Mostrar mensagens com a etiqueta Emmanuelle Seigner. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Emmanuelle Seigner. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Vénus de Vison: No Cinema e no Teatro

David Ives tem inspirado o Teatro e, mais recentemente, também o Cinema com a sua obra Vénus de Vison. Por cá, a adaptação cinematográfica de Roman Polanski desfilou pelas salas de cinema portuguesas em Novembro de 2013 (podes reler a crítica do Hoje Vi(vi) um Filme, aqui). Agora, o Teatro Aberto dá a oportunidade de assistir ao mesmo texto num palco - para o qual foi escrito -, sob a encenação de Marta Dias.

Pedro Laginha e Ana Guiomar são Tomás e Vanda em Vénus de Vison no Teatro Aberto

Ana Guiomar e Pedro Laginha dão corpo às mesmas personagens que Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric: Vanda e Thomas (Tomás na versão portuguesa). Quem gostou do filme, pode experimentar a peça de teatro e não sairá nada desiludido. Vénus de Vison está desde dia 10 de Janeiro em cena no Teatro Aberto, em Lisboa, e ali ficará até 30 de Março, de Quarta-feira a Sábado às 21h30 e aos Domingos às 16h00.

Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric são Vanda e Thomas em Vénus de Vison, de Roman Polanski

O poder e a sexualidade são os grandes motores da peça de David Ives e se em Polanski ficámos rendidos à Vanda de Seigner, a de Ana Guiomar não nos dará qualquer hipótese, nem a nós nem a Tomás. O mote é o mesmo. No fim de um dia de audições, o encenador Tomás está sem esperança de conseguir encontrar a protagonista da sua peça. Mas quando se prepara para sair, surge mais uma actriz. Vem atrasada, é enérgica e tem maus modos, mas ainda quer prestar provas. Partilha o nome com a personagem principal da peça - Vanda - e fará tudo para conseguir o papel, mas será ela diferente de todas as outras?

Do filme de Polanski à dramaturgia de Marta Dias, as diferenças argumentativas são mínimas. A Vanda de Ana Guiomar é mais jovem - tem 24 anos - mas parece tão vivida como a de Seigner. A sua linguagem - repleta de "tipo, cenas, yá" - é mais infantil, mas a aparente imaturidade esconde a mesma experiência, a mesma subversão e o mesmo mistério da francesa. Tomás assume o mesmo domínio inicial e vai-se deixando subjugar ao longo da peça, tal como acontece no filme. Tanto Thomas de Mathieu Amalric, como o Tomás de Pedro Laginha impressionam-nos pelo curioso percurso da sua personagem, e, especialmente, aquando da reviravolta final.


Contudo, é mesmo na personagem feminina que se encontram as principais diferenças - e semelhanças - entre a longa-metragem e a peça de teatro. Por um lado, a diferença de idade entre Ana Guiomar, de 25 anos, e Emmanuelle Seigner, de 47, poderia oferecer alguma renitência em crer que a jovem actriz pudesse estar à altura da personagem de Vanda. Mas certo é que a portuguesa prova, a cada peça - esta é a sua terceira -, como pode ser surpreendente e como é feita para o teatro. O à vontade com que está em palco, a sensualidade que personifica, a impressionante naturalidade com que faz a transição - repentina - entre Vanda Jordão e a Vanda da peça de Tomás é impressionante e prova o furacão que Ana é em palco. 

Os dois actores estão em cena ao longo de uma hora e quarenta minutos, sem intervalo, sob luzes quentes e na pele de personagens poderosas e, em momento algum, se denota fraqueza ou cansaço. Pelo contrário, sempre com mais ritmo, com mais ferocidade, violência e sedução, nunca descurando o texto, tão machista, tão feminista. Vénus de Vison em palco é feito num único take - aí está a desafiante vantagem do Teatro.


O pormenor cinematográfico que obtemos ao ver um filme perde-se naturalmente num teatro, mas o dinamismo é, no entanto, muito maior. A atenção e os olhos do espectador têm de seguir os actores - que estão tão perto -, de um lado ao outro do palco, os ouvidos têm de estar mais alerta.

Ao mesmo tempo, quem for ao Teatro Aberto assistir à peça encenada por Marta Dias, depara-se com um excelente trabalho de cenografia, que não esquece os elementos fundamentais do texto: o canapé, a secretária ou o poste - o famoso símbolo fálico. E toda a cena se transfigura perto do fim, sob os olhares incrédulos da plateia, num misto entre sonho e realidade. Para tudo isto, muito contribui igualmente a iluminação e o som - a condizer com o ambiente misterioso, onde se multiplicam os jogos de poder e de sedução.


O Teatro e Cinema têm a mesma magia, cada um à sua maneira. Os sorrisos e risadinhas tímidas são mais frequentes e sonoros no teatro, as palmas são silenciosas na sala de cinema, onde o silêncio é de ouro para desfrutar da experiência e, perante um palco, quanto mais sonoras forem mais são sinal da qualidade do espectáculo. Vénus de Vison deveria ser uma experiência a ter por meio de ambas as artes.

Depois de experimentar mais uma adaptação de uma peça de teatro à linguagem cinematográfica por Polanski, agora com Vénus de Vison, nada como sentir na pele as peles de Vénus também no teatro. Este retrato mordaz de um autor atraiçoado pela própria criação está ao dispor de quem o que quiser ver no Teatro Aberto, com grandes interpretações.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Crítica: Vénus de Vison / La Vénus à la Fourrure (2013)

"E o Senhor o feriu pela mão de uma mulher."
*8/10*

Roman Polanski regressa aos grandes filmes com o seu novo Vénus de Vison. O teatro, o poder e a sexualidade são alguns dos temas presentes nesta longa-metragem protagonizada por Emmanuelle Seigner Mathieu Amalric - os dois únicos nomes do elenco.

Vénus de Vison teve antestreia nacional no LEFFEST'13 e já está nos cinemas. Sozinho num teatro parisiense após um dia de audições a actrizes para a peça que está prestes a encenar, Thomas (Mathieu Amalric) lamenta ao telefone o fraco desempenho das candidatas. Ninguém tem a dimensão necessária para assumir o papel principal, e, quando se prepara para sair, eis que surge Vanda (Emmanuelle Seigner), um verdadeiro turbilhão de energia, tão desenfreada como atrevida. Vanda incorpora tudo o que Thomas odeia. Ela é vulgar, insensata, e fará de tudo para conseguir o papel.

Mais uma vez, teatro e cinema fundem-se na filmografia de Polanski, depois de O Deus da Carnificina. Desta vez, o palco está ali, e tudo acontece naquele espaço - um teatro parisiense. O cineasta adaptou a peça de David Ives que se debruça sobre o romance Venus in Furs, de Leopold von Sacher-Masoch. Às (apenas) duas personagens em cena - no ecrã de cinema e no palco do teatro -, soma-se um argumento provocador, que vem recuperar temas recorrentes em outros filmes de Roman Polanski, e o resultado é provocador e aberto às interpretações da plateia.

Vénus de Vison está repleto de jogos de poder e de sedução. Machismo - "E o Senhor o feriu pela mão de uma mulher", já Vanda se queixava - , feminismo, travestismo ou masoquismo, encontramos de tudo neste trabalho de Polanski. Mas Vanda parece sair sempre por cima, contrariando a reticência inicial de Thomas. Ela seduz, mas não se deixa seduzir, ela irrita-o, humilha-o, mas, acima de tudo, ela é tudo aquilo que ele imaginou.


O poder, tão central em Vénus de Vison, começa por ser detido por Thomas, o encenador saturado de procurar a sua Vanda. Ele nega-se a fazer a audição da atrasada actriz, com tão maus modos e  -aparentemente - poucos conhecimentos dramáticos. Todavia, rapidamente é Vanda que passa a deter o poder, contestando, surpreendendo e dominando o seu avaliador. E mesmo quando os papéis se voltam a inverter, é ela que o subjuga, novamente.

E é na personagem feminina que reside o mistério que perdura até ao final. Quem é esta mulher, que partilha o nome e se transforma completamente ao incorporar a personagem feminina da peça de Thomas? Vanda surge como a personificação do ideal de actriz que o encenador procura. Será que ela existe ou é apenas fruto da imaginação dele? Vénus de Vison é o retrato mordaz de um autor atraiçoado pela própria criação.

Para além das excelentes personagens, a longa-metragem de Polanski destaca-se igualmente pelos pequenos pormenores como os objectos invisíveis que se revelam através dos sons, genialmente presentes. Sabemos onde está a chávena, o pires ou a colher mesmo sem os ver. Ao mesmo tempo, tecnicamente, o realizador movimenta-se como ninguém num único espaço, coloca-nos muitas vezes na pele de Vanda - o início e final do filme são os exemplos mais flagrantes e que aguçam o carácter quase imaginário da personagem -, a fotografia de Pawel Edelman joga com luz e sombra tão perfeitamente como Vanda sabe iluminar o palco do teatro perante o olhar incrédulo de Thomas. A acompanhar toda a atmosfera teatral e dominadora - até do espectador - está a delicada e muito adequada banda sonora de Alexandre Desplat.


Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric são a alma de Vénus de Vison. A química entre ambos é evidente, e a energia e entrega às personagens são enormes. Amalric mostra uma vez mais o talentoso e versátil actor que é na pele do exigente e perturbado Thomas. Já Seigner oferece-nos um desempenho fabuloso como Vanda, esta mulher vulgar mas surpreendente, sensual, vingativa e desequilibrada.

Com Vénus de Vison, Roman Polanski volta aos temas fortes onde o poder é o grande motor da acção. O pesadelo dos autores é incorporado por Emmanuelle Seigner que trará ao de cima toda a perversidade escondida numa peça de teatro e na mente de um encenador.

Sugestão da Semana #90

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana recai sobre o mais recente filme de Roman Polanski, Vénus de Vison.

VÉNUS DE VISON


Ficha Técnica:
Título Original: La Vénus à la fourrure
Realizador: Roman Polanski
Actores: Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric
Género: Drama
Classificação: M/16
Duração: 96 minutos