"No one is loved as much as you by the people. Don't waste that power. "Mary Todd Lincoln
*8/10*
Liberdade e Igualdade são os valores em jogo no novo filme de Spielberg. Um histórico que marca o fim da escravatura nos EUA e muito diz aos norte-americanos, mas que, mais do que para "agradar", sente-se que se fez com a sinceridade e a garra de quem ama a sua história e o seu país.
As 12 nomeações não podiam ser em vão ou estaríamos perante demasiados erros da Academia. Lincoln e Spielberg merecem-nas todas, em jeito de reconhecimento por uma longa-metragem, provavelmente incompreendida pelos menos pacientes ou insensíveis, cheia de amor e competência técnica e artística. Repleto de opções visuais de louvar e de excelentes interpretações, Lincoln só poderá afugentar os menos interessados em política, apesar de todas as reuniões e debates estarem brilhantemente construídos de forma a captar a atenção da plateia como poucos filmes do género conseguem.
Lincoln retrata os últimos quatro meses de vida do Presidente norte-americano, nomeadamente na abolição da escravatura e no fim da Guerra Civil Americana. A votação renhida pela 13ª emenda pela Câmara dos Representantes, que ilegaliza a escravatura, é o ponto central do filme.
Arriscado, de facto, mas bem concretizado, sem qualquer sombra de dúvida, Lincoln é uma aposta ganha de Spielberg, depois do muito fraco Cavalo de Guerra. Argumentativamente, o facto de estarmos perante um momento-chave da história dos Estados Unidos torna o filme, desde logo, o centro das atenções. No centro da narrativa temos a luta do Presidente norte-americano pela abolição da escravatura, com a aprovação da 13ª emenda à Constituição, e, ao mesmo tempo, a relação com a mulher e filhos tem espaço para alguma atenção.
Conseguimos facilmente traçar o carácter do protagonista: um homem justo, bom, persistente, com alguma dificuldade em lidar com a mulher. Lincoln revela-se próximo daqueles que lhe são íntimos mas também dos seus subordinados, que trata como se de familiares se tratassem, preocupando-se com os que sofrem injustiças. Para levar a sua vontade em diante e tornar a escravatura ilegal, o Presidente tem acções que poderão levantar dúvidas acerca da sua conduta, se as suas opções são ou não legítimas, se os fins justificam os meios, mas o certo é que o retrato político que Spielberg nos apresenta prova, a cada cena, o rigor e transparência que a plateia anseia, e onde se podem encontrar tantos paralelismos com a política actual. Cabe-nos a nós fazer os juízos de valor.
Como referi, a temática política, que acompanha reuniões do presidente e debates na Câmara dos Representantes, poderia deitar tudo a perder, mas, muito pelo contrário, a história nunca se mostra cansativa. Lincoln tem ritmo e sabe com prender a atenção até do menos entendido em história dos EUA, com conversas claras e discursos fluidos, que deixam de lado qualquer tipo de superficialidade. Aliás, o filme de Steven Spielberg de superficial nada tem, bem pelo contrário, demonstra ser muito profundo e mesmo emocional.
Para tal, muito contribuem as personagens secundárias, especialmente a de Tommy Lee Jones, com uma interpretação muito competente enquanto Thaddeus Stevens, defensor incansável da aprovação da 13ª Emenda, que prende todas as atenções e protagoniza dos momentos mais emocionantes de Lincoln. Por seu lado, a actriz Sally Field veste bem a pele a Mary Todd Lincoln, uma mulher que nunca superou a morte de um dos filhos, revelando um certo desequilíbrio advindo daquela perda, e com quem Lincoln revela dificuldade em lidar, apesar do amor que os une. Por seu lado, a personagem de Daniel Day-Lewis é fulcral, e o actor interpreta-a com alma, conferindo-lhe uma aparente fragilidade e calma, aliadas a uma forte vontade de corrigir o que está mal na sociedade da época. De entre o elenco de actores, destaque ainda para as participações de John Hawkes ou Hal Holbrook, por exemplo, entre muitas outros nomes de relevo.
Tecnicamente, deve dar-se todo o mérito à realização de Spielberg, que volta assim à grande forma, a que se junta um excelente trabalho da direcção de fotografia, a cargo de Janusz Kaminski, repleta de tons escuros - que se tornam frios nas cenas da Guerra Civil -, e de cores pouco fortes, onde se sente a sua saturação, que tão bem se conjugam com a difícil época vivida, e onde o trabalho de iluminação é de elogiar. A banda sonora de John Williams é subtil e encaixa na perfeição em Lincoln, nunca se sobrepondo à força de cada cena. O guarda-roupa merece igualmente destaque, bem como a excelente caracterização de Daniel Day-Lewis (com uns bons 10 anos a mais), sem que ninguém duvide de que se está perante Lincoln.
Lincoln é um retrato de uma época conturbada e cheia de dificuldades, são quatro meses da luta de um dos homens mais importantes da história norte-americana apresentados sem tabus e onde o espectador tem um papel activo. Que todos os filmes históricos fossem tão sinceros e profundos.
Lincoln é um retrato de uma época conturbada e cheia de dificuldades, são quatro meses da luta de um dos homens mais importantes da história norte-americana apresentados sem tabus e onde o espectador tem um papel activo. Que todos os filmes históricos fossem tão sinceros e profundos.
