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terça-feira, 10 de agosto de 2021

Opinião: Séries - A Estrada Subterrânea / The Underground Railroad - Temporada 1 (2021)

*7.5/10*


Uma Odisseia pela sobrevivência e liberdade é a proposta de Barry Jenkins na série A Estrada Subterrânea (The Underground Railroad). São dez episódios intensos e brutais, numa adaptação pertinente da obra homónima de Colson Whitehead.

"The Underground Railroad narra a luta desesperada de Cora Randall (Thuso Mbedu) pela liberdade. Após ouvir falar de um caminho de ferro subterrâneo, Cora decide escapar da plantação na Georgia onde é escravizada. Descobre que não se trata apenas de uma metáfora, mas de uma ferrovia real cheia de fogueiros, condutores e uma rede secreta de caminhos e túneis sob o solo do Sul. Durante a viagem, Cora é perseguida por Ridgeway (Joel Edgerton), um caçador de recompensas determinado em trazê-la de volta à plantação da qual escapou; mais ainda porque Mabel, a mãe de Cora, foi a única escrava fugitiva que ele deixou escapar. Enquanto se movimenta de um estado para outro, Cora enfrenta o legado da mãe que a deixou para trás e as suas próprias lutas para concretizar uma vida que nunca imaginou ser possível."


Barry Jenkins sabe captar o melhor e o pior do ser humano em cada episódio de A Estrada Subterrânea. Filma violência gráfica sem pudores, fere-nos com palavras, actos e mentalidades inacreditáveis, mas mais realistas do que gostaríamos. E a partir de mitos e lendas, já explorados por Colson Whitehead, Jenkins cria a aventura de uma vida contra a escravatura e pela liberdade e emancipação dos escravizados.

Mas a verdadeira essência desta série vai muito além da temática da escravatura já tantas vezes abordada (e bem) no cinema e televisão. Se o primeiro episódio contextualiza a actual situação de Cora, e nos apresenta a possibilidade de fuga, juntamente com Caesar, é a partir do segundo episódio que embarcamos na verdadeira viagem pela liberdade, onde nada é o que parece e surgem as mais macabras ideias, experiências e obstáculos. Em cada episódio, nem sempre linear, conhecemos melhor algumas personagens e seguimos em frente nesta estrada subterrânea, física ou metaforicamente falando. 


Cora é um misto de emoções e sentimentos, entre a raiva, o medo, a desconfiança, o amor, o ódio e a perseverança, numa fabulosa interpretação e entrega da actriz Thuso Mbedu neste seu primeiro papel como protagonista. O antagonista Ridgeway causa alguma estranheza e curiosidade. A personagem de Joel Edgerton, um caçador de recompensas com poucos escrúpulos, ganha espaço ao longo da série, e revela-nos um homem complexo e contraditório, cheio de dúvidas emocionais e espirituais. Ridgeway vive para o que melhor sabe fazer na vida: capturar escravos em fuga; apesar de, ele próprio, não ser esclavagista. Um homem de paradoxos, determinado e orgulhoso. Ao longo dos episódios conhecemos outras figuras que se destacam entre os restantes e trazem ainda mais riqueza à jornada de Cora


A Estrada Subterrânea é uma surpreendente reflexão sobre o Passado e o Presente, com uma réstia de esperança no Futuro.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Sugestão da Semana #365

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Se Esta Rua Falasse, de Barry Jenkins.

SE ESTA RUA FALASSE


Ficha Técnica:
Título Original: If Beale Street Could Talk
Realizador: Barry Jenkins
Actores: KiKi Layne, Stephan James, Regina King, Colman Domingo, Teyonah Parris, Michael Beach, Aunjanue Ellis
Género: Crime, Drama, Romance
Classificação: M/14
Duração: 119 minutos


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Sugestão da Semana #258

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana recomenda Moonlight, de Barry Jenkins. Podes ler ou reler a crítica do Hoje Vi(vi) um Filme aqui.

MOONLIGHT


Ficha Técnica:
Título Original: Moonlight
Realizador: Barry Jenkins
Actores: Naomi Harris, Mahershala AliAlex R. Hibbert, Ashton Sanders, Trevante Rhodes
Género: Drama
Classificação: M/16
Duração: 111 minutos

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Crítica: Moonlight (2016)

"In moonlight, black boys look blue. You're blue"
Old lady
*8/10*

Barry Jenkins
coloca no ecrã uma bela história de vida, com uma realização de génio forte. Marcante e atordoante, a câmara do realizador transporta-nos para um filme que de comercial e hollywoodesco só tem o argumento e, mesmo aí, quebra tabus. Falo de Moonlight, um trabalho rigoroso, que faz realizador e actores brilharem ao luar.

Uma vida em três actos é a proposta de Jenkins, baseada na peça In Moonlight Black Boys Look Blue, de Tarell Alvin McCraney, que nunca chegou a ser produzida, e cujo título surge nas linhas de diálogo de Moonlight.


Seguimos Chiron ao longo de três momentos da sua vida: em criança, adolescente e jovem adulto. O protagonista cresce num bairro problemático de Miami, onde o tráfico de droga é uma constante. Vive com a mãe, sofre de bullying na escola e luta por encontrar o seu lugar no mundo.

Moonlight é um filme de auto-descoberta, com um argumento que explora a toxicodependência, o bullying e a homossexualidade. Não sendo a narrativa muito original, trata os dois primeiros assuntos de forma cruel e exímia, com a experiência do próprio realizador, que cresceu com uma mãe viciada em droga, a traduzir-se numa muito realista relação mãe-filho. Barry Jenkins aborda igualmente sem rodeios a temática do bullying e só é pena que não tenha sido tão directo no que à homossexualidade diz respeito. Ainda assim, o tema é introduzido através de uma óptima introspecção dos actores. Subtil, mas eficaz - especialmente para Hollywood.


Contudo, é tecnicamente que Moonlight se ilumina. A realização que recorre frequentemente à hand-held camera persegue as personagens e faz-nos entrar nos seus sentimentos e sensações. Jenkins arrisca nos planos sequência estonteantes, nas cores hipnóticas, fazendo-nos sentir medo ou desnorte. Ao mesmo tempo, a direcção de fotografia tira o melhor partido das cores e da noite, com o luar a iluminar o bom trabalho de James Laxton, e a inesperada banda sonora transporta-nos para uma realidade intemporal num excelente trabalho de Nicholas Britell.


O elenco é outra força do filme, com os secundários a destacarem-se: Naomi Harris tem uma interpretação atordoante como Paula, com uma degradação física e psicológica imensa ao longo do filme; e Mahershala Ali faz-se notar, numa prestação muito emotiva na pele de Juan. O casting foi também certeiro no que toca aos três actores que interpretam ChironAlex R. Hibbert, o mais jovem e estreante nas lides da representação, oferece-nos um Chiron solitário, revoltado e assustado. Por sua vez, Ashton Sanders reforça a revolta contra o mundo, mas intensifica a auto-descoberta típica da adolescência. Trevante Rhodes, o Chiron mais velho, mantém as suas principais características em criança, com muito mais independência, coragem e controlo.

Moonlight apregoa a liberdade de ser, escolher e sonhar, para que todos possam brilhar como o luar, sem preconceitos.