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domingo, 1 de outubro de 2023

Sugestão da Semana #580

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca O Sol do Futuro, de Nanni Moretti.

O SOL DO FUTURO


Ficha Técnica:
Título Original: Il sol dell'avvenire
Realizador: Nanni Moretti
Elenco: Nanni Moretti, Margherita Buy, Silvio Orlando, Barbora Bobuľová, Mathieu Amalric, Jerzy Stuhr
Género: Comédia, Drama
Classificação: M/12
Duração: 95 minutos

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Crítica: Oxigénio / Oxygène (2021)

*6/10*

Em Oxigénio, Alexandre Aja usa a claustrofobia como arma narrativa, potenciada ainda mais pela aura de mistério sempre presente, num filme de ficção científica para a Netflix.

"Uma mulher acorda numa cápsula criogénica sem se recordar de quem é. Com o oxigénio a esgotar-se rapidamente, ela tem de recuperar a memória para conseguir sobreviver."

Muito ao estilo de Enterrado (Buried), de Rodrigo Cortés, eis uma versão sci-fi da claustrofobia cinematográfica. Se, no filme de 2010, tínhamos um homem fechado num caixão, agora a protagonista é uma mulher trancada numa unidade criogénica; para ambos, a única forma de contacto com o exterior é a partir de chamadas telefónicas - em Oxigénio adicionamos um assistente inteligente (Mathieu Amalric) à acção.

O terror de acordar num local fechado e sem espaço para grandes movimentos é comum aos dois filmes, bem como a forma como se desenrola a história. Mas em Oxigénio, o progresso científico parece estar na origem da situação em que a protagonista, Liz, se encontra. Sem memória, nem forma de escapar, a ajuda externa é complexa e as informações confusas. A claustrofobia adensa-se à medida que o oxigénio se esgota e as descobertas não são tranquilizantes. 

Alexandre Aja é capaz de construir um ambiente angustiante e enclausurante, mas não cria nada que já não tivéssemos visto noutros filmes do género. O argumento de Christie LeBlanc torna-se cada vez mais complexo e, até certo ponto, previsível.

Mas a verdadeira fonte de oxigénio do filme é Mélanie Laurent, numa grande interpretação, capaz de passar por estados de espírito tão diversos em pouco tempo - e limitada no espaço -, num misto de emoções que vai da esperança, à confusão, descrença, desespero, raiva e pânico. Espectador e protagonista têm o mesmo nível de conhecimento desde o momento em que Liz acorda, e as descobertas vão sendo feitas ao mesmo tempo, dentro e fora do ecrã. Partilhamos o mesmo conflito interior, as mesmas dúvidas, fazemos suposições, questionamos as contradições e torcemos por ela, já que a empatia é inevitável.

Mélanie Laurent segura o filme com a mesma força com que a personagem não perde a vontade de sobreviver e é ela que nos faz suster o fôlego e acompanhar Oxigénio, com curiosidade, até ao fim.

domingo, 26 de julho de 2020

Sugestão da Semana #427

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana dá destaque ao filme As Maravilhas de Montfermeil, de Jeanne Balibar. Eis uma escolha arriscada, mas que desperta curiosidade quer pelo tema, quer pela divisão de opiniões que começa a gerar, junto de público e crítica.

AS MARAVILHAS DE MONTFERMEIL


Ficha Técnica:
Título Original: Merveilles à Montfermeil
Realizadora: Jeanne Balibar
Elenco: Jeanne Balibar, Ramzy Bedia, Emmanuelle Béart, Mathieu Amalric, Bulle Ogier, Marlène Saldana, Philippe Katerine, Jean-Quentin Châtelain
Género: Comédia
Classificação: M/14
Duração: 109 minutos

sábado, 30 de abril de 2016

IndieLisboa'16: Le fils de Joseph (2016)

*7.5/10*


Uma boa surpresa cinematográfica chegou à secção Silvestre do IndieLisboa: Le fils de Joseph, de Eugène Green. O realizador adapta algumas passagens da Bíblia ao seu estilo satírico e constrói uma história inteligente, divertida e cativante.

Vincent tem 15 anos e vive com a mãe, Maria, que lhe diz que este não tem pai. Mas Vincent não acredita. Não pode acreditar. Por isso, inicia uma investigação por sua conta. Pelo caminho, fica amigo de Joseph.

Esta comédia é contagiante e toma o seu tempo, sem avanços demasiado repentinos na narrativa. As personagens conversam tranquilamente, num certo tom declamatório, os planos são bem estudados e geométricos e os cenários encaixam bem no todo. A cor abunda e confere um ambiente positivo à longa-metragem.


A religião serve de base a Le fils de Joseph, sem excessos, traduzindo-se num humor inteligente, referências bem construídas e personagens interessantes (com momentos verdadeiramente hilariantes), de características muito próprias. 

Destaque, claro, para o nosso "menino Jesus", Vincent, que, após uma desilusão, consegue dar a volta à situação, mesmo que, para isso, se torne num criminoso procurado. Excelente interpretação do jovem Victor Ezenfis. Ao seu lado, Mathieu Amalric reinventa-se como o poderoso e egoísta Oscar Pormenor, em mais um exemplo da versatilidade do actor. Ainda Maria de Medeiros surge numa pequena mas singular interpretação de uma excêntrica crítica literária.


Le fils de Joseph invoca a Bíblia para contar uma história que depressa conquista a plateia. Gargalhadas não faltarão, mas serão os pormenores que, no meio da simplicidade de Eugène Green, revelam um filme cheio de conteúdo.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Crítica: Grand Budapest Hotel / The Grand Budapest Hotel (2014)

"Keep your hands off my lobby boy!"
M. Gustave
*7/10*

Fiel a si próprio e ao seu rigoroso estilo estético, Wes Anderson surpreende com a divertida e colorida comédia, Grand Budapest Hotel. Munido - como sempre - de um excelente elenco e de mais uma história mirabolante, o realizador apresenta-nos uma amizade improvável entre o paquete e o concierge de um hotel.

Grand Budapest Hotel narra então as aventuras de Gustave H (Ralph Fiennes), um lendário concierge de um famoso hotel europeu durante as duas guerras, e Zero Moustafa (Tony Revolori), o paquete que se torna seu amigo de confiança. A história envolve o roubo e a recuperação de uma preciosa pintura renascentista e a luta por uma enorme fortuna de família - tudo sob o cenário de um Continente que passa por inesperadas e dramáticas mudanças.


O argumento é inteligente e cheio de humor - apesar de um ou outro momento em que Wes teima na mesma piada até à exaustão -, e para o enriquecer ali estão as (muitas e) caricatas personagens. Entre o elenco encontramos nomes como Ralph Fiennes, F. Murray Abraham, Mathieu AmalricAdrien BrodyWillem DafoeHarvey KeitelJude LawBill MurrayEdward NortonTilda Swinton, entre muitos outros. E, aqui, o destaque mais óbvio recai no camaleónico Fiennes, que deslumbra num desempenho emblemático e quase inesperado. Extravagante e cheio de classe, ele é Gustave H, o nosso hilariante protagonista.

Mas é na componente mais técnica que Grand Budapest Hotel se distingue realmente. O rigor técnico predomina, onde domina a cor, um ambiente frenético, os planos geométricos, tudo minuciosamente estudado. A par da realização, a banda sonora, o guarda-roupa, a caracterização e a direcção artística são fundamentais na construção de uma odisseia de humor e excentricidade.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Vénus de Vison: No Cinema e no Teatro

David Ives tem inspirado o Teatro e, mais recentemente, também o Cinema com a sua obra Vénus de Vison. Por cá, a adaptação cinematográfica de Roman Polanski desfilou pelas salas de cinema portuguesas em Novembro de 2013 (podes reler a crítica do Hoje Vi(vi) um Filme, aqui). Agora, o Teatro Aberto dá a oportunidade de assistir ao mesmo texto num palco - para o qual foi escrito -, sob a encenação de Marta Dias.

Pedro Laginha e Ana Guiomar são Tomás e Vanda em Vénus de Vison no Teatro Aberto

Ana Guiomar e Pedro Laginha dão corpo às mesmas personagens que Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric: Vanda e Thomas (Tomás na versão portuguesa). Quem gostou do filme, pode experimentar a peça de teatro e não sairá nada desiludido. Vénus de Vison está desde dia 10 de Janeiro em cena no Teatro Aberto, em Lisboa, e ali ficará até 30 de Março, de Quarta-feira a Sábado às 21h30 e aos Domingos às 16h00.

Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric são Vanda e Thomas em Vénus de Vison, de Roman Polanski

O poder e a sexualidade são os grandes motores da peça de David Ives e se em Polanski ficámos rendidos à Vanda de Seigner, a de Ana Guiomar não nos dará qualquer hipótese, nem a nós nem a Tomás. O mote é o mesmo. No fim de um dia de audições, o encenador Tomás está sem esperança de conseguir encontrar a protagonista da sua peça. Mas quando se prepara para sair, surge mais uma actriz. Vem atrasada, é enérgica e tem maus modos, mas ainda quer prestar provas. Partilha o nome com a personagem principal da peça - Vanda - e fará tudo para conseguir o papel, mas será ela diferente de todas as outras?

Do filme de Polanski à dramaturgia de Marta Dias, as diferenças argumentativas são mínimas. A Vanda de Ana Guiomar é mais jovem - tem 24 anos - mas parece tão vivida como a de Seigner. A sua linguagem - repleta de "tipo, cenas, yá" - é mais infantil, mas a aparente imaturidade esconde a mesma experiência, a mesma subversão e o mesmo mistério da francesa. Tomás assume o mesmo domínio inicial e vai-se deixando subjugar ao longo da peça, tal como acontece no filme. Tanto Thomas de Mathieu Amalric, como o Tomás de Pedro Laginha impressionam-nos pelo curioso percurso da sua personagem, e, especialmente, aquando da reviravolta final.


Contudo, é mesmo na personagem feminina que se encontram as principais diferenças - e semelhanças - entre a longa-metragem e a peça de teatro. Por um lado, a diferença de idade entre Ana Guiomar, de 25 anos, e Emmanuelle Seigner, de 47, poderia oferecer alguma renitência em crer que a jovem actriz pudesse estar à altura da personagem de Vanda. Mas certo é que a portuguesa prova, a cada peça - esta é a sua terceira -, como pode ser surpreendente e como é feita para o teatro. O à vontade com que está em palco, a sensualidade que personifica, a impressionante naturalidade com que faz a transição - repentina - entre Vanda Jordão e a Vanda da peça de Tomás é impressionante e prova o furacão que Ana é em palco. 

Os dois actores estão em cena ao longo de uma hora e quarenta minutos, sem intervalo, sob luzes quentes e na pele de personagens poderosas e, em momento algum, se denota fraqueza ou cansaço. Pelo contrário, sempre com mais ritmo, com mais ferocidade, violência e sedução, nunca descurando o texto, tão machista, tão feminista. Vénus de Vison em palco é feito num único take - aí está a desafiante vantagem do Teatro.


O pormenor cinematográfico que obtemos ao ver um filme perde-se naturalmente num teatro, mas o dinamismo é, no entanto, muito maior. A atenção e os olhos do espectador têm de seguir os actores - que estão tão perto -, de um lado ao outro do palco, os ouvidos têm de estar mais alerta.

Ao mesmo tempo, quem for ao Teatro Aberto assistir à peça encenada por Marta Dias, depara-se com um excelente trabalho de cenografia, que não esquece os elementos fundamentais do texto: o canapé, a secretária ou o poste - o famoso símbolo fálico. E toda a cena se transfigura perto do fim, sob os olhares incrédulos da plateia, num misto entre sonho e realidade. Para tudo isto, muito contribui igualmente a iluminação e o som - a condizer com o ambiente misterioso, onde se multiplicam os jogos de poder e de sedução.


O Teatro e Cinema têm a mesma magia, cada um à sua maneira. Os sorrisos e risadinhas tímidas são mais frequentes e sonoros no teatro, as palmas são silenciosas na sala de cinema, onde o silêncio é de ouro para desfrutar da experiência e, perante um palco, quanto mais sonoras forem mais são sinal da qualidade do espectáculo. Vénus de Vison deveria ser uma experiência a ter por meio de ambas as artes.

Depois de experimentar mais uma adaptação de uma peça de teatro à linguagem cinematográfica por Polanski, agora com Vénus de Vison, nada como sentir na pele as peles de Vénus também no teatro. Este retrato mordaz de um autor atraiçoado pela própria criação está ao dispor de quem o que quiser ver no Teatro Aberto, com grandes interpretações.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Crítica: Vénus de Vison / La Vénus à la Fourrure (2013)

"E o Senhor o feriu pela mão de uma mulher."
*8/10*

Roman Polanski regressa aos grandes filmes com o seu novo Vénus de Vison. O teatro, o poder e a sexualidade são alguns dos temas presentes nesta longa-metragem protagonizada por Emmanuelle Seigner Mathieu Amalric - os dois únicos nomes do elenco.

Vénus de Vison teve antestreia nacional no LEFFEST'13 e já está nos cinemas. Sozinho num teatro parisiense após um dia de audições a actrizes para a peça que está prestes a encenar, Thomas (Mathieu Amalric) lamenta ao telefone o fraco desempenho das candidatas. Ninguém tem a dimensão necessária para assumir o papel principal, e, quando se prepara para sair, eis que surge Vanda (Emmanuelle Seigner), um verdadeiro turbilhão de energia, tão desenfreada como atrevida. Vanda incorpora tudo o que Thomas odeia. Ela é vulgar, insensata, e fará de tudo para conseguir o papel.

Mais uma vez, teatro e cinema fundem-se na filmografia de Polanski, depois de O Deus da Carnificina. Desta vez, o palco está ali, e tudo acontece naquele espaço - um teatro parisiense. O cineasta adaptou a peça de David Ives que se debruça sobre o romance Venus in Furs, de Leopold von Sacher-Masoch. Às (apenas) duas personagens em cena - no ecrã de cinema e no palco do teatro -, soma-se um argumento provocador, que vem recuperar temas recorrentes em outros filmes de Roman Polanski, e o resultado é provocador e aberto às interpretações da plateia.

Vénus de Vison está repleto de jogos de poder e de sedução. Machismo - "E o Senhor o feriu pela mão de uma mulher", já Vanda se queixava - , feminismo, travestismo ou masoquismo, encontramos de tudo neste trabalho de Polanski. Mas Vanda parece sair sempre por cima, contrariando a reticência inicial de Thomas. Ela seduz, mas não se deixa seduzir, ela irrita-o, humilha-o, mas, acima de tudo, ela é tudo aquilo que ele imaginou.


O poder, tão central em Vénus de Vison, começa por ser detido por Thomas, o encenador saturado de procurar a sua Vanda. Ele nega-se a fazer a audição da atrasada actriz, com tão maus modos e  -aparentemente - poucos conhecimentos dramáticos. Todavia, rapidamente é Vanda que passa a deter o poder, contestando, surpreendendo e dominando o seu avaliador. E mesmo quando os papéis se voltam a inverter, é ela que o subjuga, novamente.

E é na personagem feminina que reside o mistério que perdura até ao final. Quem é esta mulher, que partilha o nome e se transforma completamente ao incorporar a personagem feminina da peça de Thomas? Vanda surge como a personificação do ideal de actriz que o encenador procura. Será que ela existe ou é apenas fruto da imaginação dele? Vénus de Vison é o retrato mordaz de um autor atraiçoado pela própria criação.

Para além das excelentes personagens, a longa-metragem de Polanski destaca-se igualmente pelos pequenos pormenores como os objectos invisíveis que se revelam através dos sons, genialmente presentes. Sabemos onde está a chávena, o pires ou a colher mesmo sem os ver. Ao mesmo tempo, tecnicamente, o realizador movimenta-se como ninguém num único espaço, coloca-nos muitas vezes na pele de Vanda - o início e final do filme são os exemplos mais flagrantes e que aguçam o carácter quase imaginário da personagem -, a fotografia de Pawel Edelman joga com luz e sombra tão perfeitamente como Vanda sabe iluminar o palco do teatro perante o olhar incrédulo de Thomas. A acompanhar toda a atmosfera teatral e dominadora - até do espectador - está a delicada e muito adequada banda sonora de Alexandre Desplat.


Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric são a alma de Vénus de Vison. A química entre ambos é evidente, e a energia e entrega às personagens são enormes. Amalric mostra uma vez mais o talentoso e versátil actor que é na pele do exigente e perturbado Thomas. Já Seigner oferece-nos um desempenho fabuloso como Vanda, esta mulher vulgar mas surpreendente, sensual, vingativa e desequilibrada.

Com Vénus de Vison, Roman Polanski volta aos temas fortes onde o poder é o grande motor da acção. O pesadelo dos autores é incorporado por Emmanuelle Seigner que trará ao de cima toda a perversidade escondida numa peça de teatro e na mente de um encenador.

Sugestão da Semana #90

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana recai sobre o mais recente filme de Roman Polanski, Vénus de Vison.

VÉNUS DE VISON


Ficha Técnica:
Título Original: La Vénus à la fourrure
Realizador: Roman Polanski
Actores: Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric
Género: Drama
Classificação: M/16
Duração: 96 minutos