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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Crítica: Vénus de Vison / La Vénus à la Fourrure (2013)

"E o Senhor o feriu pela mão de uma mulher."
*8/10*

Roman Polanski regressa aos grandes filmes com o seu novo Vénus de Vison. O teatro, o poder e a sexualidade são alguns dos temas presentes nesta longa-metragem protagonizada por Emmanuelle Seigner Mathieu Amalric - os dois únicos nomes do elenco.

Vénus de Vison teve antestreia nacional no LEFFEST'13 e já está nos cinemas. Sozinho num teatro parisiense após um dia de audições a actrizes para a peça que está prestes a encenar, Thomas (Mathieu Amalric) lamenta ao telefone o fraco desempenho das candidatas. Ninguém tem a dimensão necessária para assumir o papel principal, e, quando se prepara para sair, eis que surge Vanda (Emmanuelle Seigner), um verdadeiro turbilhão de energia, tão desenfreada como atrevida. Vanda incorpora tudo o que Thomas odeia. Ela é vulgar, insensata, e fará de tudo para conseguir o papel.

Mais uma vez, teatro e cinema fundem-se na filmografia de Polanski, depois de O Deus da Carnificina. Desta vez, o palco está ali, e tudo acontece naquele espaço - um teatro parisiense. O cineasta adaptou a peça de David Ives que se debruça sobre o romance Venus in Furs, de Leopold von Sacher-Masoch. Às (apenas) duas personagens em cena - no ecrã de cinema e no palco do teatro -, soma-se um argumento provocador, que vem recuperar temas recorrentes em outros filmes de Roman Polanski, e o resultado é provocador e aberto às interpretações da plateia.

Vénus de Vison está repleto de jogos de poder e de sedução. Machismo - "E o Senhor o feriu pela mão de uma mulher", já Vanda se queixava - , feminismo, travestismo ou masoquismo, encontramos de tudo neste trabalho de Polanski. Mas Vanda parece sair sempre por cima, contrariando a reticência inicial de Thomas. Ela seduz, mas não se deixa seduzir, ela irrita-o, humilha-o, mas, acima de tudo, ela é tudo aquilo que ele imaginou.


O poder, tão central em Vénus de Vison, começa por ser detido por Thomas, o encenador saturado de procurar a sua Vanda. Ele nega-se a fazer a audição da atrasada actriz, com tão maus modos e  -aparentemente - poucos conhecimentos dramáticos. Todavia, rapidamente é Vanda que passa a deter o poder, contestando, surpreendendo e dominando o seu avaliador. E mesmo quando os papéis se voltam a inverter, é ela que o subjuga, novamente.

E é na personagem feminina que reside o mistério que perdura até ao final. Quem é esta mulher, que partilha o nome e se transforma completamente ao incorporar a personagem feminina da peça de Thomas? Vanda surge como a personificação do ideal de actriz que o encenador procura. Será que ela existe ou é apenas fruto da imaginação dele? Vénus de Vison é o retrato mordaz de um autor atraiçoado pela própria criação.

Para além das excelentes personagens, a longa-metragem de Polanski destaca-se igualmente pelos pequenos pormenores como os objectos invisíveis que se revelam através dos sons, genialmente presentes. Sabemos onde está a chávena, o pires ou a colher mesmo sem os ver. Ao mesmo tempo, tecnicamente, o realizador movimenta-se como ninguém num único espaço, coloca-nos muitas vezes na pele de Vanda - o início e final do filme são os exemplos mais flagrantes e que aguçam o carácter quase imaginário da personagem -, a fotografia de Pawel Edelman joga com luz e sombra tão perfeitamente como Vanda sabe iluminar o palco do teatro perante o olhar incrédulo de Thomas. A acompanhar toda a atmosfera teatral e dominadora - até do espectador - está a delicada e muito adequada banda sonora de Alexandre Desplat.


Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric são a alma de Vénus de Vison. A química entre ambos é evidente, e a energia e entrega às personagens são enormes. Amalric mostra uma vez mais o talentoso e versátil actor que é na pele do exigente e perturbado Thomas. Já Seigner oferece-nos um desempenho fabuloso como Vanda, esta mulher vulgar mas surpreendente, sensual, vingativa e desequilibrada.

Com Vénus de Vison, Roman Polanski volta aos temas fortes onde o poder é o grande motor da acção. O pesadelo dos autores é incorporado por Emmanuelle Seigner que trará ao de cima toda a perversidade escondida numa peça de teatro e na mente de um encenador.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

LEFFEST'13: Crítica: Disponível para Amar / In the Mood for Love (2000)

*8.5/10*

Entre os homenageados do LEFFEST'13 esteve Wong Kar-Wai. Para além do mais recente trabalho do realizador, The Grandmaster, foram exibidos outros títulos da sua filmografia - Ao Sabor da Ambição, Days of Being Wild, As Cinzas do TempoChungking Express, Anjos Caídos, Felizes Juntos, Disponível para Amar, 2046 My Blueberry Nights - O Sabor do Amor

Em 2000, o mundo pôde conhecer Disponível Para Amar, uma longa-metragem sensível, romântica e realista que tem como palco Hong Kong dos anos 60. Wong Kar-Wai deixa o seu público hipnotizado pelas suas características marcas visuais que dão a este filme uma componente extra de brilhantismo.

O filme gira em torno da relação de Chow Mo-Wan (Tony Leung) e Su Li-Zhen (Maggie Cheung), vizinhos que vivem num prédio de apartamentos lotados na Hong Kong de 1962.  Casados com pessoas que estão sempre ausentes, os dois passam muitas noites sozinhos. Quando se conhecem, descobrem ter muito em comum: ambos gostam de artes marciais, frequentam o mesmo stand de noodles e, eventualmente, descobrem que são traídos pelos parceiros. Ao mesmo tempo que encontram conforto um no outro, escolhem não ser como os seus amantes infiéis.

O argumento simples ganha na originalidade ao tratar um tema que poderia ser tão comum. Contudo estes dois personagens  traídos preferem fugir à regra e manter a fidelidade aos que lhes são infiéis, com o consolo mútuo como único retorno desta relação. O amor e a paixão pairam em todo o ambiente de Disponível para Amar, quer nos sentimentos dos protagonistas, nas ruas da cidade, nos gostos em comum, nos movimentos de câmara, nas cores, nas cortinas que esvoaçam... Cada gesto, pensamento ou mínimo pormenor técnico ou de cenário transpira sentimentos fortes e contagia-nos.


Tecnicamente Wong Kar-Wai conquista-nos nos planos íntimos, inteligentes e sensíveis, que, por vezes, jogam com espelhos, ou com o arrastamento da imagem (tão típico do realizador), e onde a fotografia soberba evidencia cores fortes e padrões inebriantes (o vermelho domina e só nos enche de paixão), o fumo e a chuva, que unem as personagens. Recordem-se algumas cenas inesquecíveis em que os dois se cruzam, junto à escadaria que conduz ao stand de massas, ou o regresso a casa debaixo de chuva, onde não querem ser vistos a chegar juntos. A montagem faz igualmente um óptimo trabalho sendo os (belos) vestidos de Su Li-Zhen que nos informam da passagem do tempo. A banda sonora, não muito variada, é, no entanto, intensa e apaixonante.

Maggie Cheung e Tony Leung proporcionam-nos grandes interpretações com personagens divididas entre o amor e a fidelidade, numa árdua luta para não fazerem o mesmo que lhes fizeram. Entre o conforto e a alegria que sentem juntos, à consciência que lhes diz para não passarem os limites que impuseram a si mesmos, o dilema que sentem alastra até ao espectador, que sofre com eles.

Ao longo de todo o filme, Chow Mo-Wan e Su Li-Zhen têm de fazer escolhas e terão de viver com elas, para o melhor e para o pior. Será que estão disponíveis para amar?

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

LEFFEST'13: Vencedores

Terminou hoje mais uma edição do Lisbon & Estoril Film Festival e os vencedores foram anunciados durante a tarde. O Hoje Vi(vi) um Filme continuará a publicar críticas aos filmes do festival nos próximos dias. Entretanto, fica a conhecer a lista completa de vencedores.


O júri do LEFFEST'13 é constituído por Arto Lindsay, Dominique Gonzalez-Foerster, Diego Masson, Carlos Saboga e Vhils e atribuiu os seguintes prémios:

Prémio Melhor Filme
Fish & Cat, de Shahram Mokri

Prémio Especial do Júri João Bénard da Costa (em ex-aequo)
e
La última película, de Raya Martin e Mark Peranson

Paul Auster, Siri Hustvedt, J.M. Coetzee, Don DeLillo e Gonçalo M. Tavares fizeram parte do júri que escolheu os vencedores dos prémios Cineuropa e Melhor Curta-metragem MEO.

Prémio Cineuropa
Das merkwürdige Kätzchen, de Ramon Zürcher

Prémio Melhor Curtas-Metragens MEO
Primária, de Hugo Pedro — Escola Superior de Teatro e Cinema, Portugal

Menções Honrosas do Prémio Curtas-Metragens MEO
Melhor Comédia
Welkom, de Pablo Munoz Gomez —
Institut des Arts de Diffusion, Bélgica

Melhor Drama
La Prima Legge di Newton, de Piero Messina — Centro Sperimentale di Cinematografia, Itália

Melhor Ensaio Cinematográfico
Untitled, de Jorge Romariz —
Escola Superior de Tecnologia de Abrantes, Portugal

LEFFEST'13: Crítica: Nós Controlamos a Noite / We Own the Night (2007)

*7/10*

James Gray é um dos homenageados deste ano no Lisbon & Estoril Film Festival com os seus cinco filmes a serem exibidos no evento (Viver e Morrer em Little Odessa, Nas Teias da Corrupção, Nós Controlamos a Noite, Duplo amor e o novíssimo The Immigrant).

O filme de 2007, Nós Controlamos a Noite, conta a história de Bobby, um jovem gerente de um bar. Com tráfico de droga a aumentar, a máfia russa expande as suas influências no mundo da noite. Para continuar a sua ascensão no negócio, Bobby vê-se obrigado a esconder a sua relação familiar - apenas a sua namorada, Amanda, sabe que o seu irmão Joseph e o pai, Burt, são polícias. Cada dia que passa, a tensão entre a máfia e a polícia aumenta, tornando-se mais violenta. É quando vê a família ameaçada que Bobby terá de decidir de qual lado quer estar.

A família está no centro de Nós Controlamos a Noite, tal como o realizador nos tem habituado. Bobby é uma espécie de ovelha negra de uma família de polícias, fiéis à lei e à ordem, enquanto ele vive na noite, gerente de um bar, consumidor de drogas e demasiado próximo do mundo do tráfico. É essa a premissa do filme de James Gray, onde o protagonista se vê obrigado, por mais do que uma vez, a fazer escolhas.


Bobby sofre uma profunda mudança ao longo de Nós Controlamos a Noite. Ele vê-se obrigado a optar entre a vida boémia e a família - de quem é distante -; entre o amor da sua namorada Amada e o fazer justiça. Joaquin Phoenix tem aqui uma óptima interpretação na pele do transtornado e rebelde - mas muito fiel aos que ama - protagonista.

O ritmo inicial, lento, muda radicalmente e torna-se impossível tirar os olhos do ecrã. Perto do fim, assistimos a excelentes momentos de acção e suspense.

São muitos os valores em jogo em Nós Controlamos a Noite, e, no meio do obscuro submundo do tráfico, James Gray proporciona-nos um bom thriller de acção, onde família e a justiça comandam os sentimentos das personagens e da plateia.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

LEFFEST'13: Crítica: Harmony Lessons (2013)

*6/10*

Deveras violento e visceral - um carneiro é esfolado à nossa frente logo na primeira cena - à sua medida, Harmony Lessons traz-nos um retrato darwinista do que o bullying pode fazer à mente de uma criança. 

A longa-metragem de estreia do realizador cazaque Emir Baigazin, de 29 anos, centra-se no quotidiano de Aslan, de 13 anos, solitário, que vive com a avó nos arredores de uma pequena localidade do país. Humilhado durante um exame médico escolar, o jovem é depois ostracizado e vítima de bullying. Depressa se começa a manifestar em Aslan uma desordem de personalidade, desenvolvendo uma obsessão pela limpeza e pela perfeição, procurando controlar tudo o que o rodeia. Com o passar do tempo, ele decide elaborar um plano de vingança contra os seus agressores, entrando numa espiral de violência que vai pôr a sociedade em xeque. Harmony Lessons foi premiado no Festival de Berlim.

Harmony Lessons traz uma abordagem original e corajosa da violência, seja no bullying, na tortura ou mesmo na morte dos animais. Em jogo está, acima de tudo, a lei da sobrevivência da espécies, numa espécie de selecção natural. Certo é que, aqui, ninguém é inocente, nem a maior das vítimas.

Se, por um lado, somos fortemente incomodados pelas atitudes dos alunos mais fortes para com os mais fracos e ficamos do lado dos segundos, por outro lado não compreendemos o fascínio de Aslan por baratas e lagartos e, mais ainda, as práticas - um tanto ou quanto mórbidas - da criança para com esses seres-vivos. Testemunhamos o transtorno obsessivo-compulsivo do rapaz - os seus banhos constantes -, ao mesmo tempo que a sua obsessão por vingança aumenta, até alcançar níveis inesperados em que nem a amizade prevalece, entre sonhos, realidade e alucinações.


Harmony Lessons traz um retrato de uma adolescência cruel e violenta, e de uma sociedade que lhe segue os passos. Contudo, é um filme de momentos, que por vezes perde fôlego divagando para histórias secundárias que não se desenvolvem, ou com escolhas de montagem menos conseguidas. Tecnicamente, a fotografia é excelente e os planos são geometricamente bem construídos - feitos quase por medida.

Harmony Lessons é um trabalho interessante, mas a concretização poderia ser melhor. Por seu lado, Emir Baigazin estreia-se em grande forma, fazendo adivinhar uma promissora carreira na realização.

No Lisbon & Estoril Film Festival, a longa-metragem de Baigazin é uma das obras em Competição.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

LEFFEST'13: Crítica: Mel / Miele (2013)

*7.5/10*

Miele (ou Mel, em português) marca a estreia de Valeria Golino na realização de longas-metragens. O suicídio assistido está no centro da questão, com todas as implicações morais que lhe estão adjacentes, e certo é que Golino faz um trabalho sério e profundo, quer na realização como no argumento - uma adaptação livre do romance A nome tuo, de Mauro Covacich.

Irene (Jasmine Trinca) vive sozinha numa casa à beira-mar, perto de Roma. Sob o nome de código Miele, secretamente, ela ajuda doentes terminais a morrerem com dignidade, dando-lhes um barbitúrico poderoso. Um dia, Irene dá uma dessas doses mortais a um novo cliente, o Sr. Grimaldi (Carlo Cecchi). Contudo, ela descobre que ele está de perfeita saúde, mas quer suicidar-se, depois de ter perdido o interesse em viver. Determinada em não ser responsável por aquela morte, ela irá fazer de tudo para a impedir.

A polémica está lançada. A temática é sensível e a abordagem está extremamente bem conseguida, com todos os problemas de consciência aqui implícitos. Entre viagens, mortes assistidas e a sua própria vida privada, Irene vive um dia-a-dia agitado, onde a rotina não existe. Como Miele, ela age contra a lei, mas sempre de consciência tranquila, a fazer o que, para si, é certo. Contudo, ao cruzar-se com Grimaldi, Irene depara-se - mais tarde do que desejaria - com um caso diferente e que vai contra os seus princípios: um homem saudável que apenas quer morrer por estar farto da vida. Irene tem estabelecido que apenas ajuda a morrer pessoas que sofram de doenças terminais.


Ao mesmo tempo que evita, a todo o custo, ser culpada por um suicídio de um homem saudável, Irene desenvolve uma curiosidade pela teimosia de Grimaldi e pela sua solidão. Há semelhanças entre os dois, ambos solitários, ambos a precisar de alguém que dê sentido às suas vidas.

Ao longo do desenrolar da acção de Miele, desejamos saber mais sobre Irene. O que vamos conhecendo do seu passado é maioritariamente por flashbacks - pouco é aquilo que ela nos conta, ou conta a Grimaldi. Esse mistério envolvo na protagonista surge em paralelo com o seu anonimato como Miele, a mulher que ajuda os doentes a morrer, eles que nem o seu nome verdadeiro saberão. Irene perdeu a mãe muito jovem, por motivo de doença, mas nunca percebemos em que circunstâncias exactamente. Fácil é daí concluir que a jovem verá nessa morte que lhe foi tão próxima o motivo para realizar o trabalho que faz - que como a familiar de um doente lhe diz é um trabalho "de merda".

Para se libertar da dor que o trabalho e as memórias lhe trazem, Irene refugia-se no desporto e na Natureza. Desde nadar no mar, a passeios de bicicleta, ao simples sentar no meio de searas, são vários os momentos em que a tranquilidade e libertação que a protagonista sente passam para o espectador. É nestes momentos que Valeria Golino nos proporciona planos de extrema beleza, sempre tão dinâmicos como Irene.

No elenco, claro destaque para Jasmine Trinca a vestir a pele da personagem principal. Ela consegue dotar Irene de coragem e teimosia, encarnando uma mulher reservada, simples mas sensual à sua maneira, desafiadora das regras da sociedade mas sempre fiel às suas. A sua obsessão pela saúde revela fragilidades mais escondidas. Ao mesmo tempo, Carlo Cecchi oferece-nos uma interessante interpretação de Grimaldi, o engenheiro deprimido que encontra em Irene uma inesperada força que quebra essa rotina que tanto o desencanta.


A música tem uma presença muito forte em Miele e a banda sonora revela-se muito importante e de grande qualidade. Com sonoridades que vão das mais clássicas (Marino Marini, Enrique Granados...) às mais modernas (Caribou, The Shins...), é ela o motor que acompanha os momentos mais dramáticos ou os mais relaxados da longa-metragem. Solitária, Irene encontra na música - ela não larga os seus headphones - uma forma de se encontrar consigo própria. Por outro lado, enquanto assiste os doentes, ela dá-lhes a ouvir o seu tema favorito, nos últimos minutos de vida.

Miele prova como Valeria Golino é capaz de um excelente trabalho do outro lado da câmara. A grandiosidade técnica e argumentativa da longa-metragem perde apenas com o final que merecia ser melhor. Ainda assim, tendo em conta o todo, a realizadora traz até nós um filme singular, corajoso e sem tabus.

Miele repete amanhã, dia 14 de Novembro, no Lisbon & Estoril Film Festival. A sessão acontecerá no Centro de Congressos do Estoril, às 21h45, e conta com a presença da realizadora para uma conversa.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

LEFFEST'13: Crítica: O Passado/ Le Passé (2013)

*6/10*


Depois de Uma Separação, Asghar Farhadi regressa com O Passado (Le Passé) onde a temática parece, aparentemente, ser semelhante à do trabalho anterior. Contudo, há diferenças evidentes que deixam a mais recente longa-metragem do realizador muitos pontos atrás do filme de 2011.

O Passado foi o escolhido pelo Irão para lutar pelo Oscar para Melhor Filme Estrangeiro na cerimónia do próximo ano. O filme começa por seguir Ahmad que após quatro anos de separação chega a Paris a partir de Teerão, a pedido de Marie, a sua esposa francesa, para se divorciarem legalmente. Durante a sua breve estadia, Ahmad descobre a relação conflituosa que Maria tem com a filha mais velha, Lucie. Enquanto Ahmad se esforça para tentar melhorar esse relacionamento, irá descobrir segredos bem guardados do passado de cada uma das personagens.

É verdade que o passado determina o presente, e é também verdade que é irrecuperável. Esta longa-metragem pretende reflectir sobre a culpa que esse passado deixa em cada um de nós, o que não foi feito, o que foi deixado por fazer e o que não devia ter sido feito. Não sendo original, a temática é interessante e poderia ser o ponto de partida para uma forte reflexão e para estabelecer proximidade com o espectador.

Todavia, a concretização não se revelou a melhor. Asghar Farhadi não tomou as melhores opções e O Passado divaga e estende-se sem aprofundar nada nem nenhuma personagem. O foco muda de Ahmad para Maria, de Maria para Lucie, de Lucie para Samir, e por aí fora, culminando num final emocional, que não suporta o resto do filme - o tom muda drasticamente e não é na última cena que se consegue aproximar personagens e plateia.

Certo é que neste filme ninguém é inocente e todos vivem com culpas e arrependimentos. É isso que os une para além d' O Passado que têm em comum. Contudo, nem mesmo o que os liga chega para justificar atitudes que ficam em aberto, a pedir uma conclusão clara. Por exemplo, temos verdadeiramente pena de Ahmad perder o protagonismo inicial e ir desaparecendo gradualmente da acção - ele que é, provavelmente, um dos pontos mais positivos de O Passado.


O elenco faz, em geral, um trabalho competente, com destaque para Ali Mosaffa como Ahmad, com uma interpretação contida mas que nos deixa curiosos para conhecer mais e melhor esta personagem e as suas angústias. Bérénice Bejo venceu em Cannes o Prémio de Melhor Actriz, e mostra aqui o seu lado mais dramático e desesperado, com algumas cenas fortes, apesar de se fazer esperar mais de uma interpretação premiada. Por seu lado, Pauline Burlet (que já interpretou Edith Piaf em criança no filme La vie en rose) revelou-se uma surpresa e uma jovem actriz muito prometedora na pele da rebelde Lucie. Para além da energia que transmite e da entrega ao papel, Burlet tem, curiosamente, notórias semelhanças físicas com Bejo Marion Cotillard. De realçar, é ainda o elenco infantil - Elyes Aguis e Jeanne Jestin - com especial destaque para o jovem Aguis na pele de Fouad que merecia maior relevância na acção.

Falta união e foco ao mais recente trabalho de Asghar Farhadi. A temática forte, aliada aos planos sempre intimistas do cineasta, mereciam uma concretização muito superior. Assim, O Passado dificilmente volta a ser lembrado.

O filme foi exibido no passado dia 10 de Novembro no Lisbon & Estoril Film Festival e repete esta Terça-feira, dia 12, pelas 22h00, no Centro de Congressos do Estoril.

sábado, 9 de novembro de 2013

LEFFEST'13: Encontro com Elia Suleiman no Nimas

O realizador Elia Suleiman estará no LEFFEST para um encontro como o público - Elia Suleiman - Work in Progress – onde falará sobre a sua carreira e os seus projectos. O encontro terá lugar amanhã, 10 de Novembro, pelas 18h00, no Espaço Nimas. A entrada é livre.


Comparado a Jacques Tati ou Buster Keaton, pela conjugação entre elementos burlescos e poéticos nos seus filmes, o realizador palestiniano viveu algum tempo em Nova Iorque, onde assinou dois trabalhos: Introduction to the End of an Argument (como co-realizador), uma sátira à representação do povo árabe nos media ocidentais; e Homage by Assassination, um documentário crítico da Guerra do Golfo, em que utiliza declarações anedóticas de alguns ex-combatentes.

Em 2002, o seu filme A Intervenção Divina foi seleccionado para a Competição Oficial do Festival de Cannes. Nesse filme conheceu a sua mulher, Yasmine Hamdan, cantora que dará um concerto no Lisbon & Estoril Film Festival, no dia 11, no CCB

A sua última longa metragem, O Tempo Que Resta (2009), retrata o nascimento do Estado de Israel, desde a fundação, em 1948, até aos nossos dias. O cineasta recria situações familiares inspiradas em memórias pessoais, nos diários do seu pai — que combateu na resistência palestiniana — e nas cartas que a sua mãe escreveu a familiares que foram forçados a abandonar o país.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

LEFFEST'13: O que ver?

O Lisbon & Estoril Film Festival está  mesmo a chegar e a oferta cinematográfica (e não só) é muita e variada. Entre 8 e 18 de Novembro, o festival promete animar Lisboa e Estoril, trazendo até nós grandes títulos e e figuras ilustres das artes.

O Hoje Vi(vi) um Filme dá-te 10 sugestões que não deves perder no LEFFEST'13.

A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2, de Abdellatif Kechiche
Adèle é uma adolescente de 15 anos, cuja vida muda quando conhece Emma, uma jovem de cabelo azul que a apresenta ao desejo e à vontade de se afirmar como mulher adulta. Diante do olhar dos outros, Adèle cresce, procura-se, perde-se, encontra-se. A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2 venceu a Palma de Ouro no último Festival de Cannes e o realizador Abdellatif Kechiche marcará presença no Lisbon & Estoril Film Festival.

O Grande Mestre, de Wong Kar-Wai
O realizador Wong Kar-Wai é um dos homenageados desta edição do LEFFEST, e, ao mesmo tempo, o seu mais recente filme, O Grande Mestre, é apresentado em antestreia nacional no festival. No mundo das artes marciais existem muitos Mestres, mas o título de Grande Mestre pertence apenas a uma lenda. O professor de Bruce Lee, de nome Ip Man, era um homem  de acção que sabia que o último homem a ficar de pé seria o escolhido. Ele acreditava ser esse homem até conhecer uma verdadeira rival, um génio das artes marciais vindo da Manchúria chamada Gong Er que era considerada uma lenda e uma linda mulher.

The Immigrant, de James Gray
James Gray estará presente no LEFFEST'13 onde é homenageado e apresenta o seu mais recente filme, The Immigrant, protagonizado por Jeremy Renner, Joaquin Phoenix e Marion Cotillard. Duas irmãs, Ewa Magda, deixam a Polónia rumo a Nova Iorque. Quando chegam a Ellis Island, Magda é internada de quarentena por sofrer de tuberculose. Sozinha e desamparada, Ewa conhece Bruno, um proxeneta sem escrúpulos e, para salvar a irmã, acaba por se prostituir. A chegada de Orlando, um ilusionista primo de Bruno, traz esperança e confiança a Ewa, contudo, o ciúme de Bruno é imprevisível.

Jimmy P., de Arnaud Desplechin
Arnaud Desplechin é mais uma presença confirmada no Lisbon & Estoril Film Festival e traz consigo Jimmy PApós a Segunda Guerra Mundial, Jimmy P., um índio Blackfoot que lutou em França, é admitido no hospital militar de Topeka, uma instituição especializada em doenças mentais. Na ausência de causas fisiológicas, é-lhe diagnosticada esquizofrenia. É durante o tratamento que Jimmy conhece Georges Devereux, o antropólogo e psicanalista francês, especializado em culturas nativas americanas.

Vénus de Vison, de Roman Polanski
O novo trabalho de Polanski é Vénus de Vison, mais uma antestreia nacional no LEFFEST'13. Sozinho num teatro parisiense após um dia de audições a actrizes para a peça que está prestes a encenar, Thomas (Mathieu Amalric) lamenta ao telefone o fraco desempenho das candidatas. Ninguém tem a dimensão necessária para assumir o papel principal, e quando se prepara para sair, surge Vanda (Emmanuelle Seigner), um verdadeiro turbilhão de energia, tão desenfreada como atrevida. Vanda incorpora tudo o que Thomas odeia. Ela é vulgar, insensata, e fará de tudo para conseguir o papel.

Inside Llewyn Davis, de Joel Coen, Ethan Coen
Em Cannes venceu o Grande Prémio, e agora o mais recente trabalho dos irmãos Coen chega ao LEFFEST. Inside Llewyn Davis mostra uma semana na vida de um jovem cantor no mundo musical de Greenwich Village, em 1961. Quando um Inverno severo atinge Nova Iorque, Llewyn Davis, com a sua guitarra na mão, luta para ganhar a vida como músico e enfrenta obstáculos aparentemente intransponíveis, começando com aqueles que ele mesmo cria. Ele sobrevive graças ao apoio dado por amigos ou estranhos, aceitando qualquer pequeno trabalho.

Only Lovers Left Alive de Jim Jarmusch
Com nomes como Tom Hiddleston, Tilda Swinton, Mia Wasikowska ou John Hurt no elenco, Only Lovers Left Alive não poderia deixar de constar nesta lista de sugestões. Nas cidades românticas e desoladas de Detroit e Tânger, Adam (Tom Hiddleston), um músico profundamente deprimido, encontra Eve (Tilda Swinton), a sua amante, uma mulher robusta e enigmática. Esta história de amor dura há séculos, mas este idílio libertino é interrompido pela chegada da pequena irmã de Eve, extravagante e incontrolável. Estas duas pessoas à margem, sábias mas frágeis, poderão continuar a sobreviver no mundo moderno que está em colapso ao seu redor?

O Passado de Asghar Farhadi
Depois do sucesso de Uma Separação, Asghar Farhadi regressa com O Passado, com uma temática semelhante à do trabalho anterior. Depois de quatro anos de separação, Ahmad chega a Paris a partir de Teerão, a pedido de Marie, a sua esposa francesa, para realizar as formalidades do seu divórcio. Durante a sua breve estadia, Ahmad percebe a relação conflituosa que Maria tem com a filha, Lucia. Os esforços que Ahmad faz para tentar melhorar esse relacionamento irão desvendar um passado secreto. Bérénice Bejo, a protagonista, venceu em Cannes o Prémio para Melhor Actriz pela sua interpretação neste filme.

Faust - Eine deutsche Volkssage de F.W. Murnau
Dentro da secção Cinema & Literatura, Faust - Eine deutsche Volkssage é um clássico imperdível, que pode ser visto ou revisto no LEFFEST. Atormentador da humanidade com a guerra, a peste, ou a fome, Mephisto acredita que a terra lhe pertence. O Arcanjo Gabriel evoca o nome de Fausto, um velho erudito, cuja vida toda é prova de que a Terra não é completamente sujeita ao mal.

Tabu de Miguel Gomes
Na secção 15 Anos, 15 Filmes - Mostra de Cinema Iberoamericano do LEFFEST'13, encontramos o português Tabu, de Miguel Gomes. Aqui está mais uma excelente oportunidade para ver ou rever um filme que pede para ser visto no ecrã de cinema. Pilar vive os seus primeiros anos de reforma a tentar endireitar o mundo e a lidar com as culpas dos outros. Ela inquieta-se, sobretudo, com a solidão da sua vizinha Aurora, uma octogenária temperamental e excêntrica, que foge para o casino se tiver dinheiro, fala da filha que pouco se importa com ela, ressaca antidepressivos e desconfia que Santa, a sua  empregada cabo-verdiana, dirige contra ela práticas de voodoo. É a partir de um misterioso pedido de Aurora, que Pilar e Santa se unem para o tentar cumprir. Quer encontrar-se com um homem, Gianluca Ventura, que até então ninguém sabia que existia. Ventura tem um pacto secreto com Aurora e uma história por contar. Uma história passada há cinquenta anos, pouco antes do início da Guerra Colonial portuguesa.

Para além destes títulos, há muito mais para ver no LEFFEST e outras actividades, como espectáculos, exposições, encontros e leituras. Para mais informações e programa completo é só seguir este link.