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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Doclisboa'12: Retratos: Roman Polanski e Milos Forman

Roman Polanski: A Film Memoir                                      *7.5./10*

Laurent Bouzereau é o realizador deste filme biográfico Roman Polanski: A Film Memoir, onde entramos numa conversa informal, entre o realizador polaco e o seu amigo e colaborador Andrew Braunsberg, uma conversa entre amigos estendida a quem assiste. Percorrendo a vida do cineasta desde a sua infância em Varsóvia, em plena Segunda Guerra Mundial, até aos dias de hoje, a longa-metragem centra-se nos três grandes e difíceis momentos vividos por Polanski: a perda da mãe e pai e irmã levados para campos de concentração; a morte da sua mulher Sharon Tate e a prisão, nos anos 70, devido ao relacionamento sexual com uma adolescente, e posterior exílio, caso que se prolongou até 2009, onde voltou a ser preso, na Suiça.


Durante a conversa, com momentos de grande emoção, são-nos apresentadas fotografias e imagens de arquivo, bem como excertos dos seus filmes - O Pianista serve para ilustrar situações vividas pelo próprio Polanski enquanto criança durante a Segunda Guerra Mundial.

Com um tom menos cinematográfico (e mais televisivo) do que se possa esperar, Roman Polanski: A Film Memoir é interessante para quem conhece pouco o realizador, mas não traz grandes novidades a quem já o conhece bem. No entanto, a conversa flui da melhor forma e nunca se torna maçadora, bem pelo contrário, não se dá pelo tempo passar.

Milos Forman: Co tě nezabije… / Milos Forman: what doesn’t kill you…                                                                                     *6/10*


Milos Forman também teve direito a entrar na secção Retratos deste Doclisboa'12 com o filme de Milos SmídmajerMilos Forman: Co tě nezabije… Com uma vida menos emocionalmente que a de Polanski, Forman conta também com grandes momentos que merecem destaque neste documentário. Smídmajer filmou-o ao longo de cinco anos, conseguindo aclarar alguns dos aspectos da vida íntima do realizador, que o inspiram para fazer filmes profundos e coerentes.

Com uma infância difícil, onde também a Segunda Guerra Mundial marca presença, a vida de Milos Forman é-nos contada destacando importantes momentos: os seus filmes, os Óscares e a sua família, que tem uma importância especial nesta longa-metragem. Voando Sobre um Ninho de Cucos, Amadeus, O Baile dos Bombeiros ou Larry Flynn, são alguns dos filmes aqui revisitados.

Milos Forman: Co tě nezabije… peca, no entanto, por parecer um pouco perdido no meio de tantos factos e não ter sabido seleccionar melhor os importantes dados que reúne. A certo momento, a atenção do espectador começa a dispersar, e o filme não a volta a conseguir agarrar.

Doclisboa'12: Visões de Madredeus

*8/10*
Visões de Madredeus foi o filme de abertura da secção Heart Beat, que pela primeira vez contou com um filme português, no Doclisboa'12. Neste documentário, Edgar Pêra, que acompanhou a banda de 1987 a 2006, apresenta-nos uma espécie de cine-diários dos Madredeus, da Europa ao Oriente. 

A música, profunda e melancólica, que espelha toda uma alma nacional, aliada a todo um ambiente visual tão característico do realizador, oferecem-nos um filme intimista e arrepiante. E tudo começa no último concerto da tournée em 2006, em Tóquio.

Nas imagens iniciais, que nos mostram a capital japonesa, misturam-se os sons da cidade com a música da banda de forma brilhante. Pêra já nos acostumou a uma espécie de experimentalismo com o som e, mais ainda, com as imagens. E do fim para o início, Visões de Madredeus continua regressando aos primeiros anos da banda, onde vemos uma Teresa Salgueiro muito jovem.


Imagens de concertos e bastidores, onde os Madredeus nos são apresentados sem medos ou floreados, mas sim de uma forma muito íntima. Pêra é um amigo que os acompanha e nós também somos colocados nesse lugar. Assistimos ainda a testemunhos de fãs um pouco por todo o mundo, que são praticamente unânimes na escolha das palavras para caracterizar a música da banda, quer se fale com um japonês, com um italiano ou um francês.

Não fugindo à regra dos filmes de Edgar Pêra, Visões de Madredeus é visualmente assombroso, no melhor sentido da palavra. A distorção da imagem, da cor, e mesmo do som, resulta de forma singular, e a sua fusão com a música é fabulosa. Há uma espécie de movimento sempre presente no documentário, que lhe confere igualmente uma intensidade muito especial. Ao assistir à longa-metragem é quase impossível não sentir arrepios, pelo conjunto do que nos é apresentado e estamos a experienciar.

O realizador nunca tem receio de arriscar e gosta de experimentar. Visões de Madredeus é uma explosão de cor e sentimentos, que atravessam a sala de cinema, vindos directamente dos mais diferenciados pontos do globo. A história de quase 20 anos de uma banda acompanhada num documentário que mexe com os sentidos.

domingo, 28 de outubro de 2012

Doclisboa'12: Homenagem a Fernando Lopes

No ano do falecimento do cineasta português Fernando Lopes, o Doclisboa'12 não podia deixar de lembrar o trabalho do realizador, tão importante no campo do documentário em Portugal. Antes da exibição de As Pedras e o Tempo - Évora, Cinema Olhar/Ver – Gérard, Fotógrafo, Augusto M. Seabra e Susana Sousa Dias introduziram a sessão. Seabra destacou a "importância decisiva [de Fernando Lopes] na história do documentário em Portugal", e explicou a decisão de se fazer "uma homenagem menos óbvia" ao cineasta, apresentando filmes quase desconhecidos do público, ao invés de optar pela escolha mais fácil que seria Belarmino.

As Pedras e o Tempo - Évora                               *6.5/10*

Curta documental de 1961 encomendada pelo regime. As Pedras e o Tempo mostram-nos Évora, os seus monumentos, as suas ruas, a sua vida e a da planície que a cerca. São-nos mostrados os trabalhadores no campo, a feira que acontece na cidade uma vez por ano, os dias na Universidade... E os monumentos, as pedras que contam a história de um povo e da própria cidade de Évora.

Cinema                                                                      *8/10*

Cinema pretende revisitar o Teatro Sá da Bandeira, no Porto, no ano em que a cidade foi a Capital Europeia da Cultura. É um elogio a esta sala, mas, ao mesmo tempo, ao próprio cinema.

Os primórdios do cinema português são evocados, logo no início da curta-metragem. Ficamos perante imagens do primeiro filme português, de Aurélio da Paz dos Reis: Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança, que data de 1896. Segue-se uma apresentação do espaço do Teatro Sá da Bandeira, que nos é mostrado de forma hipnótica, vazio, ao mesmo tempo que ouvimos passos. As suas cores, vibrantes, conferem uma envolvência muito especial a quem assiste. Há a referência ao cinema pornográfico, que marcou a história da sala. E é-nos apresentado o projeccionista, Jorge José da Silva, que ali trabalha há muitos anos e tem muitas histórias para contar. Isabel Ruth protagoniza outros dos momentos mais absorventes deste Cinema, todo ele um pedaço de arte.

Olhar/Ver – Gérard, Fotógrafo                                *7/10*

Fernando Lopes faz aqui um "retrato" de Gérard Castello Lopes, no que toca à sua importância no contexto da fotografia contemporânea e, especialmente, para a fotografia portuguesa. Com as participações especiais de Maria João Seixas e Alexandre Pomar, Lopes cria uma intimidade que nos prende a este olhar de Gérard, Fotógrafo.

Desde o início do gosto por fotografar, passando pela fase de o fazer para testemunhar, onde a época parecia pedir por tal, até, passados 17 anos, cansado da dificuldade em fotografar quem não quer ser fotografado, a sua preocupação se ter alterado. Gérard começou a fotografar o registável, a natureza, querendo sempre alcançar o paradoxo - a realidade como ilusão. As mudanças na forma de olhar/ver o que o rodeia ao longo de uma vida, conforme a multiplicidade de experiências vividas. Olhar/Ver - Gérard, Fotógrafo conta-nos tudo, na pessoa do próprio Castello Lopes.

sábado, 27 de outubro de 2012

Doclisboa'12: Vencedores


Foram esta noite conhecidos, na sessão de encerramento, os vencedores desta 10ª edição do Doclisboa, que termina amanhã. San Zimei, de Wang Bing, e Terra de Ninguém, de Salomé Lamas, foram os grandes vencedores da competição internacional e nacional, respectivamente. Segue a lista completa de premiados que terão amanhã nova exibição no festival:


Competição Internacional

Grande Prémio Cidade de Lisboa para melhor longa-metragemSan Zimei,de Wang Bing

Prémio Especial do JúriThe Anabasis of May and Fusako Shigenobu, Masao Adachi and 27 Years without Images, de Eric Baudelaire

Menção Especial: Sofia's Last Ambulance, de Ilian Metev

Prémio Siemens para melhor curta-metragemDusty Night, de Ali Hazara

Menção Especial: Relocation, de Pieter Geenen

Prémio Revelação - Fast Forward
Prémio para a melhor primeira obra transversal à Competição Internacional, Investigações e RiscosEspoir Voyage, de Michel K. Zongo

Prémio Universidades
Prémio Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa para melhor longa-metragem da Competição InternacionalBabylon, de Youssef Chebbi, Ismaël, Ala Eddine Slim

Investigações

Prémio RTP2 para melhor documentário de InvestigaçãoUn Mito Antropologico Televisivo, de Alessandro Gagliardo, Maria Helene Bertino, Dario Castelli

Competição Portuguesa

Prémio Liscont para melhor longa-metragemTerra de Ninguém, de Salomé Lamas

Menção Especial: Amanhecer a Andar, de Sílvia Firmino

Doclisboa'12: Tropicália

*7.5/10*
Tropicália traz para a secção Heart Beat ritmos bem brasileiros e foi no Domingo passado recebido com a sala Manoel de Oliveira, do Cinema São Jorge, quase cheia. Este Sábado à noite tem direito a mais uma sessão. Realizado por Marcelo Machado, este é um dos documentários que têm sido mais bem recebidos no Doclisboa'12.

Tropicália traz um olhar contemporâneo sobre o importante movimento cultural que explodiu no Brasil no final dos anos 1960 apelidado de Tropicalismo. Junta material de arquivo precioso, recuperado propositadamente para esta produção, e testemunhos dos protagonistas do movimento, de onde se destacam os nomes de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Tudo começa em bom português de Portugal. É em Lisboa, no programa de televisão Zip Zip, com Raul Solnado e Carlos Cruz ao comando, que Caetano e Gil actuam, a 4 de Agosto de 1969, e falam sobre o Tropicalismo. É este o ponto de partida para se recuar alguns anos até à origem do movimento, no Brasil, e conhecer a sucessão de acontecimentos que tiveram lugar até 1969. 

Numa época politicamente conturbada no Brasil, o colectivo da Tropicália vem romper e agitar os ânimos, culminando mesmo na prisão dos seus grandes impulsionadores Caetano e Gil, que se vêem obrigados, posteriormente, a sair do país. E são os tempos anteriores e no exílio em Londres que nos são aqui apresentados, todo o crescimento do movimento tropicalista, que se acelera com o início dos festivais de música popular na televisão, e o sucesso que se verifica, mesmo após os músicos saírem do país.


A relação entre músicos e televisão é bastante explorada, onde Roberto Carlos nos surge como exemplo. E é aí que começam os tão importantes festivais. É importante que os cantores sejam vistos e conhecidos, e aí está esta relação de dependência que se estabelece entre as duas partes. A conjuntura política da época é outro ponto forte do documentário, que nos mostra como a mensagem "sejam livres", que o movimento passava, era subversiva para a época, verificando-se uma espécie de dicotomia "Tropicalismo/Ditadura". Caetano e Gil incentivavam a pensar, mas para a ditadura da época, pensar era crime.

Em Tropicália, e a par dos dois grandes protagonistas, surgem-nos também nomes como Maria Bethânia ou Nara Leão, que não se incluíam no movimento mas estavam-lhe intimamente ligadas, ou Os Mutantes, um dos maiores sucessos da época, Rita LeeTom Zé, Gal Costa, e tantos outros nomes que nos testemunham uma época.


Visualmente o documentário, maioritariamente composto por imagens de arquivo, a preto e branco, recebe o colorido que o próprio movimento já traz consigo, através de manchas de várias cores que surgem sobre a imagem, conferindo-lhes a vivacidade e arrojo que caracterizaram o Tropicalismo.

Tropicália é uma viagem a um país, a uma época e a um movimento, mais do que musical, cultural e artístico. Caetano Veloso e Gilberto Gil são os protagonistas que nos guiam, numa jornada de cor e nostalgia, ao tropicalismo.

Doclisboa'12: Competição Portuguesa e Riscos #2

Competição Portuguesa de Curtas-metragens: Histórias do Fundo do Quintal                                                                                  *4.5/10*


Tiago Afonso trouxe em estreia mundial para a Competição Portuguesa de Curtas-metragens do Doclisboa'12 Histórias do Fundo do Quintal, contadas a três vozes. Inspirada nos acontecimentos que tiveram lugar em Paris de 18 de Março a 28 de Maio de 1871, nesta curta debate-se a história de uma revolta, enquanto a câmara quer encontrar provas no fundo de um quintal.

Ouvimos as vozes mas não vemos quem fala, apenas nos são mostradas imagens que pretendem ilustrar o que é dito, são-nos apresentadas como provas de algo brutal que ali parece ter acontecido. Procura criar-se um registo do que é contado. Contudo, algumas das imagens surgem um tanto forçadas.

Por volta da metade da curta-metragem alcançam-se bons momentos, onde as conversas encaixam perfeita e naturalmente nas imagens que surgem. A opção da gravação da canção que acompanha as imagens no final do documentário é interessante, mas estas depressa se tornam repetitivas. Tiago Afonso apresenta uma ideia algo original, mas cuja concretização não é a melhor.

Riscos: Hollywood Movie                                                    *6.5/10*


Hollywood Movie, de Volker Schreiner, é o resultado da transformação do texto Argumento Cinematográfico, de Nam June Paik, num filme de sete minutos. "Pode tornar-se qualquer filme de Hollywood interessante, se se o cortar várias vezes..." e é mesmo isso que o realizador faz. Schreiner reúne nomes eternos de Hollywood como Michael Caine, Humphrey Bogart, Elizabeth Taylor, John Torturro, Katharine Hepburn, Jack Nicholson, Jeff Bridges, Kevin Spacey, entre muitos outros. Cada um diz uma palavra, retiradas de diversos filmes, e, ao fim de contas, constrói-se um texto e faz-se uma curta-metragem muito original e bastante divertida. A desconstrução de ver filmes está aqui na totalidade, Hollywood Movie é a prova dessa desconstrução: o cinema desconstruído pelo e para o cinema.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Doclisboa: Riscos e Cinema de Urgência #1

Riscos: Ashes                                                             *6.5/10*

Para Apichatpong Weerasethakul, a Tailândia, enquanto cheia de beleza, colapsa lentamente na escuridão. Dentro da secção Riscos, no Doclisboa'12, esta segunda-feira foi exibido o documentário Ashes, do realizador tailandês.


Um interessante jogo de cor, luz e som, onde a pequena cadela King Kong surge como a figura de partida.  Mas Ashes contempla também o amor, o prazer, e a destruição da memória. Fala-se de sonhos e da realidade quotidiana. Uma curta documental, intimista e visualmente cativante, onde as imagens que passam por nós são como fragmentos, mas os sonhos também não o são?


Cinema de Urgência: São Lázaro 94                         *6/10*

Dentro da secção Cinema de Urgência, um dos vários exemplos da ocupação de um espaço pela cultura, por um bem maior, é São Lázaro 94, do Cinema Libertário Acção Projecção. Uma reunião de imagens das ocupações e despejos no número 94 da Rua de São Lázaro, em Lisboa. Primeiro é-nos apresentada a ideia, depois vemos o despejo levado a cabo pela polícia e o descontentamento que se lhe seguiu.

Há dez anos ao abandono, o 94 de São Lázaro é ocupado, uma primeira vez, a 25 de Novembro de 2010. No dia seguinte é despejado pela polícia devido a uma ordem da Câmara que diz ter projectos de reabilitação para o local. Dois anos depois, e nada feito, o edifício é novamente ocupado e despejado. Fragmentos de uma experiência colectiva é o que São Lázaro 94 nos quer mostrar.

É apresentado o lado dos "ocupas", os projectos que têm, a limpeza e reestruturação do espaço, que tiveram tempo de fazer até serem despejados. Seguem-se imagens do descontentamento deste colectivo de pessoas, da união por uma causa que parece difícil de concretizar.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A Estrear: Shut up and Play the Hits: O Fim dos LCD Soundsystem

"Se é um funeral... que seja o melhor de sempre!"

Um espectacular e comovente documentário sobre o fim dos LCD Soundsystem que acompanha o último concerto da banda no Madison Square Garden, e o dia seguinte do vocalista James MurphyShut up and Play the Hits: O Fim dos LCD Soundsystem é, para além de tudo isso, uma experiência visualmente soberba.


Foi a 2 de Abril de 2011 que os LCD Soundsystem deram o seu último concerto. Murphy tomou a decisão de acabar com uma das mais célebres e influentes bandas da sua geração no auge da popularidade, assegurando que a mesma se retirava em grande, com o maior concerto da sua carreira, que esgotou rapidamente. O concerto de quatro horas levou os milhares de espectadores às lágrimas, de alegria e de tristeza.

A longa-metragem consegue emocionar-nos também a nós, que assistimos a este fim que chegou cedo demais. As explicações e emoções de Murphy vão-nos sendo apresentadas através de uma entrevista, dias antes do concerto, e ao entrarmos na sua intimidade, acompanhando-o ao longo das horas seguintes à grandiosa despedida da banda.


No dia 25 de Outubro, às 23h00, Shut up and Play the Hits: O Fim dos LCD Soundsystem tem exibição no Doclisboa, em múltiplos ecrãs no Lux. O filme tem estreia comercial a 1 de Novembro, no Cinema Nimas. Em breve, a minha crítica estará aqui e no Espalha-Factos.

Doclisboa'12: Amanhecer a Andar

*4/10*

"Hoje em dia, um homem quando acorda tem que amanhecer a andar", diz uma das personagens deste documentário que faz parte da Competição Nacional de longas-metragens. A realizadora, Sílvia Firmino, parece ter-se inspirado nesta frase para a escolha do título do seu filme Amanhecer a Andar, que teve exibição este Sábado no Doclisboa.


Histórias de quem que vive em redor do antigo Grande Hotel Beira, em Moçambique, onde alguns habitam, em condições precárias. Um velho homem guarda uma escola durante a noite e, ao amanhecer, abre portas e varre o chão arenoso, ao mesmo tempo que ouvimos crianças a cantar o hino de Moçambique. Este homem é Augusto e é ele que nos leva ao espaço onde o documentário se passa. Um espaço amplo, misterioso, que se revelará fragmentado no encontro com as personagens principais do filme. Elvita trabalha incessantemente mas não deixa de defender o seu descanso junto do marido. Carlos procura um empréstimo para aumentar uma pequena banca de venda e finalmente começar também a construir a casa para a família. Salim reza várias vezes ao dia, ensina o Alcorão a crianças e, em família, não perde a atenção do primeiro filho homem. Três vidas em percurso, num movimento que olha para o futuro sem perder a tranquila condição no presente.

Amanhecer a Andar reúne um conjunto de imagens que teriam grande valor se fossem trabalhadas e apresentadas de outra forma. Vemos o dia a dia destas pessoas, mas não sabemos os seus nomes (para além do que nos é dito na sinopse), não percebemos a relação que existe entre os vários personagens, e, muito menos o que a realizadora pretendia transmitir com esta longa-metragem.

A fotografia não é, claramente, um ponto forte, nem as próprias personagens e algumas cenas parecem totalmente encenadas (como a conversa sobre o empréstimo). Contudo, há momentos interessantes que poderiam ter sido aproveitados da melhor forma. A conversa entre Carlos e o encarregado da obra da sua futura casa, apesar de divertida, ao mesmo tempo, demonstra bem as dificuldades, não só financeiras, como também do próprio planeamento do território e mesmo no que respeita aos esgotos (inexistentes). Perto do final, a comparação das actividades dos homens, que se reúnem para ver futebol, e das mulheres, que dançam animadas, são dois momentos muito interessantes. A música, que nos acompanha ao longo do filme,  é também uma mais-valia.

Sente-se demasiadamente a ausência de testemunhos, existindo muitos vazios por preencher. Sílvia Firmino tinha nas mãos material potencialmente valioso, que poderia ter resultado bem, mas parece ter preferido contrariar o título da sua longa-metragem.


Amanhecer a Andar repete amanhã, dia 22 de Outubro, às 16h30, no Cinema São Jorge.

sábado, 20 de outubro de 2012

Doclisboa'12: É na Terra Não É na Lua - O Arquivo

*9/10*

Depois de um primeiro dia com duas sessões esgotadas - a de abertura incluída, claro -, a Sexta-feira no Doclisboa abriu da melhor forma no Pequeno Auditório da Culturgest. É na Terra Não é na Lua - O Arquivo foi exibido, a propósito do lançamento do DVD do filme, que foi o grande vencedor da Competição Internacional na edição de 2011. O realizador Gonçalo Tocha esteve presente na sessão e no posterior debate.


Imagens que não foram incluídas na premiada longa-metragem encontram agora o seu devido lugar como arquivo, não somente do filme mas igualmente da própria ilha, cujos registos escasseiam. A ilha do Corvo e as suas pessoas, os seus lugares, as suas festas, a sua evolução, a sua vida.

Para concretizar É na Terra Não É na Lua, Gonçalo Tocha e Dídio Pestana foram por três vezes à mais pequena ilha dos Açores, entre 2007 e 2009, onde permaneceram ao todo três meses. Neste arquivo de 20 sequências de vida da pequena comunidade da ilha do Corvo (que foram colocadas de fora da longa-metragem), juntam-se também imagens de 2011, de um registo posterior, agora organizadas para a edição especial em DVD.

Composto por dois discos, o do filme e o do arquivo, o DVD agora lançado vem acompanhado de um diário da rodagem, originando assim uma espécie de filme-livro, onde um serve de complemento ao outro, o livro faz a ligação do filme ao arquivo.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Doclisboa'12 começa hoje

A 10ª edição do Doclisboa começa hoje e prolonga-se até 28 de Outubro. Esta noite, a abrir o festival na Culturgest está A Última Vez que Vi Macau, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, às 21h30, que faz também parte da competição internacional de longas-metragens. Já dia 27, para a sessão de encerramento, o filme escolhido foi Cesare Deve Morire, de Paolo e Vittorio Taviani, candidato italiano ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. 


Num ano difícil para a cultura, o Doclisboa conseguiu contornar as dificuldades e oferece uma programação de excelência, cheia de novidades. AQUI pode ser relido o artigo sobre a programação deste ano do festival que privilegia o cinema documental, avançada aquando da conferência de imprensa.

A programação e horários das sessões podem ser consultados AQUI.

sábado, 29 de setembro de 2012

Doclisboa'12 com programação de excelência

Foi na passada Quinta-feira que o Doclisboa'12 anunciou, em conferência de imprensa, as novidades da sua programação deste ano, numa 10ª edição que tem lugar entre os próximos dias 18 e 28 de Outubro. A abrir o festival está A Última Vez que Vi Macau, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, a encerrar, Cesare Deve Morire, de Paolo e Vittorio Taviani, candidato italiano ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Apesar dos cortes orçamentais, que se sentem mais ainda este ano, o Doclisboa não descurou a programação, que, apesar do fim na retrospectiva histórica, conta com três novas secções.


Verdes Anos, que quer dar voz aos novos realizadores nacionais, apresentando filmes produzidos no contexto académico; Cinema de Urgência, que surge num momento em que cada vez mais pessoas documentam com as suas câmaras a realidade social e política, inquietações e lutas, e, ao mesmo tempo, existem cada vez mais imagens na Internet que surgem como meios alternativos de informação e reflexão; e Passagens, onde as sessões terão entrada gratuita, e que surge da saída do cinema para os museus e da entrada do documentário na arte contemporânea - instalações de Chantal Akerman e de Pedro Costa são alguns dos destaques desta secção, que conta também com um colóquio internacional -, são as três novas secções deste Doclisboa.

Na Competição Internacional (de Longas e Curtas) várias estreias mundiais, e filmes de todos os cantos do mundo (França, Espanha, Tunísia, Burquina Faso, Canadá...) , com destaque para o filme português A Última Vez que Vi Macau (filme de abertura do festival), a marcar presença na Competição Internacional de Longas. Já na Competição Portuguesa de Longas, destaque para Cativeiro, de André Gil Mata, Deportado, de Nathalie Mansoux, Amanhecer a Andar, de Sílvia Firmino, O Pão que o Diabo Amassou, de José Vieira, ou O Sabor do Leite Creme, de Rossana Torres e Hiroatsu Suzuki, por exemplo.

São 68 os filmes portugueses presentes no festival este ano, e cinco deles constam na secção Heart Beat (que em vários anos de existência nunca tinha contado com uma produção nacional), sendo Edgar Pêra a abrir com o filme Visões de Madredeus. Há ainda espaço para um Tributo ao Festival de Curtas de Vila do Conde e, não poderia deixar de ser, uma merecida homenagem a Fernando Lopes, cineasta recentemente falecido, com a projecção de três dos seus filmes: As Pedras e o Tempo, Cinema e Olhar/Ver. "Não há história do cinema documental em Portugal sem Fernando Lopes", como bem referiu Augusto M. Seabra. Dentro da secção Riscos, mais homenagens. Este ano a secção é em memória de três grandes nomes recentemente falecidos: Chris Marker, Marcel Hanoun e Stephen Dwoskin


Chantal Akerman conta com uma retrospectiva integral, que o Doclisboa apresenta em parceria com a Cinemateca Portuguesa. Pretende-se questionar o documentário na sua relação com outras práticas cinematográficas e artísticas. Alguns dos títulos que serão exibidos durante o festival são, por exemplo, Les Années 80, La Chambre, Chantal Akerman par Chantal Akerman, Là-Bas ou Un Jour Pina m'a Demandé... (sobre Pina Bausch). Ainda há lugar para a retrospectiva United We Stand, Divided We Fall: A brief history of the radical collectives from the 60's to the 80's, onde se reflecte sobre o significado de fazer um filme e assiná-lo enquanto colectivo e não enquanto autores individuais e a sua relação directa com uma atitude e responsabilidade política. São de realçar filmes como Vladimir et Rosa, do Groupe Dziga Vertov (de onde fazia parte Godard e Jean-Pierre Gorin), ou mesmo o português Caminhos da Liberdade, da Cinequipa. No âmbito desta retrospectiva, haverá uma mesa redonda sobre o Cinema Colectivo, no dia 24 de Outubro.

A par das sessões, mais mesas redondas, masterclasses e workshops não vão faltar. Andrei Ujica dará uma masterclass a 23 de Outubro, e no dia 21 acontece outra subordinada ao tema da distribuição online legal com Jana Ptackova: Masterclass Online Distribuition: What to (not) Expect. Ao longo do festival acontecerá também um Workshop de Realização. Nas Mesas Redondas irá debater-se A RTP e o Serviço Público de Televisão, que tanta polémica tem gerado nos últimos tempos, Laboratórios de Cinema Independentes, onde se discutirá se estamos ou não a assistir ao fim da película e o que fazer para defender a importância de um laboratório de cinema independente em Portugal, ou, também a propósito da situação vivida por cá, O Cinema e a Crise na Europa do Sul.

O Docs 4 Kids trará ateliers para crianças, e outras actividades pedagógicas vão existir para os mais novos durante o festival. Por outro lado, a Apordoc - Associação pelo documentário e a EDN - European Documentary Network organizam, uma vez mais, o Lisbon Docs, um evento internacional dirigido a profissionais que pretendem apresentar projectos de documentários a potenciais financiadores. 

Novidades e variedade não faltam a este Doclisboa'12, que se dividirá por muitas salas: Culturgest, Cinema São Jorge, Cinema Londres, Cinemateca Portuguesa, Carpe Dien Arte e Pesquisa, Galeria Palácio Galveias e Lux Frágil. As bilheteiras abrem a 4 de Outubro. Mais informações em www.doclisboa.org/2012/

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Doclisboa'12: Cartaz

É já no próximo mês que acontece a 10ª edição do Doclisboa. De 18 a 28 de Outubro o cinema documental chega à Culturgest, Cinema São Jorge, Cinema Londres e Cinemateca Portuguesa.

Aqui fica o cartaz desta edição do festival, da autoria de Pedro Nora, responsável por toda a identidade e imagem gráfica do Doclisboa'12.