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terça-feira, 10 de março de 2026

Sugestão da Semana #708

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca dois filmes: o documentário, nomeado para os Oscars, Mr. Nobody Contra Putin, de David Borenstein e Pavel Talankin; e o filme português Maria Vitória, de Mário Patrocínio, primeira longa de ficção do realizador.

MR. NOBODY CONTRA PUTIN


Ficha Técnica:
Título Original: Mr. Nobody Against Putin
Realizadores: David Borenstein e Pavel Talankin
Elenco: Pavel Talankin, Vladimir Putin
Género: Documentário
Classificação: M/12
Duração: 90 minutos



MARIA VITÓRIA


Ficha Técnica:
Título Original: Maria Vitória
Realizador: Mário Patrocínio
Elenco: Mariana Cardoso, Miguel Borges, Miguel Nunes, Ana Cristina Oliveira, António Durães, Benedito José, Isabel Simões, Joana Ribeiro, Marco Mendonça, Miguel Amorim, Rui Pedro Silva
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 114 minutos

quinta-feira, 13 de junho de 2024

IndieLisboa 2024: O Melhor dos Mundos (2024)

"O fantasma do terramoto está muito marcado na nossa memória colectiva"

Francisco

*7/10*

Rita Nunes apresentou na Competição Nacional do IndieLisboa 2024 o seu mais recente filme, O Melhor dos Mundos. Tocando num tema sensível da História de Portugal - o terremoto de 1755 - e a eminência da sua repetição, a realizadora constrói uma narrativa de ficção científica (em parceria com o argumentista João Cândido Zacharias) em torno de um grupo de cientistas especialistas em sismologia e alterações climáticas.

"Lisboa, 2027. Marta e Miguel fazem parte de um grupo de cientistas e são um casal na vida privada. Os dois vêem-se frequentemente em pólos opostos no que diz respeito a questões científicas. Este conflito será posto à prova numa noite decisiva em que dados analisados por Marta apontam para uma probabilidade muito alta de um enorme sismo poder atingir Lisboa. Os cientistas ficam indecisos sobre alertar a população para a possível tragédia iminente."

A questão primordial é: como se comunica uma notícia destas à população, sem a certeza absoluta de que vai mesmo acontecer? E é aqui que começam as dúvidas e cisões entre o grupo, apesar de alguns dos que estão contra comunicar à população serem os primeiros a porem-se, a si e aos seus, a salvo. A ética de cada um destes cientistas ditará a forma como o futuro pode ou não ser "prevenido" - ou minorados os estragos e mortes.

Se, por um lado, Marta tem sérias dificuldades em gerir sentimentos e relações - quer com o seu namorado, quer com a mãe e irmã -, por outro, não tem dúvidas no que toca à responsabilidade profissional que deve assumir na situação que se avizinha. A racionalidade de Marta é fundamental para compreender os fenómenos que o grupo de cientistas regista e é ela, numa competente interpretação de Sara Barros Leitão, que esclarece colegas e plateia sobre as possíveis consequências de um sismo de tal magnitude.

Para a construção de O Melhor dos Mundos, Rita Nunes parte de premissas e pesquisas científicas reais, tal como os novos cabos submarinos instalados em 2025. Com esta ambiência tão realista, apesar de ficcional e, tal como diz Francisco, a certo momento no filme, porque "o fantasma do terramoto está muito marcado na nossa memória colectiva", O Melhor dos Mundos cria uma tensão crescente, muito opressiva quer nas personagens como na plateia. 

Com uma fórmula simples, clara e directa, Rita Nunes constrói uma ficção científica - pouco comum no cinema português mais recente - esclarecida, activando no espectador a consciência de um passado que conhece dos livros de História e de um futuro que todos dão como iminente.

domingo, 30 de junho de 2019

Sugestão da Semana #383

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português Linhas Tortas, de Rita Nunes.

LINHAS TORTAS


Ficha Técnica:
Título Original: Linhas Tortas
Realizadora: Rita Nunes
Actores: Joana Ribeiro, Américo Silva, Miguel Nunes, Ana Padrão, Manuel Wiborg, Maria Leite, Elmano SanchoJoana Pais de Brito
Género: Drama
Classificação: M/12
Duração: 68 minutos

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Crítica: António Um Dois Três (2017)

"Um dia é muito pouco nessa cidade"
Débora


*7/10*

Um filme em três actos, qual peça de teatro cinematográfica. O realizador Leonardo Mouramateus traz-nos uma experiência diferente e divertida com António Um Dois Três, a sua primeira longa-metragem (depois de várias curtas), que demonstra imaginação, criatividade e muito sentido de humor.

António Um Dois Três retrata os encontros entre António (Mauro Soares) e Débora (Deborah Viegas) e a misteriosa forma como as suas rotas se cruzam, uma e outra vez. O filme foi rodado em Lisboa, em três partes, cada uma filmada e editada com intervalos de seis meses.


A cidade de Lisboa serve de cenário para aventuras e desventuras de personagens portuguesas e brasileiras que aqui se cruzam e conhecem. Nos três momentos do filme, as personagens são as mesmas mas a sua história muda ligeiramente. Leonardo Mouramateus constrói e desconstrói para criar.

O passado está muito presente, seja pela cassete VHS que as personagens encontram, seja pelas imensas recordações que atormentam cada um. No protagonista parece perdurar a saudade dos tempos felizes com Mariana, algo que partilha com Tereza, uma grande amiga e vizinha da ex-namorada. Já Débora mostra-se destemida e aventureira, entre o Brasil, Portugal e a Rússia. No teatro, todos querem criar algo verdadeiramente desconcertante para o público, em especial Johnny.

A empatia da plateia com as personagens de António Um Dois Três não é imediata, mas com o passar dos minutos ganha-se carinho por cada um deles e pelas suas particularidades, que se vão moldando em cada uma das partes da longa-metragem.


Intencional ou não, encontramos no filme de Mouramateus um elogio ao teatro - de onde, na realidade, surge Mauro Soares, o protagonista. O actor tem presença e faz jus ao António do título da longa. Ainda do elenco, destaque para Deborah Viegas e para Sandra Hung.

António Um Dois Três está carregado de nostalgia e de sonhos. É um filme desafiador, romântico e cheio de esperança, uma, duas e três vezes.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Em Português: Cartas da Guerra (2016)

Não só é uma história de amor poética e fogosa, como é um retrato fiel de uma realidade histórica que ainda se tem medo de abordar. É um filme que sinto na pele, de cada vez que o vejo, captando sempre novos pormenores, novas sensações. Cartas da Guerra foi amor à primeira vista, apaixonante e apaixonado. Conquista-me pelas palavras de ternura e pelas imagens duras, a preto e branco.


O filme adapta uma obra do escritor António Lobo Antunes, composta por cartas que este escreveu à mulher durante a sua estadia na guerra do ultramar. A acção começa em 1971, quando António vê o seu quotidiano em Lisboa ser interrompido ao ser destacado para servir como médico no Leste de Angola. Perante a extrema violência e desolação, António escreve à mulher Maria José, contando o que vê, o que sente, como que abrigando-se do pior.

É um filme de guerra mas sensorial e sensível. Não é meigo, não esconde nada. Mas as saudades e a distância que separam um grande amor, em que cada um dos amantes está num continente diferente, a sofrer em silêncio, só o papel pode colmatar. O papel é a partilha que não acontece cara a cara. O papel é o que ateia a chama da paixão.


Uma realidade que tantos foram obrigados a viver, que marcou a vida de famílias inteiras, que está no passado mas corre no sangue da nação e, mesmo que ninguém fale, que ninguém recorde, todos se lembram dela. Uma guerra que Portugal tem vergonha de lembrar, de filmar, de admitir que foi sangrenta e marcante para todos. Por tudo isto, Ivo M. Ferreira é um homem de coragem ao filmar este tema, e fá-lo muito bem.

O sofrimento espelha-se nos olhares, mais do que nas imagens violentas, e o amor é personificado nas vozes e nos rostos jovens de Margarida Vila-Nova e Miguel Nunes.

Cartas da Guerra é um poema de amor em termos de guerra.


Na altura da estreia no IndieLisboa'16 escrevi esta crítica.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Sugestão da Semana #242

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português: Cinema, Manoel de Oliveira e Eu, de João Botelho. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme pode ser lida aqui.

O CINEMA, MANOEL DE OLIVEIRA E EU


Ficha Técnica:
Título Original: O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu
Realizador: João Botelho
Actores: João Botelho, Mariana Dias, António DurãesÂngela Marques, Miguel Nunes, Maria João PinhoLeonor SilveiraMarcello Urgeghe
Género: Documentário, Drama
Classificação: M/12
Duração: 80 minutos

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Sugestão da Semana #236

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português, Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira. Baseado nas cartas que António Lobo Antunes escreveu à mulher enquanto esteve na Guerra Colonial, o filme dá-nos uma visão romântica e dura desta época da História de Portugal. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme pode ser lida aqui.

CARTAS DA GUERRA


Ficha Técnica:
Título Original: Cartas da Guerra
Realizador: Ivo M. Ferreira
Actores: Miguel Nunes, Margarida Vila-Nova, Ricardo Pereira, João Pedro Vaz, Simão Cayatte, Isac Graça, Francisco Hestnes Ferreira, Tiago Aldeia
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 105 minutos

quarta-feira, 27 de abril de 2016

IndieLisboa'16: Cartas da Guerra (2016)

"Adoro-te, minha gata de Janeiro, meu amor, minha gazela, meu miosótis, minha estrela aldebaran, minha amante, minha Via Láctea..."
António


*9/10*

Amor em tempos de guerra é uma boa forma de resumir Cartas da Guerra, o corajoso e pioneiro filme de Ivo M. Ferreira nesta abordagem tão intima e absorvente da Guerra Colonial.

Foi assim que se celebrou o 25 de Abril no Grande Auditório da Culturgest, esgotado. Depois da estreia internacional na Competição Internacional do Festival de Berlim, Cartas da Guerra teve no IndieLisboa a sua estreia nacional. O filme adapta uma obra do escritor António Lobo Antunes, composta por cartas que este escreveu à mulher durante a sua estadia na guerra do ultramar. A acção começa em 1971, quando António vê o seu quotidiano em Lisboa ser interrompido ao ser destacado para servir como médico no Leste de Angola. Perante a extrema violência e desolação, António escreve à mulher Maria José, contando o que vê, o que sente, como que abrigando-se do pior.

Um retrato provavelmente nunca antes visto no cinema português do que foi estar na Guerra Colonial. A desconfiança, o medo do inesperado, os vícios, a saudade, a distância, a imprevisibilidade... o fim tão próximo e tão longe. A dor do tempo a passar só era aliviada quando o correio chegava, as notícias da família, do amor que ficou em Portugal, ou no momento de responder às cartas, contar o quotidiano, os tormentos, o desespero, o medo de não voltar.


Margarida Vila-Nova e Miguel Nunes são o casal protagonista e são as suas vozes que nos lêem as cartas enviadas por António a Maria José. Ela em Lisboa, ele em Angola, o tempo a passar, a barriga dela a crescer e o amor dos dois a aumentar com as saudades. Cartas ternas, românticas, fogosas, a paixão que não se pode viver fisicamente é descrita com o mesmo fulgor em cada folha de papel. Um dos momentos mais fortes e envolventes de Cartas da Guerra é-nos mostrado pela câmara de Ivo M. Ferreira, numa espécie de amor feito à distância.

A acompanhar o texto, as imagens, duras, sombrias, entre os horrores da guerra, ver camaradas a partir, minas, tiros, o inimigo iminente que não se sabe por onde espreita, e os povos locais, doentes ou com medo, mas sempre com vontade de conviver com os soldados portugueses. A preto e branco, desde a viagem por mar para Angola, até ao quotidiano em Chiúme, Cartas da Guerra coloca-nos no centro da acção, através de planos hipnóticos, que agarram à acção, deixando-nos extasiados pelas paisagens longínquas e deslumbrantes - que transmitem o calor, o exotismo, a selva -, como igualmente abalados, atordoados, na expectativa de que aconteça o pior a qualquer momento, perdidos, por vezes, numa tranquilidade suspeita e inquietante.

Miguel Nunes merece destaque ao encarnar António, este médico sensível, que é obrigado a deixar a mulher grávida noutro continente para servir na guerra. A experiência transformadora - de onde a tristeza nunca vai desaparecer - e a impotência perante as atrocidades que o rodeiam é transmitida pelo actor de forma comedida, mas com uma naturalidade que nos diz muito. Miguel espelha as emoções no olhar, nos seus gestos subtis e contidos.


No meio destas cartas de amor escritas durante a guerra, sente-se a falta de mais visceralidade nas imagens, e, talvez, de menos narração, que, por vezes, tira o foco da acção (ou vice-versa). Compreende-se, contudo, que num filme romântico as cartas de amor sejam uma forma de aliviar a dor da separação e os horrores do conflito: mais poesia, menos sangue.

Ivo M. Ferreira realizou um filme que fazia muita falta a Portugal e ao mundo. Música, imagens e palavras revelam a Guerra Colonial do lado de quem lá esteve. Com harmonia e encanto, o cinema conta uma história de amor, que é também a dura História de uma nação.