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sábado, 28 de dezembro de 2024

Crítica: Desconhecidos / All of us Strangers (2023)

"There's vampires at my door"
Harry


*9/10*

Andrew Haigh criou uma fantasmagoria romântica em All of us Strangers, um filme tão intenso quanto emocionante, que decorre num silêncio e tranquilidade pouco comuns no cinema dos dias de hoje. Coincidentemente, a sua banda sonora surge intrínseca neste "silêncio", como nostalgia de outros tempos e de outras vidas.

Numa noite, num bloco de apartamentos praticamente vazio na cidade de Londres, Adam (Andrew Scott) tem um encontro casual com Harry (Paul Mescal), um vizinho misterioso, que interrompe o ritmo da sua vida quotidiana. À medida que estabelecem uma relação, a cabeça de Adam fica ocupada com memórias do passado e dá por si atraído de volta à cidade suburbana onde cresceu e à casa de infância onde os seus pais (Claire Foy e Jamie Bell) parecem estar a viver, tal como no dia em que morreram, 30 anos antes.


A componente metafísica e mística acompanha All of us Strangers em cada momento, em cada cena. Adam, argumentista, quer escrever sobre os pais, fixar no papel tudo o que os seus progenitores foram para si até aos 12 anos, ano em que os perdeu para sempre. O medo de nunca recuperar o passado e de não ser aceite no presente é um entrave às suas decisões futuras. O terror da perda, a dor do luto que parece nunca ter sido feito, o medo de avançar, reflectem-se na sua solidão. Inicialmente, Adam parece preferir fechar portas e viver das memórias em total reclusão, receando acompanhar os tempos e aproveitar as oportunidades, tão reais e vívidas.


Quando abre o coração a Harry, dois solitários se juntam, num encanto que se traduz no carinho e compreensão que nenhum deles alguma vez sentiu. São dois homens queer, de gerações distintas, que partilham medos e solidão, tornando-se o amparo um do outro, e recuperando a vida que, finalmente, ganha motivos para ser vivida e desfrutada. Entre encontros com o presente e reencontros que fazem as pazes com o passado, os tormentos de Adam e Harry parecem ter encontrado cura, um no outro. 

Até que, no final, todas as concepções feitas caem por terra. E, tal como Adam, All of us Strangers insiste em ficar, bem para lá da última cena. Sejam quais tenham sido as reais intenções do realizador, uma delas foi, com certeza, dar toda a liberdade ao espectador para que crie a sua própria versão desta longa-metragem. 


Andrew HaighAndrew Scott e Paul Mescal entregam corpos e alma a uma história íntima, mágica e onírica, ainda mais potenciada pela direcção de fotografia sublime de Jamie RamsayAll of us Strangers é triste e tocante. É o amor que pode salvar no meio do tormento. 

domingo, 12 de março de 2023

Sugestão da Semana #551

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca A Voz das Mulheres, de Sarah Polley. O filme já tem crítica no Hoje Vi(vi) um Filme.

A VOZ DAS MULHERES


Ficha Técnica:
Título Original: Women Talking
Realizadora: Sarah Polley
Elenco: Rooney Mara, Claire Foy, Jessie Buckley, Ben Whishaw, Judith Ivey, Sheila McCarthy, Michelle McLeod, Kate Hallett, Liv McNeil, August Winter
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 104 minutos

quinta-feira, 9 de março de 2023

Crítica: A Voz das Mulheres / Women Talking (2022)

"Hope for the unknown is good. It is better than hatred of the familiar."

Ona

*8/10*

Em A Voz das Mulheres (Women Talking, no original), Sarah Polley criou um filme sobre o empoderamento feminino contra uma comunidade violenta e patriarcal. É inevitável vê-lo sem lembrar 12 Homens em Fúria, de Sidney Lumet. Só que, neste caso, a decisão de uma vida está nas mãos das Mulheres, as vítimas, reunidas num palheiro.

"Baseado no romance best-seller de Miriam Toews, A Voz das Mulheres retrata um grupo de mulheres que se encontram numa colónia religiosa isolada, enquanto lutam para reconciliar a sua fé com uma série de agressões sexuais cometidas pelos homens da colónia."

Sem luz eléctrica ou telefone, drogadas e violentadas anos a fio, privadas de aprender a ler ou escrever, tomadas como loucas, eis que chegou o dia em que a máscara dos homens começa a cair. Enquanto eles vão à polícia local, elas reúnem-se para decidir o que fazer a seguir: ficar e não fazer nada; ficar e lutar; ou ir embora da comunidade.

Estas mulheres podem não saber ler ou escrever mas são capazes de votar e de se unir para tomar uma decisão importante, esgrimindo argumentos a favor ou contra cada uma das opções. A Voz das Mulheres é a conquista deste empoderamento e da liberdade de escolha, mesmo no seio de uma comunidade patriarcal conservadora e extremamente religiosa.

A câmara de Polley envolve a plateia como parte da decisão, partilhando o espaço no palheiro, fitando, de rosto em rosto, quem apresenta os seus argumentos ou exprime emoções - ou apresentando, em flashbacks, o abuso que cada uma sofreu -, mas percorre igualmente os campos em volta e entra nas casas das protagonistas. A realizadora cria um ambiente de partilha de um segredo.

Neste filme, muito mais que as imagens, as palavras são tudo e também quem as diz: um elenco de mulheres talentosas, onde se destacam Claire Foy, Jesse BuckleySheila McCarthy.

Direcção artística e guarda-roupa cumprem bem o seu papel na representação de uma comunidade parada no espaço e no tempo, a par da discreta banda sonora, também da autoria de uma mulher, Hildur Guðnadóttir.

De tranças entrelaçadas ou de mãos dadas, partilham-se dilemas e o medo do desconhecido, mas todas sabem que urge tomar uma decisão. A Voz das Mulheres é todo sobre o futuro e uma intensa lição de união.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Globos de Ouro 2019: Red Carpet

Passou-se mais uma edição dos Globos de Ouro e eis que surge a primeira análise à red carpet de 2019, aqui no blog. Como sempre, escolho alguns dos vestidos que mais gostei de ver desfilar na passadeira vermelha (apenas gosto pessoal, sem grandes conhecimentos de moda), porque todos gostamos de escolher os nossos favoritos. Vou apenas destacar modelos femininos, mas aproveito para ressalvar que Mahershala Ali foi um dos homens mais bem vestidos da noite, com a escolha arrojada de Timothée Chalamet a segui-lo de perto.


JAMIE LEE CURTIS surgiu cheia de elegância e presença num vestido branco Alexander Wang que realça a sua figura esbelta, por onde parece que os anos não passam.


KRISTEN BELL vestiu um daqueles vestidos que nunca passam de moda e são normalmente uma boa escolha. Um modelo rosa claro Zuhair Murad, com decote em V. Simples, discreto e eficaz.


PATRICIA CLARKSON conquistou o Globo de Ouro para Melhor Actriz Secundária pela série Sharp Objects, mas também triunfou na passadeira vermelha. Desfilou com um vestido Georges Chakra Couture em tons coral, entre os laranjas e rosas, que a favoreceu e fê-la destacar-se.


JULIA ROBERTS arriscou no visual, mas sem perder a elegância, com este modelo bege Stella McCartney, com uma cauda, a acompanhar as calças pretas. Um modelo que apela à sua eterna jovialidade.


Rendas não são para todas, mas EMILY BLUNT apostou neste vestido Alexander McQueen, prateado rendado, e brilhou na red carpet. A nova Mary Poppins não venceu nenhuma estatueta mas na passadeira foi vencedora, entre elegância e rebeldia.


EMMA STONE surgiu simples e discreta, em tons coral, num bonito vestido Louis Vuitton, muito ao estilo que nos tem habituado nestas cerimónias. Apostou pelo seguro e não se saiu nada mal, já que os detalhes prateados dão vida e movimento à simplicidade do modelo.


A nomeada CLAIRE FOY esteve encantadora. Um discreto vestido amarelo, com detalhes em prata, da Miu Miu, ficou a condizer com o fabuloso penteado clássico, os brincos e a maquilhagem. Um dos visuais mais bonitos da noite.


DAKOTA FANNING desfilou com um dos meus modelos favoritos da noite, um vestido branco-prata da Armani Prive, a contrastar com um batom vermelho que lhe deu imensa presença. 


SAOIRSE RONAN não deixa de constar como uma das mais bem vestidas, uma vez mais. A actriz está fabulosa neste modelo Gucci de decote em V. Aparentemente tão simples, o visual marca pelos pormenores do vestido.


ALISON BRIE foi uma espécie de princesa sexy da noite. Amo este modelo tão clássico como arrojado Vera Wang, com uma saia em tule muito romântica e o top prateado a quebrar as regras.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Crítica: O Primeiro Homem na Lua / First Man (2018)

"That's one small step for man, one giant leap for mankind."
Neil Armstrong


*7/10*

O Primeiro Homem na Lua é, essencialmente, um filme de texturas, para além de uma lição de História com foco na vida familiar e dificuldades laborais dos astronautas. O filme poderia ter esperado mais uns meses e ser verdadeiro marco ao comemorar os 60 anos da chegada de Apolo 11 à Lua, mas teve pressa e não conquistou o buzz que merecia. Depois de La La LandDamien Chazelle continua impaciente, mas igualmente talentoso.

Em plena sintonia com Os Eleitos (1983), de Philip Kaufman, O Primeiro Homem na Lua também foca em especial este lado mais intimo dos pilotos e suas ambições. As más condições de trabalho e os perigos que corriam são muito bem ilustrados nos dois títulos, que sugiro para uma double bill.


O filme de Chazelle retrata a história da missão da NASA de colocar o homem na lua, focando-se em Neil Armstrong (Ryan Gosling), entre os anos de 1961 a 1969. Um relato baseado no livro de James R. Hansen, que explora o sacrifício de Armstrong e de uma nação, numa das missões mais perigosas da história da humanidade.

Empenhado e emotivo, apesar de contido, Ryan Gosling faz jus à personagem que interpreta, um Neil Amstrong dedicado ao trabalho, magoado pela vida, cujo percurso é muito apoiado e sustentado pela mulher - Claire Foy impecável no papel de Janet Armstrong -, que comanda a família na sua ausência.


Contudo, a alma de O Primeiro Homem na Lua vive da sensibilidade que se ganha com a utilização da película. 16 mm nos planos mais claustrofóbicos, dentro das naves espaciais - uma autêntica viagem no tempo -, onde alcançamos grande proximidade com as personagens; 35 mm quando as personagens têm os pés bem assentes na Terra, convivem ou estão com as famílias, fazendo-nos tirar o máximo partido das imagens; 65 mm quando o Homem chega à Lua, para dela desfrutarmos na sua plenitude - planos a condizer com a imensidade do espaço. Eis que as texturas dão vida ao filme, despertam os sentidos.

Damien Chazelle não traz grandes novidades com O Primeiro Homem na Lua mas mostra ao mundo como a película vive, cada vez mais, para proporcionar experiências que se pensavam já perdidas em cinema. Está viva e recomenda-se - até já chegou à Lua.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Sugestão da Semana #347

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca O Primeiro Homem na Lua, de Damien Chazelle, protagonizado por Ryan Gosling.

O PRIMEIRO HOMEM NA LUA


Ficha Técnica:
Título Original: First Man
Realizador: Damien Chazelle
Actores:  Ryan Gosling, Claire Foy, Jason Clarke, Kyle Chandler
Género: Biografia, Drama, História
Classificação: M/12
Duração: 141 minutos


terça-feira, 18 de setembro de 2018

MOTELx'18: Unsane (2018)

"I'm not f***ing crazy!" 
Sawyer Valentini

*7/10*

No MOTELx'18, Unsane, o mais recente filme de Steven Soderbergh veio perturbar a plateia e superar preconceitos. Inteiramente filmado com um iPhone 7 Plus, o cineasta arriscou num thriller de terror protagonizado por Claire Foy.

Sawyer Valentini deixa a sua cidade natal para escapar a um passado conturbado. Quando é involuntariamente colocada numa instituição psiquiátrica, a jovem vê-se obrigada a lidar com o seu maior medo. Mas será tudo real ou uma ilusão criada por ela? Ninguém está disposto a ajudá-la e Sawyer terá de fazer de tudo para sobreviver.

O argumento constrói-se, ritmado, e numa avalanche de sensações desconfortáveis e de impotência. A privação da liberdade com que a protagonista se depara contagia a plateia, que partilha a aflição com Sawyer. O pânico instala-se. A certo momento, esta sensação diminui, e entramos numa espiral de emoções fortes, até ao último segundo. Entre o terror e suspense, cria-se igualmente uma forte crítica ao sistema.


Steven Soderbergh cria um ambiente claustrofóbico aterrorizante, captando todos os detalhes, em todos os recantos, onde só mesmo um iPhone caberia, concretizando planos fortes e originais. O realizador transforma em Cinema uma longa-metragem filmada com um smartphone, e surpreende cépticos e até mesmo fãs do digital com o que consegue criar.

Por seu lado, Claire Foy incorpora a paranóia e o desespero da protagonista tão bem quanto possível e envolve ainda mais o espectador, que continuará a ser surpreendido por Soderbergh ao longo de Unsane. No final, só poderemos dizer que o desafio a que o realizador se propôs foi ultrapassado com distinção. O Cinema não tem limites.