domingo, 23 de junho de 2024

Sugestão da Semana #619

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme-ensaio de Leonor Areal, Onde Está o Pessoa?. O filme tem crítica no Hoje Vi(vi) um Filme.



Ficha Técnica:
Título Original: Onde Está o Pessoa?
Realizadora: Leonor Areal
Género: Documentário
Classificação: M/12
Duração: 65 minutos

quinta-feira, 20 de junho de 2024

Estreias da Semana #619

Esta Quinta-feira, chegam aos cinemas portugueses nove novos filmes. Onde Está o Pessoa?, de Leonor Areal, Soma das Partes, de Edgar Ferreira, e The Bikeriders, de Jeff Nichols, são algumas das estreias em destaque.

Contra Todos (2024)
Boy Kills World
Boy jura vingar-se do assassinato da família às mãos de Hilda Van Der Koy, a matriarca de uma corrupta dinastia pós-apocalíptica, que deixou o jovem órfão, surdo e mudo. Movido por uma voz interior, adotada do seu videojogo favorito, treina com um misterioso xamã para se tornar um instrumento letal e está pronto para dar tudo na véspera do abate anual de dissidentes. O caos instala-se à medida que o jovem avança com uma ira de destruição e carnificina. À medida que tenta avançar por este reinado delirante, torna-se parte de um desesperado grupo de resistência, enquanto discute com o aparente fantasma da irmã mais nova.

Daliland (2022)
Dalíland
Em 1973, um jovem assistente de galeria embarca numa louca aventura, enquanto ajuda o envelhecido génio da pintura Salvador Dali a preparar uma grande exposição em Nova Iorque.

Época de Caça (2023)
Chasse gardée
Acompanhados pelos seus dois filhos, Simon e Adelaïde decidem, como muitos parisienses de hoje, trocar o seu apartamento de duas assoalhadas por uma vida mais calma e confortável no campo. São seduzidos por uma casa no meio da natureza: espaço, uma horta, um bosque contíguo ao jardim e, sobretudo, habitantes que os acolhem de braços abertos. Um sonho tornado realidade. Mas o jovem casal não tarda a desiludir-se: o bosque é, na realidade, um terreno de caça para animais de grande porte. Embora os caçadores sejam simpáticos, não estão dispostos a ceder o território, tornando o sonho de Simon e Adelaïde num inferno.

Mamonas Assassinas: O Filme (2023)
Guarulhos na década de 90. Dinho, Sérgio, Samuel, Julio e Bento são rapazes típicos da época, com pouco dinheiro e muitos sonhos. Nem imaginam que o humor debochado e inteligente, característico deste grupo de amigos, irá mudar as suas vidas para sempre. De algumas tentativas fracassadas ao sucesso absoluto, em pouco tempo, tornam-se o maior fenómeno musical brasileiro da década: os Mamonas Assassinas.

O Amor Segundo Dalva (2022)
Dalva
Dalva tem 12 anos, mas veste-se, maquilha-se e vive como se fosse uma mulher adulta. Uma noite, é retirada da casa onde vivia com o pai e levada para um centro de acolhimento de menores. Estupefacta e indignada no início, conhece Jayden, um assistente social, e Samia, uma adolescente com mau feitio. Uma nova vida parece começar para Dalva, a de uma rapariga da sua idade.

No seu ensaio visual, Leonor Areal convoca o espectador a olhar em detalhe para um filme centenário e para as dezenas de pessoas que surgem à saída de um concerto, a maioria homens, de fato completo e chapéu, muitos com bigode. Entre eles, procura-se Fernando Pessoa.

Ovnis, Monstros e Utopias - Três Curtas Queer (2024)
Ovnis, Monstros e Utopias: Três Curtas Queer é uma sessão composta pelas mais recentes curtas-metragens dos realizadores Joana de Sousa (Entre a Luz e o Nada), Ricardo Branco (Sob Influência) e André Godinho (Uma Rapariga Imaterial).
Entre a Luz e o Nada, de Joana de Sousa, acompanha dois dias na vida de Shade, uma jovem não-binária que vive na periferia de Lisboa. Sob Influência, de Ricardo Branco, é sobre uma jovem, que, ao longo de um fim de semana com um grupo de amigos, ganha dificuldades em lidar com a realidade. Rapariga Imaterial, de André Godinho, conta a história de João, uma rapariga imaterial, que é o que quer ser, independentemente da sua idade, género ou cor de pele.

Soma das Partes (2023)
Documentário que percorre os 60 anos da Orquestra Gulbenkian. Com recurso a imagens de arquivo inéditas e através do olhar de músicos, maestros e solistas, conta a história da criação de uma pequena orquestra de câmara que, em 60 anos, ascendeu a orquestra sinfónica internacional, gravando mais de 70 álbuns e actuando ao lado dos maiores nomes da música clássica internacional, alterando determinantemente o panorama da música em Portugal.

The Bikeriders (2023)
Kathy, um membro obstinado dos Vândalos, casada com um motociclista selvagem e imprudente chamado Benny, conta a evolução dos Vândalos ao longo de uma década, começando como um clube local unido por bons momentos, motas a roncar e respeito pelo seu forte e firme líder, Johnny. À medida que a vida nos Vandals se torna mais perigosa e o clube ameaça tornar-se num gangue mais sinistro, Kathy, Benny e Johnny são forçados a fazer escolhas sobre a sua lealdade.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Crítica: Onde Está o Pessoa? (2023)

*7.5/10*

Numa analogia à colecção de livros Onde Está o Wally?, Leonor Areal cria o jogo cinematográfico Onde Está o Pessoa?, em que desafia a plateia a uma incessante busca pelo poeta português, no meio de uma imensa multidão que sai do Teatro República (actual São Luiz), em Lisboa, em 1913.

"No seu ensaio visual, Leonor Areal convoca o espectador a olhar em detalhe para um filme centenário e para as dezenas de pessoas que surgem à saída de um concerto, a maioria homens, de fato completo e chapéu, muitos com bigode. Entre eles, procura-se Fernando Pessoa."

Partindo do filme de 1913, Assistência no Teatro da República na festa do maestro Blanch, a realizadora leva a plateia numa viagem no tempo e no espaço. "A assistência sai do teatro e depara-se com uma câmara que os filma. Poucos conseguem ignorá-la. Mostrando atitudes díspares, alguns procuram destacar a sua presença, outros são mais fugidios". O espectador tem o ponto de vista da câmara e todos os que saem do teatro "olham" directamente para si. Há um confronto de olhares, e a realizadora analisa cada detalhe das imagens em movimento, seja em câmara lenta, seja recuando, repetidamente, para voltar a ver e a captar novos elementos. 

Detecta-se a estranheza de alguns, numa época em que ainda não era muito comum ver câmaras de filmar nas ruas, e o encanto de outros por saberem que estão a ser filmados. Encontram-se os tímidos, os rebeldes, os curiosos. E Leonor Areal começa a descobrir caras conhecidas, comparando-as com fotografias da época dessas figuras públicas.

Numa multidão tão homogénea, onde poucas são as mulheres e o chapéu e fato são o traje mais comum nos homens, não é fácil reconhecer alguém. Contudo, a análise detalhada de Onde Está o Pessoa? leva a alguns (re)encontros. Para além do Wally português - leia-se, Fernando Pessoa -, a realizadora identifica personalidades como Amadeo de Souza-Cardoso, António Ferro, António Silva, Augusto Ferreira Gomes, Eduardo Viana, Ernesto Vieira, Jorge Barradas ou Stuart Carvalhais, entre outras. 

Para além da narração da realizadora - de quem se denota um imenso trabalho de investigação -, ouvem-se descrições dos meios de comunicação da época sobre os espectáculos em cena, e excertos do diário de Fernando Pessoa, em datas próximas daquela em que as imagens foram gravadas.

Onde Está o Pessoa? é, principalmente, uma obra hipnótica e curiosa, um desafio de análise de cada olhar inquieto de quem passa ou pára em frente à câmara. E a dúvida ficar no ar: Será mesmo aquele o Pessoa?

domingo, 16 de junho de 2024

Sugestão da Semana #618

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme luso-brasileiro Pedágio, de Carolina Markowicz. O Hoje Vi(vi) um Filme escreveu sobre o filme e entrevistou o actor Isac Graça.



Ficha Técnica:
Título Original: Pedágio
Realizadora: Carolina Markowicz
Elenco: Maeve Jinkings, Kauan Alvarenga, Thomás Aquino, Isac Graça, Aline Marta Maia, Caio Macedo
Género: Crime, Drama
Classificação: M/14
Duração: 102 minutos

Curtas Vila do Conde 2024: Alberto Vázquez, Laura Ferrés e Yorgos Zois nos programas temáticos do festival

Alberto Vázquez, Laura Ferrés e Yorgos Zois estarão em destaque nos programas temáticos do Curtas Vila do Conde 2024

Birdboy: The Forgotten Childten

Alberto Vázquez é realizador de cinema de animação e artista de banda desenhada. "O seu trabalho é dotado de uma versatilidade inconfundível, marcado pelas linhas ousadas, cores vívidas e imaginário surrealista que exploram as diferentes latitudes da emoção humana e a complexidade das sociedades contemporâneas. Enquanto ilustrador, o seu trabalho mistura elementos lúdicos com temas sombrios, criando uma tapeçaria visual que convida os leitores a um novo mundo de imaginação. Como realizador, Vázquez tem recebido o elogio da crítica com filmes de animação que exploram os limites da narrativa e provocam a audiência", referiu o festival em comunicado. Ao longo da sua carreira, Vázquez venceu três Prémios Goya, para além de várias distinções em festivais internacionais. No Curtas, venceu o prémio do público em 2016 com Decorado. Este ano, o festival vilacondense dedica-lhe uma retrospectiva integral da sua obra, com curtas e longas como Unicorn Wars (2022) e Birdboy: The Forgotten Childten (2015). O realizador estará presente em Vila do Conde e orientará uma masterclass em torno da sua obra. 

A secção New Voices, dedicada a nomes emergentes da cinematografia mundial, destaca, nesta edição, os trabalhos da catalã Laura Ferrés e do grego Yorgos Zois

Os filmes de Laura Ferrés "celebram a resiliência e a humanidade das pessoas comuns. Focando-se, frequentemente, em histórias de exclusão social, luta pela sobrevivência e dinâmicas familiares, a sua obra mergulha nas complexidades da vida quotidiana, capturando - de forma incrivelmente autêntica, crua e minuciosamente detalhada - momentos de vulnerabilidade, conexão e empatia". O Curtas 2024 vai exibir The Permanent Picture (2023) e The Disinherited (2017), a que se junta uma Carta Branca com escolhas da autora e uma conversa.

Já a obra de Yorgos Zois "tem sido destacada pela abordagem inovadora e crítica que faz aos temas sociais e existenciais do mundo de hoje, da alienação humana às dinâmicas de poder". O festival vai exibir, em estreia nacional, a sua mais recente longa-metragem, Arcadia. O realizador marcará presença em Vila do Conde, onde participará de uma conversa.

O Curtas Vila do Conde acontece de 12 a 21 de Julho. Mais informações em https://www.festival.curtas.pt/

InFocus: Alberto Vázquez

Birdboy, Alberto Vázquez, Pedro Rivero, 2011, Espanha, ANI, 13’

Birdboy: The Forgotten Children, Alberto Vázquez, 2015, Espanha, Japão, ANI, 76’

Decorado, Alberto Vázquez, 2011, Espanha, França, ANI, 16’

Homeless Home, Alberto Vázquez, 2020, Espanha, França, ANI, 15’

Ramiro, Sucia rata, Alberto Vázquez, 2012, Espanha, França, ANI, 1’

Unicorn Blood, Alberto Vázquez, 2013, Espanha, ANI, 9’

Unicorn Wars, Alberto Vázquez, 2022, Espanha, França, ANI, 92’


Carta Branca

Astigmatismo, Nicolai Troshinsky, 2013, Espanha, ANI, 4’

El corrió junto a su camarada, Genís Rigol, 2022, Espanha, ANI, 14’

Jamon, Iria López, 2013, Reino, ANI, 8’

Metamorphosis, Juanfran Jacinto y Carla Pereira, 2019, França, Espanha ANI, 11’

Simbiosis Carnal, Rocío Álvarez, 2017, Bélgica ANI, 10’

Soy una tumba, Khris Cembe, 2019, Espanha, ANI, 12’

Zepo, César Díaz Meléndez, 2014, Espanha, ANI, 3’


New Voices: Laura Ferrés

The Disinherited, Laura Ferrés, 2017, Espanha, 18’

The Permanent Picture, Laura Ferrés, 2023, Espanha, 94’


Carta Branca

Lonely Rivers, Mauro Herce, 2019, França, Espanha, 28’

Sóc vertical però m'agradaria ser horitzontal, María Antón Cabot, 2022, Espanha, 40’

Forastera, Lucía Aleñar, 2020, Espanha, 20


New voices: Yorgos Zois

Arcadia, Yorgos Zois, 2024, Grécia, EUA, Bulgária, 99’

Casus belli, Yorgos Zois, 2010, Grécia, 11’

Eighth Continent, Yorgos Zois, 2017, Grécia, Alemanha, 6’

Interruption, Yorgos Zois, 2015, Grécia, França, Croácia, Itália, Bósnia e Herzegovina, 109’

Out of Frame, Yorgos Zois, 2012, Grécia, 12’

Party Animal, Yorgos Zois, 2018, Grécia, 9’

Third Kind, Yorgos Zois, 2018, Grécia, 32’


Carta Branca

Le Saboteur, Ansii Kasitonni, 2022, Finlândia, 12’

Cherries, Vytautas Katkus, 2022, Lituânia, 15’

Aqueronte, Manuel Muñoz Rivas, 2023, Espanha, 26’

Washingtonia, Konstantina Kotzamani, Kleopatra Ampatzoglou, 2024, Grécia, 24’

sábado, 15 de junho de 2024

Entrevista: Isac Graça, actor de Pedágio: "Os violentadores da liberdade alheia adoram ser levados a sério, e o filme não faz isso"

A propósito da estreia da produção luso-brasileira Pedágio, de Carolina Markowicz, sobre a qual já escrevemos no blog, entrevistámos o actor português Isac Graça, que no filme veste a pele de um Pastor estrangeiro "especialista" em terapias de conversão sexual. Falámos sobre o filme, sobre o desafio de interpretar esta personagem e desvendámos alguns dos seus projectos futuros. 

Como surgiu a oportunidade de fazer parte de Pedágio?

Isac Graça: Foi um golpe de sorte. Quando foi anunciado que A Viagem de Pedro, da Laís Bodanzky, ia estrear no Festival de São Paulo, tive uma sensação qualquer de que era essencial ir, e tenho aprendido a não ignorar essas sensações. Uma vez lá, a estreia correu particularmente bem. No dia a seguir passei umas horas no Museu de Arte Contemporânea da cidade, e estava a voltar para o hotel num táxi, cheio de dores nos pés, quando o Luís Urbano (produtor d'O Som e a Fúria) me liga a dizer que precisava de falar comigo. Enquanto eu estava no Museu, ele e a Karen Castanho (produtora brasileira da Biônica) tinham tido um almoço com a Carolina Markowicz, que não estava a encontrar o actor para o Pastor, sugeriram-me, e apesar de eu não ter a idade da ideia inicial para a personagem, a Carolina aceitou encontrar-se comigo essa noite. O Urbano disse-me para não ir com expectativas, e assim fiz. Tomei um banho, fiz uma sesta, e fui, e a conversa correu bem. Na manhã seguinte - voltava para Lisboa ao início da tarde - estava a acabar de tomar um bruto pequeno-almoço para me aguentar no voo, o Luis volta a ligar-me a dizer que a Carolina tinha ficado interessada em mim e que me queria fazer uma audição. Eu disse que sim (apesar de ainda não ter lido nada do guião), pedi só um tempo para fazer as malas. Fi-las, check out, meteram-me num táxi, e fui para o outro lado de São Paulo fazer a audição. Atiraram-me umas cenas para cima da mesa, fiz as cenas. Voltei ao hotel e fomos directos para o aeroporto. Nesse táxi, o Luís recebeu uma mensagem a dizer que eu tinha ficado com o trabalho.

Depois de teres sido o absolutista D. Miguel em A Viagem de Pedro, voltas agora a interpretar mais um vilão noutra produção luso-brasileira. Fala-me um pouco deste Pastor Isaac e de como te preparaste para o papel. Quais os principais desafios da personagem?

Isac Graça: Eu não parto do princípio que faço vilões, embora em ambos casos tenha total lucidez que o seu papel na narrativa é antagónico, e que, modo geral, são personagens longe da minha ética. Parto do princípio que interpreto seres humanos, por mais que a sua linha geral seja a do Mal (que é sempre algo muito discutível), logo, nos processos, encho-os de pequenos detalhes de vulnerabilidade, de contradições, de nuances dúbias, e, claro, esforço-me por descobrir os porquês de serem como são. No caso do Pastor Isaac, já que o objectivo era satirizar, e em última instância, construir a personagem para a destruir, tive de clarificar mesmo tudo. E tornou-se claro que era alguém que fazia o que fazia não só por alinhar com um certo senso comum intolerante com divergência sexual (possivelmente até recusando a sua própria identidade), como por uma coisa que é comum à maioria das pessoas num mundo capitalista: fazer dinheiro enquanto coisa mais importante da vida. Eu, sendo cristão, ainda que sem ligação a igrejas específicas, parto do princípio que é preciso cuidado com a ganância financeira, que o dinheiro eventualmente pode corromper o espírito, que é algo que traz consequências nefastas e certos castigos, como o que acontece no filme (sem fazer spoiler), portanto tive muita dificuldade em construir a mente de uma pessoa que não se aceita a si nem aos outros, e que vive em prol do dinheiro. Só porque para mim isso é bizarro. Mas não podia fazer um capitalista geral, porque há milhares de tipos de capitalista, então afunilei a construção nos vendedores da banha da cobra e nos populistas, pessoas que vejo como sendo uma espécie de extrema-direita menos assumida, mais cool e modernizada, que na verdade podemos encontrar em qualquer partido político, e na rua, e a fazer scroll no Youtube ou no Instagram. Confrontei-me com essa hipótese, que tive de assumir que existe em mim, algo que tornou a construção íntima e violenta, polvilhei-a de referências reais, e pronto, acaba por ser tanta coisa que estás a tratar, que nem reparas e já estás com uma câmara em cima a fazer o filme.

Como foi a experiência de filmar fora de Portugal?

Isac Graça: Aterradora, por não conhecer bem ninguém na equipa, sendo o único português no set, e estando com o Oceano Atlântico a separar-me de casa. Felizmente, a Carolina deixou-me assistir a um dia de rodagem antes de começar a sequência do Pastor, pedi-lhe isso porque precisava de entender o tom do filme, e isso ajudou-me a estruturar e não me sentir fora. No dia da minha primeira cena, fui para o set uma hora e meia antes, e fiquei por lá a lidar, a criar mise-en-scene e a pensar e repensar decisões, e quando dei conta, já tínhamos filmado a cena. Mas não fugi do medo. Abracei-o.

Do que mais gostas em Pedágio?

Isac Graça: Eu acho o filme todo muito sólido. É uma história acessível para toda a gente, aquele eterno drama de desentendimento entre pais e filhos, mas com um ponto de vista da direcção muito enviesado, o que torna o filme mais cru e cruel. E gosto da coragem de ir mudando de tom, tens o lado dramático, o satírico e um quase de thriller de acção, mas dentro destes tons, aquele de gosto mais, porque acho uma arma mais eficaz contra a intolerância, é o satírico. Os violentadores da liberdade alheia adoram ser levados a sério, e o filme não faz isso. E como deixa meia dúzia de gatos pingados do gatekeeping mais desconfortáveis, recusando-o, deixa-me a mim bem-disposto. Acho a recusa do humor um tique de classe. Há muita gente bem mais conservadora do que se diz, profundamente classista, que ainda acha que o humor satírico é um género menor, porque, na sua génese, é a grande arma da classe trabalhadora. Eu diria que não entendem a força do humor. Ou que lhe querem pôr rédeas. Só que não vai acontecer. E o problema acaba por ser deles, porque ao recusarem o humor do filme, o tiro é-lhes direccionado, e aí não há status quo que os possa salvar.

Foi apenas no final de 2023 que o Parlamento português aprovou a lei que criminaliza as práticas de conversão sexual. No Brasil, ainda não é bem assim. Qual é, para ti, a importância de filmes como Pedágio nos dias que correm, em tempos de tanta intolerância e extremismos?

Isac Graça: Todo o Cinema é político, muitas vezes não tem é coragem de se posicionar, e quando não se posiciona, alinha com o Poder. Mas aí questiono-me se é Cinema. E não sei. Ao menos o Cinema de propaganda estatal é assumido, sabemos com o que contar. E de resto, o Cinema resvala sempre para a realidade, nem precisa de ter estreado ainda para isso começar a acontecer. Atrás eu dizia que, a par com a realizadora, construí a personagem para a destruir. No dia em que filmei a última cena do Pastor, lembro-me de pensar "Okay, estou a dar o corpo às balas. É um momento de queda. Mas não vou cair sozinho." E nesse dia, no set, pensei em dezenas de pessoas que, de certa forma, são o Pastor. A seguir ao filme caí numa espiral de tristeza que me destruiu, isto na realidade. O que de alguma forma me salvou foi saber, no fundo, que iria valer a pena. E a verdade é que, ao longo do período de montagem, e de exibição do filme, desde Toronto em Setembro, têm caído todas as pessoas em que pensei naquele dia, uma por uma. É que o Cinema vem da realidade para depois voltar para ela.

Começaste no teatro e desde então tens participado em muitos projectos no cinema e na televisão. A tua carreira tem crescido muito nos últimos anos. Ainda o mês passado estiveste em Cannes com a equipa de Mau por um Momento, de Daniel Soares, que recebeu uma menção honrosa no festival. Que personagens mais te marcaram até agora e porquê?

Isac Graça: Todas têm contribuído para este meu processo ininterrupto de construção e reconstrução da minha identidade enquanto cidadão, e por isso nutro carinho por todas elas. No outro dia, um amigo perguntou-me, numa viagem de carro, quantas personagens já tinha feito. Contabilizei, com algum esforço, e vou em cerca de 50 pessoas, todas com o seu lado lunar e com as suas coisas boas também. Mas a verdade é que não quero escolher nenhuma, porque acredito, sinceramente, que ainda estou a começar. A procissão ainda vai no adro.

E sobre os teus próximos projectos, o que é que já podes revelar?

Isac Graça: Além do Mau por um Momento que vai começar a rodar as capelinhas dos festivais depois da estreia em Cannes, tenho dois projectos muito distintos do Ivo M. Ferreira a sair, O Americano e o Projecto Global, com personagens muito complexas, mas ainda não sei quando. E o filme do Paulo Alexandre Mota, que estive três anos a filmar, e esteve em montagem durante anos a fio, o Paulo teve um processo muito solitário e paciente com o filme, que na verdade foi o meu primeiro, e cuja última montagem que vi amo muito, e tenho muita vontade de mostrar às pessoas. E pronto, estou a ensaiar um espectáculo, e envolvido em duas rodagens de filmes, uma em breve, a outra para o ano, mas não quero falar sobre isso.