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quinta-feira, 18 de julho de 2024

Curtas Vila do Conde 2024: Competição Nacional - Percebes, Mau por um Momento e Três Vírgula Catorze

A propósito da Competição Nacional do Curtas Vila do Conde 2024, analisámos Percebes, de Alexandra Ramires e Laura Gonçalves; Mau por um Momento, de Daniel Soares; e Três Vírgula Catorze, de Patrícia Rodrigues e Joana Nogueira.

Percebes, Alexandra Ramires e Laura Gonçalves


2024, Portugal, França - ANI, DOC · 11'

"Com o mar e um Algarve urbano como pano de fundo, seguimos um ciclo completo da vida de um molusco especial chamado percebes. No percurso da sua formação até ao prato, cruzamos diferentes contextos que nos permitem compreender melhor esta região e aqueles que nela habitam."

Vêm do mar, pela mão do homem, que se arrisca para o apanhar, chegam à praça, onde são apresentados aos curiosos e fazem as delícias dos fãs, e, por fim, chegam ao prato. Em Percebes, Alexandra Ramires e Laura Gonçalves apresentam o ciclo de vida dos percebes e de quem os apanha, vende ou come. Ao mesmo tempo, pelas ruas do Algarve desenhadas em animação, reclama-se do turismo, mas também se fala da falta que o mesmo faz à região. Percebes é o hino à resistência de um molusco, de uma região e das suas pessoas.


Mau por um Momento, Daniel Soares


2024, Portugal - FIC · 15'

"O dono de um jovem atelier de arquitectura participa com a sua equipa numa irreverente e inusitada actividade de team-building. O evento corre mal e o arquitecto é confrontado com a dura realidade da crise de habitação no bairro social que está a passar por um processo de gentrificação."

Mau por um Momento, de Daniel Soares, chega a Vila do Conde com uma Menção Honrosa conquistada no Festival de Cannes. Desde o início que se compreende que a consciência do protagonista, interpretado por João Villas-Boas, pesa, devido ao projecto em que está a trabalhar vir a prejudicar os mais pobres, de um bairro social. Com momentos, hilariantes - como a actividade de team-building da equipa -, de fúria, mas igualmente de melancolia e compaixão (sem faltar a crítica à gentrificação das cidades), a curta-metragem segue as mudanças de estado de espírito do arquitecto, a aprender a lidar com as suas escolhas.


Três Vírgula Catorze, Patrícia Rodrigues e Joana Nogueira


2024, Portugal - ANI, DOC · 12'

"Uma viagem interior pelo universo de crianças diagnosticadas com Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), nomeadamente a incapacidade de parar ou estar caladas, e a sensação de que estão presas em si mesmas, onde lutam contra a sua própria visão de mundo e com o que é esperado delas." 

Três Vírgula Catorze, de Patrícia Rodrigues e Joana Nogueira, é uma animação em stop motion que transporta para o cinema as lutas diárias de crianças com PHDA. Um filme cheio de cor e algum experimentalismo, em contraste com as emoções das crianças, limitadas pelos medicamentos ou incompreendidas por quem as rodeia.

sábado, 15 de junho de 2024

Entrevista: Isac Graça, actor de Pedágio: "Os violentadores da liberdade alheia adoram ser levados a sério, e o filme não faz isso"

A propósito da estreia da produção luso-brasileira Pedágio, de Carolina Markowicz, sobre a qual já escrevemos no blog, entrevistámos o actor português Isac Graça, que no filme veste a pele de um Pastor estrangeiro "especialista" em terapias de conversão sexual. Falámos sobre o filme, sobre o desafio de interpretar esta personagem e desvendámos alguns dos seus projectos futuros. 

Como surgiu a oportunidade de fazer parte de Pedágio?

Isac Graça: Foi um golpe de sorte. Quando foi anunciado que A Viagem de Pedro, da Laís Bodanzky, ia estrear no Festival de São Paulo, tive uma sensação qualquer de que era essencial ir, e tenho aprendido a não ignorar essas sensações. Uma vez lá, a estreia correu particularmente bem. No dia a seguir passei umas horas no Museu de Arte Contemporânea da cidade, e estava a voltar para o hotel num táxi, cheio de dores nos pés, quando o Luís Urbano (produtor d'O Som e a Fúria) me liga a dizer que precisava de falar comigo. Enquanto eu estava no Museu, ele e a Karen Castanho (produtora brasileira da Biônica) tinham tido um almoço com a Carolina Markowicz, que não estava a encontrar o actor para o Pastor, sugeriram-me, e apesar de eu não ter a idade da ideia inicial para a personagem, a Carolina aceitou encontrar-se comigo essa noite. O Urbano disse-me para não ir com expectativas, e assim fiz. Tomei um banho, fiz uma sesta, e fui, e a conversa correu bem. Na manhã seguinte - voltava para Lisboa ao início da tarde - estava a acabar de tomar um bruto pequeno-almoço para me aguentar no voo, o Luis volta a ligar-me a dizer que a Carolina tinha ficado interessada em mim e que me queria fazer uma audição. Eu disse que sim (apesar de ainda não ter lido nada do guião), pedi só um tempo para fazer as malas. Fi-las, check out, meteram-me num táxi, e fui para o outro lado de São Paulo fazer a audição. Atiraram-me umas cenas para cima da mesa, fiz as cenas. Voltei ao hotel e fomos directos para o aeroporto. Nesse táxi, o Luís recebeu uma mensagem a dizer que eu tinha ficado com o trabalho.

Depois de teres sido o absolutista D. Miguel em A Viagem de Pedro, voltas agora a interpretar mais um vilão noutra produção luso-brasileira. Fala-me um pouco deste Pastor Isaac e de como te preparaste para o papel. Quais os principais desafios da personagem?

Isac Graça: Eu não parto do princípio que faço vilões, embora em ambos casos tenha total lucidez que o seu papel na narrativa é antagónico, e que, modo geral, são personagens longe da minha ética. Parto do princípio que interpreto seres humanos, por mais que a sua linha geral seja a do Mal (que é sempre algo muito discutível), logo, nos processos, encho-os de pequenos detalhes de vulnerabilidade, de contradições, de nuances dúbias, e, claro, esforço-me por descobrir os porquês de serem como são. No caso do Pastor Isaac, já que o objectivo era satirizar, e em última instância, construir a personagem para a destruir, tive de clarificar mesmo tudo. E tornou-se claro que era alguém que fazia o que fazia não só por alinhar com um certo senso comum intolerante com divergência sexual (possivelmente até recusando a sua própria identidade), como por uma coisa que é comum à maioria das pessoas num mundo capitalista: fazer dinheiro enquanto coisa mais importante da vida. Eu, sendo cristão, ainda que sem ligação a igrejas específicas, parto do princípio que é preciso cuidado com a ganância financeira, que o dinheiro eventualmente pode corromper o espírito, que é algo que traz consequências nefastas e certos castigos, como o que acontece no filme (sem fazer spoiler), portanto tive muita dificuldade em construir a mente de uma pessoa que não se aceita a si nem aos outros, e que vive em prol do dinheiro. Só porque para mim isso é bizarro. Mas não podia fazer um capitalista geral, porque há milhares de tipos de capitalista, então afunilei a construção nos vendedores da banha da cobra e nos populistas, pessoas que vejo como sendo uma espécie de extrema-direita menos assumida, mais cool e modernizada, que na verdade podemos encontrar em qualquer partido político, e na rua, e a fazer scroll no Youtube ou no Instagram. Confrontei-me com essa hipótese, que tive de assumir que existe em mim, algo que tornou a construção íntima e violenta, polvilhei-a de referências reais, e pronto, acaba por ser tanta coisa que estás a tratar, que nem reparas e já estás com uma câmara em cima a fazer o filme.

Como foi a experiência de filmar fora de Portugal?

Isac Graça: Aterradora, por não conhecer bem ninguém na equipa, sendo o único português no set, e estando com o Oceano Atlântico a separar-me de casa. Felizmente, a Carolina deixou-me assistir a um dia de rodagem antes de começar a sequência do Pastor, pedi-lhe isso porque precisava de entender o tom do filme, e isso ajudou-me a estruturar e não me sentir fora. No dia da minha primeira cena, fui para o set uma hora e meia antes, e fiquei por lá a lidar, a criar mise-en-scene e a pensar e repensar decisões, e quando dei conta, já tínhamos filmado a cena. Mas não fugi do medo. Abracei-o.

Do que mais gostas em Pedágio?

Isac Graça: Eu acho o filme todo muito sólido. É uma história acessível para toda a gente, aquele eterno drama de desentendimento entre pais e filhos, mas com um ponto de vista da direcção muito enviesado, o que torna o filme mais cru e cruel. E gosto da coragem de ir mudando de tom, tens o lado dramático, o satírico e um quase de thriller de acção, mas dentro destes tons, aquele de gosto mais, porque acho uma arma mais eficaz contra a intolerância, é o satírico. Os violentadores da liberdade alheia adoram ser levados a sério, e o filme não faz isso. E como deixa meia dúzia de gatos pingados do gatekeeping mais desconfortáveis, recusando-o, deixa-me a mim bem-disposto. Acho a recusa do humor um tique de classe. Há muita gente bem mais conservadora do que se diz, profundamente classista, que ainda acha que o humor satírico é um género menor, porque, na sua génese, é a grande arma da classe trabalhadora. Eu diria que não entendem a força do humor. Ou que lhe querem pôr rédeas. Só que não vai acontecer. E o problema acaba por ser deles, porque ao recusarem o humor do filme, o tiro é-lhes direccionado, e aí não há status quo que os possa salvar.

Foi apenas no final de 2023 que o Parlamento português aprovou a lei que criminaliza as práticas de conversão sexual. No Brasil, ainda não é bem assim. Qual é, para ti, a importância de filmes como Pedágio nos dias que correm, em tempos de tanta intolerância e extremismos?

Isac Graça: Todo o Cinema é político, muitas vezes não tem é coragem de se posicionar, e quando não se posiciona, alinha com o Poder. Mas aí questiono-me se é Cinema. E não sei. Ao menos o Cinema de propaganda estatal é assumido, sabemos com o que contar. E de resto, o Cinema resvala sempre para a realidade, nem precisa de ter estreado ainda para isso começar a acontecer. Atrás eu dizia que, a par com a realizadora, construí a personagem para a destruir. No dia em que filmei a última cena do Pastor, lembro-me de pensar "Okay, estou a dar o corpo às balas. É um momento de queda. Mas não vou cair sozinho." E nesse dia, no set, pensei em dezenas de pessoas que, de certa forma, são o Pastor. A seguir ao filme caí numa espiral de tristeza que me destruiu, isto na realidade. O que de alguma forma me salvou foi saber, no fundo, que iria valer a pena. E a verdade é que, ao longo do período de montagem, e de exibição do filme, desde Toronto em Setembro, têm caído todas as pessoas em que pensei naquele dia, uma por uma. É que o Cinema vem da realidade para depois voltar para ela.

Começaste no teatro e desde então tens participado em muitos projectos no cinema e na televisão. A tua carreira tem crescido muito nos últimos anos. Ainda o mês passado estiveste em Cannes com a equipa de Mau por um Momento, de Daniel Soares, que recebeu uma menção honrosa no festival. Que personagens mais te marcaram até agora e porquê?

Isac Graça: Todas têm contribuído para este meu processo ininterrupto de construção e reconstrução da minha identidade enquanto cidadão, e por isso nutro carinho por todas elas. No outro dia, um amigo perguntou-me, numa viagem de carro, quantas personagens já tinha feito. Contabilizei, com algum esforço, e vou em cerca de 50 pessoas, todas com o seu lado lunar e com as suas coisas boas também. Mas a verdade é que não quero escolher nenhuma, porque acredito, sinceramente, que ainda estou a começar. A procissão ainda vai no adro.

E sobre os teus próximos projectos, o que é que já podes revelar?

Isac Graça: Além do Mau por um Momento que vai começar a rodar as capelinhas dos festivais depois da estreia em Cannes, tenho dois projectos muito distintos do Ivo M. Ferreira a sair, O Americano e o Projecto Global, com personagens muito complexas, mas ainda não sei quando. E o filme do Paulo Alexandre Mota, que estive três anos a filmar, e esteve em montagem durante anos a fio, o Paulo teve um processo muito solitário e paciente com o filme, que na verdade foi o meu primeiro, e cuja última montagem que vi amo muito, e tenho muita vontade de mostrar às pessoas. E pronto, estou a ensaiar um espectáculo, e envolvido em duas rodagens de filmes, uma em breve, a outra para o ano, mas não quero falar sobre isso.