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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Crítica: Hamnet (2025)

"What is given may be taken away at any time."
Mary


*6.5/10*

Em Hamnet, a realizadora Chloé Zhao adapta ao grande ecrã o romance homónimo de Maggie O’Farrell, sobre a tese que defende que foi o filho de Shakespeare a inspirar a criação da obra Hamlet.

Com uma primeira parte forte e de cores vibrantes, onde Jessie Buckley resplandece em cada plano, o decorrer da longa-metragem põe a nu as fragilidades da cineasta, ainda sem um estilo que a distinga, ou elementos autorais que a façam destacar-se no meio cinematográfico.

"1580, Inglaterra. William Shakespeare (Paul Mescal), um professor de latim empobrecido, conhece Agnes (Jessie Buckley), uma mulher de espírito aberto. Iniciam um romance intenso que leva ao casamento e a três filhos. Will prossegue a sua carreira teatral em Londres e Agnes assume sozinha as responsabilidades domésticas. Quando uma tragédia ocorre, o vínculo inabalável do casal é posto à prova. Essa experiência partilhada prepara o terreno para a criação da obra-prima intemporal de Shakespeare, Hamlet."


A importância do amor e da família, a relação com a Natureza e, principalmente, a superação no luto são os temas mais presentes em Hamnet.

O filme de Chloé Zhao conta, inicialmente, a história de amor de Will e Agnes: como se conheceram e conquistaram mutuamente e as dificuldades que enfrentaram para se casarem, perante a oposição das famílias. A vida de casados fragiliza a relação - e a própria longa-metragem -, aumentando a insatisfação de Will por trabalhar com o pai e frustrado por não conseguir viver da escrita. Decidido a procurar uma vida melhor, parte para Londres, deixando Agnes a cuidar da casa e dos filhos, num esforço imenso para suportar as ausências do marido.


O talento de Jessie Buckley como Agnes é a grande força de Hamnet. Buckley encarna uma mulher incomum no seu tempo. Órfã, a viver com o irmão, os meios-irmãos e a madrasta, o seu refúgio é a floresta e o seu falcão de estimação. Ela é uma espécie de mestre de falcoaria, e a esse dom acrescenta outro, que herdou da mãe: tem premonições, que parecem advir da sua fusão com o misticismo da Natureza. Enquanto o seu falcão voa livremente, ela também é livre e plena na floresta (quase encantada) que domina como se dela fizesse parte. Os dois são livres naquele espaço, entre o céu, as grandes árvores, as plantas e a terra. É também ali que dá à luz a primeira filha, junto às raízes da árvore onde também ela nasceu. Quando se afasta da floresta, a tristeza e o desnorte começam a tomar conta da personagem, e a actriz representa-o como poucos. 


Paul Mescal incorpora um jovem Will idealista e apaixonado, cujo talento parece só poder singrar em Londres, para onde se muda após a frustração de trabalhar sobre o jugo do pai, e em busca de um futuro mais seguro para a mulher e filhos. A certo momento, é a tragédia da sua vida que inspira Will a transformá-la em ficção teatral, como se esta peça fosse uma forma de redenção pela ausência na vida dos filhos e da esposa. E não é retratando a tristeza, mas sim dando uma nova vida à personagem principal.

As cores do filme são um dos seus pontos fortes: cores vívidas sem encadear, no meio da Natureza, numa quase fusão entre Agnes e a sua floresta, quando tudo era mais leve e feliz; cores mais escuras e tristes, com muitas sombras, onde as velas e as janelas têm um papel fundamental, quando a vida adulta chega, a família cresce, e as dificuldades surgem de forma mais bárbara e cruel. Aqui há que destacar o bom trabalho da direcção de fotografia, guarda-roupa e direcção artística conjuntamente.


Chloé Zhao não se afirma particularmente como realizadora com Hamnet, mas dá aos actores - adultos e crianças - um profundo desafio interpretativo, onde enfrentam a dor da perda, o amor incondicional e a capacidade de superação, individual e colectiva.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Sugestão da Semana #704

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Hamnet, de Chloé Zhao, protagonizado por Jessie Buckley e Paul Mescal.

HAMNET


Ficha Técnica:
Título Original: Hamnet
Realizadora: Chloé Zhao
Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson, Joe Alwyn, Jacobi Jupe, Bodhi Rae Breathnach, Olivia LynesNoah Jupe
Género: Drama, Histórico, Romance
Classificação: M/12
Duração: 125 minutos

terça-feira, 23 de setembro de 2025

LEFFEST - Lisboa Film Festival 2025 apresenta programa numa edição que se estende à Amadora

O programa do LEFFEST — Lisboa Film Festival 2025 foi hoje anunciado numa Conferência de Imprensa, na Sala do Arquivo dos Paços do Concelho, que contou com a presença do director do festival, Paulo Branco, do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, e do administrador executivo da NOS, Luís Nascimento.

A 19.ª edição do LEFFEST vai decorrer de 7 a 16 de Novembro, em Lisboa (Cinema São Jorge, Cinema Medeia Nimas, Culturgest, Teatro do Bairro, Galeria Zé dos Bois e NOS Amoreiras), estendendo-se, pela primeira vez, a duas salas da Amadora:  Auditório dos Recreios da Amadora e Cineteatro D. João V.

Sobre a extensão do festival à cidade da Amadora, Paulo Branco referiu que o contacto partiu da Câmara Municipal da Amadora e que a programação das duas salas terá "muito em conta a especificidade da zona" e será "feita em conjunto com" o município. O tema dos exílios estará muito ligado à cidade, onde, com grande probabilidade marcará presença Wagner Moura, tendo em conta a grande comunidade brasileira ali residente.

Fora de Competição e Competição Oficial

O filme de abertura será Father Mother Sister Brother, de Jim Jarmusch. Fora de Competição estarão vários títulos sonantes, que já passaram em festivais internacionais como Die My Love, de Lynne Ramsay, Dead Man's Wire, de Gus Van Sant, Kontinental '25, de Radu Jude, Hamnet, de Chloé Zhao, Sex|Love|Dreams, de Dag Johan HaugerudThe Mastermind, de Kelly ReichardtThe Chronology of Water, de Kristen StewartThe Testament of Ann Lee, de Mona Fastvold, e The Wizard of the Kremlin, de Olivier Assayas, entre outros. Entre os filmes portugueses desta selecção, destaque para As Meninas Exemplares, de João Botelho, e Maria Vitória, de Mário Patrocínio.

Na Competição Oficial, estão 12 longas-metragens a disputar o Grande Prémio NOS, que será atribuído por um júri composto por Stacy Martin, Kim Gordon, Rodrigo Moreno, Manuel Martín Cuenca, Francisco Aires Mateus e Mohammad Rasoulof. Em Competição estarão: Blue Moon, de Richard Linklater, Silent Friend, de Ildikó Enyedi, Where to Land, de Hal Hartley, Miroirs No. 3, de Christian Petzold, The Sun Rises on Us All, de Cai ShangjunOlmo, de Fernando Eimbcke, Las corrientes, de Milagros Mumenthaler, Songs of Forgotten Trees, de Anuparna Roy, The President’s Cake, de Hasan Hadi, In the Land of Brothers, de Alireza Ghasemi e Raha Amirfazli, e o português Entroncamento, de Pedro Cabeleira. Ainda por confirmar, está o segundo volume de Mektoub, My Love: Canto Due, de Abdellatif Kechiche.


Homenagens: Hal Hartley, Isabel Ruth e Wagner Moura e tributo a Marisa Paredes

O LEFFEST apresentará a primeira grande retrospectiva europeia de Hal Hartley, que será acompanhada da estreia europeia do seu mais recente filme Where to Land. Também homenageada será a actriz Isabel Ruth, rosto incontornável do Cinema Novo português; o realizador e actor brasileiro Wagner Moura, recentemente distinguido no Festival de Cannes, pelo seu papel em O Agente Secreto; e a actriz britânica Miranda Richardson. Todos marcarão presença em Lisboa para apresentar os seus filmes e participar em encontros com o público.

Em memória, o festival presta tributo a Marisa Paredes (1946-2024), a actriz que, para Pedro Almodóvar, "tudo dignificava". Serão exibidos alguns dos seus filmes mais marcantes, contando com a participação de alguns dos seus próximos.


Focos: Um Novo Élan do Cinema Espanhol e O Cinema da Ásia Central

O festival vai apresentar dois Focos geográficos: Um Novo Élan do Cinema Espanhol, que reúne sete filmes inéditos em Portugal e revela a vitalidade do novo cinema espanhol, com realizadores de diferentes gerações a reinventar o legado dos grandes mestres. Estarão presentes, entre outros, Manuel Martín Cuenca, Pilar Palomero, Alberto Morais e Javier Rebollo. E o foco O Cinema da Ásia Central que apresenta 12 filmes do Cazaquistão, Tajiquistão, Uzbequistão e Quirguistão, das Novas Vagas dos anos 80 até à criação contemporânea, alguns apresentados pelos próprios autores.


Ciclos Temáticos: Revoluções e Exílios

Dois ciclos temáticos serão apresentados no festival. Revoluções, com curadoria de Denis Ruzaev e Ines Branco López, pretende olhar para a história do cinema sob a lente revolucionária. Já Exílios propõe uma reflexão íntima e política sobre a condição de desenraizamento, com filmes, debates, leituras, a exposição At the Edge of Visibility, do colectivo Dahaleez, na Galeria Zé dos Bois, e ainda um cine-concerto com The Immigrant (1917) e The Pilgrim (1923), de Charlie Chaplin, acompanhados ao vivo pelo Rodrigo Amado Trio

Secções Descobertas e Grandes Mestres

A secção Descobertas atribuirá o Prémio Revelação, que será decidido por um júri composto por Avi Mograbi, Margarida Cardoso, Stephen Kovacevich e Stéphanie Argerich, a um dos sete filmes de autores que se têm afirmado nos últimos anos. Em competição estarão DJ Ahmet, de Georgi M. Unkovski; Homebound, de Neeraj Ghaywan; Living the Land, de Huo Meng; Lucky Lu, de Lloyd Lee Choi; My Father’s Shadow, de Akinola Davies Jr.; Shadowbox, de Tanushree Das e Saumyananda Sahi; e Urchin, de Harris Dickinson.

A secção Grandes Mestres convida o público a reencontrar grandes nomes do cinema contemporâneo com novas obras: Aleksandr Sokurov (Director’s Diary), Edgar Reitz (Leibniz – Chronicle of a Lost Painting), Franco Maresco (Un film fatto per Bene), Sharunas Bartas (Laguna) e José Luis Guerín (Historias del buen valle). Sokurov, Bartas e Guerín estarão nas sessões para apresentar os filmes.


Memória do Cinema - Filmes Restaurados

Nesta edição, o LEFFEST vai apresentar três filmes recentemente restaurados: Senso (1954), de Luchino Visconti, restaurado pela Cineteca di Bologna; La Règle du Jeu (1939), de Jean Renoir, restaurado pela Cinémathèque Française; e O Processo do Rei (1990), de João Mário Grilo, que terá a sua primeira exibição pública na nova cópia restaurada pela Cinemateca Portuguesa.


Homenagem a Arvo Pärt no 90.º Aniversário

O compositor Arvo Pärt será homenageado por ocasião do seu 90.º aniversário com um concerto pelo GGG Trio (Gidon Kremer – violino, Georgijs Osokins – piano, Giedre Dirvanauskaite – violoncelo), conversas sobre a sua obra e a exibição de filmes, incluindo a sua colaboração com Robert Wilson.

Em breve, serão anunciados mais títulos e convidados à programação do LEFFEST 2025, e os bilhetes estarão à venda previsivelmente no final de Outubro. Mais informação sobre o festival em https://leffest.com/.

domingo, 25 de abril de 2021

Sugestão da Semana #452

Das estreias da passada semana e em noite de Oscars, a Sugestão da Semana é dupla: Nomadland - Sobreviver na América, de Chloé Zhao, e Undine, de Christian Petzold.



Ficha Técnica:
Título Original: Nomadland
Realizadora: Chloé Zhao
Elenco: Frances McDormand, David Strathairn, Linda May, Bob Wells, Tay Strathairn, Swankie,
Género: Drama
Classificação: M/12
Duração: 107 minutos



Ficha Técnica:
Título Original: Undine
Realizador: Christian Petzold
Elenco: Paula Beer, Franz Rogowski, Maryam Zaree, Jacob Matschenz
Género: Drama, Fantasia, Mistério, Romance
Classificação: M/12
Duração: 91 minutos

terça-feira, 30 de março de 2021

Crítica: Nomadland - Sobreviver na América (2020)

"We be the bitches of the badlands."

Fern

*8/10*

Chloé Zhao criou um road movie melancólico e realista, que convida à introspecção, enquanto viajamos estrada fora pelas planícies sem fim do Oeste dos EUA. Eis Nomadland - Sobreviver na América, protagonizado por Frances McDormand e um elenco de não actores, verdadeiros nómadas.

"Após o colapso económico de uma cidade empresarial na zona rural de Nevada, Fern (Frances McDormand) prepara a sua carrinha e parte pela estrada explorando uma vida fora da sociedade convencional, como uma nómada moderna." 

O filme baseia-se no livro de não ficção Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century, de Jessica Bruder, e mostra esta nova forma de vida, potenciada pela crise de 2008, que tantas pessoas adoptaram depois de ficar sem os seus bens. A bordo de uma carrinha ou autocaravana, todos procuram trabalhos sazonais, liberdade e a estabilidade possível. A quase totalidade de elenco não profissional torna tudo muito mais autêntico. Estamos perante verdadeiros nómadas e as suas experiências conferem a Nomadland um tom, parcialmente, documental.

Para além da crítica socio-político (que começa desde logo pela cidade operária, Empire, que desapareceu do mapa assim que a empresa empregadora fechou a fábrica no local), Chloé Zhao apela ao autoconhecimento, com uma longa-metragem solitária e desencantada, tal como a sua protagonista, mas sempre esperançosa num reencontro consigo mesma, estrada fora. A relação dos humanos com a perda é também um dos grandes motores do filme, numa reflexão das personagens que se estende à plateia. Os traumas demoram a superar e a circularidade temporal do filme é exemplificativa disso mesmo.

Sempre a reinventar-se, Frances McDormand tem um desempenho sóbrio e realista, na pele desta mulher nómada por natureza, independente e corajosa, que viaja pelo país à medida que as estações do ano passam e para onde o trabalho surja. Incapaz de criar raízes, estabelece laços com quem quer que se cruze, mas segue caminho, deixando em aberto potenciais - e quase certos - reencontros. Fern só se sente livre e feliz dentro da sua carrinha; ela não quer amarras, luta contra os sentimentos e, muitas vezes, foge como uma adolescente.

A harmonia entre Homem e Natureza e a sua ideia de paz e quase divindade enchem o ecrã. As árvores, os animais, as planícies e desertos até perder de vista, as montanhas, a neve, os rios, a terra, as ondas, a liberdade e a vida que transmitem são captadas com a grandiosidade que merecem, tirando partido da luz, da profundidade e do detalhe, num excelente trabalho da direcção de fotografia de Joshua James Richards. A banda sonora de Ludovico Einaudi adensa a aura melancólica mas igualmente a calma e tranquilidade que rodeiam a vida da protagonista.

Com Nomadland, Chloé Zhao eleva-se enquanto realizadora e partilha com o mundo a experiência de uma comunidade unida que, à margem da sociedade, conseguiu reerguer-se mesmo que da forma menos convencional.