domingo, 9 de maio de 2021

Sugestão da Semana #454

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca O Pai, de Florian Zeller, vencedor de dois Oscars, incluindo o de Melhor Actor para Anthony Hopkins. Podes ler a crítica ao filme aqui.

O PAI


Ficha Técnica:
Título Original: The Father
Realizador: Florian Zeller
Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Mark Gatiss, Olivia Williams, Imogen Poots, Rufus Sewell, Ayesha Dharker
Género: Drama
Classificação: M/12
Duração: 97 minutos

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Crítica: Minari (2020)

"Remember what we said when we got married? That we'd move to America and save each other?"

Jacob

*5/10*

Minari é um retrato do sonho americano para muitos imigrantes sul coreanos nos anos 80. Sensível mas nada provocador ou disruptivo, o filme de Lee Isaac Chung baseia-se na sua própria infância com a família, numa quinta no Arkansas.

"Estamos na década de 1980 e David, um menino americano de sete anos com ascendência coreana depara-se com um novo ambiente e um estilo de vida diferente quando o pai, Jacob, se muda com a família da Costa Oeste para uma zona rural do Arkansas. A mãe, Monica, fica horrorizada por morarem numa casa móvel no meio do nada e o pequeno e travesso David e a sua irmã estão entediados e sem rumo. Enquanto isso, Jacob, determinado a criar uma fazenda em solo inexplorado, coloca em risco as suas finanças, o seu casamento e a estabilidade da família."

Não há nada de realmente novo em Minari: temos um drama familiar, uma família imigrante em busca de uma vida melhor nos EUA, a ideia do sonho americano frustrado sempre presente, a solidão e tentativa de integração na comunidade, o casamento em crise e a relação afectuosa entre avó e netos. Não há nenhum rasgo de inspiração de Lee Isaac Chung. Ele cria uma história simples, focada nas personagens e no ambiente que as rodeia e põe-nas à prova, repetidamente. E os infortúnios sucedem-se desde que se mudam da Califórnia para o Arkansas - mas o pai Jacob é orgulhoso e não desiste.

As personagens estereotipadas em Minari são os americanos - seja o fervor religioso do amigo e empregado de Jacob; o fascínio dos membros da igreja pela nova família; ou os modos grosseiros, mesmo do pai de um amigo de David -; e os simbolismos que se encontram na narrativa são vários mas pouco subtis, começando, desde logo, na erva aromática coreana que dá título ao filme e que, tal como aqueles imigrantes, se adapta em qualquer terreno estranho.

A maior força do filme reside na relação que se constrói entre neto e avó, o estreante Alan S. Kim e a veterana Youn Yuh-jung, os dois com grandes interpretações. Eles, que não se conheciam até então, passam de uma relação de estranheza e desconfiança a ser o pilar um do outro. De destacar ainda a interpretação de Yeri Han como Monica, uma mulher triste, de sonhos frustrados e em constante preocupação com as ideias do marido, a saúde do filho e a integração da mãe. 

Minari é um drama familiar em redor do desencanto e da adaptação, num elogio aos sul coreanos, como a família de Lee Isaac Chung, que imigraram e se firmaram em solo norte-americano.

Cinema na TV generalista no Fim-de-semana: Maio #2

 

Crítica: Caros Camaradas! / Dear Comrades! / Dorogie tovarishchi (2020)

*7/10*

Caros Camaradas!, de Andrey Konchalovskiy, faz um ajuste de contas com um Passado que esteve durante 30 anos vetado ao silêncio. O realizador veterano ficcionaliza os acontecimentos reais de 2 de Junho de 1962, em Novocherkassk, mantidos em segredo até aos anos 90.

Novocherkassk, cidade provinciana no sul da URSS, 1962. Para Lyudmila (Julia Vysotskaya), uma devota funcionária do Partido Comunista e veterana idealista da Segunda Guerra Mundial, tudo o que representa um sentimento antissoviético é um flagelo. Com outros funcionários do Partido, ela é apanhada de surpresa por uma greve na fábrica local, na qual a sua própria filha participa. À medida que a situação se descontrola, Lyudmila inicia uma busca desesperada pela filha, enquanto vigora o recolher obrigatório, são feitas detenções em massa e as autoridades tentam, a todo o custo, encobrir a violência do Estado. A sua fé na linha do Partido é abalada pela crescente consciência dos custos humanos que implica, destruindo o mundo que pensava conhecer.

Os preços dos alimentos a subir e os salários a baixar foram o motor para a revolta dos trabalhadores. Mas a morte fez-lhe frente, dispersou-a, silenciou-a. A ela e aos ideais comunistas pelos quais Lyudmila se regia - do alto do seu lugar privilegiado de membro do Partido. Andrey Konchalovskiy conta-nos como tudo aconteceu num tom ambíguo: a ironia é omnipresente, a par da tragédia que o filme carrega em si. Muitas das acções do Partido caem no ridículo pela lente do realizador; já as vítimas ganham espaço na História.

Caros Camaradas! denuncia as injustiças e as contradições de uma ideologia em decadência. Do planeamento da contenção de uma revolta popular, à forma de apagar a dor, a morte e o crime com água ou alcatrão, documentos confidenciais e juras de silêncio, Andrey Konchalovskiy espicaça os criminosos mostrando por via cinematográfica que nem a verdade, nem a culpa morrem sozinhas.

A opção de filmar a preto e branco e no formato clássico 1.33:1 transporta-nos para a época dos acontecimentos, com um trabalho de fotografia sublime, que proporciona planos inquietantes. A desconfiança que paira no ecrã passa para a plateia, bem como o desconforto e o receio das personagens, que sentem que nenhum local é seguro - a combinação som/imagem cumpre bem esta função.

Caros Camaradas! dá vida às memórias de um passado recente, escondidas em baús, num filme marcado por contrastes e uma réstia de humanidade que sobrevive ao massacre.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Estreias da Semana #454

Esta Quinta-feira, chegaram aos cinemas nacionais seis novos filmes. Caros Caramadas! e o vencedor de dois Oscars, O Pai, são alguns dos títulos em destaque. Na Netflix Portugal, contamos uma nova estreia.

Caros Camaradas! (2020)
Dorogie tovarishchi! / Dear Comrades!
Uma cidade de província no sul da União Soviética, 1962. Para Lyudmila, devota funcionária do Partido Comunista e veterana idealista da Segunda Guerra Mundial, tudo o que representa um sentimento antissoviético, é um flagelo. Por isso, é apanhada de surpresa por uma greve na fábrica local, na qual a sua própria filha participa. Em pouco tempo, a situação fica descontrolada. O regime decreta o recolher obrigatório, inicia detenções em massa e tenta encobrir a violência enquanto Lyudmilla tenta desesperadamente encontrar a filha. A sua fé na linha do Partido, outrora inquestionável, é abalada pela crescente consciência do custo humano que implica, destruindo o mundo que pensava conhecer. Baseado em acontecimentos reais, ocorridos em 1962, na cidade de Novocherkassk, quando o exército e o KGB dispararam sobre manifestantes desarmados.

Godzilla vs. Kong (2020)
Numa era em que os monstros andam pela Terra, a luta pelo futuro da humanidade coloca Godzilla e Kong em rota de colisão. Enquanto a Monarch embarca numa perigosa missão em terreno desconhecido e descobre pistas sobre as origens dos Titãs, uma conspiração humana ameaça erradicar todos os seres vivos da face do planeta, para sempre.

O Pai (2020)
The Father
Anthony tem 81 anos e mora sozinho no seu apartamento em Londres, rejeitando todas as enfermeiras que a sua filha Anne tenta impor-lhe. Porém, esse apoio torna-se cada vez mais urgente para ela, pois vai deixar de poder visitá-lo todos os dias - decidiu mudar-se para Paris para viver com um homem que acabou de conhecer... Mas se isso é verdade, quem é o estranho que irrompe pela sala de Anthony, afirmando ser casado com Anne há mais de dez anos? E porque diz tão convictamente que estão na casa do casal e não no apartamento de Anthony? E ela não tinha decidido ir viver para Paris? Estará Anthony a perder o juízo? Parece que o mundo, por instantes, deixou de ter lógica.

Santuário das Sombras (2021)
The Unholy
Alice, uma jovem com deficiência auditiva, começa a ouvir após uma alegada visita da Virgem Maria. Inexplicavelmente, é também capaz de falar e curar os enfermos. À medida que a notícia se espalha e pessoas de perto e de longe se reúnem para testemunhar os seus milagres, um jornalista que espera fazer reviver a sua carreira, visita a pequena cidade na Nova Inglaterra para investigar. Quando terríveis acontecimentos se multiplicam por toda parte, o jornalista começa a questionar se estes fenómenos são obras da Virgem Maria, ou de algo muito mais sinistro.

Terra de Ninguém (2021)
No Man's Land
Uma noite, Bill Greer e o seu filho Jackson patrulham o rancho quando Jackson acidentalmente mata um menino mexicano imigrante. Quando Bill tenta arcar com a culpa no lugar do seu filho, Jackson foge para o sul a cavalo, tornando-se um estrangeiro ilegal no México. Perseguido por Texas Rangers e federales mexicanos, Jackson viaja pelo México em busca do perdão do pai do menino morto, apenas para se apaixonar pela terra que foi ensinado a odiar.

Tom & Jerry (2021)
A rivalidade entre Tom & Jerry renasce quando Jerry se instala no hotel mais luxuoso de Nova Iorque, na véspera do "casamento do século", e força a desesperada organizadora de eventos a contratar Tom para se livrar do inquilino indesejado. A guerra entre o gato e o rato ameaça destruir a sua carreira, o casamento e hotel. Mas surge um problema ainda maior: um funcionário que tenta criar problemas entre os três. Adaptação ao cinema das personagens criadas por Hanna & Barbera, usando um híbrido de animação gerada por computador e acção real.

Netflix Portugal

Estreia a 7 de Maio:

Monster (2020)
A história de Steve Harmon (Kelvin Harrison, Jr.), um aluno distinto de 17 anos, cujo mundo desaba quando se vê acusado de homicídio qualificado. O filme acompanha a viagem dramática de um amável estudante de cinema de Harlem que frequenta um liceu de elite e se vê forçado a enfrentar uma complexa batalha jurídica, correndo o risco de passar o resto da vida na prisão.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

O Ídolo, escrito a partir de argumento de Fernando Pessoa, estreia a 12 de Maio

A curta-metragem O Ídolo, de Pedro Varela, criada a partir de um argumento inédito, escrito há quase cem anos por Fernando Pessoa, estreia a 12 de Maio em https://www.samsung.com/pt/idolo/.

O desafio foi lançado pela Samsung e pela Agência Uzina ao realizador e argumentista Pedro Varela, também como forma de promoção do novo smartphone Samsung Galaxy S21 Ultra 5G, equipamento usado para filmar a curta-metragem na totalidade.

O Ídolo baseia-se no argumento inédito Note for a thriller, or film, "escrito há quase cem anos, em que diversas personagens recebem a difícil missão de transportar um artefacto de valor incalculável a bordo de um navio que faz a travessia transatlântica entre Nova Iorque e Southampton. Este jogo arriscado, que mais parece um estudo sobre a natureza humana, é o ponto de partida de uma aventura onde ninguém é quem aparenta ser. A aventura, contada no formato de curta-metragem, tem a duração de 20 minutos, naquele que é o primeiro filme produzido a partir de um argumento de Fernando Pessoa, a chegar aos ecrãs."

Para a produção do filme O Ídolo, foi ainda recriada a Ecce Film, a produtora pensada por Fernando Pessoa com um logotipo desenhado pelo próprio, que seria responsável pela produção dos seus argumentos.

Quando surgiu o convite, Pedro Varela não hesitou em aceitar: "Criar personagens e dar-lhes voz, esse é o lugar onde sou feliz, e aqui senti que partilhei esse momento com alguém que sempre foi uma gigante influência na minha vida. Fazer justiça ao que o Pessoa teria na sua intenção original, foi o meu único objectivo. Foi esse o meu mergulho. Apesar do  desafio de filmar o filme através de um smartphone, não podia estar mais feliz com o resultado final”, explica.

Por seu lado, José Correia, Director de Marketing de Produto Mobile da Samsung explica a aposta da marca neste projecto: "Este ano, e tendo em conta o contexto particular que vivemos, a Samsung enquanto parceiro de relevo no panorama nacional, quis destacar o papel da nossa cultura através de um dos seus autores mais representativos, Fernando Pessoa". E acrescenta: "Nos dias de hoje, registamos as nossas vidas e contamos as nossas histórias através dos smartphones - e é por isso que a câmara é um dos recursos mais importantes para o utilizador. O resultado final deste que é o primeiro filme de Fernando Pessoa é a prova da capacidade e versatilidade do Samsung Galaxy S21 Ultra 5G em evidenciar o melhor de cada imagem do início ao fim”. 

O filme foi rodado entre Viana do Castelo, a Serra de Sintra e Lisboa, sendo que toda a acção nos remete para o ano de 1928. O elenco conta com actores como Tiago FelizardoAna Vilela da CostaSoraia Tavares, Paula Magalhães, entre outras participações nacionais e internacionais.

Lançado em 2011, o livro Fernando Pessoa – Argumentos para Filmes deu a conhecer mais uma faceta da vida e obra de Fernando Pessoa, o seu interesse pelo Cinema e pela sua dimensão artística na perspetiva do autor. O livro apresenta seis argumentos originais (em português, inglês e francês) que reflectem, na sua maioria, temas do mundo pessoano, como as múltiplas identidades do ser e a curiosidade pela natureza humana.

Mais informações sobre O Ídolo em https://www.samsung.com/pt/idolo/.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Crítica: O Pai / The Father (2020)

"Paris. They don't even speak English there."

Anthony

*8.5/10*

A delicadeza perturbadora de O Pai (The Father), estreia de Florian Zeller nas longas-metragens, faz-nos imergir na vida de um homem com demência, de um ponto de vista inesperado. O dramaturgo adaptou a sua peça ao cinema, com a colaboração de Christopher Hampton, numa experiência desconcertante.

"Anthony (Anthony Hopkins) tem 81 anos e mora sozinho no seu apartamento em Londres, rejeitando todas as enfermeiras que a sua filha Anne (Olivia Colman) tenta impor-lhe. Porém, esse apoio torna-se cada vez mais urgente para ela, pois vai deixar de poder visitá-lo todos os dias - decidiu mudar-se para Paris para viver com um homem que acabou de conhecer... Mas se isso é verdade, quem é o estranho que irrompe pela sala de Anthony, afirmando ser casado com Anne há mais de dez anos? E porque diz tão convictamente que estão na casa do casal e não no apartamento de Anthony? E ela não tinha decidido ir viver para Paris? Estará Anthony a perder o juízo? Parece que o mundo, por instantes, deixou de ter lógica."

O Pai aborda uma história simples e realista de envelhecimento e perda - de faculdades, de memórias, de laços... -, mas igualmente de dedicação e mágoa de uma filha. Zeller cria um drama desolador, pincelado por momentos de humor requintado, porque na tristeza também se encontram alguns sorrisos e amparo.

A fragilidade do ser humano, a desconfiança constante e a confusão de memórias que o cérebro atraiçoa são os elementos que nos fazem entrar na cabeça de Anthony e compreender a sua perspectiva, de uma forma que ninguém à sua volta é capaz. Vamos ganhar-lhe afeição, compreensão e também partilharemos com ele o desespero e o medo. Percorremos corredores e salas que tão bem conhece (mas duvida), desfrutaremos da música que o acompanha ou da vista da janela do seu quarto, mas seremos igualmente testemunhas fiéis do desnorte que o rodeia.

Para além da subtileza e inteligência do argumento, o trabalho de montagem de Yorgos Lamprinos é o verdadeiro potenciador da singularidade e da partilha da experiência para o outro lado do ecrã. São poucos os filmes que nos envolvem tão activamente numa narrativa fragmentada e nos inquietam tão sagazmente.

Anthony Hopkins é soberbo na pele deste protagonista com quem partilha o nome e data de nascimento. O golpe que sente na sua independência provoca-lhe revolta e desconfiança. A memória atraiçoa-o, os rostos e locais deixam momentaneamente de ser familiares, o desespero e as frases repetidas evidenciam a fragilidade da sua condição. Se, por um lado, ele não admite (nem compreende) a sua fraqueza, por outro, a rispidez é a melhor arma que encontra para se defender. Ao lado do veterano, Olivia Colman incorpora o rosto exausto da filha incansável e dedicada, que vê desaparecer, aos poucos, a existência do homem que a criou. A actriz tem uma interpretação contida e comovente, num esforço contínuo pelo bem estar do pai.

Florian Zeller faz-nos reflectir na incapacidade humana para controlar o destino ou reverter o envelhecimento, bem como sobre a necessidade de empatia, respeito e compreensão pelo próximo. O Pai é cruel na realidade que retrata, mas é igualmente humanizador na forma como o faz.

domingo, 2 de maio de 2021

Sugestão da Semana #453

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana regressa com um destaque duplo - tantos meses com salas fechadas, há que compensar. Mais uma Rodada e Uma Miúda com Potencial (ambos vencedores de um Oscar, de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Argumento Original, respectivamente) convidam-nos a ir ao cinema.



Ficha Técnica:
Título Original: Druk / Another Round
Realizador: Thomas Vinterberg
Elenco:  Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Magnus MillangLars RantheMaria BonnevieHelene Reingaard Neumann
Género: Comédia, Drama
Classificação: M/14
Duração: 117 minutos




Ficha Técnica:
Título Original: Promising Young Woman
Realizadora: Emerald Fennell
Elenco: Carey Mulligan, Bo Burnham, Alison Brie, Adam Brody, Connie Britton, Jennifer Coolidge, Laverne Cox, Alfred Molina
Género: Crime, Drama, Thriller
Classificação: M/16
Duração: 113 minutos