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quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Doclisboa'19: Serpentário / Serpentarius (2019)

*6/10*


Na secção Riscos do Doclisboa'19, encontrámos Serpentário, a primeira longa-metragem de Carlos Conceição, protagonizada por João ArraisSerpentário segue um rapaz, que vagueia por uma paisagem africana pós-catástrofe, em busca do fantasma da sua mãe.

Através da câmara viajamos até África, entre memórias e tradições. Percorremos desertos, praias, cascatas, visitamos tribos ou casas abandonadas. Questiona-se a História de Portugal, com forte crítica aos Descobrimentos e colonização, ao mesmo tempo que se procura uma parte de si que o protagonista (e o realizador) deixou em terras africanas. Filmado em película 16mm e Super 8, ainda mais adensada fica a sensação de mito, quase sonho.


João Arrais assume a posição de guia, num papel desafiante também para si. O jovem actor já trabalhou com Carlos Conceição e incorpora a mensagem e a transcendência de Serpentário com a inocência no olhar, fortemente aliada à esperança de encontrar o que tanto procura - em especial, respostas. Entre ressentimentos, saudade e uma poética latente, tudo se traduz na memória da mãe, a última ligação que ainda o poderá unir ao Mundo imaginário do filme. A busca incessante exorciza os medos e é o motor que faz avançar o jovem protagonista.

A subjectividade de Serpentário, por vezes experimental, mas, principalmente, demasiado íntima, poderá também jogar contra o filme de Carlos Conceição. A exploração do tema prolonga-se em demasia (e perde-se, muitas vezes) mas culmina no encontro mais esperado - e, aí, não desilude.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Doclisboa'14: Traces, de Wang Bing

*6.5/10*

Com Traces (que faz parte da secção Riscos), Wang Bing traz-nos um documentário sem falas, onde apenas ouvimos o som dos passos do realizador que vagueia pelo deserto de Gobi numa jornada que serve como um registo histórico arrepiante. Quando preparava o filme Jiabiangou (A Fossa), o realizador deslocou-se àquele deserto, aos lugares exactos onde viveram e morreram milhares de pessoas nos campos de “reeducação pelo trabalho” montados pelo regime comunista, no final dos anos 50 do século passado. 


Wang Bing filmou cenas de deserto, onde abundam ossos abandonados, restos de tecidos e outros objectos que ali ficaram. Ao seguir os passos do realizador, o público ficará inevitavelmente atordoado, explorando os terrenos desertos e as grutas.

Filmado com uma câmara de 35 mm, o preto e branco e o grão da película parecem querer remeter-nos para o passado doloroso daqueles campos, ainda tão presente, que o realizador agora desenterra. Eis a prova do crime, apresentada mais de um século depois.

Traces repete no dia 26 de Outubro, pelas 19h45, no Cinema Ideal.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

DocLisboa'13: Redemption (2013)

*8.5/10*

Miguel Gomes não tem medo de arriscar, Redemption é mais uma prova disso mesmo. E que melhor secção para esta curta-metragem que não exactamente Riscos, no DocLisboa?

A balançar entre o documental e o imaginário - os textos são fruto da imaginação de Miguel Gomes e Mariana Ricardo -, a curta-metragem apresentada no festival - que em breve estará nas salas de cinema comercial, a acompanhar o filme de Salomé Lamas, Terra de Ninguém - é original, provocadora e surpreendente, mostrando uma vez mais a genialidade do realizador português. A sua estreia aconteceu no último Festival de Cinema de Veneza.

Redemption apresenta-nos quatro histórias passadas em anos e países diferentes. A 21 de Janeiro de 1975, numa aldeia do norte de Portugal, uma criança escreve aos pais que se encontram em Angola, para falar-lhes do estado de Portugal. "Portugal é triste e vai ser sempre assim", conta ela, desiludida. No dia 13 de Julho de 2011, em Milão, um velho homem recorda o seu primeiro amor: Alessandra. Foram muitas as mulheres que teve, mas é dela que sente saudades, interrogando-se sobre o seu paradeiro: "Alessandra, onde estás?".


A 6 de Maio de 2012, em Paris, um homem diz à filha bebé que, seja o que for que ela venha a ser no futuro, ele teme que nunca vá ser um pai de verdade para ela. No dia 3 de Setembro de 1977, em Leipzig, uma noiva luta contra uma ópera de Wagner que não lhe sai da cabeça, temendo que aquele "fascista" lhe arruíne o casamento.

Em Redemption, uma dimensão privada (como refere o próprio realizador) entra em cena com as imagens de arquivo que vão ilustrando cada história, consoante o que cada narrador nos conta - e que assim, entram na esfera pública. Os quatro personagens unem-se pela tristeza e inquietação - e redenção -, pelas questões políticas que lhes estão adjacentes, tão longe, espacial e temporalmente, mas, no fundo, tão perto uns dos outros. Sentimental e mordaz, Miguel Gomes consegue tocar-nos fundo - quer estejamos em Portugal, Itália, França ou Alemanha -, e despertar no público as mais paradoxais emoções.

domingo, 27 de outubro de 2013

DocLisboa'13: Pardé / Closed Curtain (2013)

*9/10*
No terceiro dia de DocLisboa'13, Sábado, a secção Riscos abriu a tarde na Sala Manoel de Oliveira, no Cinema São Jorge. O filme - arriscado - é Pardé (ou Closed Curtain), realizado por Jafar Panahi (realizador iraniano que cumpre uma pena de proibição de filmar por 20 anos) e Kamboziya Partovi, e foi apresentado por Augusto M. Seabra.


Depois de Isto não é um Filme, que também passou pelo DocLisboa em 2011, Jafar Panahi volta a desafiar a proibição que lhe foi imposta e faz chegar ao mundo mais uma obra avassaladora que merece ser vista e espelha uma difícil realidade. A deambular entre documentário e ficção, Closed Curtain parece fugir apenas para o fictício, mas é muito mais real do que à partida faz crer.

Numa casa, à beira-mar, as cortinas estão fechadas e as janelas foram cobertas de negro. Lá dentro, esconde-se um escritor com o seu cão. Inesperadamente, surge uma jovem mulher misteriosa, que se recusa a ir embora, deixando o homem pouco à vontade. Contudo, ao nascer do dia, outra chegada irá perturbar todos.

Cheio de simbologia, em cada movimento, em cada personagem, Closed Curtain tem tudo para ser um dos melhores filmes do DocLisboa'13. Premiado em Berlim com o Urso de Prata para Melhor Argumento, Jafar Panahi continua, contra tudo e contra todos (pelo menos no seu país), a mostrar ao mundo o desespero que o consome. Closed Curtain é um desafio, não somente às autoridades iranianas, mas ao espectador, que não estará de todo preparado para o que se segue. A longa-metragem apela às interpretações de cada um, e é um retrato psicológico do realizador e do que o apoquenta, numa realidade semelhante à sua.

Kamboziya Partovi, para além de co-realizar esta obra, é também o protagonista, o escritor que se isola nesta casa à beira-mar com o seu expressivo cão. Percebemos rapidamente que este homem se esconde, que é perseguido. Ele fecha todas as janelas com panos pretos para não deixar passar a luz, para que ninguém perceba que há vivalma naquele local. Contudo, quando Melika e o seu irmão ali surgem em busca de abrigo - também eles são perseguidos -, toda a tranquilidade e solidão que o escritor procura se altera bruscamente. A manhã seguinte irá trazer-nos novas revelações e, talvez, algumas explicações.


A personagem de Partovi é um espelho de Panahi, um perseguido que tem de se esconder para poder fazer o seu trabalho e proteger o seu animal de estimação. Há alguns anos - tudo parece ter piorado em 2013 -, que os cães não são permitidos no Irão. A quem for apanhado a passeá-los, "apreendem" o animal, levando-o para um local secreto, provavelmente para ser morto. Relativamente a este tema, Panahi Partovi incluem no filme o pequeno cachorro do escritor, que também ali se esconde para não passar pela realidade a que assiste na televisão - um bela e triste cena de Curtain Closed.

Por seu lado, a misteriosa Melika, que dizem-nos ter tendências suicidas, surge simbolicamente como a repressão do país. Sempre à espreita, sempre a perturbar o escritor enquanto este tenta trabalhar, sempre a dar sugestões pouco felizes - mesmo a Panahi. Ela aparece e desaparece quando menos se espera.

Mas não é só em termos argumentativos que Curtain Closed prima pela genialidade. Realização, fotografia (a cargo de Mohammad Reza Jahanpanah) e montagem (a cargo do próprio Panahi) oferecem-nos planos de grande beleza, que, por vezes, jogam com espelhos, deixando-nos ainda mais no limbo entre o real e o imaginário. O filme tem uma construção desafiante - Panahi mistura-se com a sua criação e funde-se nela.

Curtain Closed é um desesperante retrato do estado psicológico de Panahi face às restrições que lhe foram impostas, e de uma realidade que ainda nos é muito distante. Cabe-nos a nós encontrar todos os significados escondidos por detrás desta cortina fechada e desconstruí-los.

Curtain Closed voltará a ser exibido no DocLisboa'13 no dia 31 de Outubro, às 16h30, no City Alvalade - Sala 1.

sábado, 27 de outubro de 2012

Doclisboa'12: Competição Portuguesa e Riscos #2

Competição Portuguesa de Curtas-metragens: Histórias do Fundo do Quintal                                                                                  *4.5/10*


Tiago Afonso trouxe em estreia mundial para a Competição Portuguesa de Curtas-metragens do Doclisboa'12 Histórias do Fundo do Quintal, contadas a três vozes. Inspirada nos acontecimentos que tiveram lugar em Paris de 18 de Março a 28 de Maio de 1871, nesta curta debate-se a história de uma revolta, enquanto a câmara quer encontrar provas no fundo de um quintal.

Ouvimos as vozes mas não vemos quem fala, apenas nos são mostradas imagens que pretendem ilustrar o que é dito, são-nos apresentadas como provas de algo brutal que ali parece ter acontecido. Procura criar-se um registo do que é contado. Contudo, algumas das imagens surgem um tanto forçadas.

Por volta da metade da curta-metragem alcançam-se bons momentos, onde as conversas encaixam perfeita e naturalmente nas imagens que surgem. A opção da gravação da canção que acompanha as imagens no final do documentário é interessante, mas estas depressa se tornam repetitivas. Tiago Afonso apresenta uma ideia algo original, mas cuja concretização não é a melhor.

Riscos: Hollywood Movie                                                    *6.5/10*


Hollywood Movie, de Volker Schreiner, é o resultado da transformação do texto Argumento Cinematográfico, de Nam June Paik, num filme de sete minutos. "Pode tornar-se qualquer filme de Hollywood interessante, se se o cortar várias vezes..." e é mesmo isso que o realizador faz. Schreiner reúne nomes eternos de Hollywood como Michael Caine, Humphrey Bogart, Elizabeth Taylor, John Torturro, Katharine Hepburn, Jack Nicholson, Jeff Bridges, Kevin Spacey, entre muitos outros. Cada um diz uma palavra, retiradas de diversos filmes, e, ao fim de contas, constrói-se um texto e faz-se uma curta-metragem muito original e bastante divertida. A desconstrução de ver filmes está aqui na totalidade, Hollywood Movie é a prova dessa desconstrução: o cinema desconstruído pelo e para o cinema.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Doclisboa: Riscos e Cinema de Urgência #1

Riscos: Ashes                                                             *6.5/10*

Para Apichatpong Weerasethakul, a Tailândia, enquanto cheia de beleza, colapsa lentamente na escuridão. Dentro da secção Riscos, no Doclisboa'12, esta segunda-feira foi exibido o documentário Ashes, do realizador tailandês.


Um interessante jogo de cor, luz e som, onde a pequena cadela King Kong surge como a figura de partida.  Mas Ashes contempla também o amor, o prazer, e a destruição da memória. Fala-se de sonhos e da realidade quotidiana. Uma curta documental, intimista e visualmente cativante, onde as imagens que passam por nós são como fragmentos, mas os sonhos também não o são?


Cinema de Urgência: São Lázaro 94                         *6/10*

Dentro da secção Cinema de Urgência, um dos vários exemplos da ocupação de um espaço pela cultura, por um bem maior, é São Lázaro 94, do Cinema Libertário Acção Projecção. Uma reunião de imagens das ocupações e despejos no número 94 da Rua de São Lázaro, em Lisboa. Primeiro é-nos apresentada a ideia, depois vemos o despejo levado a cabo pela polícia e o descontentamento que se lhe seguiu.

Há dez anos ao abandono, o 94 de São Lázaro é ocupado, uma primeira vez, a 25 de Novembro de 2010. No dia seguinte é despejado pela polícia devido a uma ordem da Câmara que diz ter projectos de reabilitação para o local. Dois anos depois, e nada feito, o edifício é novamente ocupado e despejado. Fragmentos de uma experiência colectiva é o que São Lázaro 94 nos quer mostrar.

É apresentado o lado dos "ocupas", os projectos que têm, a limpeza e reestruturação do espaço, que tiveram tempo de fazer até serem despejados. Seguem-se imagens do descontentamento deste colectivo de pessoas, da união por uma causa que parece difícil de concretizar.