uma fascinante contadora de histórias, o último filme de Agnès Varda lança luz sobre a sua experiência como realizadora, trazendo uma visão pessoal do que ela chama de "escrita cinematográfica", viajando da Rue Daguerre, em Paris, até Los Angeles e Pequim.

Viriato (2019)
Contra os avanços do império romano, possuidor de uma garra imensa, o chefe lusitano Viriato escolheu dedicar a vida à protecção das suas gentes e das suas terras, contra tudo e contra todos.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Queer Porto 5 de 16 a 20 de Outubro com foco nos 50 anos dos motins de Stonewall

A 5.ª edição do Queer Porto – Festival Internacional de Cinema Queer acontece de 16 a 20 de Outubro no Teatro Rivoli, Maus Hábitos e Reitoria da Universidade do Porto.

Com foco nos 50 anos dos motins de Stonewall, o festival terá um ciclo de cinema dedicado este tema, 50 Anos dos Motins de Stonewall, procurando tocar nos temas da representatividade, das conquistas, das exclusões, das vozes que se viram silenciadas, mas também da disrupção que significou a epidemia da sida.

Haverá um debate alargado à volta da realidade do activismo e cultura queer em Portugal, com especial foco nas suas expressões na cidade do Porto, que terá como mote a exibição do documentário Before Stonewall (1984), de Greta Schiller e Robert Rosenberg, a que se junta Gay USA (1977), de Arthur J. Bressan Jr., em versão restaurada. Acerca da questão do arquivo, surge ainda The Archivettes (2018), de Megan Rossman, que destaca a importância dos legados materiais para memória futura, neste caso sobre a realidade dos movimentos de lésbicas nos EUA.

O tema do VIH/sida é abordado no filme de 1985, Buddies, de Arthur J. Bressan Jr. e haverá ainda uma homenagem a uma figura das artes e do activismo da sida, com o documentário Self-Portrait in 23 Rounds: a Chapter in David Wojnarowicz's Life, 1989-1991 (2018), de Marion Scemama e François Pain.

O Filme de Abertura do Queer Porto será o documentário The Cockettes (2002), de Bill Weber e David Weissman. Como Filme de Encerramento, o festival apresenta o argentino El Ángel, de Luis Ortega.

Los Miembros de la Familia, de Mateo Bendesky

O Júri da Competição Oficial é constituído por Adriano Baía Nazareth, realizador da RTP, pela cantora e compositora Ana Deus, pelo artista plástico Nuno Ramalho, e pela artista e curadora Susana Chiocca. Um total de oito longas-metragens integram a competição, são elas: A Dog Barking at the Moon, de Xiang Zi, The Gospel of Eureka, de Michael Palmieri e Donal Mosher, M, de Yolande Zauberman, Madame, de Stéphane Riethauser, The Man Who Surprised Everyone, de Natasha Merkulova e Aleksey Chupov, Los Miembros de la Familia, de Mateo Bendesky, Raia 4, de Emiliano Cunha, e Yours in Sisterhood, de Irene Lusztig.

Também de regresso está a Competição In My Shorts, constituída por filmes de escola portugueses, onde este ano participam alunos da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, da Universidade da Beira Interior, da Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, do Instituto Politécnico do Porto e da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Portalegre.

Depois de estrear no Queer Lisboa 23, chega ao Porto Porto o programa Agência 20 Anos: Carta-Branca a Cláudia Varejão, um programa que apresenta exclusivamente filmes realizados ou corealizados por mulheres portuguesas. Do programa fazem parte os filmes: A Torre, de Salomé Lamas; Insert, de Filipa César e Marco Martins; Paisagem, de Renata Sancho; Retrato de Inverno de uma Paisagem Ardida, de Inês Sapeta Dias; e Um Campo de Aviação, de Joana Pimenta.

Em Sessão Especial será apresentado o filme O Beijo no Asfalto, de Murilo Benício, que se estreia na realização. Trata-se de uma releitura da peça homónima de Nelson Rodrigues, e conta a história de Arandir que, ao atender ao pedido de um beijo na boca feito por outro homem que está prestes a morrer, após ser atropelado por um eléctrico, se torna matéria sensacionalista para Amado, um repórter que passa a explorar o “caso” para vender mais jornais. À exibição do filme segue-se uma conversa com o performer Tales Frey sobre a importância da obra do dramaturgo Nelson Rodrigues, e sobre a leitura que podemos fazer hoje deste texto de 1961.

No Maus Hábitos, serão apresentadas duas sessões Queer Pop. Nos 50 Anos de Stonewall, parte do tema central desta edição, e apresenta telediscos dos Bronski Beat, Le Tigre, RuPaul, e Troye Sivan, entre outros, reflectindo sobre a evolução das expressões queer na pop durante os últimos 50 anos, culminado no mais recente trabalho de Madonna; na segunda sessão, dedicada a Britney Spears, traça-se o percurso da estrela pop, desde o seu começo no Club Disney até femme fatale obcecada com couro. 

Mais informações sobre o Queer Porto 5 em http://queerlisboa.pt/.