"Porque é que não pensar deixar o seu cargo?"
Maria de Jesus
*5/10*
O primeiro de dois filmes sobre o ditador português com estreia prevista para 2026 já chegou às salas: Pai Nosso - Os Últimos Dias de Salazar é a proposta do realizador José Filipe Costa de um retrato irónico dos últimos meses de vida do protagonista.
A farsa real é transportada para o grande ecrã com a governanta Maria de Jesus (Catarina Avelar) ao comando das operações, seja na coordenação das visitas ao presidente deposto, seja a tomar as rédeas da casa, junto das empregadas, ou simplesmente a cuidar e fazer companhia ao ditador doente.
"Portugal, 1968. Salazar, o ditador fascista que no mundo mais tempo esteve no poder, cai de uma cadeira e sofre um AVC. Quando volta ao palacete de São Bento para convalescer, já não é Presidente do Conselho. Mas ninguém lhe conta a verdade: nem a fiel governanta Maria de Jesus, nem as criadas Aparecida, Socorro e Teresinha, nem o seu médico pessoal. Durante dois anos ele vive uma ilusão minuciosamente construída para acreditar que ainda é Presidente, até morrer em 1970. Uma das farsas mais absurdas da História, que muita gente ainda hoje ignora."
José Filipe Costa volta a mostrar a sua ousadia na escolha e na forma de trabalhar os temas dos seus filmes. O realizador "estava interessado nos dilemas, nas contradições e nos paradoxos vividos pelas personagens dentro de São Bento". Apenas dentro do palácio, Salazar continuava a ser o presidente.
No entanto, a acutilância que caracteriza o cinema de José Filipe Costa não foi usada da forma que este filme mereceria. Infelizmente, há uma ligeira humanização de Salazar nestes seus últimos dias, que, tendo em conta os controversos tempos que se vivem, pode ter uma leitura totalmente errada pela plateia. Os melhores momentos acontecem na segunda metade do filme, quando pesadelos e alucinações atormentam o antigo ditador, com o delírio a despoletar momentos de humor sarcástico e, por vezes, outros até ligeiramente perturbadores. É aí que surge a mordacidade característica do realizador, que peca por ser tão pouca nesta longa-metragem.
Nas interpretações, Catarina Avelar está imperturbável na pele da sempre fiel Maria de Jesus, ela própria uma espécie de ditadora das regras daquela casa, onde a mentira passava a verdade inabalável. No papel de Salazar, Jorge Mota revela a fragilidade e a confusão mental da decadência do ditador.
Pai Nosso - Os Últimos Dias de Salazar perde assim a grande oportunidade para "enterrar" de vez os resquícios do Estado Novo. José Filipe Costa mostra a sua marca provocatória, mas é demasiado brando no retrato satírico do ditador.























