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domingo, 24 de setembro de 2017

MOTELx'17: As curtas-metragens portuguesas

O MOTELx'17 terminou no dia 10 de Setembro, mas nunca é tarde para falar das curtas-metragens que estiveram na corrida para o Prémio MOTELx - Melhor Curta de Terror Portuguesa. Thursday Night sagrou-se vencedora, mas aqui, vamos fazer uma breve análise às nomeadas *.


A Instalação do Medo, de Ricardo Leite


É a partir do livro de Rui Zink, A Instalação do Medo, que esta curta-metragem homónima se constrói. Ricardo Leite trabalhou a história de modo a adaptá-la ao cinema e tirar o melhor partido dela. A Mulher abre a porta de casa. Aparecem dois homens: "Bom dia, minha senhora. Viemos para instalar o medo".

O argumento é o ponto mais forte, criando um intenso suspense, com uma banda sonora a condizer. Há pistas que anunciam o final, a iluminação joga com os medos da protagonista (ou nossos?), com a montagem de som a tornar tudo mais arrepiante e, ao mesmo tempo, repleto de sarcasmo. Os diálogos bem construídos são potenciados pelo bom trabalho dos três actores: Margarida Moreira, Nuno Janeiro e Cândido Ferreira.

#blessed, de Diogo Lopes


#blessed é uma divertida curta-metragem onde o humor negro é rei - e as mulheres rainhas. As redes sociais são alvo de chacota, ou talvez a importância que lhes é dada o seja. Duas amigas sempre atentas às futilidades das redes sociais vêem-se arrastadas para uma confrontação que as irá obrigar a lutar pela vida.

Matilde Breyner, Sara Salgado, Salvador Sobral e Ana Sofia Martins dão vida às personagens propositadamente estereotipadas e fazem da plateia testemunha das suas fotografias junto ao rio - e vão para o instagram.

Carga, de Luís Campos


Sem diálogos e com actores amadores, Carga parece uma docuficção. Numa pequena vila piscatória, dois rapazes são forçados a tomar parte activa no tráfico de substâncias ilícitas. Quando o mais velho prepara um plano de fuga, o mais novo vê-se obrigado a lidar com as adversidades de ser deixado para trás.

Em Carga, Luís Campos filma um local que parece saído de um filme expressionista, onde se encontram ruínas fantasmagóricas um pouco por toda a parte. É no cenário - real - que reside o maior elemento de "terror" desta curta-metragem que filma os caminhos de terra, os carris dos comboios e o mar, e por ali nos faz acompanhar a rotina dos homens: pescadores, traficantes e crianças - cujos olhares dizem tudo.

Depois do Silêncio, de Guilherme Daniel


Depois do Silêncio é muito forte visual e esteticamente, transportando-nos para o terror de época, onde um homem insiste em não morrer, levando a mulher à loucura. Ela esforça-se para aceitar a inesperada morte do marido, mas é confrontada com o seu recorrente retorno.

O silêncio do título predomina, o ambiente é pesado e as imagens pintam quadros. Depois do Silêncio chega a ser romântico, mas é igualmente brutal. A aura que nos transporta para outros tempos é adensada pela excelente direcção artística, pelas cores e fotografia. Por outro lado, a protagonista, Ágata Pinho, tem o visual ideal, entre a pureza e a determinação, entre o amor e o desespero.

Mãe Querida, de João Silva Santos


Uma mãe (pouco) querida, um copo de vinho, uma adolescente magoada, um gato preto e uma bruxa. Eis os ingredientes para Mãe Querida, de João Silva Santos. Matilda é uma jovem assombrada pela morte do pai e maltratada pela sua mãe alcoólica, Susana. Um dia, decide pedir ajuda a uma bruxa.

A curta-metragem traz-nos uma história simples e incómoda, onde ao lado mais realista da mãe alcoólica e da filha revoltada, se juntam elementos de fantasia e misticismo, que resultam num ambiente muito original. Dominado pelos tons fortes e vibrantes do néon e pelo fumo que torna tudo uma espécie de limbo entre realidade e alucinação, Mãe Querida não esquece a música que lhe deu o nome.

O Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo Passarinho


Um cão, um gato, um polícia, um talhante e um candeeiro. Lisboa é o cenário desta curta-metragem de animação, repleta de humor negro muito bem construído e hilariante. Os pormenores das ruelas, desde o eléctrico, às pedras da calçada, transportam-nos para uma animação fiel às ruas da capital.

O Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo Passarinho surgiu nas suas cabeças há muitos anos, e transporta-nos para memórias de infância dos realizadores. É uma história sobre escolhas, sobre os velhos tempos de uma Lisboa por descobrir, sobre as suas vielas escuras e sobre elegantes posters pintados à mão.

Revenge Porn, de Guilherme Trindade


Em Revenge Porn, Wayne é um homem simpático que respeita as mulheres, sorri-lhes e acaricia-as com a mesma mão com que depois se toca a pensar nas coisas obscenas que lhes quer fazer. Wayne odeia que lhe digam não. Mas a vingança está a chegar.

Revenge Porn é a inspirada curta-metragem de Guilherme Trindade. O que, de início, parece uma comédia negra leve, depressa toma proporções mais sérias onde as mulheres é que mandam - e sabem bem como vingar-se de quem não as respeita. Para além do argumento, que faz da vingança o principal atractivo - onde a webcam parece ser a principal arma - , com o gore a tomar o lugar da sensualidade, o filme vibra com as cores néon que acompanham este dia fatídico de Wayne.


Thursday Night, de Gonçalo Almeida


Gonçalo Almeida oferece-nos uma história de fantasmas onde os actores ladram e têm quatro patas. Durante a noite, um estranho presta uma visita a Bimbo para lhe entregar uma mensagem importante.

Thursday Night possui um belíssimo visual fantasmagórico, com uma excelente direcção de fotografia e montagem. A utilização do slow motion, em alguns momentos, favorece ainda mais o ambiente sobrenatural daquela noite. O protagonista, Bimbo, é tão ou mais expressivo do que um humano, e toda a curta-metragem tem em nós um efeito entre a melancolia e a nostalgia, com muita ternura.


*Não tivemos possibilidade de assistir em tempo útil à curta-metragem Entelekheia, de Hugo Malainho. Assim que a oportunidade surgir adicionaremos um texto sobre ela a este artigo.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

MOTELx'17: Berlin Syndrome (2017)

"What would be the worst thing I could ever do to you?"
Andi

*8/10*

Sensual e doentio, Berlin Syndrome foi uma das melhores surpresas que o MOTELx'17 me trouxe. Cate Shortland adaptou o livro homónimo de Melanie Joosten e criou um ambiente claustrofóbico como poucos.

De férias em Berlim, a fotógrafa australiana Clare conhece Andi, um bonito professor de inglês berlinense. Uma atracção imediata ocorre entre os dois. Segue-se uma noite de paixão. Mas o que parece ser inicialmente o começo de um romance, assume contornos inesperados e sinistros quando Clare acorda na manhã seguinte para descobrir que Andi saiu para trabalhar e a trancou no apartamento. É claro que se pode tratar de um erro normal, mas Andi não tem intenções de a deixar sair.


Resumidamente, uma mulher independente vê-se aprisionada por um psicopata lindo de morrer. O que parece ser um amor à primeira vista torna-se num pesadelo para a protagonista. É daqui que parte Berlin Syndrome

Na verdadeira claustrofobia que a realizadora consegue transmitir - mais ainda depois de sermos convidados a visitar Berlim nos planos iniciais do filme -, cria-se um ambiente pesado, sufocante, que se transforma numa relação de erotismo e violência quando estão os dois actores em cena. Há uma relação de amor-ódio entre raptor e refém, mas igualmente entre a plateia e os protagonistas. Cate Shortland é capaz de criar um sentimento desconfortável também no espectador que torce por Clare, mas, por outro lado, gostava de ver Andi redimir-se. Irónico, até nós caímos no chamado Síndrome de Estocolmo, em Berlim.

Ele é carente, louco e claramente misógino. Ela é provavelmente o que ele mais odeia - e parece igualmente amar - numa mulher: bonita, curiosa e independente.


Teresa Palmer dá vida a Clare e mostra que há em si muito mais talento do que até aqui tinha revelado. Tem um papel exigente física e psicologicamente e o seu desempenho é excelente. Também o actor que interpreta AndiMax Riemelt, consegue ser tão ambivalente como a personagem pede, do mais brutal e sádico, ao mais frágil e desesperado. Os dois protagonistas demonstram ter uma química muito grande, o que só vem adensar o realismo de Berlin Syndrome.

Um filme que merecia estreia comercial em sala.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

MOTELx'17: O Espírita / El espiritista (1977)

*6/10*

Continuamos com a secção Quarto Perdido do MOTELx. O Espírita, de Augusto Fernando, está envolto em tanto mistério como o seu realizador, e a única cópia encontrada para exibir no festival foi no nosso tão velhinho e saudoso VHS. Portanto, entrada livre e uma sala 2 bem composta para ver este filme em espanhol, sem legendas, que poucos terão a oportunidade de visualizar no futuro, muito provavelmente. E é esta a magia do Quarto Perdido.

Alberto Ramos, conhecido como "o melhor fotógrafo de Lisboa", é também um famoso médium, que alia o seu dom profissional a uma vida libertina e com acesso às classes abastadas. Margarida Malveira, uma viúva rica de 50 anos, consulta-o na esperança de contactar o grande amor da sua vida, falecido há três décadas. Depois de uma sessão, o espírito do marido de Margarida possui a mente de Alberto, obrigando-o a cuidar da esposa.


Mais uma produção luso-espanhola, no país vizinho foi vendido como O Exorcista 3, dada a temática de O Espírita. Foi a primeira e única realização de Augusto Fernando (pelo menos com este nome), e segue a vaga de filmes da época que se seguiram ao sucesso de O Exorcista. Ao mesmo tempo, insere muitos elementos de cinema erótico. 

O argumento não sendo original não é muito visto na história do cinema nacional e, tal como Crime de Amor, O Espírita é filmado em Lisboa, sendo mais um registo da cidade nos anos 70. 

MOTELx'17: Crime de Amor / Triangulo (1972)

*6/10*

A secção Quarto Perdido do MOTELx'17 recuperou duas produções luso-espanholas. Crime de Amor é uma delas.

Escrito e realizado por Rafael Moreno Alba, o filme conta a história de um casal. Ele é um industrial cheio de trabalho, e ela uma burguesa desocupada e solitária, que os muitos afazeres do marido deixam à deriva na cidade. Inevitavelmente, nasce um caso de amor com um homem mais novo, e, com ele, os ciúmes do marido. Segue-se o inevitável crime que o título refere e a loucura.


Crime de Amor foi filmado em Lisboa, Sintra, Cascais e Algarve, e mostra-nos uma capital dos anos 70 a cores, como poucas vezes tivemos oportunidade de ver em cinema, o que, para começar, é uma experiência interessante.

Apesar do pouco talento dos actores - salva-se a protagonista Nuria Espert -, e momentos pouco coerentes, há no âmago do filme ideias muito interessantes dentro do género terror, a puxar pela claustrofobia do espectador e pela psicopatia do marido da protagonista.

Seria curioso de ver um remake actual desta longa-metragem, com melhores actores e um argumento mais cuidado.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

MOTELx'17: 78/52 (2017)

*8/10*

O documentário de Alexandre O. Philippe mergulha em Psycho, de Alfred Hitchcock, e desconstrói o filme em vários aspectos: ambiente socio-político, carreira do realizador, produções que lhe são contemporâneas e outras controvérsias que rodeiam a rodagem e posterior estreia do filme.

78/58, como o nome indica, dá maior destaque, está claro, à famosa cena do duche, que analisa plano a plano, com a ajuda de cinéfilos e cineastas. Com 78 posições de câmara e 52 planos, a cena do chuveiro é rigorosamente coreografada e mudou a definição de terror no cinema. Entre os entrevistados encontram-se Guillermo del Toro, Danny ElfmanPeter Bogdanovich, Neil Marshall, Elijah Wood, Osgood Perkins (filho de Anthony Perkins) e Jamie Lee Curtis (filha de Janet Leigh).


78/52 está construído de forma a cativar a nossa atenção a cada momento, na esperança de descobrir mais ou redescobrir as mais curiosas significações e curiosidades acerca de Psycho e seu realizador.

domingo, 10 de setembro de 2017

MOTELx'17: Vencedores

Thursday Night, de Gonçalo Almeida, venceu o prémio para a Melhor Curta de Terror Portuguesa e Cold Hell, de Stefan Ruzowitzky, conquistou o título de Melhor Longa de Terror Europeia no MOTELx'17. O festival de terror lisboeta chegou hoje ao final, depois de seis dias de muitos sustos.


O júri das curtas-metragens, composto pela actriz Maria João Bastos, o músico Carlão e o realizador Can Evrenol, escolheu o filme Thursday Night, de Gonçalo Almeida (cuja entrevista ao Hoje Vi(vi) um Filme pode ser lida aqui), “pela história, pela direcção, pela fotografia e pelos actores”, acrescentando que se trata de “um filme que nos marcou muito, que consideramos único e que certamente ficará na nossa memória”Thursday Night fica ainda automaticamente seleccionada para o Prémio Méliès d’Or, atribuído pela Federação Europeia de Festivais de Cinema Fantástico em Novembro, na cidade de Trieste. Nesta categoria, o júri atribuiu ainda uma Menção Especial a Depois do Silêncio, de Guilherme Daniel (entrevista aqui), cujo trabalho de “argumento e fotografia” considerou “muito promissor”.

Na competição internacional, Cold Hell, de Stefan Ruzowitzky, venceu o Prémio MOTELX – Melhor Longa de Terror Europeia /Méliès d’Argent 2017. O júri composto pelo crítico Kim Newman e os actores Rogério Samora e Iris Cayatte justificou a escolha devido à sua “relevância contemporânea, acção emocionante e imaginativa e excelentes performances de todo o elenco”. Cold Hell é um thriller político passado numa Alemanha multicultural que conta a história de uma jovem taxista de origem turca perseguida por um assassino em série. O realizador e a actriz Violetta Schurawlow estiveram presentes na Sessão de Encerramento do MOTELx para receber o prémio.

MOTELx'17: Excitação (1976)

*6/10*


Uma das melhores experiências que o MOTELx proporciona ao seu público é a exibição de alguns filmes de género raros - como é o caso da secção Quarto Perdido da qual falaremos nos próximos dias. Este ano, houve espaço para uma Sessão Especial dedicada a um português que fez carreira como realizador no Brasil, conhecido por Jean Garrett.

Excitação enquadra-se perfeitamente no tipo de terror tão em voga nos anos 70, de Mario Bava a Dario Argento. O filme conta-nos a história de Helena e Renato, que decidem trocar a confusão da grande cidade pela paz de uma casa à beira-mar. A decisão foi forçada pela frágil condição psicológica de Helena que conduziu ao seu internamento numa clínica psiquiátrica. No entanto, os novos ares não impedem que Helena testemunhe fenómenos estranhos na casa. Renato, engenheiro informático, pouco afoito a eventos sobrenaturais, não leva a sério os relatos da esposa. Helena, decidida a provar que não está a enlouquecer, vai procurar descobrir a origem dos fenómenos e os segredos dos antigos inquilinos.

Desde o início que somos confrontados por imagens de um homem enforcado na sala da nova casa deste casal. Nós e a protagonista, Helena. E será em torno destas alucinações que tudo se desenrola. A juntar aos problemas psicológicos, o marido mulherengo e as vizinhas exuberantes não ajudam a que tudo se resolva pelo melhor.


Excitação remete-nos claramente para o género exploitation, onde os corpos femininos e o sangue são o grande foco. O argumento, contudo, tem alguns bons momentos e um plot twist surpreendente. Mas como filme de baixo orçamento que é, não esperemos que os efeitos especiais sejam do outro mundo (passo a redundância), havendo momentos em que é impossível não deixar escapar um sorriso.

MOTELx'17: The Untamed / La región salvaje (2016)

*6.5/10*

The Untamed: mais um filme difícil de classificar. Ficção científica? Terror erótico? Classificações à parte, Amat Escalante revela uma originalidade cheia de estilo.

Uma jovem dona de casa vive com os dois filhos e o marido numa pequena cidade mexicana onde vive também o seu irmão. As suas vidas são perturbadas pela chegada de uma misteriosa mulher, Veronica, que lhes fala da existência de uma cabana isolada nos bosques, onde se encontra algo misterioso e com propriedades milagrosas. Algo a que não se consegue resistir e com o qual se deve estabelecer a paz para evitar ser-se vítima da sua ira.


As actrizes Ruth Ramos e Simone Bucio fazem um trabalho fundamental, bem como a equipa de efeitos especiais. Apesar de alguma visceralidade, em Untamed, o terror reside especialmente no medo do desconhecido que aqui se transforma numa curiosidade irremediável. O prazer sobrepõe-se a todos os valores. Por ele, vale tudo.

O argumento tem alguma originalidade juntando o erotismo à ficção científica, e Amat Escalante oferece-nos com planos incómodos e sufocantes, aliados a um bom trabalho de cor.


Uma experiência curiosa e um tanto surreal que o MOTELx'17 apresentou.

sábado, 9 de setembro de 2017

MOTELx'17: The Bad Batch - Terra Sem Lei (2016)

*7.5/10*

Numa terra sem lei, todos tentam sobreviver. Em The Bad Batch não há bons da fita, mas facilmente criamos empatia com os personagens: da jovem rebelde sem braço nem perna, ao canibal musculado a quem roubam a filha, ao sem abrigo que vagueia pelo deserto, todos nos despertam a curiosidade.

Depois de Uma Rapariga Regressa de Noite Sozinha a Casa, Ana Lily Amirpour criou um ambiente bem diferente, repetindo uma protagonista feminina, mas com a comédia a imperar e muito menos sangue. A realizadora parece querer experimentar um estilo mais comercial e menos poético que o seu filme anterior.


Arlen é abandonada numa zona árida do Texas separada da civilização por uma barreira. É capturada por um grupo de canibais selvagens liderados pelo misterioso Miami Man. Com a vida em risco, ela decide fugir ao encontro de um homem a quem chamam O Sonho

A ideia deste mundo apocalíptico onde todos procuram "o sonho (americano?)" e vivem na esperança de o alcançar é desafiadora e inspirada. Depois do preto e branco do último filme, a realizadora usa e abusa da cor em The Bad Batch e o resultado é um divertido e colorido filme que nos faz sentir o calor do deserto e a desesperança dos protagonistas. O objectivo final é tão somente a sobrevivência.

A banda sonora é deliciosa e é divertido ver actores como Keanu Reeves, Jim Carrey (irreconhecível), Jason Momoa e Diego Luna em papéis tão diferentes do habitual.


A história de amor que se vai criando não era especialmente necessária, mas também é inofensiva. O dito "terror" predomina essencialmente na primeira metade do filme, e o argumento, no todo, é original e com um sarcasmo muito inteligente.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

MOTELx'17: Playground / Plac zabaw (2016)

*8/10*

Controverso e incómodo, com realização de mestre, assim é Playground (Plac zabaw), filme de estreia em cinema do realizador polaco Bartosz M. Kowaski. Habituado ao género documental, é fácil encontrar esse background nesta longa-metragem. As imagens valem mais que as palavras.

Numa pequena cidade polaca, seguimos o último dia de aulas de três crianças. Gabrysia quer declarar-se ao seu colega de turma, mas tudo indica que o dia não vai acabar bem.

Com um ritmo lento e poucos diálogos, o que poderia parecer, à primeira vista um mero filme sobre bullying, revela-se, na realidade, um filme brutal sobre a inexplicável maldade intrínseca do ser humano.

Inicialmente, conhecemos as três personagens, separadamente, de casa até à escola. Brevemente, conseguimos traçar um rápido perfil de cada um, contudo, nada fará prever o arrepiante final deste Playground.


É difícil classificar a longa-metragem de Kowaski, já que o que o pode colocar no género terror não é rapidamente decifrável. Ao mesmo tempo, o facto de ser inspirado num caso verídico só o torna ainda mais aterrorizante. 

Não será, certamente, um filme para todos, mas ninguém poderá duvidar de que se trata de um trabalho com uma realização fabulosa, colocando-nos como espectador passivo, que assiste a tudo com relativa distância e nada pode fazer para travar o desfecho, tal como as pessoas que se cruzam com estas crianças ao longo do filme.

Uma surpresa de sabor amargo no MOTELx'17.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

MOTELx'17: Entrevistas - Gonçalo Almeida (Thursday Night)

O MOTELx'17 está em Lisboa desde ontem e até dia 10 de Setembro, e para o Prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017 estão a concorrer 9 curtas-metragens nacionais: #blessed, de Diogo LopesCarga, de Luís CamposDepois do Silêncio, de Guilherme DanielEntelekheia, de Hugo MalainhoA Instalação do Medo, de Ricardo LeiteMãe QueridaJoão Silva SantosO Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo PassarinhoRevenge Porn, de Guilherme Trindade e Thursday Night, de Gonçalo Almeida.


Já conhecemos quase todos os realizadores e filmes nacionais seleccionados. Para terminar, falta apenas apresentar Gonçalo Almeida, realizador de Thursday Night.

De onde surgiu a ideia de fazer este filme?
Gonçalo Almeida (GA): A ideia partiu do meu gosto pela música de Brian Eno, particularmente do álbum Thursday Afternoon.

O protagonista de Thursday Night é um cão, que parece estar associado a algo sobrenatural. Porquê a escolha deste animal e não de outro?
GA: O cão de família é um elemento no grupo que é amado por toda a gente e ele sabe disso. Faz parte da família. Quando se encontra nesta situação acha estranho que, de um momento para o outro, o seu estatuto tenha mudado. Não pensei em fazer com outros animais por isso não sei como se comportaria por exemplo um gato, mas calculo que fosse mais complicado.

O que pode o público esperar da curta-metragem?
GA: Não sei bem o que o púbico pode esperar, mas o meu objectivo é que vejam algo que seja de alguma forma diferente e interessante e que durante sete minutos não sintam vontade de olhar para o telemóvel.


Como correu o processo de rodagens, mais ainda com um actor tão especial?
GA: Foi uma das melhores experiências que já tive a fazer filmes. Estava entre amigos e todos estávamos entusiasmados para ver o que ia sair. Nenhum de nós tinha feito alguma coisa assim e por isso todos queriam participar de alguma forma. Como foi o último filme que fiz em Londres antes de me mudar para Lisboa, havia uma atmosfera de camaradagem que me causa agora alguma nostalgia.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
GA: Não sei se serei a melhor pessoa para comentar sobre isso. Cheguei em Dezembro do ano passado e só agora é que estou a tentar perceber como funcionam as coisas. Tenho sido muito bem tratado nos festivais em Portugal e também tenho visto  filmes interessantes.

Sinopse
Durante a noite, um estranho presta uma visita a Bimbo para lhe entregar uma mensagem importante.

MOTELx'17: Entrevistas - Guilherme Trindade (Revenge Porn)

O MOTELx'17 está em Lisboa desde ontem e até 10 de Setembro, e para o Prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017 estão a concorrer 9 curtas-metragens nacionais: #blessed, de Diogo LopesCarga, de Luís CamposDepois do Silêncio, de Guilherme DanielEntelekheia, de Hugo MalainhoA Instalação do Medo, de Ricardo LeiteMãe QueridaJoão Silva SantosO Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo PassarinhoRevenge Porn, de Guilherme Trindade e Thursday Night, de Gonçalo Almeida.


Continuamos a conhecer os realizadores e filmes nacionais seleccionados. Seguimos com a entrevista a Guilherme Trindade, realizador de Revenge Porn.

O título revela tanto do filme como parece?
Guilherme Trindade (GT): Que a personagem principal grava vídeos pornográficos amadores e depois partilha-os na net para se vingar das ex-namoradas? Que as ex-namoradas se vingam dando na pornografia o que nunca lhe deram na relação?  Que ele se gratifica vendo vídeos de vinganças? Que o título original do filme era Camgirl mas alguém já tinha tomado? Talvez.

De onde surgiu a ideia de fazer este filme?
GT: Quando a curta-metragem que fizemos, Unbox, venceu o 2.º prémio das YORN Microcurtas no MOTELx o ano passado decidimos participar. Eu tinha uma shortlist de ideias - incluindo um musical - mas o Revenge Porn acabou por juntar três coisas essenciais: um tema relevante, décors e actores limitados e uma cena marcante.

O que pode o público esperar da curta-metragem?
GT: Sentir-se intensamente desconfortável, espero eu.


Como decorreu o processo de filmagens?
GT: Três dias de filmagens e meio (tivemos de repetir metade do primeiro dia porque as imagens não se podiam aproveitar) intensos, a horas estranhas, com ajuda de muitos amigos. O João Harrington Sena e a Io Sacadura Franco tinham cenas muito complicadas devido à sua natureza sexual e violenta. Das coisas que mais gosto de fazer é descobrir por tentativa e erro como fazer certos efeitos especiais práticos. O mais chato foi limpar o sangue todo depois de gravar a cena final.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
GT: O MOTELx em particular é um oásis num meio eternamente dividido entre o cinema dito comercial e o de autor. O cinema de género não tem muito apoio em Portugal e se calhar não teria nenhum sem o MOTELx. Eu sei que não teria feito três curtas-metragens se não fosse a pensar no MOTELx. O festival dá um palco a muita gente que não o teria.

Sinopse
Wayne é um homem simpático que respeita as mulheres. Wayne sorri-lhes e acaricia-as com a mesma mão com que depois se toca a pensar nas coisas obscenas que lhes quer fazer. Wayne odeia que lhe digam não. Mas a vingança é fodida.

Página de Facebook da produtora Ankylosaur

MOTELx'17: Entrevistas - Hugo Passarinho (O Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa)

O MOTELx'17 começou dia 5 e prolonga-se até 10 de Setembro, e para o Prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017 estão a concorrer 9 curtas-metragens nacionais: #blessed, de Diogo LopesCarga, de Luís CamposDepois do Silêncio, de Guilherme DanielEntelekheia, de Hugo MalainhoA Instalação do Medo, de Ricardo LeiteMãe QueridaJoão Silva SantosO Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo PassarinhoRevenge Porn, de Guilherme Trindade e Thursday Night, de Gonçalo Almeida.


Nada como continuar a conhecer melhor os realizadores e filmes nacionais seleccionados. O Hoje Vi(vi) um Filme entrevistou Hugo Passarinho, um dos realizadores de O Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa.

De onde surgiu a ideia de fazer este filme? 
Hugo Passarinho (HP): Este filme nasce (há 20 anos) da vontade de criar uma história onde a personagem principal fosse um objecto imóvel, mas que ainda assim fosse capaz de influenciar as personagens que o rodeiam. A animação 3d não era ainda mainstream e tínhamos muitas histórias para contar. O Candeeiro nasce como teste, aproximava-se cada vez mais a possibilidade de se realizar grandes projectos com recursos limitados e queríamos validar isso mesmo com o que tínhamos e muita diversão.

À primeira vista parece-me ver nas imagens o candeeiro de O Pátio das Cantigas... Há alguma inspiração dos filmes portugueses dessa época?
HP: Crescemos nos pátios, jogávamos à bola, fomos colegas de escola e a vida de bairro (embora nerds assumidos), em Benfica de onde somos, foi sempre uma realidade.  É este contacto com o real que nos trouxe estas e outras personagens, histórias reais que contadas são incríveis, um pouco à imagem dos filmes dessa época, há neles o mesmo brilho polido da história doce com travo amargo. São perfeitos na sua natural imperfeição e a nosso ver são anda hoje modelo para muito cinema feito não só em Portugal mas por toda a Europa em particular em França. Talvez sobretudo por haver em cada um de nós aquele bocado Narciso Fino tropençando numa chama feita sol para dar luz ao mundo.

O que pode o público esperar da curta-metragem?
HP: Pouco, daí ser curta.


É a única curta-metragem de animação a concurso nesta edição do MOTELx. Acham que isso pode diferenciar-vos, de alguma forma?
HP: Dessa forma totalmente, o filme não se enquadra no projecto típico de cinema português, é atípico até no estilo de horror, é um horror com efeitos colaterais que nos atinge se o observarmos atentamente. Sendo que é feito praticamente a duas mãos com poucos ou nenhuns recursos e muita vontade. O cinema português está numa fase de crescimento, nota-se maturidade, vontade e saber fazer, que há que valorizar quem demonstra essa qualidade, investir deixar crescer. A selecção do MOTELx para curtas nacionais demonstra já muita dessa qualidade iminente. A diferenciação do futuro é o valor do que comunicamos, valor este que se encontra quer na verdade da razão pela qual o fazemos, quer na originalidade e frescura com que o fazemos. E o Candeeiro é sobretudo isto.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
HP: É total, os festivais permitem hoje que seja possível produzir pela nossa conta e risco e depois dar, através da sua plataforma, a conhecer um conteúdo que tem nesse lugar um público disposto a considerar a validade do mesmo. Mesmo quando a validação não é o mais importante, é crucial a existência deste espaço de discussão e partilha. Disto dependerá o futuro e o sucesso de qualquer produto artístico pelo mundo fora. Disto e do amor, claro está.

Sinopse
Uma história sobre escolhas, sobre os velhos tempos de uma Lisboa por descobrir, sobre as suas vielas escuras e sobre elegantes posters pintados à mão.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

MOTELx'17: Entrevistas - João Silva Santos (Mãe Querida)

O MOTELx'17 está em Lisboa entre 5 e 10 de Setembro, e para o Prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017 estão a concorrer 9 curtas-metragens nacionais: #blessed, de Diogo LopesCarga, de Luís CamposDepois do Silêncio, de Guilherme DanielEntelekheia, de Hugo MalainhoA Instalação do Medo, de Ricardo LeiteMãe QueridaJoão Silva SantosO Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo PassarinhoRevenge Porn, de Guilherme Trindade e Thursday Night, de Gonçalo Almeida.


Seguimos com as entrevistas aos realizadores dos filmes nacionais seleccionados. Ficamos desta vez a conhecer João Silva Santos, realizador de Mãe Querida.

De onde surgiu a ideia de fazer este filme?
João Silva Santos (JSS): Desde que vi o Phantom of the Paradise do Brian De Palma que quis escrever uma rock opera cinemática. Como fã (não fanático) dos Xutos & Pontapés, tentei aliar o útil ao agradável e criar algo com a mesma energia desse mestre americano, mas inextricavelmente português. Tal não aconteceu: o Mãe Querida evoluiu bastante desde essa ideia inicial (nem sequer uma música deles tem!), tornando-se muito mais pesado e estranho em lugares, mas gosto de pensar que certos momentos e sequências sobreviveram às cambalhotas criativas que o filme acabou por dar.

Da sinopse de Mãe Querida, concluo que a bruxaria e o misticismo que lhe está associado parecem fundir-se aqui com uma realidade de violência familiar. É como se Matilda se quisesse refugiar na fantasia para fugir aos problemas reais?
JSS: De certo modo, sim. Esta é uma daquelas perguntas a que não quero dar muitas respostas antes de terem a oportunidade de ver o filme: a narrativa torce-se e distorce-se por entre esse misticismo e violência familiar, com personagens que não sabemos serem reais até ao último momento, figuras espectrais que porventura só depois do filme visto e umas conversas (com cerveja e boa disposição, preferencialmente) é que acabam por fazer sentido.

O que pode o público esperar da curta-metragem?
JSS: Acima de tudo, muita música da Ágata e companhia. Mãe Querida não seria o mesmo filme sem essa trilha sonora oh-tão portuguesa. 


Trabalhou com actrizes conhecidas do grande público, em especial São José Correia. Como correram as filmagens?
JSS: Uns dias mais atribulados, outros menos. Mas nunca por culpa das actrizes! Tanto a Susana Sá como a Diana Lopes Moreira e a São José Correia foram incansáveis em tornar o filme melhor do que alguma vez poderia ter desejado quando o escrevi. Aturaram muito dos meus desvarios e espero apenas que a experiência para elas tenha sido tão positiva quanto para mim, e que me queiram aturar de novo. Quiçá, com ainda mais sangue e violência.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
JSS: Acho que mais que nas grandes salas destinadas ao blockbuster americano, é nos festivais que o público português pode encontrar o verdadeiro cinema do seu país. Pode nem sempre ser o mais fácil (quase nunca o é), nem o que mais recompensa, mas é nosso e existe e nunca tivemos tanto acesso a ele e aos seus criadores. No entanto, acredito que precisamos de uma maior variedade de festivais, que atraiam públicos distintos e apaixonados, como o do MOTELx. Para isso precisamos também de uma maior variedade de filmes, que se afastem dos paradigmas vigentes na nossa produção contemporânea, ou demasiado presa a códigos de autor, ou perdida na televisão glorificada que passa nas salas de cinema, condenada a perpetuar o público descrente e as massas desinteressadas na nossa cultura.

Sinopse
Matilda é uma adolescente assombrada pela morte do pai e maltratada pela sua mãe alcoólica, Susana. Um dia, decide pedir ajuda a uma bruxa.

MOTELx'17: Entrevistas - Hugo Malainho (Entelekheia)

O MOTELx'17 começa hoje, em Lisboa, onde fica até 10 de Setembro, e para o Prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017 estão a concorrer 9 curtas-metragens nacionais: #blessed, de Diogo LopesCarga, de Luís CamposDepois do Silêncio, de Guilherme DanielEntelekheia, de Hugo MalainhoA Instalação do Medo, de Ricardo LeiteMãe QueridaJoão Silva SantosO Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo PassarinhoRevenge Porn, de Guilherme Trindade e Thursday Night, de Gonçalo Almeida.


Continuamos a conhecer os realizadores e filmes nacionais seleccionados. Desta vez, o Hoje Vi(vi) um Filme entrevistou Hugo Malainho, realizador de Entelekheia.

De onde surgiu a ideia de fazer este filme?
Hugo Malainho (HM): Surgiu duma conversa com uma amiga, ela lançou-me o desafio de fazermos uma curta-metragem para tentar participar no MOTELx e aquela ideia não me saiu da cabeça. Decidi então escrever uma historia e apresenta-la a um grupo de amigos para ver o que é que eles achavam e se alinhavam no projecto. E o resultado está agora em exibição no próprio festival MOTELx.

A busca da perfeição a qualquer preço parece ser o mote de Entelekheia. Pretende com esta ideia criticar de alguma forma a sociedade em que vivemos?
HM: A actual sociedade vive desprovida de valores, impera a satisfação imediata dos egos de cada um, sem olhar a meios para alcança-los. Creio que a máxima maquiavélica de que os fins justificam os meios retrata tristemente o comportamento social.


O que pode o público esperar da curta-metragem?
HM: Uma curta de suspense e de critica social com especial atenção pela estética.

A escolha de um termo grego para baptizar o filme tem especial razão de ser?
HM: O termo Entelekheia descreve na “perfeição” aquilo que o protagonista procura: criar uma obra de arte perfeita. Segundo Aristóteles, todo e qualquer ser do universo, animado ou inanimado, tem uma potencialidade intrínseca, e a transformação dessa tendência ou potencialidade, de forma a alcançar a sua plenitude ou perfeição, é o que designamos por entelekheia.

Como foi o processo de rodagem?
HM: Foi uma experiência espectacular. Levou tempo pois rodámos em diversas localizações e reunir uma equipa inteira em diversas ocasiões e por vários dias, não foi tarefa fácil. Mas trabalhei com uma excelente equipa que me ajudou a dar corpo a uma ideia que eu já tinha transposto para o papel, que se envolveu no projecto e lá conseguimos arranjar sempre algum tempo para concluir a rodagem.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
HM: Os festivais de cinema são uma importante janela para mostrar as novas tendências do cinema português e desempenham um papel fundamental para o desenvolvimento da industria cinematográfica nacional, criando num público cada vez mais generalizado, o habito de consumo do cinema português.

Sinopse
Um escultor vive obcecado com a criação da obra perfeita, que quer concretizar sob a forma de uma crítica social. Para tal, utiliza as vítimas marginalizadas de uma sociedade fútil e cada vez mais desprovida de valores humanos.

MOTELx'17: Entrevistas - Guilherme Daniel (Depois do Silêncio)

O MOTELx'17 chegou hoje a Lisboa onde fica até 10 de Setembro, e para o Prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017 estão a concorrer 9 curtas-metragens nacionais: #blessed, de Diogo LopesCarga, de Luís CamposDepois do Silêncio, de Guilherme DanielEntelekheia, de Hugo MalainhoA Instalação do Medo, de Ricardo LeiteMãe QueridaJoão Silva SantosO Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo PassarinhoRevenge Porn, de Guilherme Trindade e Thursday Night, de Gonçalo Almeida.


Continuamos a conhecer melhor os realizadores e filmes nacionais seleccionados. Segue-se Guilherme Daniel, realizador de Depois do Silêncio.

De onde surgiu a ideia de fazer este filme?
Guilherme Daniel (GD): O filme surge de ideias e inspirações várias que se vão acumulando ao longo do tempo, até se ligarem e criarem uma base para o projecto. Penso que as mais importantes neste processo foi a descoberta de uma pintura de Franz Stuck (“Pietà”); e conhecer a Ágata Pinho, com quem me cruzei numa longa-metragem na qual trabalhei, e que é a interprete principal neste filme.

Pelo teaser e sinopse, posso concluir que estamos perante uma espécie de filme de mortos-vivos ou nada a ver com isso? Pode revelar um pouco mais?
GD: Assim é. Hoje em dia quando falamos de filmes de zombies o pensamento vai para infestações apocalípticas criadas por uma epidemia ou semelhante. A mim interessa-me as desconstruções de género, e em vez de termos hordas de zombies gosto da ideia de ter um só morto vivo, com quem há uma relação, e  assim permite explorar sentimentos de como lidar com a morte.

O que pode o público esperar da curta-metragem?
GD: Um filme em que a forma está intimamente ligada ao conteúdo, e que não se restringe por convenções de género.


Como foi o processo de rodagem de Depois do Silêncio?
GD: Exaustivo. Eu e a Raquel Santos, que cria os filmes comigo e assume a direcção de arte, propusemo-nos a alguns desafios difíceis, desde efeitos especiais práticos a decores complexos pelos quais tivemos de suar. Mas ao mesmo tempo foi um processo abençoado, porque estávamos rodeados de amigos talentosos com quem nos divertimos imenso a filmar.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
GD: Num país incapaz de suportar uma indústria de cinema, têm uma importância fulcral e decisiva. Penso só que falta alguma independência, aos festivais e aos cineastas. Nesse aspecto acho que o MOTELx se destaca, por reunir tanta gente com verdadeiro entusiasmo pelo género cria-se uma verdadeira festa do Cinema.

Sinopse
Uma mulher desolada esforça-se para aceitar a inesperada morte do marido, mas é confrontada com o seu recorrente retorno ao mundo dos vivos.


MOTELx'17: Entrevistas - Luís Campos (Carga)

O MOTELx'17 começa hoje e fica em Lisboa até 10 de Setembro, e para o Prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017 estão a concorrer 9 curtas-metragens nacionais: #blessed, de Diogo LopesCarga, de Luís CamposDepois do Silêncio, de Guilherme DanielEntelekheia, de Hugo MalainhoA Instalação do Medo, de Ricardo LeiteMãe QueridaJoão Silva SantosO Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo PassarinhoRevenge Porn, de Guilherme Trindade e Thursday Night, de Gonçalo Almeida.


Continuamos a conhecer melhor os realizadores e filmes nacionais seleccionados. Hoje começamos com a entrevista a Luís Campos, realizador de Carga.

De onde surgiu a ideia de fazer este filme?
Luís Campos (LC): A ideia de fazer o Carga nasceu de uma forte vontade de conjugar a paisagem litoral e as idiossincrasias da região de Cortegaça / Esmoriz (tradição pesqueira, venda de lenha, etc.) com uma narrativa fictícia que fosse capaz de envolver comboios de carga, crianças em situação de opressão e de atribuir uma certa fantasia ao conceito realista e pertinente da ida / fuga / migração das gerações mais jovens de Portugal ao longo dos últimos anos.

As bonecas que surgem numa das imagens promocionais do filme, já por si, causam uma espécie de arrepio. Como é que um brinquedo consegue tomar tais proporções quase fantasmagóricas?
LC: As bonecas são um desses vários elementos visuais que me suscitaram o desejo de retratar a peculiar paisagem da região. As bonecas já estavam lá, tal e qual como aparecem no filme, e são elas próprias uma característica do bairro dos pescadores que liga Cortegaça a Esmoriz. Têm o seu quê de creepy, de mórbido, bem junto à bandeira nacional que as acompanha e foi esse espírito que tentei incutir na narrativa do filme (e na realidade dos seus personagens). Esse plano das bonecas é por si só capaz de transmitir uma certa ausência de esperança e de futuro, directamente ligada à (propositada) inexistência de personagens femininas no filme. É um plano meio apocalíptico, como a gigantesca relva do campo de futebol do bairro, que transmite uma certa ideia de passado abandonado, de ruína. E praticamente tudo isso já faz parte daquela paisagem, não partiu da nossa imaginação. Apenas construímos uma narrativa fictícia em torno de (e capaz de ser potenciada por) tudo isso.

Ao mesmo tempo, as crianças assumem um papel fundamental na curta-metragem. Como foi trabalhar com actores tão jovens?
LC: Foi óptimo, recompensador e desafiante. Nenhum dos dois actores protagonistas tinha qualquer experiência prévia na representação e foi necessário encontrar delicadas formas de comunicação nos diversos momentos. Eles próprios são filhos ou netos de actuais pescadores locais, eles próprios fazem parte daquela paisagem. Fiz o casting nas ruas, cruzando-me e conversando com eles, com a ajuda do Humberto Rocha (produtor do filme, que é natural e residente naquela região). Sabia que precisava de um determinado tipo de olhares e de expressões de rosto capazes de sustentar o ambiente e o tom que eu procurava para o filme. Encontrei o que procurava no Gustavo e no André, que abraçaram o desafio com intensidade e com elevado sentido de compromisso. Passaram umas férias de verão diferentes do costume e estão de parabéns pelo resultado final, que é muito bem conseguido de ambos, e só lhes posso estar grato pelo que conseguiram atribuir ao filme.


O que pode o público esperar da curta-metragem?
LC: Espero que alguma tensão e algum deslumbre visual. Aquela paisagem é realmente maravilhosa, de intrigante, e espero que o desafio narrativo que o filme propõe lhe consiga corresponder.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
LC: É um papel fundamental, maioritariamente de causa, resistência e amor pelo cinema, que deveria ser mais e mais reconhecido pela sociedade em geral. Os organizadores da larga maioria dos festivais nacionais batalham arduamente para subsistir, ano após ano; os festivais de cinema não são um negócio propriamente rentável ou lucrativo e exigem muito trabalho de muitas pessoas para fazer nascer cada nova edição. Não deixar cair a diversidade da oferta que os nossos festivais eventualmente propõem é uma missão suficientemente digna (e difícil) para não ser aqui considerada. Todos os espaços são poucos para exibir cinema nacional e qualquer janela que possa ajudar a mostrar os filmes que por cá se vão fazendo é sempre benéfica, inclusive na lógica da exportação de conteúdos agora que cada vez mais o mundo está atento ao que acontece neste ímpar cantinho à beira-mar plantado. A concentração de público num determinado festival permite que as obras consigam chegar a pessoas que de outra forma não teriam oportunidade de visualizar os filmes, suscitando e estimulando curiosidade pela transversalidade do cinema. Os festivais têm esse papel activo na própria formação e educação de público. Parece-me que, portanto e apesar de existirem sempre formas de reforçar as actividades de divulgação ao cinema nacional por parte dos festivais existentes, é importante termos uma consciência e um sentimento de celebração pelo que com muito mérito e nobreza por cá vai sendo conquistado: vem aí a 11.ª(!!) edição do MOTELx. É incalculável o valor do trabalho que o festival tem colocado no estímulo e na divulgação do cinema nacional (e na diversidade das propostas que apresenta). Essa sensibilidade e reconhecimento são muito importantes para que eventos como o MOTELx e outros vários possam continuar a existir.

Sinopse
Numa pequena vila piscatória, dois rapazes são forçados a tomar parte activa no tráfico de substâncias ilícitas. Quando o mais velho prepara um plano de fuga, o mais novo vê-se obrigado a lidar com as adversidades de ser deixado para trás.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

MOTELx'17: Entrevistas - Diogo Lopes (#blessed)

O MOTELx'17 está em Lisboa entre 5 e 10 de Setembro, e para o Prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017 estão a concorrer 9 curtas-metragens nacionais: #blessed, de Diogo LopesCarga, de Luís CamposDepois do Silêncio, de Guilherme DanielEntelekheia, de Hugo MalainhoA Instalação do Medo, de Ricardo LeiteMãe QueridaJoão Silva SantosO Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo PassarinhoRevenge Porn, de Guilherme Trindade e Thursday Night, de Gonçalo Almeida.


Continuamos a conhecer melhor os realizadores e filmes nacionais seleccionados. O Hoje Vi(vi) um Filme falou com Diogo Lopes, realizador de #blessed.

De onde surgiu a ideia de fazer este filme?
Diogo Lopes (DL): Da observação do comportamento de algumas pessoas nas redes sociais. A partir daí extrapolei para o exagero e para uma situação de limite. O resultado final é uma sátira, algures entre uma comédia negra e um thriller psicológico.

A febre das redes sociais parece servir de mote para o desenrolar do enredo. Há alguma critica social que queira fazer com #blessed - já que até o título é uma hashtag?
DL: É uma crítica, mas é uma crítica muito branda. A obsessão que algumas pessoas têm pelas redes sociais é algo que me diverte mais do que chateia ou revolta. Acho muita graça às pessoas que usam o facebook como se fosse o google. Dou muito valor às raparigas que em Dezembro se esforçam para arranjar uma desculpa para partilhar uma fotografia de bikini na praia em pleno Verão. Normalmente é o típico "saudades do sol", mas já se começa a ver maior criatividade nesse campo. Por isso eu acho que as redes sociais não se devem levar muito a sério. Eu pelo menos gosto de olhar para elas pelo lado que mais me diverte.


O que pode o público esperar da curta-metragem?
DL: Pode esperar um filme curtinho. Mesmo nesta era em os períodos de atenção são cada vez mais curtos, e as pessoas procuram cada vez mais entretenimento de durações muito reduzidas, pedir dez minutos de solicitude ao público não é um grande descaramento. Na pior das hipóteses, não gostam do filme, mas também não saem muito chateados porque não lhe dedicaram muito tempo.

Tem um elenco com nomes muito conhecidos do grande público. Como foi trabalhar com eles?
DL: Foi óptimo e muito recompensador. Todos eles perceberam de forma muito rápida o que eu pretendia para cada um dos personagens e foi extremamente fácil trabalhar com todos eles. Não sei se esta assimilação se deveu ao facto de eles se reconhecerem um pouco nos seus personagens, mas essa seria uma questão interessante para lhes fazer.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
DL: Tem um papel muito importante da divulgação do cinema nacional, especialmente no que toca aos realizadores que estão a começar a dar os primeiros passos. Eu penso que em Portugal já temos um bom número de festivais, que abrangem quase todos os géneros de cinema. Uma área onde se poderia investir um pouco seria na  divulgação.

Sinopse
Duas amigas com demasiada predisposição para esmiuçar as futilidades das redes sociais vêem-se arrastadas para uma confrontação que as irá obrigar a lutar pela vida.