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terça-feira, 5 de novembro de 2013

DocLisboa'13: The Great North Korean Picture Show (2012)

*7/10*

The Great North Korean Picture Show, de James Leong e Lynn Lee, trouxe ao DocLisboa'13 uma realidade quase desconhecida - o cinema na Coreia do Norte. Após uma autorização que demorou a ser concedida, e limitados a trabalhar sobre restrições impostas pelos norte-coreanos, os realizadores trazem até nós um interessante retrato de uma sociedade tão longe da nossa, tanto espacial como culturalmente.

Não sabemos ao certo quais foram as decisões dos censores quanto às imagens que os realizadores filmaram - o que é que realmente ficou de fora. Mas podemos constatar que, no resultado final, se poderia ter ido mais além. Sentimos falta de conhecer a História do cinema norte-coreano, ou mesmo de uma conclusão.

A ironia está presente nos comentários iniciais dos realizadores, mas, pouco depois, perde-se para apenas nos inserir no quotidianos de dois estudantes de representação e - um dos melhores momentos da longa-metragem - daquele que é considerado o maior realizador da Coreia do Norte, Pyo Hang.

A indústria cinematográfica norte-coreana é uma ferramenta fundamental na maquinaria de propaganda do regime. Esta foi a primeira vez que realizadores estrangeiros puderam entrar na única escola de cinema do país, uma instituição onde jovens são treinados para criar obras, não apenas para entreter, mas para ajudar a moldar a psique de uma nação inteira.


Em The Great North Korean Picture Show percebemos bem como estes jovens aprendizes de actores são moldados - numa espécie de modelo a seguir -, e devem ser bons não só na representação, mas na dança, patinagem ou música, mantendo sempre um aspecto saudável e belo. Ao mesmo tempo, Pyo Hang mostra-nos uma motivação e orgulho extremo por fazer filmes que agradem ao "querido líder" e glorifiquem o país.

James Leong e Lynn Lee conseguiram o que ainda mais ninguém fez: entraram na realidade fechada da Coreia do Norte e filmaram-na, do ponto de vista cinematográfico. Apesar de se pedir um pouco mais de coragem e de contexto histórico, o resultado de The Great North Korean Picture Show é curioso e material de reflexão.

DocLisboa'13: Un Voyageur / Ain't misbehavin (2013)

*7/10*

Un Voyageur, de Marcel Ophüls, passou pelo DocLisboa'13, e traz até nós as memórias do realizador. Ele partilha-as connosco numa viagem pela História do Cinema.

Desde a infância marcada pela Segunda Guerra Mundial, ao feitio difícil do seu pai - o também realizador Max Ophüls -, até à entrada em Hollywood, acompanhamos as viagens e a vida de Marcel Olphüs, contada pelo próprio. A acompanhar o relato dos acontecimentos temos fotografias antigas, excertos de diversos filmes - muitos deles de Max Ophüls -, e o realizador, na actualidade, sempre divertido e, muitas vezes, comovido.

Marcel fala de e com diversas personalidades como Jeanne Moreau, Bertold Brecht, Ernst Lubitsch, Otto Preminger, ou o seu amigo François Truffaut. Temos ainda a oportunidade de conhecer as cartas escritas por Woody Allen e Stanley Kubrick relativamente ao trabalho de Ophüls, momentos verdadeiramente marcantes para o realizador.

Un Voyageur é uma interessante jornada, quase confessional, com Marcel Ophüls, devidamente ilustrada, intimista e comovente.


DocLisboa'13: A Mãe e o Mar / The Mother and the Sea (2013)

*7/10*

A última pescadeira de Vila Chã serve de mote para a nova longa-metragem de Gonçalo Tocha, depois de É na Terra, Não é na Lua. No DocLisboa’13 o filme conquistou o Prémio Liscont - Prémio para melhor longa-metragem da Competição Portuguesa.

Com Glória, o realizador leva-nos a mergulhar na História das mulheres pescadeiras portuguesas, aquelas que, munidas de uma coragem pouco comum, faziam um trabalho normalmente associado aos homens. Vila Chã é dos poucos lugares do mundo com mulheres arrais (chefes de embarcação), mas apenas Glória resta para fazer e contar a História na primeira pessoa. As gentes do local recordam os tempos em que eram muitas as mulheres que iam ao mar, e nós entramos neste ondular de nostalgia.

Acompanhamos conversas de café entre pescadores e ex-pescadores, embarcamos com Glória numa noite de faina, contam-nos as histórias das famílias das antigas pescadeiras, e assistimos ao trabalho duro que Glória – aos 67 anos – ainda faz sem queixas.

De elogiar é a forma como Tocha, uma vez mais, se insere numa comunidade como se dela fizesse parte e nos convida a participar daquele quotidiano. Ainda assim, sente-se que em curta ou média-metragem A Mãe e o Mar poderia ter um resultado mais dinâmico.

As personagens são encantadoras, desde Glória, à sua mãe, passando por Inês, pelos pescadores do café, não esquecendo, claro, o homem que fala com o mar. A Mãe e o Mar é um filme de momentos, onde gargalhadas não faltam nem a saudade de um tempo que passou e que só Glória continua a marcar o presente.

DocLisboa'13: Death Metal Angola (2012)

*8.5/10*

Realizado por Jeremy Xido, Death Metal Angola trouxe o metal e o rock feitos em Angola para a secção Heart Beat do DocLisboa e para o Mundo. O filme segue a organização do primeiro concerto de rock do país - o sonho de Wilker e Sonia -, juntando membros de diferentes tendências da cena hardcore angolana, oriundos de várias províncias. O palco deste festival de música será o cenário bombardeado e minado do outrora imponente Huambo.

Marcada pela guerra, morte e superstições, a cidade de Huambo, em Angola, era uma "cidade fantasma" quando, em 1996, Sonia chegou. Cruzou-se com "pessoas de olhar vazio", "sem rumo" e ali criou Okutiuka, que acolhe crianças brutalizadas pela guerra, que perderam os pais e a família. Sonia "é uma grande mãe" para estes jovens, segundo as palavras dos mesmos, e o seu dia-a-dia junto deles é-nos apresentado. Ao mesmo tempo, ao conhecermos Wilker (namorado de Sonia), descobrimos o seu sonho comum: organizar um festival de rock em Huambo. "Duvido que haja música que permita que a alma fale melhor" do que esta, diz Sonia.

Death Metal Angola traz-nos uma fusão improvável: música rock numa cidade devastada. Sonia conta-nos como Huambo "é uma província culturalmente muito pobre", tudo desapareceu com a guerra. Com este festival, o casal pretende trazer ao país algo diferente, uma cultura quase desconhecida, e como alguém refere, "para um país que não estava habituado a ouvir barulho de música mas a ouvir barulho de tiros, [isso] é muito bom".


Conhecemos muitas bandas do panorama do rock e do metal em Angola: Before Crush, Neblina, Black Soul, Instinto Primário, Dor Fantasma ou Fios Eléctricos são alguns dos nomes que surgem neste documentário. Todos se unem pela mesma causa e todos provam como a guerra e o rock e metal angolanos estão interligados. As bandas referem que a música que fazem é como “um grito de revolta”, uma forma de se libertarem da dor causada pela guerra.

Death Metal Angola intercala de forma muito competente o passado e o presente de Huambo, o trabalho de Sonia com as crianças da cidade e os esforços do casal na organização do festival. À medida que o tempo passa e a data do evento se aproxima, seguimos todos os seus passos, desde a divulgação na rádio em Benguela, às dificuldades financeiras em véspera dos concertos, até aos problemas técnicos do grande dia.

Jeremy Xido consegue fazer com que nos envolvamos intensamente em Death Metal Angola. Insere-nos na realidade marcada pela destruição e pela morte, com os relatos crus e arrepiantes de Sonia, visivelmente emocionada. Ao mesmo tempo, vamos conhecendo as histórias de algumas das crianças de Okutiuka, que também elas encontram no rock uma forma de libertação do seu passado infeliz.

Sonia e Wilker dão tudo de si por esta causa, pelo seu sonho, e fizeram História. Para Wilker, "rock significa poesia, amor, canção, estilo de vida, alegria, felicidade..." – somente elementos positivos que quis partilhar com uma cidade marcada pela tristeza, com um país habituado a outros estilos de música. Death Metal Angola faz o Mundo descobrir a paixão angolana pelo metal e mostra como este estilo de música “pesada” serve de escape e dá força para seguir em frente, mais felizes.

domingo, 3 de novembro de 2013

DocLisboa'13: Vencedores

O DocLisboa'13 acaba este Domingo, dia 3, e já se conhecem os grandes vencedores desta edição. O anúncio dos vencedores e entrega dos prémios aconteceu há pouco, na Sessão de Encerramento do festival, a que se seguiu a exibição do filme Manuscripts Don't Burn, de Mohammad Rasoulof.


Aqui fica a lista completa de filmes vencedores:

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL 

Grande Prémio Cidade de Lisboa para Melhor Longa-Metragem da Competição Internacional 
E Agora? Lembra-me / What Now? Remind Me, de Joaquim Pinto

Menção Honrosa
Sangue / Blood, de Pippo Delbono


Prémio Especial Doclisboa do Júri da Competição Internacional
Nichnasti pa'am Lagan / Once I entered a Garden, de Avi Mograbi


Prémio Jameson - Prémio para Melhor Curta-Metragem da Competição Internacional
Mauro em Caiena / Mauro in Cayenne, de Leonardo Mouramateus

Menção Honrosa
La Huella / The Imprint, de Tatiana Fuentes Sadowski


Prémio Revelação Internacional - Pixel Bunker

Prémio para Melhor Primeira ou Segunda Obra Transversal à Competição Internacional, Investigações e Riscos
Eclipses, de Daniel Hui

Menção Honrosa
Chroniques Équivoques / Equivocal Chronicles, de Lamine Ammar-Khodja


Prémio Universidades

Prémio Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa para Melhor Longa-Metragem da Competição Internacional
E Agora? Lembra-me / What Now? Remind Me, de Joaquim Pinto

Menção Honrosa 
Sto Lyko / To the Wolf, de Aran Hughes e Christina Koutsospyrou


Investigações

Prémio RTP para Melhor Documentário de Investigação
Les Chebabs de Yarmouk / The Shebabs of Yarmouk, de Axel Salvatori-Sinz

Menções Honrosas
Élevage de Poussière / Dust Breeding, de Sarah Vanagt

El Impenetrable, de Danièle Incalcaterra e Fausta Quattrini


COMPETIÇÃO PORTUGUESA 

Prémio Liscont - Prémio para melhor longa-metragem da Competição Portuguesa
A Mãe e o Mar / The Mother and the Sea, de Gonçalo Tocha
  
Menção Honrosa
Os Caminhos de Jorge / Jorge's Paths, de Miguel Moraes Cabral

Prémio O Ganho do Som para Melhor Primeira ou Segunda Longa-Metragem da Competição Portuguesa
Os Dias com Ele / The Days with Him, de Maria Clara Escobar

Menção Honrosa
A Campanha do Creoula / The Quest of the Schooner Creoula, de André Valentim Almeida


Prémio Culturgest para Melhor Curta-Metragem da Competição Portuguesa
Tabatô, de João Viana


Prémio Escolas

Prémio Restart para Melhor Longa-Metragem da Competição Portuguesa
A Campanha do Creoula / The Quest of the Schooner Creoula, de André Valentim Almeida

Menção Honrosa
Twenty-One-Twelve The Day the World didn't end, de Marco Martins


Prémio do Público

Prémio Universidade Lusófono de Humanidades e Tecnologias para Melhor Longa-Metragem Portuguesa
A Última Encenação de Joaquim Benite Não Basta dizer "Não"/ Joaquim Benite's Last Theatre Production It's not enough to say "No", de Catarina Neves

Prémio C.P.L.P. para Melhor Longa-Metragem dos Países de Língua Portuguesa das Secções Competitivas 
E Agora? Lembra-me / What Now? Remind Me, de Joaquim Pinto

sábado, 2 de novembro de 2013

DocLisboa'13: Pater (2011)

*7.5/10*

Alain Cavalier é o cineasta em retrospectiva neste DocLisboa'13 e, no passado dia 30, esteve presente na sessão da sua mais recente longa-metragem, Pater.

Cavalier uniu-se ao actor Vincent Lindon e o resultado é Pater, onde os dois decidem fazer-se passar, por momentos, por Presidente da República e Primeiro-Ministro, respectivamente. O objectivo é propor uma lei que reduza as diferenças salariais. Passando da realidade à ficção e vice-versa, descobrem serem diferentes do que julgavam.

É curioso ver como ficção e realidade se misturam e cativam a nossa atenção. Assistimos ao debate de ideias entre o "Presidente da República", Cavalier, e o "Primeiro-Ministro", Lindon, às suas propostas, que desencadeiam alguns conflitos entre os dois. 

Pater é extremamente divertido e inteligente, mostrando-nos os dois lados - realidade e ficção - numa interessante desconstrução que culmina na derradeira cena do filme. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

DocLisboa'13: Pays Barbare (2013)

*7/10*
Pays Barbare, de Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi, abriu o DocLisboa'13 e integra a Competição Internacional de longas-metragens do festival. Um documentário sobre o fascismo de Mussolini, Il Duce, capaz de arrepiar.


Pays Barbare é o retrato de uma época terrível na história da Itália e do Mundo. Através de imagens de arquivos privados e anónimos da Etiópia e fotogramas de filmes do período do colonialismo italiano recentemente descobertos (que datam dos anos 20 e 30 do século passado), bem como de fotografias de soldados italianos em África, os realizadores trazem-nos o que chamam de "o filme necessário".

A acompanhar as imagens fortes e impressionantes a que assistimos, ouvimos narrações quase poéticas, frases que são repetidas, ora faladas, ora cantadas, mas sempre tristes. Desde o Carnaval - a demonstrar o poder da ditadura -, a corpos sem vida espalhados pelo chão, ou imagens do colonialismo, onde surgem mulheres africanas semi-nuas - o que os realizadores chamam de erotismo colonial -, são diversos os momentos-chave que Pays Barbare traz até nós.

Os arquivos são-nos apresentados relativamente modificados. Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi optaram por darem-lhes cor ou outros efeitos, no que poderá ser entendido como uma espécie de desafio àquele fascismo aterrador ou ao fascismo que os realizadores afirmam que cada era tem.

Nesta longa-metragem nada é de fácil digestão. O ponto máximo da emotividade e horror surge, provavelmente, quando nos relatam um ataque aéreo com gás a uma pequena povoação, que matou todas as pessoas e animais do local. Mussolini queria a guerra e gostava dela. Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi mostram ao mundo imagens que pouca gente viu, e oferecem-nos o retrato de um país bárbaro.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

DocLisboa'13: Cativeiro / Captivity (2012)

*8.5/10*

Cativeiro, de André Gil Mata, já tinha passado pelo DocLisboa em 2012, e repete agora o feito na presente edição, após ganhar o Prémio Doc Alliance 2013, em Cannes. A primeira longa-metragem do realizador debruça-se sobre a sua avó, o seu quotidiano, num retrato duro da rotina e da velhice, do passar do tempo, mais ou menos, consciente.

A casa da avó de Gil Mata, dona Alzira, serve de palco a este Cativeiro de tempo e espaço, a esta rotina que nos amedronta, tal como ao realizador. É ele que narra o documentário, de marcado tom pessoal, inevitavelmente, mas que nos consegue dizer quase tanto como ao seu autor. 

Filmado em 16mm e em vídeo - este predomina, mas o primeiro revela-se igualmente essencial, adensando a sensação de nostalgia e pertença ao local-, André Gil Mata partilha connosco medos, intimidade e indecisões. Dona Alzira é o centro do filme, mas no seu Cativeiro surgem outras personagens como Irene Julieta, que ajudam cuidam dela, e, ao mesmo tempo, sentimos a presença do realizador, o seu neto. "São as coisas do André", diz, a certa altura, uma das companhias da protagonista.

A acompanhar as imagens da casa e da avó, do seu gato que por lá passeia, ouvimos os desabafos do realizador, as suas preocupações, os seus objectivos, numa espécie de diário de filmagens. Desde a vontade de filmar o amanhecer na cozinha, à sua concretização, ao receio de não conseguir ali passar os 15 dias a que se propôs gravar junto da avó, Gil Mata tem-nos como seus confidentes.


E, tal como para ele é difícil encarar a realidade que filma, também para nós é duro assistir àquela rotina, às dificuldades de Alzira, à solidão, ao repetir do toque do sino da Igreja... No fundo, é duro assistir ao tempo a passar. Também nós, tal como o realizador, percebemos, a certo momento, como "o passado existe, realmente" e como não temos "noção desse futuro" que o passar do tempo faz chegar.

Cativeiro está repleto de planos, normalmente estáticos, que nos envolvem, nos entristecem e comovem, que nos fazem recordar locais ou pessoas. Perto do fim, Gil Mata percorre a casa da sua avó filmando o tecto, num plano-sequência inesquecível.

"O que são os espaços sem as pessoas que lhes pertencem?", questiona o realizador. A resposta pode estar neste documentário, que marca qualquer um que o assista. No fundo, cada um tem o seu Cativeiro.

Cativeiro passa no DocLisboa'13 no próximo Sábado, dia 2 de Novembro, às 16:45, na sala 3 do Cinema São Jorge.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

DocLisboa'13: Redemption (2013)

*8.5/10*

Miguel Gomes não tem medo de arriscar, Redemption é mais uma prova disso mesmo. E que melhor secção para esta curta-metragem que não exactamente Riscos, no DocLisboa?

A balançar entre o documental e o imaginário - os textos são fruto da imaginação de Miguel Gomes e Mariana Ricardo -, a curta-metragem apresentada no festival - que em breve estará nas salas de cinema comercial, a acompanhar o filme de Salomé Lamas, Terra de Ninguém - é original, provocadora e surpreendente, mostrando uma vez mais a genialidade do realizador português. A sua estreia aconteceu no último Festival de Cinema de Veneza.

Redemption apresenta-nos quatro histórias passadas em anos e países diferentes. A 21 de Janeiro de 1975, numa aldeia do norte de Portugal, uma criança escreve aos pais que se encontram em Angola, para falar-lhes do estado de Portugal. "Portugal é triste e vai ser sempre assim", conta ela, desiludida. No dia 13 de Julho de 2011, em Milão, um velho homem recorda o seu primeiro amor: Alessandra. Foram muitas as mulheres que teve, mas é dela que sente saudades, interrogando-se sobre o seu paradeiro: "Alessandra, onde estás?".


A 6 de Maio de 2012, em Paris, um homem diz à filha bebé que, seja o que for que ela venha a ser no futuro, ele teme que nunca vá ser um pai de verdade para ela. No dia 3 de Setembro de 1977, em Leipzig, uma noiva luta contra uma ópera de Wagner que não lhe sai da cabeça, temendo que aquele "fascista" lhe arruíne o casamento.

Em Redemption, uma dimensão privada (como refere o próprio realizador) entra em cena com as imagens de arquivo que vão ilustrando cada história, consoante o que cada narrador nos conta - e que assim, entram na esfera pública. Os quatro personagens unem-se pela tristeza e inquietação - e redenção -, pelas questões políticas que lhes estão adjacentes, tão longe, espacial e temporalmente, mas, no fundo, tão perto uns dos outros. Sentimental e mordaz, Miguel Gomes consegue tocar-nos fundo - quer estejamos em Portugal, Itália, França ou Alemanha -, e despertar no público as mais paradoxais emoções.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

DocLisboa'13: Dizzy Gillespie + The Blues Accordin' to Lightnin' Hopkins

Dizzy Gillespie e The Blues Accordin' to Lightnin' Hopkins, ambos realizados por Les Blank, cineasta falecido este ano, fazem parte da secção Heart Beat do DocLisboa'13.

Dizzy Gillespie - 6.5/10


O jazz acompanha-nos neste documentário sobre Dizzy Gillespie. Les Blank oferece-nos imagens raras do músico, que fala sobre o seu começo e sobre teorias musicais - e toca na sua famosa trompete curva. Dizzy Gillespie apresenta-nos uma personalidade descontraída e divertida do músico, intercalada com imagens ao vivo com o seu quinteto.

The Blues accordin' to Lightnin' Hopkins - 8/10


Extremamente musical, dançante e emocional, The Blues accordin' to Lightnin' Hopkins debruça-se sobre o músico de blues do Texas, Lightnin' Hopkins. Les Blank oferece-nos muita música, e insere-se no quotidiano de uma povoação que sentiu fortemente a segregação racial norte-americana. 

No meio de testemunhos, de uma actuação num churrasco ao ar livre e uma visita à cidade da sua infância, Centerville, o realizador aproxima o público do músico, comovendo-o e encantando-o com os seus bluesThe Blues accordin' to Lightnin' Hopkins traz consigo muita cor, dança e a vivacidade de um povo e de um homem.

domingo, 27 de outubro de 2013

DocLisboa'13: Pardé / Closed Curtain (2013)

*9/10*
No terceiro dia de DocLisboa'13, Sábado, a secção Riscos abriu a tarde na Sala Manoel de Oliveira, no Cinema São Jorge. O filme - arriscado - é Pardé (ou Closed Curtain), realizado por Jafar Panahi (realizador iraniano que cumpre uma pena de proibição de filmar por 20 anos) e Kamboziya Partovi, e foi apresentado por Augusto M. Seabra.


Depois de Isto não é um Filme, que também passou pelo DocLisboa em 2011, Jafar Panahi volta a desafiar a proibição que lhe foi imposta e faz chegar ao mundo mais uma obra avassaladora que merece ser vista e espelha uma difícil realidade. A deambular entre documentário e ficção, Closed Curtain parece fugir apenas para o fictício, mas é muito mais real do que à partida faz crer.

Numa casa, à beira-mar, as cortinas estão fechadas e as janelas foram cobertas de negro. Lá dentro, esconde-se um escritor com o seu cão. Inesperadamente, surge uma jovem mulher misteriosa, que se recusa a ir embora, deixando o homem pouco à vontade. Contudo, ao nascer do dia, outra chegada irá perturbar todos.

Cheio de simbologia, em cada movimento, em cada personagem, Closed Curtain tem tudo para ser um dos melhores filmes do DocLisboa'13. Premiado em Berlim com o Urso de Prata para Melhor Argumento, Jafar Panahi continua, contra tudo e contra todos (pelo menos no seu país), a mostrar ao mundo o desespero que o consome. Closed Curtain é um desafio, não somente às autoridades iranianas, mas ao espectador, que não estará de todo preparado para o que se segue. A longa-metragem apela às interpretações de cada um, e é um retrato psicológico do realizador e do que o apoquenta, numa realidade semelhante à sua.

Kamboziya Partovi, para além de co-realizar esta obra, é também o protagonista, o escritor que se isola nesta casa à beira-mar com o seu expressivo cão. Percebemos rapidamente que este homem se esconde, que é perseguido. Ele fecha todas as janelas com panos pretos para não deixar passar a luz, para que ninguém perceba que há vivalma naquele local. Contudo, quando Melika e o seu irmão ali surgem em busca de abrigo - também eles são perseguidos -, toda a tranquilidade e solidão que o escritor procura se altera bruscamente. A manhã seguinte irá trazer-nos novas revelações e, talvez, algumas explicações.


A personagem de Partovi é um espelho de Panahi, um perseguido que tem de se esconder para poder fazer o seu trabalho e proteger o seu animal de estimação. Há alguns anos - tudo parece ter piorado em 2013 -, que os cães não são permitidos no Irão. A quem for apanhado a passeá-los, "apreendem" o animal, levando-o para um local secreto, provavelmente para ser morto. Relativamente a este tema, Panahi Partovi incluem no filme o pequeno cachorro do escritor, que também ali se esconde para não passar pela realidade a que assiste na televisão - um bela e triste cena de Curtain Closed.

Por seu lado, a misteriosa Melika, que dizem-nos ter tendências suicidas, surge simbolicamente como a repressão do país. Sempre à espreita, sempre a perturbar o escritor enquanto este tenta trabalhar, sempre a dar sugestões pouco felizes - mesmo a Panahi. Ela aparece e desaparece quando menos se espera.

Mas não é só em termos argumentativos que Curtain Closed prima pela genialidade. Realização, fotografia (a cargo de Mohammad Reza Jahanpanah) e montagem (a cargo do próprio Panahi) oferecem-nos planos de grande beleza, que, por vezes, jogam com espelhos, deixando-nos ainda mais no limbo entre o real e o imaginário. O filme tem uma construção desafiante - Panahi mistura-se com a sua criação e funde-se nela.

Curtain Closed é um desesperante retrato do estado psicológico de Panahi face às restrições que lhe foram impostas, e de uma realidade que ainda nos é muito distante. Cabe-nos a nós encontrar todos os significados escondidos por detrás desta cortina fechada e desconstruí-los.

Curtain Closed voltará a ser exibido no DocLisboa'13 no dia 31 de Outubro, às 16h30, no City Alvalade - Sala 1.

DocLisboa'13: Pussy Riot: A Punk Prayer

*7/10*

Dentro do Heart Beat, a secção musical do DocLisboa, foi na Sexta-feira apresentado o filme Pussy Riot: A Punk Prayer, realizado por Mike Lerner e Maxim Pozdorovkin. O documentário acompanha todo o caso da banda punk russa Pussy Riot, antes e durante o julgamento de três dos seus membros: Nadia, Masha e Katia. O documentário foi antecedido pelo videoclip Free Pussy Riot!


Este é, vincadamente, um filme que apoia a banda russa e suas acções e surge como que para dar a conhecer o caso ao mundo, explicando melhor as convicções destas mulheres, as suas acções, a performance satírica que levou Nadia, Masha e Katia a enfrentar uma pena de prisão, ou as reacções de ortodoxos, políticos russos, músicos e artistas de todo o planeta.

Para além dos testemunhos das próprias arguidas no tribunal, conhecemos ainda as suas famílias, as suas histórias individuais, para melhor podermos justificar os actos - algo inconsequentes - que as levaram à cadeia. Ao mesmo tempo, acompanhamos as manifestações contra e a favor destas jovens, um pouco por todo o mundo.

Cor e música não faltam a Pussy Riot: A Punk Prayer, tal como à banda. Caras tapadas por gorros coloridos, roupa feminina e alegre, apelam à liberdade e ao feminismo. Depois de conhecer pormenores, reacções e sentença, cabe ao espectador formular a sua própria opinião sobre o polémico caso das três jovens russas.

O filme volta a ser exibido no DocLisboa no próximo dia 29 de Outubro, pelas 16h30, no Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira.

DocLisboa'13: 1960

*7/10*

No segundo dia do DocLisboa'13, 1960, de Rodrigo Areias, chegou ao Grande Auditório da Culturgest. O filme faz parte dos Programas Especiais do festival, e trata-se de um home movie em registo de diário de viagem todo filmado em Super 8. Através da arquitectura e a partir do Diário de Bordo de Fernando Távora, 1960 revisita a viagem do arquitecto no ano que dá título ao documentário.

Presente na sessão esteve Tomás Baltazar, o montador do filme, que explicou que 1960 foi filmado "como se na mão estivesse um olho", e a verdade é que é realmente isso que se sente. A câmara move-se como se fosse os nossos olhos, irrequieta, atenta aos detalhes.


A partir do Diário de Bordo de Fernando Távora, Rodrigo Areias percorreu alguns dos locais onde o arquitecto esteve em 1960. Imagens de Tóquio, Nova Iorque - e a subida ao Empire State Building -, do México, do Egipto, são-nos apresentadas, sempre filmadas em Super 8, e acompanhadas, em voz off, pelos escritos de Távora, que se adequam na perfeição ao que assistimos, apesar da diferença de décadas entre ambos. Conhecemos os locais e, ao mesmo tempo, os comentários do arquitecto, de admiração ou de desprezo por determinada edificação.

Os melhores momentos de 1960 acontecem na ida a Taliesin, em Spring Green, e demonstram na perfeição as emoções fortes que Fernando Távora sentiu ao visitar a residência de Frank Lloyd Wright, bem como o lugar onde este se encontra sepultado. Apesar das dificuldades que se apresentavam, a insistência do arquitecto português falou mais alto: "Nem que eu tenha de ir a pé, vim de Portugal para ver Taliesin" foi a frase decisiva para que o levassem ao local. Também Rodrigo Areias nos leva lá, muitos anos depois, e faz-nos sentir as mesmas emoções.

1960 volta a ser exibido no DocLisboa no dia 3 de Novembro, às 19h30, no City Alvalade - Sala 1.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

DocLisboa'13: Que Filmes Ver?

Começou esta Quinta-feira o DocLisboa'13 com uma programação de excelência. Se ainda não sabes o que ver no festival, aqui ficam algumas sugestões.


Pays Barbare / Barbaric Land
Se perdeste a sessão de abertura, ainda terás mais uma hipótese de ver este filme, realizado por Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi. Através de arquivos, Pays Barbare relata a presença colonial italiana na Etiópia e os mecanismos de subjugação aí utilizados durante a ditadura de Mussolini.

Pokazatelnyy Protsess: Istoriya Pussy Riot / Pussy Riot: A Punk Prayer
A história das três jovens mulheres que encaram sete anos de prisão, na Rússia, por uma performance satírica, numa catedral de Moscovo. Enquanto Nadia, Masha e Katia defendem as suas convicções, numa jaula, dentro do tribunal, os restantes membros das Pussy Riot ainda em liberdade planeiam novas performances de guerrilha.

Olho Nu / Naked Eye
O filme de Abertura da secção Heart Beat é um ensaio que retrata a vida e a obra do brasileiro Ney Matogrosso, a partir de um conjunto de imagens e sons reunidos pelo artista, em contraponto com sequências actuais. O realizador Joel Pizzini irá estar presente na sessão do dia 25 de Outubro.

E Agora? Lembra-me / What Now? Remind Me
O realizador convive com o VIH e o VHC há quase 20 anos. Uma reflexão aberta e ecléctica sobre o tempo e a memória, as epidemias e a globalização, a sobrevivência para além do expectável, a dissensão e o amor absoluto. E Agora? Lembra-me já passou no QueerLisboa'13, e saiu duplamente premiado do Festival de Locarno. O realizador estará presente nas sessões de 29 de Outubro e 1 de Novembro.

Der Kapitän und sein Pirat / The Captain and his Pirate
O navio porta-contentores Hansa Stavanger foi capturado por piratas somalis. Der Kapitän und sein Pirat conta a história íntima da amizade entre o capitão Kotiul e o pirata Ahado, num drama que durou quatro meses.

The Pervert’s Guide to Ideology / O Guia de Ideologia do Depravado
O filósofo Slavoj Žižek e a realizadora Sophie Fiennes apresentam uma viagem cinematográfica ao coração da ideologia - os sonhos que moldam as nossas crenças e as nossas práticas colectivas.

A Mãe e o Mar / The Mother and the Sea
Na senda de um mito real e perdido em Vila Chã, aqui apresentam-nos as mulheres do mar chamadas "pescadeiras", num dos poucos lugares do mundo com mulheres arrais (chefes de embarcação). Mas onde estão elas e os 120 barcos de pesca artesanal? Sobram 8 barcos e uma única mulher pescadeira.

The Great North Korean Picture Show
A indústria cinematográfica norte-coreana é uma ferramenta crucial na maquinaria de propaganda do regime. Pela primeira vez, realizadores estrangeiros puderam entrar na única escola de cinema do país, onde jovens talentos são treinados para criar obras, não apenas para entreter, mas para ajudar a moldar a mente de uma nação inteira.

Dast-Neveshtehaa Nemisoosand / Manuscripts don’t burn
Mohammad Rasoulof não pôde estar presente - por motivos menos felizes - mas é um filme seu que encerra o DocLisboa'13. Manuscripts don’t burn conta a história real de um homem perseguido pelos serviços secretos iranianos, que tenta publicar as suas memórias de presidiário e sair do país.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

DocLisboa'13: Programação, júri e novidades

Depois de ter dado a conhecer os filmes que fazem as honras de abertura e encerramento - Pays Barbare, de Yervant Gianikian e Angela Ricci Luchi, e Dast‑Neveshtehaa Nemisoosand (Manuscripts don’t burn), de Mohammad Rasoulof - o DocLisboa apresentou esta semana a programação completa, júri e outras novidades relativas à edição deste ano. De 24 de Outubro a 3 de Novembro, Lisboa será palco da exibição de 244 filmes, oriundos de 40 países, num total de 123 longas e 121 curtas‑metragens.


Na Competição Internacional de Longas‑metragens são dez os filmes a competir pelo prémio, entre eles estão: E agora? Lembra‑me, de Joaquim Pinto, The Island of St. Matthews, de Kevin Jerome Everson, Jai Bhim Comrade, de Anand Patwardhan, Pays Barbare, de Yervant Gianikian e Angela Ricci Luchi ou Sangue (Blood), de Pippo Delbono, por exemplo. Nove são as curtas-metragens na Competição Internacional. A Competição Portuguesa de Longas‑Metragens recebe sete documentários. Entre eles estão, por exemplo, A Campanha do Creoula, de André Valentim Almeida, A Mãe e o Mar, de Gonçalo Tocha,  ou Twenty‑One‑Twelve the day the world didin’t end, de Marco Martins. São igualmente sete as curtas-metragens na Competição Nacional.

A secção Investigações regressa, uma vez mais, com dez filmes que se relacionam com questões contemporâneas, propondo o cinema como meio de investigação sobre uma realidade. Bagheban (The Gardener), de Mohsen Makhmalbaf, Chroniques Equivoques (Equivocal Chronicles), de Lamine Ammar ‑Khodja, e Kutchi Vahan Pani Wala (From Gulf to Gulf to Gulf), de Shaina Anand Ashok Sukumaran (membros do colectivo CAMP), são alguns dos filmes que compõem a secção.

Também a secção Riscos está de volta. Comissariada por Augusto M. Seabra, criada em 2007, esta secção visa alargar o âmbito do Doclisboa abrindo‑se a variadas abordagens do real e das suas representações e dá atenção às propostas de inovação, desafiando as categorias, formatos e durações mais habituais. Nesta secção serão exibidos 20 filmes, onde constam títulos como Buffalo Death Mask, de Mike Hoolboom, O Corpo de Afonso (The King’s Body), de João Pedro Rodrigues, Eclipses, de Daniel Hui, Pardé (Closed Curtain), de Jafar Panahi e Kamboziya Partovi, ou Redemption, de Miguel Gomes.

Em Retrospectiva este ano está a obra de Alain Cavalier, apresentada pelo DocLisboa em parceria com a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema. Alain Cavalier veio progressivamente a dedicar-se a um cinema intimista e autobiográfico, abrindo um novo território com o seu mais recente filme, Pater: o íntimo ficcional. Com uma obra complexa, Cavalier integra, na sua prática, um questionamento profundo sobre problemas que tocam os binómios corpo próprio e corpo filmado, dentro e fora de campo, materialidade e imaterialidade, vida e morte, oferecendo nos diários filmados que são também uma reflexão sobre o mundo. Com esta retrospectiva, o festival traz para primeiro plano o questionamento dos meios e métodos de produção e a sua implicação na renovação de formas e na maneira de pensar o mundo. Por seu lado, A Retrospectiva Moving Stills – Fotografia, Fotógrafos e Documentário, comissariada por Federico Rossin (programador da retrospectiva United we stand divided we fall na passada edição do DocLisboa), procura dissecar a relação entre o filme documental e a fotografia.

A música e as artes performativas voltam a ser alvo de especial atenção na secção Heart Beat, que este ano conta com títulos como Death Metal Angola, de Jeremy XidoI love Kuduro, de Mário PatrocínioOlho Nu, de Joel Pizzini, ou Pokazatelnyy protsess: Istoriya Pussy Riot (Pussy Riot – A Punk Prayer), de Mike Lerner e Maxim Pozdorovkin.


As secções Passagens, Cinema de Urgência, Verdes Anos (filmes de estudantes de cinema) e Retratos (sobre Hélio Oiticica, Béla Tarr, Joaquim Benite, Donald Rumsfeld e Manuel Vieira) estão de volta nesta 11ª edição do DocLisboa. Por outro lado, o Golpe Militar no Chile tem direito a um lugar especial na programação do festival este ano na secção: 1973‑2013. O Golpe Militar no Chile: 40 anos depois. O DocLisboa'13 traz consigo ainda diversos Programas Especiais e a nova secção Doc Alliance.

O júri da Competição Internacional será composto por Philippe Dubois, Vera Mantero, Louise Wilson e Boris Nelepo. Como já havia sido anunciado, o Presidente do Júri, o realizador Mohammad Rasoulof, não marcará presença no DocLisboa por estar proibido de sair do Irão pelas autoridades do país. A organização do festival decidiu deixar o seu lugar como Presidente do Júri vazio, num acto de apoio e solidariedade para com o cineasta. Michael RenovTeresa Villaverde e Birgit Kohler compõem o júri da Competição Nacional. Na secção Investigações, os jurados serão Christa BlümlingerSylvain GeorgeJorge Wemans. Os Prémios Revelação contam com Alan BerlinerMargarida MedeirosStoffel Debuysere no júri.

O DocLisboa'13 - Festival Internacional de Cinema conta ainda com diversas actividades paralelas como o Colóquio Internacional Passagens, duas masterclasses e um workshop, Mesas Redondas, entre outras.

Mais informações sobre o DocLisboa e programação completa, AQUI.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

DocLisboa'13: Abertura, Encerramento e Mohammad Rasoulof

Doclisboa – Festival Internacional de Cinema acontece este ano entre 24 de Outubro e 3 de Novembro e já se conhecem os filmes de abertura e encerramento. Pays Barbare, de Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi, abre esta 11ª edição e será Manuscripts don’t Burn, de Mohammad Rasoulof, a marcar o encerramento do festival.


A Sessão de Abertura do Doclisboa’13 acontece a 24 de Outubro, às 21h30, no Grande Auditório da Culturgest, onde Pays Barbare, será apresentado pelos cineastas, sediados em Milão, Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi. Através de arquivos, o filme relata a presença colonial italiana na Etiópia e os mecanismos de subjugação aí utilizados durante a ditadura de Mussolini. Este documentário surge como um acto político, apelando à memória e à reflexão.

Por sua vez, a Sessão de Encerramento, no dia 2 de Novembro, apresentará Manuscripts don’t Burn, do realizador iraniano Mohammad Rasoulof, que conta a história real de um homem perseguido pelos serviços secretos iranianos, que tenta publicar as suas memórias de presidiário e sair do país. O filme é uma denúncia meticulosa de repressão no Irão. Ao longo do DocLisboa'13, serão apresentados documentários de outros dois cineastas iranianos dissidentes: Mohsen Makhmalbaf, exilado desde 2005, e Jafar Panahi (Isto não é um Filme, 2011), impedido de filmar no Irão e condenado a seis anos de prisão domiciliária.

Mohammad Rasoulof foi um dos cineastas detidos juntamente com Jafar Panahi. Em 2011, apresentou Goodbye, filme que venceu o prémio de realização Un Certain Regard, em Cannes. Este ano, conquistou o prémio FIPRESCI, no mesmo festival, por Manuscripts don’t Burn, filmado clandestinamente no Irão.

Manuscripts don’t Burn
O DocLisboa acrescenta também, em comunicado, que ainda este mês, Rasoulof disse reconhecer algumas razões de optimismo quanto ao regime iraniano, com a reabertura da House of Cinema. Contudo, o cineasta foi detido à chegada a Teerão, no dia 19 de Setembro onde lhe confiscaram o passaporte, encontrando-se agora sob interrogatório.“As últimas notícias de Mohammad Rasoulof indicam que se encontra em Teerão, impedido de sair do país. Depois do primeiro interrogatório, na quinta-feira, dia 26 de Setembro, foi chamado para contactar novamente as autoridades, no Sábado”, disse uma fonte próxima do realizador iraniano. A mesma fonte enviou um e-mail à direcção do DocLisboa explicando que "esta situação é inaceitável e que é necessário esclarecer que Rasoulof foi detido contra a sua vontade e que está impedido de fazer o seu trabalho como realizador e artista”.

A organização do DocLisboa explica pois que, por esta razão, não pode garantir a presença do realizador no júri da Competição Internacional da edição deste ano, para o qual foi convidado, e na Sessão de Encerramento. O festival afirma que está e estará solidário com a situação de Mohammad Rasoulof.