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sexta-feira, 28 de maio de 2021

Crítica: A Mulher à Janela / The Woman in the Window (2021)

"You don't think it's paranoid if I wanna change the locks. Do you?"

Anna Fox

*3/10*

A Mulher à Janela, de Joe Wright, quer ser tanto e acaba por ser tão pouco. Um filme sem alma, que começa com mistério e termina num autêntico terror. Ver Joe Wright associado a um filme tão pouco coeso e sem personalidade é a grande surpresa de uma longa-metragem que não é sequer capaz de valorizar o elenco. 

"Confinada à sua casa por sofrer de agorafobia, uma psicóloga fica obcecada com os seus novos vizinhos e em resolver um crime brutal que testemunha pela janela."

Baseado no livro homónimo, de A. J. Finn (que não li), A Mulher à Janela pretende ser um Hitchcock dos tempos modernos - não lhe poupando referências, sendo a mais óbvia A Janela Indiscreta -, mas não lhe chega perto. Se, inicialmente, pode haver a esperança de estarmos perante um bom filme de mistério, com terror psicológico e voyeurismo à mistura, depressa nos desinteressamos do enredo confuso e pouco sustentado, com momentos quase cómicos, tal a implausibilidade ou a previsibilidade. Perto do fim, entramos noutra realidade, mais slasher, e num "novo" filme - ainda pior. 

Há pouco a que nos possamos agarrar para defender A Mulher à Janela. Amy Adams é talvez o ponto mais forte, mas longe das grandes interpretações que marcam a sua carreira. A direcção artística será, provavelmente, o mais admirável da longa-metragem, com a mansão solitária de Anna a ganhar personalidade, seja pela imensa escadaria, pela clarabóia, ou pelos detalhes de decoração (a casa de bonecas, por exemplo, chama-nos logo a atenção).

Tanta paranóia, referências cinematográficas, clichés e reviravoltas sem fim, e eis o vazio sideral após os créditos finais. Nada fica connosco de A Mulher à Janela, apenas a satisfação de termos conseguido matar a curiosidade mórbida que nos assolava antes da visualização.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Crítica: Aniquilação / Annihilation (2018)

"It's not destroying... It's making something new."

*8.5/10*

Infelizmente, Aniquilação não chega até nós numa tela de cinema, mas apenas no pequeno ecrã, graças à Netflix. As críticas negativas vão desta feita todas para a Paramount, a responsável pela exclusão da longa-metragem das salas de cinema do mundo. Perde-se a hipótese de ver este surpreendente filme de ficção científica num ecrã à sua medida. 

Ainda assim, há que agradecer - e muito - a Alex Garland pela adaptação cinematográfica do romance de Jeff VanderMeer. Depois de Ex-Machina, as expectativas só podiam ser elevadas - e o realizador não desapontou. Garland continua a saber fundir inteligência e adrenalina como ninguém, enquanto homenageia autores de outros tempos, onde Stanley Kubrick é um dos mais evidentes, com o seu 2001: Odisseia no Espaço.


Quando o marido regressa após muitos meses desaparecido durante uma missão secreta, a bióloga Lena embarca numa expedição a uma misteriosa região isolada pelo Governo dos EUA, conhecida como The Shimmer (o Brilho).

Depois de tantos falharem, são cinco mulheres que partem para descobrir o que realmente se passa naquela zona iluminada e onde nada funciona como no "mundo real". Lena, VentressAnya ThorensenCass Sheppard e Josie Radek são as aventureiras sem nada a perder que querem chegar ao farol e desvendar o mistério que a floresta esconde.


O desconhecido paira como um fantasma sobre a acção e personagens, todas elas com algum potencial de background - nenhuma é feliz. Desde o início que nos espicaçam a curiosidade, ao apresentar uma mulher, supostamente viúva, que vê o seu marido regressar muito diferente de quando partiu. Depois é só deixar-nos levar e ficar tão confusos e com a genética alterada (salvo seja) como as personagens.

Assistimos à Natureza em mutação, e poucas coisas poderão ser mais assustadoras que isto. As cientistas aventuram-se nas profundezas do Brilho e a banda sonora acompanha a estranheza do ambiente. Música e efeitos visuais deixam-nos atordoados, confusos e assustados, tal como às cinco protagonistas. Surgem novas sensações, experiências e medos. O Brilho faz igualmente vir ao de cima o pior de cada um, em desespero de causa. E a autodestruição, de que Ventress fala a certo momento, parece começar assim que as cinco mulheres passam a fronteira.


Com um elenco fortemente feminino, Oscar Isaac é o homem entre as mulheres, com um papel importante mas pouco exigente, e facilmente é ofuscado pelas cinco exploradoras interpretadas por Natalie Portman, Jennifer Jason Leigh, Gina Rodriguez, Tessa Thompson e Tuva Novotny. Portman e Leigh são intensas e duras, convictas e sem receios de seguir em frente. Seguem-nas de perto as interpretações de Rodriguez e Thompson, menos exigentes mas não menos entusiasmantes. As cinco actrizes resultam num grupo forte e heterogéneo. 

Aniquilação leva-nos a mergulhar entre alucinações, pesadelos, mutações, ecos e as misteriosas tatuagens, seres em mutação, na descoberta de uma dimensão que não parece ser a que conhecemos. O objectivo é só um, chegar ao farol - o foco do Brilho - e voltar para contar a história. Nesta jornada vamos também perceber que a diferença entre destruição e criação não é assim tão grande.


Alex Garland promete marcar a ficção científica contemporânea a sabemos que será pela positiva.  Dois filmes enquanto realizador, duas apostas ganhas. Esperemos que fique para a História e que continue com a mesma inspiração, coragem e persistência que hoje tem.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Crítica: Good Time (2017)

"I think something very important is happening and it's deeply connected to my purpose." 
Connie

*9/10*

Benny e Josh Safdie continuam a consolidar-se como nova dupla de talentosos irmãos realizadores. Good Time trouxe-lhes maior notoriedade, mais ainda com Robert Pattinson como protagonista, num desempenho impressionante.

É curiosamente também a história de dois irmãos de Queens que Good Time acompanha. Tudo começa com um assalto falhado a um banco que coloca Nick (Benny Safdie), o irmão mais novo de Constantine "Connie" Nikas (Robert Pattinson), na prisão. Agora, Connie embarca numa retorcida odisseia através do submundo da cidade de Nova Iorque numa tentativa cada vez mais desesperada e perigosa de tirar o irmão da cadeia. Falta dizer que Nick tem um problema mental que Connie insiste em não admitir.


Good Time tem desde o primeiro instante um sabor agridoce que nos diverte, mas também nos comove. No final, saímos derreados com uma história tão carregada de emoções e realismo.

Connie faz tudo pelo irmão, mas é inconsciente e inconstante, com ausência de valores. Para si, tudo é válido para alcançar um vida melhor para o irmão, contra a lei, contra o socialmente aceite. Curioso é que ele parece realmente não perceber o quão errado está e que, na realidade, nada do que faz é benéfico para Nick. É ingénuo, "pobre de espírito", e usa os outros, sem querer efectivamente prejudicar ninguém. Ele é criminoso com um propósito de fazer o bem, ou assim o acha.


Assistimos a situações tão caricatas e inacreditáveis que vamos rir com a desgraça alheia. mas Good Time está longe de ser uma comédia. É um filme que magoa e nos aproxima das personagens. Nós que somos ainda mais impotentes que os dois irmãos. Dois homens que provavelmente nasceram na família errada, no local errado - neste caso, em Queens -, sem as possibilidades que teriam, provavelmente, noutro contexto social. Eis aqui a forte crítica socio-política de Good Time.

Robert Pattinson tem uma interpretação poderosa, camaleónica. É tão ingénuo como manipulador, infringe a lei e faz-nos acreditar - tal como ele próprio - que tudo é por um bem maior: o seu irmão. É curiosa a simpatia que nutrimos por um delinquente. Benny Safdie é outro grande talento do filme, na pele do frágil irmão.


Num ambiente nocturno, a fotografia de Sean Price Williams tira partido das cores e luzes, potenciando o ambiente instável e soturno que rodeia o protagonista, numa noite de excessos e situações caricatas.

Com Good Time, os irmãos Safdie criaram uma longa-metragem intensa e certeira. Através do humor, toca temáticas desconfortáveis, abala a plateia e fá-la reflectir. Um filme extremamente poderoso.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Sugestão da Semana #292

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Good Time, de Ben e Joshua Safdie. Robert Pattinson é o protagonista.

GOOD TIME


Ficha Técnica:
Título Original: Good Time
Realizadores: Ben e Joshua Safdie
Actores: Robert Pattinson, Jennifer Jason Leigh, Barkhad Abdi, Ben Safdie, Marcos A. Gonzalez, Cliff Moylan, Rose Gregorio, Shaun Rey, Taliah Webster
Género: Crime, Drama, Thriller
Classificação: M/16
Duração: 101 minutos

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Crítica: Os Oito Odiados / The Hateful Eight (2015)

"The nigger in the stable has a letter from Abraham Lincoln?"
Chris Mannix
*8.5/10*

Quentin Tarantino nunca me desilude. Os Oito Odiados é mais um trabalho cinematográfico fabuloso, mesmo ao estilo do realizador: muito sangue, violência, um argumento especialmente bem construído, inesperado do início ao fim.

Um western na neve, com os oito protagonistas confinados, na maior parte do tempo, a um único espaço - uma pequena estalagem onde se abrigam da tempestade que se faz sentir lá fora. Só os mestres conseguem fazer cinema assim. Polémico, mordaz, divertido e filmado em 65 mm. Que mais podemos nós pedir?

Alguns anos após o final da Guerra Civil, uma diligência atravessa a paisagem invernosa do Wyoming. Os passageiros, o caçador de prémios John Ruth (Kurt Russell) e a sua prisioneira Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) vão a caminho da cidade de Red Rock onde Ruth entregará Domergue à justiça. Pelo caminho encontram dois desconhecidos, o Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), antigo soldado da União que também se dedica a caçar criminosos foragidos, e Chris Mannix (Walton Goggins), um antigo rebelde sulista que afirma ser o novo xerife da cidade. Um nevão obriga-os a procurar abrigo numa estalagem onde são recebidos por quatro estranhos. Bob (Demián Bichir) - que está a tomar conta do estabelecimento enquanto a proprietária visita a mãe - Oswaldo Mobray (Tim Roth), carrasco em Red Rock, o cowboy Joe Gage (Michael Madsen) e o antigo general confederado Sanford Smithers (Bruce Dern). À medida que a tempestade se espalha sobre o vale, os nossos oito viajantes ficam a saber que podem nunca chegar a Red Rock...


Premonitório desde os primeiros planos, mas completamente imprevisível, até ao último momento, Os Oito Odiados traz-nos Tarantino no seu esplendor, com actores de fibra, personagens bem trabalhadas, desconhecidos que vamos descobrindo, desmascarando e surpreendendo a cada plano e, mais ainda, através da analepse fulcral que põe tudo em pratos limpos. Numa segunda visualização, um novo ponto de vista, somos o nono odiado e sabemos demais.

Quentin Tarantino sabe contar histórias como ninguém e filma-as com impacto, com o movimento de câmara certo, arrisca, desconstrói. Os Oito Odiados têm tudo isso: argumento forte e bem engendrado, ao pormenor, com tiradas certeiras, diálogos inteligentes, realização a provar como o formato 65 mm também sabe fazer-se valer em espaços fechados; a direcção de fotografia que varia entre as paisagens gélidas e o ambiente quente e violento da estalagem; a banda sonora que, finalmente, deu um Oscar ao genial Ennio Morricone, a intensificar as tensões e ódios sentidos naquele local.


No elenco, oito protagonistas odiosos e fabulosos: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Walton Goggins, Demián Bichir, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern e a única mulher Jennifer Jason Leigh. Entre os colaboradores regulares do realizador, descobrimos surpresas à altura como Goggins e Leigh. Bichir, RothMadsen e Dern surgem mais discretos que os restantes, mas eficazes e fundamentais para o desenrolar da trama. Jackson, o Major Marquis Warren, é inteligente, perspicaz e provocador, sem medo das consequências. Um desempenho excelente do actor. Russell é John Ruth, empenhado em levar com vida até à forca a criminosa procurada. Cauteloso - ainda que não o suficiente -, é hilariante observar a sua relação com Domergue ao longo do filme. Walton Goggins é a personagem que mais nos diverte. Ele é o xerife Chris Mannix em quem ninguém acredita, mas vale-se do título para tentar instaurar alguma ordem naquela estalagem. Todos os seus modos, comentários e atitudes são cómicos e será, até ao fim, uma excelente surpresa. Finalmente, a grande mulher da história: ela é a causa de tudo o que acontece nesse filme, a prisioneira insolente e, aparentemente sem nada a perder. Daisy Domergue mostra o poder das mulheres entre os homens, mesmo que seja apenas uma no meio de sete. Jennifer Jason Leigh é assombrosa na pele da personagem, numa junção entre o ordinário, o mimado, o infantil e traiçoeiro. Vamos gostar dela por mais odiosa que venha a ser.

Os Oito Odiados chega para nos divertir e surpreender. Quentin Tarantino reinventa-se, tem uma criatividade e imaginação infindáveis - felizmente - e sabe muito bem qual é a equipa certa com quem trabalhar. Quem dera que todos os "ódios" fossem assim!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Oscars 2016: As Actrizes Secundárias

Continuamos com os Oscars. Analiso agora as nomeadas para Melhor Actriz Secundária. Bons desempenhos, com especial destaque para Rooney Mara. Das cinco, a mais fraca acaba por ser Kate Winslet, apesar de ter fortes hipóteses de levar o Oscar para casa. Eis as nomeadas, por ordem de preferência.

Carol dá-lhe a sua segunda nomeação para os Oscars. Rooney Mara é a jovem Therese, na inocência da descoberta da paixão e da sexualidade, é uma mulher tímida, mas segura e com muito menos tabus que a sociedade que a rodeia. Deixa-se conquistar e sabe bem o que quer. A actriz continua a provar o seu grande talento e não tem medo de desafios: supera sempre as expectativas. 

2. Jennifer Jason Leigh por Os Oito Odiados
A mulher no meio dos homens. Jennifer Jason Leigh é fabulosa no filme de Tarantino. Perigosa mas hilariante, a actriz rouba as atenções a alguns dos outros sete odiados e tem aqui a merecida nomeação para o Oscar.

Talvez a nomeação para Alicia Vikander fosse mais justa por Ex Machina, mas foi ao lado de Eddie Redmayne que a Academia a destacou. A actriz entrega-se a Gerda, companheira de todos os momentos, efectivamente a responsável pela tomada de consciência da sexualidade do marido, sofre com ele e por ele. Vê-se obrigada a abdicar do amor da sua vida pela felicidade dele - haverá maior prova de amor?

McAdams tem surpreendido pela sua versatilidade. Como jornalista também não desilude. Ela é Sacha Pfeiffer, a mulher desta pequena equipa de investigação jornalística. Muito dedicada, sensível e perspicaz.

5. Kate Winslet por Steve Jobs
A mais fraca das interpretações nomeadas, para mim, é mesmo a de Kate Winslet. Como Joanna Hoffman, a actriz é competente mas não sai do seu registo habitual.