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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

KINO 2021: Futuro Três / Futur Drei (2020)

*8.5/10*

Na sua primeira longa-metragem, Futuro Três (Futur Drei), Faraz Shariat mostra maturidade e talento, numa abordagem singular de sexualidade e migrações. A forte componente autobiográfica cria maior intimidade e empatia com filme e personagens.

"O Instagram, os namoros no Grindr, a prestação de serviço comunitário num abrigo para refugiados, o amor proibido, as bebedeiras em festas de máscaras com novos amigos, bem como a constatação de que a busca por aquilo a que se chama lar tem um significado diferente para cada pessoa."

A estreia de Shariat nas longas lembra os primeiros trabalhos de Xavier Dolan, quer na temática como na abordagem e positividade. Futuro Três é uma jornada de autodescoberta e esperança para três personagens: Parvis (Benjamin Radjaipour), Banafshe (Banafshe Hourmazdi) e Amon (Eidin Jalali). A ligação harmoniosa e enérgica que se cria entre os três supera os laços de sangue - os três transpiram amor.

No abrigo para refugiados, cruzamo-nos com uma multiplicidade de origens, culturas e histórias, em busca de um futuro melhor num país que não é o seu. Para além do obstáculo da língua, todos anseiam e esforçam-se pela integração, sem serem obrigados a olhar para trás. O foco de Futuro Três recai nos imigrantes iranianos: tanto os que se estabeleceram há 30 anos na Alemanha, como é o caso da família de Parvis (e do realizador), já nascido no país, como os que aguardam asilo, o caso dos irmãos Bana e Amon.


Entre incertezas e receios, seja relativamente à sexualidade, à possibilidade de extradição, ou à falta de diálogo e compreensão na família, cada uma das três personagens começa a descobrir o seu caminho e o seu verdadeiro lar. O sentimento de pertença está sempre em jogo nas incertezas ou receios do trio.

Faraz Shariat transporta-nos, em diversos momentos, para uma dimensão por vezes onírica, por vezes bucólica, onde a Natureza e a luz têm uma forte presença, numa espécie de porto seguro de tranquilidade e esperança. Já os planos transpiram liberdade, apesar da opressão da sociedade que os rodeia.


Futuro Três é a jornada de três jovens para encontrar o seu lugar no mundo, contra preconceitos e barreiras, e onde o autoconhecimento é o primeiro passo para escolher o melhor caminho a seguir.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Berlin Alexanderplatz abre a 18.ª KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã

A 18.ª edição da KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã abre com o filme Berlin Alexanderplatz, de Burhan Qurbani, protagonizado pelo luso-guineense Welket Bungué.

Berlin Alexanderplatz © Stephanie Kulbach

Serão apresentadas 18 longas-metragens oriundas da Alemanha, Áustria, Suíça e Luxemburgo que se destacaram nos festivais internacionais. O filme de abertura Berlin Alexanderplatz faz uma actualização do romance homónimo de Alfred Döblin, já adaptada por Rainer Werner Fassbinder numa série de televisão com o mesmo nome. Agora, "em vez de um ex-presidiário, os espectadores acompanham a descida aos infernos de um refugiado africano numa Berlim dos dias de hoje".

A secção Visões, que inclui obras de realizadores e elencos já consagrados, apresenta o western contemporâneo feminista Flatland, de Jenna Cato Bass, que retrata o empoderamento de três mulheres na África do Sul; My Little Sister (Schwesterlein), da dupla suíça Stéphanie Chuat e Véronique Reymond, que, a partir de uma história de doença terminal, aborda igualmente a abnegação feminina, com um elenco liderado por Nina Hoss e Lars Eidinger; Stroke of Luck (Glück gehabt), de Peter Payer, uma comédia negra que surpreende até o protagonista com uma improvável história de amor; e Cortex, a primeira obra de realização do actore Moritz Bleibtreu, num thriller psicológico inspirado em obras de realizadores de culto.

A secção Perspetivas inclui filmes como No Hard Feelings (Futur Drei), de Faraz Shariat, em que um jovem gay, alemão, filho de exilados iranianos, encontra num casal de irmãos refugiados uma singular afinidade a três; You Tell Me (Sag Du Es Mir), de Michael Fetter Nathansky, que envolve o espectador numa tragicomédia entre vítimas e culpados; ou Cocoon (Kokon), de Leonie Krippendorff, que acompanha uma jovem de 14 anos na descoberta de um admirável mundo novo num verão quente berlinense.

No Hard Feelings © Juenglinge Film

A KINO apresenta ainda uma secção de documentários premiados, na qual se destaca a viagem de Ines Johnson-Spain em Becoming Black onde confronta as suas origens, apercebendo-se das consequências que a negação e preconceito tiveram na sua existência numa RDA que fechou os olhos face a todas as diferenças; e a complexa abordagem multi-dimensional disfarçada de comédia no filme In the Name of Scheherazade or the First Beergarden in Teheran (In the Name of Scheherazade oder der erste Biergarten in Teheran), de Narges Kalhor, sobre a construção de identidade e alteridade - na vida, como artista, e em particular na Alemanha.

A mostra acontece de 21 a 27 de janeiro de 2021, no Cinema São Jorge e na plataforma de streaming Filmin.pt. Mias informações sobre a KINO em https://www.goethe.de/ins/pt/pt/kul/sup/kpo.html.