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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Crítica: Foi Só Um Acidente / It Was Just an Accident / Yek tasadef sadeh (2025)

*9/10*


Desde que foi condenado, em 2010, a seis anos de prisão e a uma proibição de 20 anos de exercer actividades cinematográficas, que a filmografia de Jafar Panahi espelha o seu estado de espírito - e cresce a olhos vistos. Em 2011, Isto Não É um Filme foi uma leve provocação à sentença que lhe calhou, e retratava o cineasta em prisão domiciliária, na companhia da sua iguana de estimação, e do realizador Mojtaba Mirtahmasb. Juntos, pretendiam mostrar o poder do cinema contra a repressão e liberdade de expressão. Em 2013, Closed Curtain foi uma espécie de grito de desespero de Panahi, um murro no estômago também para o público. Em Taxi (2015), começaram as suas "aventuras" pelas ruas de Teerão numa docuficção onde Panahi interpreta um taxista. Já Três Rostos e Ursos Não Há são duas incursões noutros territórios, com o realizador a interpretar-se a si mesmo na acção. 


Foi Só Um Acidente é filmado depois de, em 2022, as autoridades iranianas terem voltado a prender Jafar Panahi durante sete meses, até este ter feito uma greve de fome e pago uma caução. A revolta está espelhada na longa-metragem, criada a partir de várias conversas com outros reclusos do regime iraniano, e que se revela bastante diferente das suas antecessoras. 

"Eghbal viaja de carro com a mulher grávida quando atropela e mata um cão. Encalhado na estrada, procura ajuda na garagem de Vahid, sem saber que o seu salvador acredita que é ele o agente prisional que o torturou."

O pânico que toma conta de Vahid ao reconhecer a voz e os passos de Eghbal rapidamente se transforma num insaciável desejo de vingança: mas sem nunca lhe ter visto a cara durante o tempo em que esteve preso, as dúvidas começam a assolá-lo. E é a partir daí que se entra numa espécie de road movie rumo à mais justa vingança possível. E eis que entram em cena outros antigos presos políticos, submetidos a torturas arrepiantes pela mão do mesmo homem. Pagar na mesma moeda a quem lhes arruinou a vida pode não ser a decisão mais ética, mas aqui o que importa é não se vingarem do homem errado.


O conflito moral é o motor de Foi Só Um Acidente e Jafar Panahi sabe como adensá-lo até ao extremo, desde logo ao começar por humanizar o possível torturador na primeira cena, mostrando a sua família: uma filha pequena e a mulher grávida.

Este é, sem dúvida, o filme mais violento do realizador iraniano. Pouco gráfico, mas muito agressivo nas palavras e ideias. Os horrores relembrados pelos antigos presos políticos, representados pelos vários actores, e todas as formas de exteriorizar a raiva e o ódio que sentem são uma arma para desafiar o sistema doentio onde sobrevivem.


Filmado em segredo, a grande maioria das cenas de Foi Só Um Acidente são rodadas em zonas isoladas ou de dentro da carrinha - ela própria testemunha de todos os pecados ou arrependimentos das personagens. Este secretismo estende-se da realidade à ficção, e a tensão passa para o outro lado do ecrã, que assiste também impassível a todas as injustiças cometidas pelo regime iraniano.


E no meio deste drama violento, há momentos de humor que não fazem desaparecer a aura pesada de Foi Só Um Acidente, mas recordam que continua a ser Panahi atrás da câmara. Sente-se brutalmente a sua revolta e desilusão com o país que ama, mas é sempre o seu coração pacificador a tomar as rédeas. Uma lição de vida para todos que o assistam.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Sugestão da Semana #692

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Foi Só Um Acidente, do realizador iraniano Jafar Panahi - que foi ao Cinema Ideal, em Lisboa, no dia 10 de Novembro, apresentar o filme. A longa-metragem foi vencedora da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2025.

FOI SÓ UM ACIDENTE


Ficha Técnica:
Título Original: Yek tasadef sadeh / It Was Just an Accident
Realizador: Jafar Panahi
Elenco: Vahid Mobasseri, Mariam Afshari, Ebrahim Azizi, Hadis Pakbaten, Majid Panahi, Mohamad Ali Elyasmehr, George Hashem Zadeh, Delmaz Najafi, Afsaneh Najm Abadi
Género: Crime, Drama, Thriller
Classificação: M/14
Duração: 103 minutos

terça-feira, 26 de julho de 2022

'Irão Cinema': Semana de filmes iranianos de 28 de Julho a 3 de Agosto no Cinema Ideal

O Cinema Ideal, em Lisboa, anunciou o ciclo Irão Cinema, de 28 de Julho a 3 de Agosto, com a exibição de filmes iranianos, em solidariedade com os cineastas presos Jafar Panahi, Mohammad Rasoulof e Mostafa Aleahmad.

Serão projectadas obras de dois dos três realizadores detidos, bem como de Abbas Kiarostami, "figura tutelar do cinema iraniano" ao longo de muitos anos, e de Asghar Farhadi. Ao mesmo tempo, estão em cartaz mais dois filmes de cineastas do Irão: Estrada Fora, de Panah Panahi, e A Lei de Teerão, de Saeed Roustaee.

O ciclo Irão Cinema vai apresentar Táxi e 3 Rostos, de Jafar Panahi, O Mal Não Existe, de Mohammad Rasoulof, Shirin e Like Someone in Love, de Abbas Kiarostami, O Vendedor, de Asghar Farhadi, e o já referido A Lei de Teerão, de Saeed Roustaee.


PROGRAMA E CALENDÁRIO

28 de Julho a 3 de Agosto

Bilhetes: 4,5€

28 Julho: TAXI, Jafar Panahi

29 Julho: 3 ROSTOS, Jafar Panahi

30 Julho: O MAL NÃO EXISTE, Mohammad Rasoulof

31 Julho: SHIRIN, Abbas Kiarostami

1 Agosto: LIKE SOMEONE IN LOVE, Abbas Kiarostami

2 Agosto: O VENDEDOR, Asghar Farhadi

3 Agosto: A LEI DE TEERÃO, Saeed Roustaee

Mais informações em https://www.cinemaideal.pt/.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Curtas Vila do Conde'20: Sergei Loznitsa, Jafar Panahi, Guy Maddin e Nicolas Pereda em Competição

O Curtas Vila do Conde 2020 revelou os títulos seleccionados para a Competição Internacional e Experimental. Nomes como Sergei Loznitsa, Jafar Panahi, Guy Maddin e Nicolas Pereda são alguns dos realizadores com filmes nesta edição.

Electric Swan, Konstantina Kotzamani

Sergei Loznitsa e Jafar Panahi foram desafiados, pela Ópera Nacional de Paris, para criarem uma obra que tivesse como ponto central uma cantora. A Night at The Opera (Loznitsa) e Hidden (Panahi) trazem dois olhares sobre a cultura da Ucrânia e do Irão, respectivamente, onde as heroínas cantam, questionando noções de representação e interpretação. Bella, de Thelyia Petraki, desenvolve-se a partir de cartas de amor trocadas entre Anthi e Christos na recta final da Guerra Fria e da queda do Muro de Berlim, conjugando documentário e ficção. Correspondencia, de Carla Simón e Dominga Sotomayor, discute heranças familiares e maternidade. Electric Swan, de Konstantina Kotzamani, faz um micro-retrato da comunidade de Buenos Aires, através da história de um edifício onde diferentes classes habitam diferentes andares. Em Diarios del exilio, de Irene Gutiérrez, reúnem-se filmes de arquivo e filmagens caseiras, que ilustram o êxodo massivo no pré-ditadura espanhola e documentam um dos mais marcantes pontos históricos do país. 

Em Mi piel, luminosa, de Nicolás Pereda e Gabino Rodríguez, a figura central é uma criança posta em isolamento na sala de aula devido a uma doença que lhe tirou o pigmento natural da pele. South, de Morgan Quaintance, acompanha duas organizações anti-racistas e anti-fascistas propondo um olhar sobre o poder das vozes colectivas e singulares na sociedade que construímos.

Destaque ainda para Stump the Guesser, novo tomo na cinematografia surreal e onírica do canadiano Guy MaddinColor-blind, de Ben Russell, um retrato feito entre a Polinésia Francesa e a Bretanha, que segue o “fantasma” de Gaugin pelo legado colonial do presente, e Casa Sol, de Lúcia Prancha, que explora o universo militante da escritora brasileira Hilda Hilst.

Num ano de excepção, a Selecção Oficial para a Competição Internacional e Experimentar constrói-se "em cima de uma reflexão sobre a forma como o público e o privado contaminam a construção de identidades"

O Curtas Vila do Conde realiza-se entre 3 e 11 de Outubro. Mais informações em https://festival.curtas.pt/.

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

A Night At The Opera, Sergei Loznitsa, França, 2020, DOC, 19'48''
Bella, Thelyia Petraki , Grécia, 2020, FIC, DOC, 24'35''
Camille Sans Contact, Paul Nouhet, França, 2020, FIC, 15'
Correspondencia, Carla Simón, Dominga Sotomayor, Chile, Espanha, 2020, DOC, 19'29''
Diarios del exilio, Irene Gutiérrez, Espanha, 2019, DOC, 43''
Dustin, Naïla Guiguet, França, 2020, FIC, 20''
Electric Swan, Konstantina Kotzamani, França, Grécia, Argentina, 2019, FIC, 40''
Empty Places, Geoffroy De Crécy, França, 2020, ANI, 08'30''
Filles Bleues, Peur Blanche, Marie Jacotey, Lola Halifa-Legrand, França, 2020, ANI, 10''
Forastera, Lucía Aleñar Iglesias, Espanha, 2020, FIC, 19''
Hidden, Jafar Panahi, França, Irão, 2020, DOC, 19''
Homeless Home, Alberto Vázquez, França, Espanha, 2020, ANI, 10'
How to Disappear, Total Refusal (Robin Klengel, Leonhard Müllner, Michael Stumpf), Austria, 2020, ANI, DOC, 21''
L’effort Commercial, Sarah Arnold, Suíça, França, 2020, FIC, 16'58''
La Bobine 11004, Mirabelle Fréville , França, 2020, DOC, 19'
Love Hurts, Elsa Rysto, França, 2020, FIC, 30'
Mi piel, luminosa, Nicolás Pereda, Gabino Rodríguez, México, Canadá, 2019, DOC, 39'
Nina, Hristo Simeonov, Bulgária, 2020, FIC, 19'57''
On Est Pas Près D’être Des Super Héros, Lia Bertels, Bélgica, Portugal, 2019, ANI, 12'48''
Os Olhos Na Mata E O Gosto Na Água, Luciana Mazeto, Vinícius Lopes, Brasil, Alemanha, 2020, DOC, 36'20''
Physique de la tristesse, Theodore Ushev, Canadá, 2019, ANI, 27'
Pour Elsa, Carmen Leroi, França, 2020, FIC, 30'
Rio, Zhenia Kazankina, Rússia, 2019, FIC, 22'
Something To Remember, Niki Lindroth von Bahr, Suécia, 2019, ANI, 5'
Souvenir Souvenir, Bastien Dubois, França, 2020, ANI, 15'
Stump the Guesser, Guy Maddin, Evan Johnson, Galen Johnson, Canadá, 2019, FIC, 19'
Subject to Review, Theo Anthony, EUA, 2019, DOC, 38'
The End Of Suffering (A Proposal), Jacqueline Lentzou, Grécia, 2020, FIC, 14'15''
The Kites, Seyed Payam Hosseini, Irão, 2020, FIC, 14'
The Unseen River, Pham Ngoc Lân, Vietname, Laos, 2020 , FIC, 23''
Victor In Paradise, Brendan McHugh, EUA, 2020, FIC, 13'20''
Waste No.4 New York, New York, Jan Ijäs, Finlândia, EUA, 2020, DOC, 19'30''
Witness, Ali Asgari, França, Irão, 2020, FIC, 14'51''

COMPETIÇÃO EXPERIMENTAL

Aggregate States of Matters, Rosa Barba, Perú, Alemanha, 2019, DOC, 21'20''
Autoficción, Laida, EUA, Espanha, Nova Zelândia, 2020, EXP, 14'
Casa do Sol, Lúcia Prancha, Portugal, Brasil, 2020 , EXP, 12'01''
Cézanne, Luke Fowler, Reino Unido, França, 2019, EXP, 6'36''
Color-blind, Ben Russell, França, Alemanha, 2019, EXP, 30'
Extraction: The Raft Of The Medusa, Salomé Lamas, Portugal, Suíça, Itália, 2019, 2020, EXP, 10'43''
Jiíbie, Laura Huertas Millán, Colômbia, França, 2019, DOC, 25''
Look Then Below, Ben Rivers, Reino Unido, 2019, EXP, 22'30''
Notes Imprints (On Love) Parts I, Alexandra Cuesta, EUA, Equador, 2019, EXP, 18'40''
People on Sunday, Tulapop Saenjaroen, Tailândia, 2020, EXP, 20'53''
Plática de una Flor, Helena Estrela, Espanha, 2020, EXP, 2'44''
South, Morgan Quaintance, Reino Unido, 2020, DOC, EXP, 28'15''
The Giverny Document (Single Channel), Ja'Tovia M. Gary, EUA, França, 2019, EXP, 40'
THORAX, Siegfried A. Fruhauf, Austria, 2019, EXP, 8'
Una Película En Color, Bruno Delgado Ramo, Espanha, 2019, DOC, 26'46''

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Sugestão da Semana #377

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o mais recente filme do realizador iraniano Jafar Panahi, 3 Rostos. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme pode ser lida aqui.

3 ROSTOS


Ficha Técnica:
Título Original: Se rokh
Realizador: Jafar Panahi
Actores: Behnaz Jafari, Jafar Panahi, Marziyeh Rezaei, Maedeh Erteghaei, Narges Del Aram
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 100 minutos

segunda-feira, 13 de maio de 2019

IndieLisboa'19: 3 Rostos/ 3 Faces (2018)

*7.5/10*


Jafar Panahi continua a "cumprir" a pena de 20 anos sem filmar a que foi condenado em 2010, supostamente por fazer propaganda contra o governo iraniano. Ora, nos primeiros oito anos destas duas décadas já podemos contar com quatro longas-metragens (Isto Não É Um Filme, Pardé, Táxi e 3 Faces)  na sua filmografia - clandestinas, mas que chegam ao mundo inteiro, felizmente.

3 Faces (3 Rostos) é o seu filme mais recente, onde explora o feminismo e a forma como as mulheres continuam a ser tratadas no Irão, em especial em regiões mais isoladas. Ao mesmo tempo, traça um retrato do Irão mais "profundo", numa espécie de road movie, por estradas estreias e sinuosas, em que as buzinadelas funcionam como código entre condutores.


Três actrizes em diferentes estágios da sua carreira e de três gerações distintas são o foco de 3 Faces. Uma delas, foi uma estrela antes da Revolução Islâmica de 1979, outra é uma actriz dos dias de hoje, famosa por todo o país, e a mais nova é uma jovem que ambiciona entrar no conservatória, mas cuja família proíbe.

Humor, drama e suspense, os três géneros juntam-se neste filme de Panahi que também tem muito de documental, a começar por todas as personagens se interpretarem a elas mesmas, realizador incluído. Jafar Panahi, acompanhado por Behnaz Jafari, imiscui-se entre as pessoas daquela aldeia conservadora e retrógrada, onde as mulheres continuam a ser subjugadas e proibidas de estudar ou seguir os seus sonhos. Isolados de tudo, vêem no gado uma importante forma de subsistência.

Ao mesmo tempo, o misterioso desaparecimento da jovem Marziyeh - que enviou um vídeo desesperado a Jafari a pedir ajuda - transforma 3 Faces num filme de detectives.


Nos encontros que Panahi e Jafari vão tendo ao longo da viagem, conhecemos a hospitalidade dos locais, mas descobrimos igualmente mais tradições ancestrais que podem por em causa a própria presença do realizador e da actriz, ou pelo menos, alterar-lhes um pouco crenças e comportamentos. Behnaz Jafari, muitas vezes pensativa, parece recordar tudo pelo que passou para seguir a carreira artística.

3 Faces dá continuidade à crítica cerrada que Jafar Panahi tem construído ao longo da sua obra, ao mesmo tempo que faz um elogio às actrizes e às Mulheres.

terça-feira, 19 de março de 2019

IndieLisboa'19 anuncia filmes de abertura e encerramento

O IndieLisboa revelou quais os filmes de abertura e encerramento da edição deste ano. The Beach Bum: A Vida Numa Boa, de Harmony Korine, faz as honras de abertura do festival lisboeta e Synonymes, de Nadav Lapid, marca o encerramento.


The Beach Bum segue as desventuras de Moondog (Matthew McConaughey), um “chico-esperto” que vive de acordo com as suas próprias regras. No elenco estão também nomes como Snoop Dog, Zac Efron e Isla Fisher. A Sessão de Abertura será no dia 2 de Maio no Cinema São Jorge. Synonymes, vencedor do Urso de Ouro em Berlim, conta a história de um jovem israelita que rejeita o seu país e a sua língua, para viver em Paris.

De Mike Leigh, a secção Silvestre recebe o filme Peterloo, uma reconstituição do massacre com o mesmo nome, resultante do ataque da coroa britânica a uma pacífica manifestação pro-democracia. Destaque ainda para I Was at Home But, de Angela Schanelec, vencedor do Urso de Prata em Berlim, e Three Faces, de Jafar Panahi, que junta três actrizes em diferentes estados da sua carreira para, através delas, questionar algumas das mais enraizadas tradições da sociedade patriarcal iraniana.

A 16.ª edição do IndieLisboa – Festival Internacional de Cinema decorre entre os dias 2 a 12 de Maio no Cinema São Jorge, Culturgest, Cinema Ideal e na Cinemateca Portuguesa.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Sugestão da Semana #176

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana do Hoje Vi(vi) um Filme destaca o mais recente filme de Jafar Panahi, Taxi.

TAXI


Ficha Técnica:
Título Original: Taxi
Realizador: Jafar Panahi
Actores: Jafar Panahi
Género: Drama
Classificação: M/12
Duração: 82 minutos

domingo, 27 de outubro de 2013

DocLisboa'13: Pardé / Closed Curtain (2013)

*9/10*
No terceiro dia de DocLisboa'13, Sábado, a secção Riscos abriu a tarde na Sala Manoel de Oliveira, no Cinema São Jorge. O filme - arriscado - é Pardé (ou Closed Curtain), realizado por Jafar Panahi (realizador iraniano que cumpre uma pena de proibição de filmar por 20 anos) e Kamboziya Partovi, e foi apresentado por Augusto M. Seabra.


Depois de Isto não é um Filme, que também passou pelo DocLisboa em 2011, Jafar Panahi volta a desafiar a proibição que lhe foi imposta e faz chegar ao mundo mais uma obra avassaladora que merece ser vista e espelha uma difícil realidade. A deambular entre documentário e ficção, Closed Curtain parece fugir apenas para o fictício, mas é muito mais real do que à partida faz crer.

Numa casa, à beira-mar, as cortinas estão fechadas e as janelas foram cobertas de negro. Lá dentro, esconde-se um escritor com o seu cão. Inesperadamente, surge uma jovem mulher misteriosa, que se recusa a ir embora, deixando o homem pouco à vontade. Contudo, ao nascer do dia, outra chegada irá perturbar todos.

Cheio de simbologia, em cada movimento, em cada personagem, Closed Curtain tem tudo para ser um dos melhores filmes do DocLisboa'13. Premiado em Berlim com o Urso de Prata para Melhor Argumento, Jafar Panahi continua, contra tudo e contra todos (pelo menos no seu país), a mostrar ao mundo o desespero que o consome. Closed Curtain é um desafio, não somente às autoridades iranianas, mas ao espectador, que não estará de todo preparado para o que se segue. A longa-metragem apela às interpretações de cada um, e é um retrato psicológico do realizador e do que o apoquenta, numa realidade semelhante à sua.

Kamboziya Partovi, para além de co-realizar esta obra, é também o protagonista, o escritor que se isola nesta casa à beira-mar com o seu expressivo cão. Percebemos rapidamente que este homem se esconde, que é perseguido. Ele fecha todas as janelas com panos pretos para não deixar passar a luz, para que ninguém perceba que há vivalma naquele local. Contudo, quando Melika e o seu irmão ali surgem em busca de abrigo - também eles são perseguidos -, toda a tranquilidade e solidão que o escritor procura se altera bruscamente. A manhã seguinte irá trazer-nos novas revelações e, talvez, algumas explicações.


A personagem de Partovi é um espelho de Panahi, um perseguido que tem de se esconder para poder fazer o seu trabalho e proteger o seu animal de estimação. Há alguns anos - tudo parece ter piorado em 2013 -, que os cães não são permitidos no Irão. A quem for apanhado a passeá-los, "apreendem" o animal, levando-o para um local secreto, provavelmente para ser morto. Relativamente a este tema, Panahi Partovi incluem no filme o pequeno cachorro do escritor, que também ali se esconde para não passar pela realidade a que assiste na televisão - um bela e triste cena de Curtain Closed.

Por seu lado, a misteriosa Melika, que dizem-nos ter tendências suicidas, surge simbolicamente como a repressão do país. Sempre à espreita, sempre a perturbar o escritor enquanto este tenta trabalhar, sempre a dar sugestões pouco felizes - mesmo a Panahi. Ela aparece e desaparece quando menos se espera.

Mas não é só em termos argumentativos que Curtain Closed prima pela genialidade. Realização, fotografia (a cargo de Mohammad Reza Jahanpanah) e montagem (a cargo do próprio Panahi) oferecem-nos planos de grande beleza, que, por vezes, jogam com espelhos, deixando-nos ainda mais no limbo entre o real e o imaginário. O filme tem uma construção desafiante - Panahi mistura-se com a sua criação e funde-se nela.

Curtain Closed é um desesperante retrato do estado psicológico de Panahi face às restrições que lhe foram impostas, e de uma realidade que ainda nos é muito distante. Cabe-nos a nós encontrar todos os significados escondidos por detrás desta cortina fechada e desconstruí-los.

Curtain Closed voltará a ser exibido no DocLisboa'13 no dia 31 de Outubro, às 16h30, no City Alvalade - Sala 1.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

DocLisboa'13: Abertura, Encerramento e Mohammad Rasoulof

Doclisboa – Festival Internacional de Cinema acontece este ano entre 24 de Outubro e 3 de Novembro e já se conhecem os filmes de abertura e encerramento. Pays Barbare, de Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi, abre esta 11ª edição e será Manuscripts don’t Burn, de Mohammad Rasoulof, a marcar o encerramento do festival.


A Sessão de Abertura do Doclisboa’13 acontece a 24 de Outubro, às 21h30, no Grande Auditório da Culturgest, onde Pays Barbare, será apresentado pelos cineastas, sediados em Milão, Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi. Através de arquivos, o filme relata a presença colonial italiana na Etiópia e os mecanismos de subjugação aí utilizados durante a ditadura de Mussolini. Este documentário surge como um acto político, apelando à memória e à reflexão.

Por sua vez, a Sessão de Encerramento, no dia 2 de Novembro, apresentará Manuscripts don’t Burn, do realizador iraniano Mohammad Rasoulof, que conta a história real de um homem perseguido pelos serviços secretos iranianos, que tenta publicar as suas memórias de presidiário e sair do país. O filme é uma denúncia meticulosa de repressão no Irão. Ao longo do DocLisboa'13, serão apresentados documentários de outros dois cineastas iranianos dissidentes: Mohsen Makhmalbaf, exilado desde 2005, e Jafar Panahi (Isto não é um Filme, 2011), impedido de filmar no Irão e condenado a seis anos de prisão domiciliária.

Mohammad Rasoulof foi um dos cineastas detidos juntamente com Jafar Panahi. Em 2011, apresentou Goodbye, filme que venceu o prémio de realização Un Certain Regard, em Cannes. Este ano, conquistou o prémio FIPRESCI, no mesmo festival, por Manuscripts don’t Burn, filmado clandestinamente no Irão.

Manuscripts don’t Burn
O DocLisboa acrescenta também, em comunicado, que ainda este mês, Rasoulof disse reconhecer algumas razões de optimismo quanto ao regime iraniano, com a reabertura da House of Cinema. Contudo, o cineasta foi detido à chegada a Teerão, no dia 19 de Setembro onde lhe confiscaram o passaporte, encontrando-se agora sob interrogatório.“As últimas notícias de Mohammad Rasoulof indicam que se encontra em Teerão, impedido de sair do país. Depois do primeiro interrogatório, na quinta-feira, dia 26 de Setembro, foi chamado para contactar novamente as autoridades, no Sábado”, disse uma fonte próxima do realizador iraniano. A mesma fonte enviou um e-mail à direcção do DocLisboa explicando que "esta situação é inaceitável e que é necessário esclarecer que Rasoulof foi detido contra a sua vontade e que está impedido de fazer o seu trabalho como realizador e artista”.

A organização do DocLisboa explica pois que, por esta razão, não pode garantir a presença do realizador no júri da Competição Internacional da edição deste ano, para o qual foi convidado, e na Sessão de Encerramento. O festival afirma que está e estará solidário com a situação de Mohammad Rasoulof.