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quinta-feira, 13 de junho de 2024

IndieLisboa 2024: O Melhor dos Mundos (2024)

"O fantasma do terramoto está muito marcado na nossa memória colectiva"

Francisco

*7/10*

Rita Nunes apresentou na Competição Nacional do IndieLisboa 2024 o seu mais recente filme, O Melhor dos Mundos. Tocando num tema sensível da História de Portugal - o terremoto de 1755 - e a eminência da sua repetição, a realizadora constrói uma narrativa de ficção científica (em parceria com o argumentista João Cândido Zacharias) em torno de um grupo de cientistas especialistas em sismologia e alterações climáticas.

"Lisboa, 2027. Marta e Miguel fazem parte de um grupo de cientistas e são um casal na vida privada. Os dois vêem-se frequentemente em pólos opostos no que diz respeito a questões científicas. Este conflito será posto à prova numa noite decisiva em que dados analisados por Marta apontam para uma probabilidade muito alta de um enorme sismo poder atingir Lisboa. Os cientistas ficam indecisos sobre alertar a população para a possível tragédia iminente."

A questão primordial é: como se comunica uma notícia destas à população, sem a certeza absoluta de que vai mesmo acontecer? E é aqui que começam as dúvidas e cisões entre o grupo, apesar de alguns dos que estão contra comunicar à população serem os primeiros a porem-se, a si e aos seus, a salvo. A ética de cada um destes cientistas ditará a forma como o futuro pode ou não ser "prevenido" - ou minorados os estragos e mortes.

Se, por um lado, Marta tem sérias dificuldades em gerir sentimentos e relações - quer com o seu namorado, quer com a mãe e irmã -, por outro, não tem dúvidas no que toca à responsabilidade profissional que deve assumir na situação que se avizinha. A racionalidade de Marta é fundamental para compreender os fenómenos que o grupo de cientistas regista e é ela, numa competente interpretação de Sara Barros Leitão, que esclarece colegas e plateia sobre as possíveis consequências de um sismo de tal magnitude.

Para a construção de O Melhor dos Mundos, Rita Nunes parte de premissas e pesquisas científicas reais, tal como os novos cabos submarinos instalados em 2025. Com esta ambiência tão realista, apesar de ficcional e, tal como diz Francisco, a certo momento no filme, porque "o fantasma do terramoto está muito marcado na nossa memória colectiva", O Melhor dos Mundos cria uma tensão crescente, muito opressiva quer nas personagens como na plateia. 

Com uma fórmula simples, clara e directa, Rita Nunes constrói uma ficção científica - pouco comum no cinema português mais recente - esclarecida, activando no espectador a consciência de um passado que conhece dos livros de História e de um futuro que todos dão como iminente.

terça-feira, 4 de junho de 2024

IndieLisboa 2024: Tão pequeninas, tinham o ar de serem já crescidas + Nocturno para uma floresta + Man of Aral

Da Competição Nacional de Curtas-metragem do IndieLisboa 2024, analisamos neste artigo os filmes: Tão pequeninas, tinham o ar de serem já crescidas, de Tânia Dinis; Nocturno para uma floresta, de Catarina Vasconcelos; e Man of Aral, de Helena Gouveia Monteiro.

Tão pequeninas, tinham o ar de serem já crescidas, de Tânia Dinis

"Este filme combina o tratamento ficcional e documental, e parte do arquivo fotográfico e de imagens reais e do testemunho oral de várias mulheres, de Trás-os-Montes, Beira, Alto e Baixo Minho, que, entre os anos 40 e 70, vieram para o Porto trabalhar como criadas de servir."

A partir das memórias das entrevistadas, Tânia Dinis filma, de um ponto de vista privilegiado, as histórias das mulheres que vieram do campo para a cidade, ainda crianças, tratar da casa e dos filhos de patrões endinheirados. Com poucos direitos e salário reduzido - do qual, a maioria, era enviado para os pais -, elas cresciam mais rapidamente do que a idade e o corpo pediam, deixando de lado a infância e a juventude para servir os outros e verem, muitas vezes, os seus direitos suprimidos.

A realizadora junta os testemunhos falados às fotografias de época que cada mulher ainda guarda consigo, artigos de jornais ou boletins de destaque das lutas e conquistas dos sindicatos das empregadas domésticas, e contrapõe imagens actuais, filmadas em película de 16mm, para mostrar como ainda hoje há que lutar pelo trabalho digno das empregadas domésticas.

Tão pequeninas, tinham o ar de serem já crescidas é o registo de uma época de pobreza extrema e das suas protagonistas, crianças que cresceram demasiado rápido, privadas da sua infância e família.

Nocturno para uma floresta, de Catarina Vasconcelos

"No século XV, em Portugal, um grupo de monges ergueu um muro em redor de uma floresta e impediu a entrada das mulheres. Mas as mãos dos vivos nem tudo podem controlar: no mundo invisível, onde é de noite e apenas as almas iluminam a floresta, as mulheres construíram o seu reino, sem muros."

Catarina Vasconcelos parte de acontecimentos históricos para criar uma curta-metragem certeira, sarcástica e feminista. Do século XV para a actualidade, em Nocturno para uma floresta, os direitos das mulheres eram diminuídos, e mal seria da pecadora que tentasse cruzar o muro proibitivo. Contudo, as almas femininas, ano após anos, debatem os seus direitos e o futuro de um famoso quadro de Josefa d'Óbidos, Sagrada Família.

O trabalho de direcção de fotografia realça as cores e a beleza da Natureza, dotando-a, ao mesmo tempo, de uma magia enigmática - potenciada pelas almas que a espiam e, à distância, tomam decisões.

Man of Aral, de Helena Gouveia Monteiro

"O filme Man of Aral replica a erosão da paisagem e o desaparecimento do Mar de Aral através de alterações químicas na própria película, confrontando temporalidades humanas e geológicas através de uma sequência de imagens distantes de um território marcado de forma perene pela atividade humana."

Helena Gouveia Monteiro mostra o processo de desertificação do Mar de Aral, na Ásia central, através de imagens de satélite, "a partir de uma sequência digital em time lapse, transferida para película de 16mm". Este processo manual, transforma as imagens base e cria uma multiplicidade de efeitos e cores, que se fundem com o desastre ambiental. Man of Aral é experimentalismo puro - a partir de uma fusão entre digital e analógico -, ao mesmo tempo que serve de alerta para as consequências da intervenção humana na Natureza.

IndieLisboa 2024: Banzo (2024)

"O Mal não sei deixa fotografar facilmente. Temos de dar uma ajuda"
Alphose


*5.5/10*

Em Banzo, Margarida Cardoso parte de uma premissa tão pertinente como perturbadora: a saudade, traduzida em doença, que os escravos sentiam quando levados à força da sua terra natal para outro local. O primeiro registo deste tipo de "depressão" foi registado nos escravos levados da costa africana para o Brasil.

O filme passa-se em "1907. Afonso recomeça a vida numa ilha tropical africana como médico de uma plantação, onde terá de curar um grupo de serviçais 'infectados' pelo Banzo, a nostalgia dos escravos. Morrem às dezenas, de inanição ou suicidando-se. Por receio de contágio, o grupo é enviado para um morro chuvoso, cercado por floresta. Ali, Afonso tenta curar os serviçais, mas a incapacidade de entender o que lhes vai na alma revela-se mais forte que todas soluções."


Ninguém vive feliz naquele degredo - nem Senhores, nem serviçais, nem médicos ou capatazes -, e se, por um lado, alguns se suicidam ou deixam de viver, os restantes sobrevivem acomodados à sua sorte e cumprem as suas funções. O recém-chegado médico é quem parece mais curioso por tentar compreender e curar aqueles homens e mulheres que se recusam a comer. A fronteira da língua é o maior bloqueio ao entendimento entre o médico e os doentes, mas entre os homens brancos, ninguém colabora, parecendo querer atrasar ou mesmo lograr qualquer tentativa de cura dos doentes - que Afonso (Carloto Cotta) acaba por concluir que será, unicamente, o regresso dos serviçais às suas terras.

A figura do fotógrafo, Alphonse (Hoji Fortuna), um dos únicos homens negros verdadeiramente livres daquele local, um nómada que regista a realidade em que cada um quer acreditar, é uma personagem de destaque e apela às maiores reflexões quer junto de Afonso como da plateia.


Banzo revela um bom trabalho de direcção de fotografia, que filma São Tomé e Príncipe como uma terra sombria e chuvosa, onde muitas almas pairam entre a vegetação e espiam os vivos e os quase mortos. Contudo, há um constante distanciamento das personagens com a opção de filmar sempre com relativa distância, existindo uma quase ausência de grandes planos. Essa distância passa para o outro lado da tela e é das maiores fraquezas do filme. Se, por um lado, há o choque da doença e da forma como se tratavam os quase escravos, por outro, há algo que impede a aproximação emocional às personagens e ao seu passado.

Margarida Cardoso cria uma obra que promete muito e sabe a pouco. Banzo não chega a atingir a profundidade narrativa e visual que esta temática exigiria.

domingo, 2 de junho de 2024

IndieLisboa 2024: Vencedores

O IndieLisboa 2024 termina este Domingo, e já são conhecidos os filmes vencedores desta 21.ª edição do festival. Rising up at Night, do realizador congolês Nelson Makengo, conquistou o Grande Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa e o Prémio Especial do Júri Canais TVCine

Rising up at Night, de Nelson Makengo

El Auge del Humano 3, de Eduardo Williams, recebeu uma menção do Prémio Especial do Júri. Na Competição Nacional, O Ouro e o Mundo, de Ico Costa, venceu o Prémio Max para Melhor Longa Metragem Portuguesa. O Prémio Melhor Realização para Longa Metragem Portuguesa NOVA FCSH foi entregue a dois filmes:  Mãos no Fogo, de Margarida Gil, e Greice, de Leonardo Mouramateus

Nas curtas-metragens, o Prémio para Melhor Curta Metragem Portuguesa foi atribuído a Tão Pequeninas, Tinham o Ar de Serem Já Crescidas, um filme Tânia Dinis, e Nunca Mais é Demasiado Tempo, de Bruno Ferreira, recebeu o Prémio Novo Talento The Yellow Color. Já Kudibanguela, de Bernardo Magalhães, teve uma menção especial. Na Competição Internacional de Curtas-Metragens, The Oasis I Deserve, de Inès Sieulle, venceu o Grande Prémio de Curta Metragem EMEL, Matta and Matto, de Bianca Caderas & Kerstin Zemp, e The House is on Fire, Might as Well Get Warm, de Mouloud Aït Liotna, foram distinguidos com Prémios Especiais do Júri. 

O prémio IndieMusic foi entregue ao filme Com Amor, Medo, de Telmo Soares. O Prémio Silvestre para Melhor Longa Metragem foi atribuído a La Chimera, de Alice Rohrwacher. Nas curtas, prémio foi para Zima, de Kasumi Ozeki e Tomek Popakul; Two Wars, de Jan Ijäs, teve uma menção especial. Na secção dedicada a novos realizadores, Campos Belos, de David Ferreira, venceu o Prémio Novíssimos, e Tanganhom, de Vítor Covelo, recebeu uma menção especial.


Durante a próxima semana, de segunda a quarta, os filmes premiados serão exibidos no Cinema Ideal.

Eis a lista completa de vencedores:

Competição Internacional

Prémio Especial do Júri Canais TVCine
RISING UP AT NIGHT, de NELSON MAKENGO

Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa
RISING UP AT NIGHT, de NELSON MAKENGO

Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa – Menção Especial
THE HUMAN SURGE 3, de EDUARDO WILLIAMS

Competição Internacional - Curtas

Grande Prémio de Curta Metragem EMEL
THE OASIS I DESERVE, de INÈS SIEULLE

Prémio do Júri – 1
MATTA AND MATTO, de BIANCA CADERAS, KERSTIN ZEMP

Prémio do Júri – 2
THE HOUSE IS ON FIRE, MIGHT AS WELL GET WARM, de MOULOUD AÏT LIOTNA

Competição Nacional
Prémio Max para Melhor Longa Metragem Portuguesa
O OURO E O MUNDO, de ICO COSTA

Prémio Melhor Realização para Longa Metragem Portuguesa NOVA FCSH - 1
GREICE, de LEONARDO MOURAMATEUS

Prémio Melhor Realização para Longa Metragem Portuguesa NOVA FCSH - 2
MÃOS NO FOGO, de MARGARIDA GIL

Prémio Novo Talento The Yellow Color
NUNCA MAIS É DEMASIADO TEMPO, de BRUNO FERREIRA

Prémio Novo Talento The Yellow Color – Menção Especial
KUDIBANGUELA, de BERNARDO DE MAGALHAS

Prémio Melhor Curta-Metragem Portuguesa
TÃO PEQUENINAS, TINHAM O AR DE SEREM JÁ CRESCIDAS, de TÂNIA DINIS

Novíssimos
CAMPOS BELOS, de DAVID FERREIRA

Novíssimos – Menção Especial
TANGANHOM, de VITOR COVELO

Indiemusic
Prémio IndieMusic
COM AMOR, MEDO, de TELMO SOARES

Silvestre
Prémio Silvestre para Melhor Longa Metragem
LA CHIMERA, de ALICE ROHRWACHER

Prémio Silvestre para Melhor Curta-Metragem Escola das Artes
ZIMA, de KASUMI OZEKI, TOMEK POPAKUL

Prémio Silvestre para Melhor Curta-Metragem Escola das Artes – Menção Especial
TWO WARS, de JAN IJÄS

Amnistia Internacional
Prémio Amnistia Internacional
THERE IS NO FRIEND’S HOUSE, de ABBAS TAHERI

Árvore da Vida
Prémio Árvore da Vida
BANZO,de MARGARIDA CARDOSO

Árvore da Vida - Menção Especial
CONTOS DO ESQUECIMENTO, de DULCE FERNANDES

Queer Art Lab 
Prémio Queer Art Lab
CIDADE; CAMPO, de JULIANA ROJAS

MUTIM
Prémio MUTIM
CLOTILDE, de MARIA JOÃO LOURENÇO

Prémio MUTIM - Menção Especial
CONSEGUIMOS FAZER UM FILME, de TOTA ALVES

Júri Escolas
Prémio Escolas Para Melhor Curta-Metragem Portuguesa
KUDIBANGUELA, de BERNARDO MAGALHÃES

Prémio Escolas Para Melhor Curta-Metragem Portuguesa – Menção Especial
NOCTURNO PARA UMA FLORESTA, de CATARINA VASCONCELOS

Júri Universidades
Prémio Universidades Para Melhor Longa-Metragem Portuguesa
BANZO, de MARGARIDA CARDOSO

Prémio Universidades Para Melhor Longa-Metragem Portuguesa – Menção Especial
O OURO E O MUNDO, de ICO COSTA

Mais informações sobre o IndieLisboa em https://indielisboa.com/.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

IndieLisboa 2024: As Fado Bicha (2024)

*7.5/10*

Justine Lemahieu trouxe à secção IndieMusic do IndieLisboa 2024 o documentário As Fado Bicha, onde seguiu, ao longo de quatro anos, o dia-a-dia de Lila e João, que compõem a banda que dá nome ao filme. Um trabalho íntimo e sincero, onde as artistas se dão a conhecer, conversam, desabafam e cantam em frente à câmara da realizadora, que é quase parte da mobília.

"Este é o encontro de Justine Lemahieu, ao longo de vários anos, com Lila e João, as duas artistas e activistas da banda Fado Bicha, cujas canções dão corpo e voz à histórias e lutas LGBTQIA+. Nos camarins, as palavras e os olhares cruzam-se, questionando a nossa relação com as aparências, as normas de género, a linguagem e a sexualidade."


As Fado Bicha regista a evolução da banda e das artistas, rodeadas de cores vivas, brilhos e purpurinas, que dão ainda mais vida ao documentário de Lemahieu e reflectem uma identidade em constante redefinição. A relação consigo próprias, com a família ou a sociedade; os estereótipos que quebram, o seu lado activista, o papel social que assumem - quer queiram, quer não -, tudo isto está espelhado no documentário de Justine Lemahieu.

No registo dos quatro anos com Lila e João, a realizadora entrou - e faz, inevitavelmente, também a plateia entrar - na intimidade das artistas, confrontando-as, algumas vezes, mas sendo, principalmente, mera observadora, à medida que a confiança se instala. Filma conversas, desabafos, ensaios, concertos, momentos de maquilhagem ou desmaquilhagem, rodagens de videoclipes, entrevistas... A câmara está sempre por lá, como parte integrante do mundo das Fado Bicha ao longo do tempo da rodagem, que inclui vários registos dos anos da pandemia.


A vontade que fica é de ver e saber mais sobre as protagonistas, compreender um pouco mais do processo criativo de músicas e letras, que talvez não tenha sido tão explorado. As Fado Bicha é uma obra necessária e pertinente, em jeito de chamada de atenção e de celebração da diversidade.

terça-feira, 28 de maio de 2024

IndieLisboa 2024: Manga d'Terra (2023)

"Desde pequena que sonho ser cantora..."
Rosinha


*8.5/10*

Basil da Cunha regressa à Reboleira, o cenário primordial do seu Cinema, e cria Manga d'Terra, um musical que homenageia a Mulher cabo-verdiana.

"Rosa, 20 anos, deixa os dois filhos em Cabo Verde para se instalar em Lisboa, na esperança de lhes oferecer uma vida melhor. Presa entre o assédio de gangsters e a violência policial quotidiana, Rosa tenta encontrar consolo entre as mulheres da comunidade. Mas o seu verdadeiro refúgio é a música."


O universo da Reboleira é elevado a um musical pela mão de um realizador que não tem medo de desafios e se reinventa a cada filme, mesmo que o cenário de base continue a ser o (cada vez mais pequeno) bairro. Desta vez, o foco de Basil da Cunha são as mulheres da comunidade - em especial a protagonista, a actriz e cantora Eliana Rosa, numa extraordinária interpretação -, mas os temas já recorrentes na filmografia do realizador não deixam de estar presentes em pano de fundo, sendo a violência policial o mais destacado.


A música é o elemento de encontro dos sonhos e aflições de Rosinha. Cantar é o alento que faz a protagonista suportar, sozinha e longe da família, todas as provações que se colocam no seu duro caminho. É nas mulheres com quem se cruza que encontra apoio - mas é também principalmente entre elas que se sente excluída. Rosinha é uma estranha em terra estranha e são muitos os que desconfiam das suas intenções, outros tantos os que a vêem como uma nova possível conquista ou como uma ameaça. Ela, por sua vez, tenta integrar-se na medida em que lhe permitem e, se houver música, tudo se torna mais fácil. 

As superstições cabo-verdianas estão também muito presentes nesta longa-metragem, onde uma aura quase metafísica vai acompanhando Rosinha. Os jogos de luz e cor realçam o lado místico, mas igualmente os sonhos e a esperança da protagonista, tudo potenciado pela belíssima direcção de fotografia a cargo de Patrick Tresch.


Manga d'Terra é saudade e esperança, guiadas pela música de Eliana Rosa e da banda Acácia Maior, na intimidade de um bairro que é todo ele - e as suas personagens - Cinema.

domingo, 26 de maio de 2024

IndieLisboa 2024: Estamos no Ar / We're on Air (2024)

"Estava um bocado farta de estar ali sentada a rir e a bater palmas"
Júlia


*6.5/10*

Diogo Costa Amarante estreia-se nas longas-metragens com Estamos no Ar, uma comédia dramática inspirada, inesperada e visualmente apelativa. 

"Fátima diz que não sente nada, mas sonha com o polícia que se mudou recentemente para o apartamento ao lado. Vítor, o filho, usa secretamente a farda do vizinho na expectativa de que o rapaz que conheceu online sinta alguma coisa por ele. Júlia, a avó, quer fugir do lar, mas sente-se cansada de andar às voltas para não ir a lado nenhum. Uma espiral de insónias e ilusões nocturnas leva a mal-entendidos e relações impossíveis, todos em busca de um pouco de ar."


As personagens vivem numa incessante busca de mudança, de ultrapassar o estado em que se encontram e alcançar algo mais, mas parecem andar aos círculos, sem grandes avanços ou recuos. Nessas tentativas, tantas vezes goradas, surgem os mais inesperados acontecimentos ou experiências, que não chegam a quebrar a rotina de mãe, filho ou avó, mas ajudam a acalentar a esperança em dias melhores.

Imaginação não falta a Diogo Costa Amarante, que usa de um humor subtil e assertivo - muitas vezes hilariante -, sempre a par com uma tranquilidade que paira na longa metragem, em contraste com as inquietações e vontade de mudança dos protagonistas.


Estamos No Ar tem uma estética muito diferenciada, que se denota, desde logo, nas opções de cores dos décors, mas o grande destaque visual do filme vai para um excelente trabalho da direcção de fotografia de Sabine Lancelin (que trabalhou em alguns filmes de Manoel de Oliveira) que joga com a iluminação e cores de forma quase fantasiosa, psicadélica, e criando, outras vezes, autênticos quadros vivos na tela do cinema.

A fazer as delícias da plateia estão, entre outros, Sandra Faleiro, Carloto Cotta, Anabela Moreira, Romeu Runa, Cucha Carvalheiro, João Pacola, e uma extraordinária Valerie Braddell.


Diogo Costa Amarante tem aqui uma estreia auspiciosa, depois de um percurso muito prometedor também nas curtas-metragens. 

terça-feira, 7 de maio de 2024

IndieLisboa 2024 com programa fechado

A poucos dias do início da 21.ª edição do IndieLisboa, que acontece de 23 de Maio a 2 de Junho, o festival lisboeta anunciou a sua programação completa.

A Competição Nacional contará com oito longas e 18 curtas-metragens. Entre elas, encontram-se Banzo, de Margarida Cardoso, "que acompanha um médico de uma plantação numa ilha tropical africana que, em 1907, terá de curar um grupo de serviçais 'infectados' pelo Banzo, a nostalgia dos escravos"; O Ouro e o Mundo, de Ico Costa, que se foca "num jovem casal de uma pequena cidade de Moçambique"; O Melhor dos Mundos, de Rita Nunes, que viaja até 2027, e segue "um casal de cientistas frequentemente em pólos opostos", e dados que indicam uma forte probabilidade de "um enorme sismo poder atingir Lisboa"; Estamos no Ar, de Diogo Costa Amarante, acompanha Fátima, que "diz que não sente nada, mas sonha com o polícia que se mudou recentemente para o apartamento ao lado", e aqueles que a rodeiam; Manga d’Terra, de Basil da Cunha, que regressa à Reboleira "para contar a história de Rosa, jovem cabo-verdiana que trabalha num bar para enviar dinheiro para os filhos", vivendo "presa entre o assédio dos mafiosos e a violência policial quotidiana", "o seu verdadeiro escape é a música"; Mãos no Fogo, de Margarida Gil, "explora as características imateriais do cinema através de Maria do Mar, jovem estudante de cinema, e uma tese sobre o Real no Cinema"; Shrooms, de Jorge Jácome, uma "aventura poética" que traz consigo "cogumelos mágicos"; Greice, de Leonardo Mouramateus, acompanha "uma jovem estudante brasileira de 22 anos" que se envolve com Afonso e os dois são responsabilizados "por um estranho acidente que ocorre numa festa e precipita o regresso de Greice a Fortaleza"; Contos do Esquecimento, de Dulce Fernandes, "questiona o papel de Portugal no tráfico transatlântico de africanos escravizados a partir de achados arqueológicos recentes em Lagos"; e Nocturno para uma Floresta, de Catarina Vasconcelos, "sobre um muro erguido no sec. XV por monges no Buçaco, impedindo a entrada de mulheres". Todas as longas da Competição Nacional têm legendas descritivas. 

Manga d’Terra, de Basil da Cunha

Novidade no IndieLisboa 2024 é a nova secção Rizoma, "que apresenta um conjunto de filmes que pretende trabalhar questões relevantes da actualidade, cineastas de renome, e ante-estreias". Destaque para All of us Strangers, de Andrew Haigh, com Andrew Scott e Paul Mescal, que aqui terá a sua exibição única em Portugal em sala de cinema; No Other Land, "filme de um colectivo palestiniano sobre a destruição que Israel consegue causar na sua tentativa de ir ocupando maiores faixas de terreno" e também "sobre a ligação que se estabelece entre um jornalista israelita e um activista palestiniano"A Besta, de Bertrand Bonello, onde "Léa Seydoux é Gabrielle, uma mulher que vive numa sociedade futurista que abomina emoções que exaltem os seres humanos", e Pedágio, de Carolina Markowicz, onde Suellen, cobradora de portagens, "percebe que pode usar seu trabalho para fazer uma renda extra ilegalmente. Mas tudo por uma causa nobre: financiar a ida de seu filho à caríssima cura gay ministrada por um famoso pastor estrangeiro".

A secção competitiva Novíssimos, para jovens cineastas emergentes, conta com títulos como Conseguimos Fazer um Filme, de Tota Alves, Chuvas de Verão, de Mário Veloso, Anima, de Joana Patrão, Clotilde, de Maria João Lourenço, Sunflowers – A Strange Feeling of Existential Angst, de Carolina Bonzinho e Leander Meresaar, entre outros.

All of us Strangers, de Andrew Haigh

A Sessão de Abertura do festival conta com o filme I’m not everything I want to be, de Klára Tasovská, sobre Libuše Jarcovjáková "e o ambiente sufocante vivido depois da Primavera de Praga de 1968". "A câmara como companheira constante — e a origem do material do filme, composto pelas suas inúmeras fotografias e excertos dos seus diários — captura a ida dela para Berlim Ocidental, escapar para Tóquio, e o regresso à Europa". No encerramento, estará Dream Scenario, de Kristoffer Borgli, uma comédia negra com Nicolas Cage, que interpreta "um professor de biologia perfeitamente banal, a surgir nos sonhos de muitas outras pessoas" que se torna famoso e infame.

Na Piscina Municipal da Penha de França regressa o programa de curtas-metragens para famílias e, este ano, haverá, pela primeira vez, longas para adultos, "com dois clássicos que têm a água, ou a piscina, como tema central"Palombella Rossa, de e com Nanni Moretti, "sobre um líder comunista amnésico que é também jogador de polo aquático"; e "Piranha, paródia de culto realizada por Joe Dante".

O IndieLisboa 2024 acontece no Cinema São Jorge, Culturgest, Cinemateca Portuguesa, Cinema Ideal, Cinema Fernando Lopes e piscina da Penha de França. A programação completa do festival pode ser consultada em https://indielisboa.com/.

terça-feira, 30 de abril de 2024

IndieLisboa 2024: Competição Internacional, Silvestre, Retrospectivas e Director's Cut

O IndieLisboa 2024 revelou a programação da secções Competição Internacional, Silvestre, Retrospectivas e Director's Cut. O festival lisboeta acontece de 23 de Maio a 2 de Junho, na Culturgest, Cinemateca Portuguesa, Cinema Ideal, Cinema Fernando Lopes, Cinema São Jorge e Piscina Municipal da Penha de França.

Competição Internacional e Silvestre

A Competição Internacional do IndieLisboa 2024 conta com 12 longas e 34 curtas-metragens. Nas longas, destaque para El Auge Del Humano 3, de Eduardo Williams, que "usa um dispositivo original e intrusivo - a câmara de 360 graus - para explorar as inquietações de um grupo d e pessoas"; Rising up at Night, de Nelson Makengo, "visita Kinshasa, numa altura em que a República Democrática do Congo está envolta em turbulência", sendo que "o foco do filme é a construção de uma central elétrica, ao mesmo tempo que a cidade está com dificuldades de acesso a electricidade"; The Feeling That the Time for Doing Something Has Passed, de Joanna Arnow, onde a realizadora também "protagoniza, escreve, edita o filme"; Malqueridas, de Tana Gilbert, "debruça-se sobre uma comunidade chilena que vive uma existência invisível aos olhos da sociedade: a de mulheres na prisão"; Dormir de Olhos Abertos, de Nele Wohlatz, "é uma delicada e cómica série de enganos passada no Recife, Brasil, em que personagens — Kai e o seu coração partido, Fu Ang e as suas ambições para além da loja de chapéus de chuva, e Xiao Xin na sua torre de luxo a viver temporariamente enquanto emigrante — se vão encontrando e desencontrando  não-linearmente, como se fosse uma colectânea de postais fragmentados"; e The Missing, animação de Carl Joseph Papa, aborda "o trauma, físico e emocional, e reconciliação".

Nas curtas-metragens, destaque para o filme de animação 27, de Flóra Anna Buda, vencedor da Palma de Ouro de Cannes em 2023, e "que aborda a repressão familiar como força castradora, até que um acidente de bicicleta vem alterar essa percepção"; Un movimiento extraño, de Francisco Lezama, que conquistou o Urso de Ouro para Melhor Curta-Metragem, "acompanha uma jovem argentina que trabalha como guarda num museu em Buenos Aires"; Les yeux verts, de Sacha Teboul, com Denis Lavant e Claire Denis, acompanha "um homem que perdeu a mulher e tem apenas as memórias e algumas cassetes de vídeo que o ajudam a lembrar-se de todos os detalhes dela". O uso e a relação com a Inteligência Artificial e o mundo digital é temática comum em vários filmes desta edição do festival: Diamond Himalaya, de Mila Olivier, "explora um nicho particular da Internet que gira em torno de itens de luxo, em particular a mala Birkin, da Hermès, um item difícil de adquirir pelo seu preço exorbitante"; Christmas, Every Day, de Faye Tsakas, apresenta "duas gémeas, ainda muito crianças", que "já possuem uma pegada super popular nas redes sociais, onde as suas experiências com maquilhagem e roupa são vistas por inúmeras pessoas em todo o mundo"; 512x512, de Arthur Chopin, tem como foco "as imagens geradas por IA"; e The Oasis I Deserve, de Inès Sieulle, "aborda o uso integrado de Inteligência Artificial em jogos e filmes, e incorpora imagens assim geradas, mas também conversas com um chatbot que nos revela todas as tendências e preconceitos do ser humano".

A selecção Silvestre apresenta oito longas e 14 curtas-metragens. Destaque para Between the Temples, de Nathan Silver, que "explora a crise existencial de Ben, um cantor numa sinagoga que está a perder a voz"; e A Traveler’s Needs, de Hong Sang-soo, protagonizado por Isabelle Huppert que interpreta uma "mulher francesa na Coreia do Sul, cujos comportamentos não são compreendidos por quem a rodeia"

La Chimera, de Alice Rohrwacher

Nesta secção encontram-se também Mambar Pierrette, de Rosine Mbakam, que "acompanha uma costureira dos Camarões, mãe de três filhos, com um marido que não ajuda nas despesas, uma máquina que tem de reparar e clientes que regateiam o preço das indumentárias que cria"; Cidade; Campo, de Juliana Rojas, que "lida com a estranheza e inquietação das migrações, neste caso do campo para a cidade e vice-versa, e com todas as vicissitudes que as mudanças acarretam"; e ainda La Chimera, de Alice Rohrwacher, onde "Arthur, um jovem arqueólogo inglês, acaba envolvido com uma rede internacional de artefactos roubados"

Festa de Antecipação do IndieJúnior

A Festa de Antecipação do IndieJúnior acontece na tarde de 5 de Maio, dia da Mãe, "na Musa de Marvila, com uma sessão de curtas-metragens da última edição do festival, para maiores de 3 anos, que inclui o grande vencedor do Prémio do Público – A Poça da Maré. Há jogos, banhos de sol ao som de um dj-set, num terraço com escorregas e esplanada, para deleite de crianças e acompanhantes"

Retrospectivas + Director's Cut

No ano em que se comemoram os 50 anos sobre a Revolução dos Cravos, o IndieLisboa apresenta duas retrospectivas: a obra de Kamal Aljafari, realizador e artista visual palestiniano; e uma homenagem às Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do Movimento das Forças Armadas (MFA), com "a exibição de alguns dos filmes que foram mostrados nessas campanhas, de autores como Cinda Firestone e o Grupo SLON de Chris Marker, contextualizadas com as reportagens da RTP feitas à época, que mostram um país efervescente"

Os Homens Que Eu Tive, de Tereza Trautman

Já secção Director’s Cut explora reflexões sobre cinema, filmes recuperados e recontextualizados, num diálogo entre passado e presente. Realizado por Tereza Trautman, em 1973, quando tinha 22 anos, em plena ditadura militar brasileira, Os Homens Que Eu Tive "questiona os padrões culturais rígidos da época, e o que era ou não permitido a uma mulher. O filme, recuperado pela Cinemateca Brasileira, é um soft-core feminista corajoso, visto à época como uma ameaça moral aos valores da família patriarcal burguesa". Já R21 aka Restoring Solidarity, de Mohanad Yaqubi, "recupera, a partir de um conjunto de 21 bobines de 16mm de um colectivo de cineastas militantes, o movimento japonês de solidariedade com a Palestina e a causa da autodeterminação. A recuperação destes trabalhos resultou num filme de intervenção que questiona a universalidade de determinadas lutas políticas. Várias das bobines recuperadas e aqui apresentadas foram polemicamente censuradas na Documenta 15"

Nas curtas, destaque vai para a colecção de quatro curtas de Chantal Akerman, parte do seu exame de admissão ao Institut Supérieur des Arts. O Primeiro Olhar de Chantal Akerman mostra "a vida na cidade de Bruxelas e em Knokke, na costa belga, e incluem a irmã e a mãe da realizadora, que será uma figura recorrente da sua futura obra"

Mais informação sobre o IndieLisboa e os filmes já anunciados em https://indielisboa.com/.

sexta-feira, 5 de abril de 2024

IndieLisboa 2024 anuncia novidades das secções IndieMusic, Boca do Inferno e Smart7

O IndieLisboa regressa, de 23 de Maio a 2 de Junho, ao Cinema São São Jorge, Culturgest, Cinemateca Portuguesa, Cinema Ideal e Cinema Fernando Lopes. Para já, foram revelados os primeiros filmes do festival lisboeta, das secções IndieMusic, Boca do Inferno e Smart7.

Boca do Inferno

Na secção mais atrevida e provocadora do IndieLisboa, a Boca do Inferno, destaque para Cobweb, de Kim Jee-woonL'Empire, de Bruno Dumont; Late Night with the Devil, de Cameron Cairnes e Colin Cairnes; e The Royal Hotel, de Kitty Green. Mais informações sobre todos os filmes da secção em https://indielisboa.com/seccao/boca-do-inferno/.


IndieMusic

A secção IndieMusic, que interliga cinema e música, regressa desta vez, num mergulho "não raras vezes, nos contextos históricos, políticos e sociais que acompanham as movimentações musicais dos filmes seleccionados". Destaque para os filmes: 25 Canções de Abril, de Luís Gaspar; As Fado Bicha, de Justine LemahieuIn Restless Dreams: The Music of Paul Simon, de Alex GibneyLil Nas X: Long Live Montero, de Zachary Manuel e Carlos López Estrada; Mama Africa, de Mika KaurismäkiMutiny in Heaven: The Birthday Party, de Ian White. Mais informações sobre todos os filmes da secção em https://indielisboa.com/seccao/indiemusic/.


Smart7­

Esta é a "2.ª edição de um programa de competição europeu que nasceu da aliança de cooperação entre 7 festivais de 7 países com o intuito de fomentar a circulação de títulos europeus. Parte do programa MEDIA da Europa Criativa da UE, esta secção é competitiva, itinerante e colaborativa". Os sete filmes seleccionados para a secção Smart7 do IndieLisboa 2024 são: Five and a Half Love Stories in an Apartment in Vilnius, Lithuania, de Tomas Vengris; Greice, de Leonardo MouramateusIt's Not My Film, de Maria ZbaskaNatatorium, de Helena Stefánsdóttir; On the Go, de Julia de Castro e María Gisèle RoyoThe Summer with Carmen, de Zacharias Mavroeidis; e Where Elephants Go, de Catalin Rotaru e Gabi Sarga. Mais informações sobre os títulos em https://indielisboa.com/seccao/smart7/.