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quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Opinião: Séries - Nove Perfeitos Desconhecidos / Nine Perfect Strangers - Temporada 1 (2021)

"We are on the precipice of something great."

Masha

*7/10*

Nove Perfeitos Desconhecidos, minissérie original da Hulu - disponível na Amazon Prime Video -, convida a um retiro relaxante num resort que irá testar todos os limites. Adaptando à televisão o livro homónimo de Liane Moriarty (autora de Big Little Lies), John-Henry Butterworth e David E. Kelley criam oito episódios viciantes, que jogam com os traumas de cada um.

"Nove Perfeitos Desconhecidos acompanha nove pessoas muito diferentes que chegam a Tranquillum House – um retiro de bem-estar misterioso que promete uma 'transformação total'. Quando lá chegam, os hóspedes parecem cair sob o feitiço da enigmática Masha que fará de tudo para os curar. Contudo, com o passar do tempo, os métodos pouco convencionais de Masha ameaçam levar o grupo explosivo ao limite."


Esqueçam a tranquilidade que o nome deste spa apregoa. Pensamentos, acções e emoções fugirão ao controlo de hóspedes e staff, e até os ingredientes e tratamentos menos ortodoxos serão válidos dentro da propriedade de Masha, totalmente desconectada com o exterior. Não há confinamento que supere o destes nove desconhecidos, que, durante a curta estadia, vão passar das terapias e jogos em grupo, às alucinações e sonhos vívidos.

Todas as personagens têm o seu quê de cliché, unidas pelo trauma, mas desconstroem-se com astúcia. A cada episódio, revelam novas camadas da sua personalidade, do seu passado e das razões que os fazem estar ali. A máscara das primeiras impressões vai caindo, bem como as defesas de cada um, e a plateia aproxima-se deles, aos poucos.


A minissérie tem um início prometedor, que cresce e explode em suspense e surpresas nos episódios seguintes. E mesmo que o desfecho não seja estrondoso, é compensador.

No elenco, Nicole Kidman sobressai como Masha, dona do retiro, de ar místico e calmo, mas também misteriosa e de olhar ameaçador, marcada por um passado violento a vários níveis; Melissa McCarthy é a escritora Frances, uma personagem tragicómica bem ao jeito da actriz; Michael Shannon é Napoleon, cujo optimismo extremo esconde uma perda irreparável. A estes nomes juntam-se ainda um conjunto de boas interpretações de Luke Evans, Bobby Cannavale, Melvin Gregg, Regina Hall, Asher Keddie, Samara Weaving e Grace Van Patten.

O argumento audaz de Nove Perfeitos Desconhecidos traz para o pequeno ecrã uma abordagem arriscada à capacidade de superação ou libertação de cada um, num ambiente controlado e alucinogénico, até mesmo para o espectador.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Sugestão da Semana #290

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana recomenda Arranha-céus, de Ben Wheatley. Podes ler a crítica do Hoje Vi(vi) um Filme aqui.

ARRANHA-CÉUS


Ficha Técnica:
Título Original: High-Rise
Realizador: Ben Wheatley
Actores: Tom Hiddleston, Sienna Miller, Jeremy Irons, Luke Evans, Elisabeth Moss, Reece Shearsmith, Peter Ferdinando, Daniel Renton Skinner, James Purefoy
Género: Drama
Classificação: M/18
Duração: 119 minutos

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Crítica: Arranha-céus / High-Rise(2015)

"You know, you look much better without your clothes on. You're lucky. Not many people do." 
Charlotte
*9/10*

Um arranha-céus como metáfora da estratificação social é a proposta de Ben Wheatley em Arranha-céus. Consegue criar um universo à parte, tão perto da cidade onde quase todos trabalham. Aquilo que se pretendia como a edificação perfeita depressa se transforma numa descontrolada rebelião dos mais pobres contra os mais ricos, da imoralidade contra os valores instalados.

Em 1975, o Dr. Robert Laing (Tom Hiddleston) muda-se para um novo apartamento a 3 km Oeste de Londres em busca de isolamento e anonimato, mas vai-se apercebendo que os outros residentes do edifício não têm nenhuma intenção de o deixarem em paz. Resignado às complicadas dinâmicas sociais que se desdobram em seu redor, Laing aceita o seu fado e começa a conviver com os seus vizinhos. À medida que luta para estabelecer a sua posição social, as boas maneiras e a sanidade de Laing começam a desintegrar-se a par com o edifício. A luz está sempre a falhar, os elevadores deixam de funcionar, mas a festa continua. 


Um retrato irónico e actual de uma sociedade de loucuras e excessos, onde as aparências iludem e onde todos querem o mesmo. Num arranha-céus com super-mercado, spa, ginásio, piscina e tantas outras comodidades luxuosas e exuberantes - como um jardim no último piso -, são as pessoas quem começa o descarrilamento em série.

Ali não há tempo para dormir, à noite o álcool, as drogas e o sexo tomam conta da festa, de dia, o normativo impera, e cada um procura o seu carro no enorme parque de estacionamento rumo ao emprego. Ao final do dia, o ciclo repete-se, numa rotina incomum. Naquele prédio não há lei nem regras - tão perto e tão longe da civilização.


O argumento é genial e tem por base o romance homónimo de J.G. Ballard. Imoral e decadente, Arranha-céus consegue ser tão actual que assusta. Aquele isolamento estratificado, já de si com falhas por corrigir, é o rastilho para que o ser humano regresse ao que de mais primitivo tem em si. O instinto comanda todo e qualquer um dos habitantes do edifício, independentemente da classe social, porque, afinal, somos todos iguais.

Ben Wheatley cria um conjunto de sensações atordoantes, que se misturam com o emaranhado de corpos que se tocam nos corredores do arranha-céus. As cores, lânguidas ou vibrantes, transmitem ainda mais a loucura que ali se vive. Ao mesmo tempo, planos cativantes, o uso da câmara lenta em ocasiões-chave, um caleidoscópio pelo meio e eis que a obra nasce.

Tom Hiddleston oferece-nos um Dr. Laing à altura do filme, que deambula entre o homem equilibrado, atormentado pelo passado, e o instinto de sobrevivência a sobrepor-se à boa-educação. Jeremy Irons é tão somente ele mesmo, elegante e carismático, com o perfil de líder que lhe é indissociável. Elisabeth Moss é uma das mais puras personagens deste arranha-céus de horrores, Sienna Miller é a mulher sensual e insatisfeita que guarda um segredo que a torna vulnerável, e Luke Evans é o mais boçal e de discurso incendiário, mas, ao mesmo tempo, o mais lúcido daquele prédio.


Extremamente visual e com uma narrativa brilhante, Arranha-céus tardou mas chegou aos cinemas para proporcionar uma experiência perigosa mas extasiante.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Crítica: A Bela e o Monstro / Beauty and the Beast (2017)

"Think of the one thing that you've always wanted. See it in your mind's eye and feel it in your heart."
Monstro

*7/10*

Refazer, em imagem real, um clássico do cinema de animação pode levantar dúvidas quanto ao sucesso do produto final. O mais recente A Bela e o Monstro não traz grandes novidades, mas mantém o encanto de uma das mais belas histórias da Disney, com um elenco que lhe faz jus.

O arriscado desafio de Bill Condon constrói-se com um toque de actualidade, tirando partido das características mais marcantes dos seus protagonistas. O facto de se manter relativamente fiel ao original joga a seu favor, fazendo perdurar o encanto, a que junta algum humor bem conseguido. Ao mesmo tempo, o filme ganha identidade própria com pequenas alterações ao argumento que o tornam mais actual e nada infantilizado.

A Bela e o Monstro segue a história do clássico que adapta e apresenta-nos Bela (Emma Watson), uma jovem bonita e independente, que é aprisionada por um Monstro no seu castelo. Apesar dos seus receios, torna-se amiga dos empregados encantados e consegue, aos poucos, aproximar-se do Monstro, e conhecer o seu verdadeiro eu.


São muitos os efeitos especiais, mas também é imenso o talento da equipa que trabalhou para concretizar este musical. Há algumas novas letras, que mantêm o espírito Disney, há planos que nos fazem dançar com as personagens, há ironia, quebra de preconceitos, emancipação feminina e uma direcção artística fabulosa.

Se a Bela de 1991 era já uma jovem culta e muito diferente das outras da sua idade, Emma Watson veste-lhe tão bem a pele, quer pela sua postura doce, mas convicta, quer pela sua imediata associação à defesa dos direitos das mulheres. Mais ainda, as parecenças de Bela com Hermione Granger - que catapultou Watson para a fama - fazem-nos sentir à-vontade com a presença da actriz. Apaixonada por livros, por saber mais, destemida, com um certo dom de inventora, Emma Watson traz-nos uma protagonista mais madura e mostra-se à altura do desafio.


O restante elenco contribui para aumentar a magia desta nova versão de A Bela e o Monstro. Dan Stevens faz bem o que lhe compete: oferece-nos o príncipe superficial de antes do feitiço e um Monstro enraivecido, desesperado, infeliz, que vai começando a mostrar o seu sentido de humor e bondade à medida que conhece Bela. Luke Evans foi uma escolha certeira para interpretar o narcisista Gaston, e protagoniza das cenas mais divertidas ao lado do seu companheiro LeFou (Josh Gad a dar cartas) e Kevin Kline é o pai extremoso de Bela. Entre os empregados-objectos do palácio enfeitiçado, encontramos, em especial, Ewan McGregor, o candelabro; Ian McKellen, o relógio; e Emma Thompson, o bule; cuja personalidade forte os tornam fundamentais no decorrer da acção.

Os aspecto mais negativo do filme é, como de costume, o 3D, onde perdemos pormenor e os planos parte da beleza e encanto originais.


A Bela e o Monstro, de Bill Condon, é uma adaptação competente, mas não necessária, do clássico da Disney. O esforço e talento da equipa resultaram num filme mais actual, que mantém a magia, continuando a fazer-nos sonhar.