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quinta-feira, 18 de junho de 2015

O Filme da Minha Vida, por Edgar Pêra

O Filme da Minha Vida
por Edgar Pêra

As Aventuras de Buckaroo Banzai na Oitava Dimensão não é o melhor filme do mundo (mas qual é? para mim de certeza que não é Vertigo) nem consta das listas de melhores filmes de sempre, no entanto é o filme que mais vezes vi. Nunca o visionei numa sala de cinema mas vi-o mais de 4 dezenas de vezes numa sala de tver. Porque vi Buckaroo tantas vezes? Qual seria o motivo? Antes de mais, Buckaroo estimula no espectador o estatuto de fã (de cinema de culto). Os fãs convencionais de ficção científica tinham Star Wars e Star Trek, nós tínhamos Buckaroo.

Vi Buckaroo pela primeira vez em 1985, na companhia de correligionários e parceiros de aventuras, amigos das áreas do cinema, da escrita e da música pop/rock. O ambiente era quase sempre de festa. Estes visionamentos selvagens aproximavam-se das sessões dos primórdios do cinema, em que os espectadores ainda não se encontravam domesticados. Procurávamos alternativas de modos de viver e de criar no cinema de tendência trans-realista e Buckaroo foi o catalisador de dezenas de noites de galhofa e transe. Conhecíamos os diálogos e todos os pequenos detalhes de nonsense que a narrativa comportava. A arte do filme estava nos nossos olhos. Totalmente descomplexado, Buckaroo era sincrónico com os nossos propósitos: fazer ruir o sistema de sobriedade vigente.

Escrito por Earl Mac Rauch e realizado por W.D. Richter, As Aventuras de Buckaroo Banzai Através da Oitava Dimensão é o resultado da harmonia total de pormenores, do guião ao casting, da banda sonora minimal pop aos adereços ecológicos alienígenas low-fi, tudo se combina para produzir uma pequena pérola de cine-paródia, que assenta nessa constante revelação: “isto é apenas um filme”.

Mas afinal quem é Buckaroo Banzai? Buckaroo Banzai é um (super)crioulo nipo-americano renascentista: neuro-cirurgião, astrofísico cantor e guitarrista rock, piloto de ensaio, protagonista de um comic (da Marvel), e líder dos Hong Kong Cavaliers, cuja sede é um ultra-sofisticado autocarro (inspirado numa capa de um disco de Elvis Costello) que os leva em tournée. Richter procurava no actor que interpretasse Buckaroo alguém que pudesse parecer heróico mesmo cheio de graxa na cara e que ao mesmo tempo projectasse a inteligência que associamos a um neurocirurgião ou inventor. Escolheu Peter Weller - o Buckaroo perfeito, com os seus olhos azuis cristalinos e penetrantes, actor-guitarrista-cantor multifacetado como o herói que interpreta. O naipe de personagens rivaliza com o de filmes como Casablanca: todos os actores são espectacularmente idiossincráticos, com um destaque especial para o Dr. Emilio Lizardo, interpretado por John Lithgow. É graças a esta personagem monty-pytonesca - um cientista italiano possuído por um lectróide do planeta dez da Oitava Dimensão - que o filme entra literalmente noutra dimensão, de delírio puro. É também graças a Lizardo que a palavra flashback se materializa pela primeira vez numa película (ver foto).


Esta paródia trans-realista, que começa como se fosse o comic-book número 123 de uma série, não se preocupando em explicar as múltiplas ramificações narrativas implícitas nos diálogos entre personagens com nomes como Perfect Tommy e  New Jersey (para além de que John é o primeiro nome de todos os invasores alienígenas – e não são poucos). O filme abre com Buckaroo Banzai a operar o cérebro de um esquimó para pouco depois pilotar um carro supersónico e atravessar uma montanha, entrando numa zona negativa infra-atómica, habitada por criaturas lovecraftianas em rota de colisão com o seu veículo. A pretexto dos relatos radiofónicos de Orson Welles de uma invasão extraterrestre, que geraram o pânico nos Estados Unidos, o argumentista encontrou uma solução inter-textual e inter-media (da rádio ao cinema, da realidade à ficção) e cozinhou uma premissa genial: e se a invasão de 1938 tivesse sido real e os invasores Lectróides tivessem raptado Welles, obrigando-o a radiodifundir que a invasão alienígena era apenas de uma encenação (e desde aí ocuparam o nosso planeta, camuflados)? E tudo isso explicado ao piano por Jeff Goldblum vestido de cowboy-palhaço?

Os alienígenas-bons desta fita imitam rudimentarmente a cultura terráquea: são pseudo-rastas que comunicam através de uma gramática invertida (sujeito depois do verbo) e de uma linguagem gestual estilo alien-hip-hop. O filme não pára nos créditos finais (que Wes Anderson citou em The Life Aquatic with Steve Zissou): são um cine-épico de simplicidade, entre a passagem de modelos e o desfile carnavalesco de uma banda pop. E ainda hoje há quem aguarde ansiosamente pela sequela anunciada no fim do filme (quem me dera ser eu a fazê-la, claro).

Buckaroo é um filme para quem não tem medo de não saber tudo e nesse sentido influenciou-me tanto como Eraserhead. Quis mais tarde criar no espectador dos meus filmes essa mesma sensação, de que um filme é um mistério, que merece múltiplas visitas de espírito aberto.

As Aventuras de Buckaroo Banzai Através da Oitava Dimensão é à primeira vista o típico filme de aventuras pós-moderno, repleto de citações e clichés reciclados, da pulp fiction (Doc Savage) e de séries de ficção científica (Outer Limits) mas, a meu ver, vai muito mais longe do que os seus companheiros de viagem, quer seja  Indiana Jones ou até Jack Burton de Carpenter (que conta também com um argumento de Richter). Como afirma o recém convertido Bowes, a atenção que o filme exige do espectador coloca-o numa categoria diferente de outros filmes de (regresso ao) entretenimento. Buckaroo é um filme que se insere na tradição da cine-paródia, aderindo à ideologia do série B-ismo, ridicularizando e desconstruindo convenções do género, criando novas regras e atitudes. Sem proselitismos nem austeridades. Querem melhor de um filme menor?  

Termino citando uma expressão confucionista de Buckaroo: “No matter where you go… there you are”

*texto adaptado de artigo para revista Argumento.
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Edgar Pêra é realizador e na sua extensa filmografia encontramos títulos como A Janela (Maryalva mix), O Barão ou, mais recentemente, Virados do Avesso - entre muitos outros.

Agradeço ao Edgar ter aceite o meu desafio!

terça-feira, 1 de julho de 2014

O Filme da Minha Vida, por João Nuno Pinto

O Filme da Minha Vida
por João Nuno Pinto

Nunca gostei de listas. Sempre tive uma grande dificuldade em escolher o meu prato favorito, a minha cidade de eleição, as melhores férias, o filme da minha vida. Tirando as namoradas, por quem sempre me apaixonei louca e perdidamente elegendo-as imediatamente para numero 1 do mundo e universo (por mais efémera que fosse a eleição), todo o resto fazia parte de uma extensa lista de preferências e sempre achei que eleger um(a) em deterioramento de outro(a) seria uma falta de respeito por todas as outras coisas que de uma maneira ou de outra também eram, são e serão para sempre importantes na minha vida. Dito isto, a verdade é que aceitei o convite da Inês Moreira Santos e agora tenho mesmo que escolher um entre todos. Então que seja um que me surpreendeu e marcou profundamente num passado recente. Então que seja o Hunger, do Steve McQueen.

Estreado nos finais de 2008, Hunger é a primeira longa metragem do artista plástico Steve McQueen e retrata de uma forma brutal as últimas 6 semanas da greve de fome de Bobby Sands, desde a tomada de decisão até à sua morte. Estamos em 1981, na Irlanda do Norte, e o filme passa-se quase inteiramente dentro das paredes da prisão. Eu tinha terminado de filmar o América, também a minha primeira longa metragem, quando assisti ao filme e fiquei estarrecido com o murro no estômago que tinha acabado de levar. O filme era brilhante!, e eu senti-me o pior realizador do mundo pela comparação evidente... como era possível fazer um filme tão consistente e maduro logo na primeira obra? Ali não havia lugar para desculpas nem paternalismos geralmente associados às primeiras obras. Não, eu tinha acabado de assistir a um filme poderoso, maduro, brilhantemente filmado, que não teve medo de assumir riscos, quebrar convenções e criar momentos de verdadeira antologia cinematográfica. Ainda para mais dirigido por um fulano com o nome mais cool do mundo. Steve McQueen, não só não é irlandês, como eu pensava, como era um jovem britânico, negro, que fez todo o seu percurso como artista plástico. Como pode ele então dominar a técnica e a arte cinematográfica para ter feito um filme tão poderoso e verdadeiro sobre a questão irlandesa? Como pode alguém que à partida vem de um universo tão distante falar com tanta propriedade sobre um assunto tão delicado? Anos mais tarde tive a mesma experiência quando assisti a Lore (2012) de Cate Shortland, realizadora australiana que fez um maravilhoso filme sobre a questão da culpa e da mentira na ressaca da Segunda Guerra Mundial, através do ponto de vista de uma jovem adolescente nazi. Mais uma vez, alguém de fora a fazer um filme gigante sobre um tema difícil e sensível. O que une McQueen a Shortland é a extrema crueza e sensibilidade com que abordam estes temas, à partida tão incómodos. Sem cair em clichés, julgamentos ou moralismos eles olham o lado humano da questão, com todas as suas fragilidades, ambiguidades e beleza. A humanidade dos seus personagens contrasta com a monstruosidade do mundo que os rodeia. A beleza da sua cinematografia contrasta com a crueza do horror. E é isso que torna estes filmes tão desconcertantes.


Apesar de ser o seu primeiro filme, McQueen não teve receio em arriscar, em quebrar convenções e tudo aquilo que nos ensinam como o correcto na construção dramática. O personagem principal, brilhantemente interpretado por Michael Fassbender, só aparece depois do primeiro terço do filme – o que diriam a maior parte dos produtores que conheço se lhes apresentasse um guião assim?... Hunger é, na sua maioria, um filme de silêncios. No entanto tem um dos mais incríveis diálogos da história do cinema. Não só pelo diálogo em si e pela performance dos seus actores, como principalmente pela maneira como está filmado. Depois de mais de uma hora quase sem diálogos somos apanhados por uma torrente de diálogo entre Bobby Sands e um padre católico que o tenta demover da ideia da greve de fome. A cena é filmada em plano único, com a câmara fixa, durante cerca de 17 minutos. São 17 minutos de câmara fixa, olhando para dois actores sentados, imóveis, confrontando-se numa ininterrupta avalanche de palavras. E nós, enquanto espectadores, saímos sem nos apercebermos da sala de cinema e sentam-nos num teatro. O teatro da vida.

Hunger é um filme poderoso, visceral, bruto, trágico, feio e ao mesmo tempo lindo e brilhantemente fotografado, que acompanha de uma forma crua e íntima o lado humano de um conflito onde geralmente a tendência é abordar o lado político. E é exactamente aqui que reside a sua força. McQueen consegue mostrar beleza no meio do horror, onde as emoções e conflitos internos dos personagens sobrepõem-se à dimensão física das suas acções. É este olhar íntimo, intenso e cru, sem no entanto deixar de ter uma proposta artística vincada, que torna o filme tão poderoso e marcante. Não sei se é o filme da minha vida, mas é o filme que gostava de ter feito.

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João Nuno Pinto é realizador. Começou por realizar anúncios para televisão e videoclips, vencendo diversos prémios internacionais. Em 2008, a curta-metragem Skype Me marcou o seu início no cinema, e, em 2010, América foi a sua primeira longa-metragem, vencedora de diversos prémios em vários festivais nacionais e internacionais.

Agradeço ao João ter aceite o meu desafio!

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O Filme da Minha Vida, por Bruno Ferreira

O(s) Filme(s) da Minha Vida
por Bruno Ferreira


Não é a primeira vez que me vejo perante tamanha injustiça de escolher apenas um - e ainda para mais com um epíteto tão ressonante - Filme da Minha Vida! Os filmes, tal como os livros, ou os discos, apanham-nos incautos ao virar de uma esquina da vida e caçam-nos com os nossos humores, os nossos dias mais ensolarados ou fases aziagas. E é nessa base que deixam a sua marca nas nossas vidas. Uns, poucos, conseguem deixá-la vincada no nosso espírito, como a marca de um ferro em brasa cravada na carne de um touro. Ficará lá para sempre. Dos outros todos não nos voltaremos a lembrar.

O que acontece é que à medida que avançamos no tempo somos susceptíveis de sermos marcados mais vezes. Como aquela velha tartaruga que com a idade colecciona muitas marcas na sua carapaça, resultado de outras tantas aventuras. É essa a razão pela qual não consigo ser fiel apenas a um filme. Por isso deixem-me por de lado a monogamia cinéfila e assumir os meus pecados carnais com as fitas de oito milímetros.

Aliás, deixem-me ir ainda mais longe. Para escolher o filme da minha vida proponho realizar a famosa prática francesa Ménage à trois, utilizada para designar envolvimentos a três. Só que neste caso vou envolver-me com os três filmes da minha vida. É o que se chama de uma orgia cinéfila. Que venham os lençóis de cetim. 

Casablanca. Um épico de 1942, de Michael Curtis. Um marcante Humphrey Bogart é Rick Blaine e dirige a principal casa nocturna da cidade marroquina. No Café do Rick cruzam-se espiões, bandidos, nazis e aliados. Sempre sob o olhar agridoce de Rick, o desconfiado americano, muitos refugiados europeus tentam sair rumo a Lisboa, uma capital neutral no íntimo da segunda grande guerra. Um desses homens é Victor Laszlo, o líder da Resistência Checa. O problema é que Laszlo é casado com Ilsa Lund (Ingrid Bergman), antigo amor de Blaine. Caberá a Rick, o implacável charmoso, rude calculista, definir o destino de ambos. Tensão e muita intenção nas brilhantes interpretações de Ingrid e Bogart, diálogos fortes num clima perigosamente romântico são os maiores atributos desta ode ao cinema.


Blow Up. 1966. De Michelangelo Antonioni, a história relata a vida de Thomas, um fotógrafo de moda interpretado por um sedutor David Hemmings, numa Londres em plena revolução sexual, numa frenética agitação de festas, amor livre, rock’n’ Roll (saborosa banda sonora de Herbie Hancocke) e muitos excessos. Por tudo isso o filme desnorteou a conservadora Hollywood. O enredo prende-se com uma fotografia acidental que revela um assassinato perpetrado por uma manipuladora e sensual Vanessa Redgrave, na pele de Jane. Com uma fotografia quente e sofisticada, às vezes angustiante, outras excitante e erótico, o filme conta com uma cena considerada como o momento mais sexy da história do cinema. Daí se esculpiu o cartaz do filme. 

Cinema Paraíso. Estávamos em 1988 quando Giuseppe Tornatore trouxe para o grande ecrã a narrativa da paixão pelo cinema acima de todas as outras artes. Esta é a história de um projeccionista de uma pequena vila Siciliana do pós-guerra, o generoso Alfredo (Philippe Noiret) que nos revela o íntimo da sala de cinema, e do acanhado espaço de projecção. É desses momentos que se recorda Salvatore, quando era o pequeno ajudante de Alfredo, tendo a sala escura como central elemento comunitário da época, onde se começavam namoros, se faziam negócios e teciam conspirações, e onde muitas vezes o escuro abafava solapadas cenas de sexo. Mas Salvatore já não é essa criança. Vive em Roma, onde se tornou um realizador de sucesso. É lá que recebe a notícia da morte do seu amigo Alfredo, regressando a Giancaldo para um final poético. Esta é uma película melancólica e apaixonante que, embalada pela banda sonora de Ennio Morricone, se torna incapaz de sustar a lágrima mais inflexível.


Nisto batem-nos à porta. Era o Feios, Porcos e Maus, de Ettore Scola. Vinham nus e crus, despenteados e barulhentos. Infelizmente já não havia lugar para mais fitas por entre os lençóis. Fica para a próxima.

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Bruno Ferreira é um humorista e caricaturista da voz. Empresta a voz e a imagem a diversos personagens em televisão, rádio e eventos. É locutor de publicidade e dobrador de animações. 123 (RTP1), Edição Extra (SIC Radical), Memória de Elefante (RR), Contra-Informação (RTP1), O Formigueiro (SIC), Contrapoder (SIC Notícias) ou 5 Para a Meia-Noite (RTP1) são alguns exemplos do que tem feito. Os seus trabalhos como comediante, actor e locutor podem ser vistos em brunoferreiraonline.com.

Agradeço ao Bruno ter aceite o meu desafio.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O Filme da Minha Vida, por Tiago Brito

Por Tiago Brito


Creio que terei uns problemas a resolver nesta crónica: não sei qual o filme da minha curta vida. Não sei qual levaria para a famosa ilha deserta e muito menos sei se daqui a uns anos continuarei a gostar dos filmes da minha vida.

Mas alguma coisa sei. Sei que são muitos os filmes que me marcaram e uns quantos que mudaram a minha vida, para o bem e para o mal. Categorizo-os por alturas especificas da minha vida nas quais tiveram uma importância crassa na minha forma de pensar o mundo ou até de vivê-lo.

Talvez terei encontrado um caminho por onde seguir no paragrafo anterior. Posso escolher um filme que num passado próximo me tenha deixado abismado. Sim, abismado. Esse filme é Amour do Michael Haneke. Desta forma direi o que penso neste exacto momento e serei fiel ao meu eu, nesta altura da vida.

Não gosto de ver trailers e muito menos os que mostram o filme quase todo. Tira-me a vontade de ver os filmes e por isso falha o seu propósito. O que me incentiva a ir ver um filme é o cartaz que me chama a atenção, a imagem que fica, o titulo que não me sai da cabeça ou o comentário depreciativo de alguém que não tem o mesmo gosto que eu. Com os grandes realizadores não precisamos de incentivo. É apenas esperar que estreie o próximo filme.

Em Amour caí de paraquedas. Não quis saber de nada, muito menos ler as críticas. Tentei, como uma toupeira, cavar um túnel até à sala de cinema (afinal não terei caído de paraquedas mas cavado um túnel). E ali cheguei eu, a meio de uma estória, não a meio do filme. Sim, esse poder de sonho que o cinema tem de nos intrometer a meio da acção sem darmos conta, até acordarmos no fim e começarmos a reflectir sobre o que acabámos de viver. Tal como um sonho.

Entrei devagar e delicadamente na vida daquele casal. Não sabia quem eram, nem de onde vinham mas no meio de tantas possibilidades de personagens, Haneke escolheu as mais indicadas para falar sobre o amor. Haneke resolve quaisquer dúvidas, no início do filme, sobre o que irá acontecer no final e mostra-nos que o importante não é reviravoltas inesperadas mas o que acontece passo a passo, tal como no amor. Não é o viveram felizes para sempre mas o que acontece a cada dia que passa e por isso o filme é continuo, focado num espaço de relativamente um ano e não uma vida inteira. 

O seu sentido de Tempo é inquebrável e justo. A distância a que estamos dos personagens, exacta, sem invadir privacidades de alguém que ainda há pouco conhecemos. Não se poupa a pormenores e a subtilezas de uma família contemporânea. Retira desde o início o factor social de - coitadinhos dos velhinhos que não têm dinheiro para poder viver um final de vida em condições. Este casal tem dinheiro e por isso centra o filme não num drama social mas num drama, única e exclusivamente. Dá espaço a que só se fale de amor. Poucos realizadores poderiam chamar Amor a um filme seu, seria demasiado arriscado falhar a premissa a que o titulo remete mas Haneke é um dos que pode.


Não pretendo fazer um apanhado do filme nem é esse o desígnio da crónica. Talvez o comentário, que ouvi ao sair da sala de cinema, o resuma bem: “Paguei eu dinheiro para ver uma velha morrer aos poucos e poucos...”.  Faltou só o pequeno grande reparo, que o seu marido a acompanha na degradação, alimenta-a, trata-a com as suas próprias mãos em vez de a lançar num lar aos cuidados de quem calhar, aceita as opções da sua mulher, enfrenta a vergonha alheia de uma pessoa que vai perdendo as capacidades e autonomia aos poucos, não vive preso a recordações, embora as estime. Enfrenta a sua filha mimada e que nem uma vez se oiça um queixume seu. Não é fictício e por isso humano, tem momentos negros e acções imponderadas. 

É um filme verdadeiro na falsidade e uma estória de amor com um final trágico. O final é um ponto crucial no filme e no qual a acção em que personagem principal incorre é algo que eu não concordo como opção de morte. Sendo uma obra de arte, dá espaço a interpretação e não impõe um ponto de vista que não dê para ser interpretado pelo espectador, a meu ver. Teria muito mais para dissertar sobre o filme, e principalmente o fim, mas não cabe nesta crónica que, por descuido, já a alonguei mais do que devia. 

Este filme foi visto numa altura em que esta estória, numa dimensão familiar e não conjugal, fazia e ainda faz parte da minha vida. A opção de cuidar dos nossos, até ao fim das suas vidas, é Amor com A grande. Ainda mais quando alguém é responsável pela nossa existência ou quando, no caso do filme, foi cúmplice na nossa felicidade e abrigo na infelicidade. Não nos é obrigado que façamos, não é sequer o mínimo que podemos fazer e também sabemos que não receberemos nada em troca. Não é com um interesse num fim. Esse A grande é posto à prova no final da vida e é onde é mais preciso mas também, mais fácil de quebrar.

Afinal falo de um filme que não sei se é o da minha vida mas que tem parte dela. Parece-me um problema resolvido.

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Tiago Brito, no mundo da música, é o Capitão Tiago, guitarrista da banda Os Capitães da Areia. Ao mesmo tempo, desistiu do curso de engenharia para estudar realização, cujo curso completou em 2013. Tem actualmente a sua curta-metragem, Rio Turvo, a concurso em festivais de cinema e está a criar uma produtora. A actividade musical, claro, continua.

Agradeço ao Tiago ter aceite o meu desafio.

sábado, 28 de dezembro de 2013

O Filme da Minha Vida, por Vicente Alves do Ó

MARILYN E O DESERTO

por Vicente Alves do Ó


Aos 16 anos só ouvimos o que queremos, nunca gostamos de nada, temos opinião formada sobre tudo, estamos sempre do contra e raramente concordamos com alguém. De preferência, gostamos do que mais ninguém gosta, somos exclusivos e acreditamos piamente que o mundo nos ouve, que estamos no centro do seu movimento, da sua vertigem, do sol que brilha só para nós. Por norma, somos incompreendidos, ninguém nos percebe, não percebemos ninguém, fechamo-nos em enigmas que raramente sabemos explicar, vivemos paixões secretas, ouvimos música deprimente e sonhamos morrer diante da uma plateia vasta que há-de chorar o nosso desaparecimento. Enfim, adolescências vivas e incandescentes, como devem ser todas as adolescências. Depois crescemos (alguns de nós) e tudo passa. Mas esses anos de formação também servem de casa para muito daquilo que haveremos de ser. É quando a maior parte de nós descobre a literatura dita “séria”, o cinema dito “sério”, a filosofia sempre “séria” e a noite (muito pouco séria). Descobrimos o nosso mundo e muitos de nós acabaremos por moldar os nossos gostos aí, nessas primeiras aparições marcantes e acima de tudo emocionais – mesmo que depois se expliquem ou tratem intelectualmente. Não se pode gostar de nada sem o primeiro contacto emocional – caso contrário, não é gostar, é apenas uma afectação racional e opinativa. 

Nesses 16 anos vi alguns dos filmes que acabariam por formar o meu sentido de cinema, de arte, de humanidade. Um deles foi The Misfits, em português: Os Inadaptados. Canto do Cisne para três mitos do cinema americano. Marilyn Monroe, Clark Gable e Monty Clift (que ainda filmaria, mas este terá sido o seu último grande momento no grande ecrã). Este filme assinado por John Huston e escrito pelo marido de Marilyn - Arthur Miller - ganhou contornos de assombração. Quer pela metáfora, quer pela morte, quer pela estranha sujidade que sempre andou arredada dos grandes estúdios. A história deste grupo de inadaptados do mundo acabaria por ser repetida até à exaustão, noutros universos, países, cinematografias, mas aqui, entre o mainstream e o indie, respirava-se acima de tudo um talento superlativo dos actores e um texto digno de qualquer celebração literária. Tudo neste filme batia certo nessa idade da revolução. E até o preto e branco era perfeito para quem nos anos 80 ouvia The Cure, Depeche Mode e vestia única e exclusivamente preto comprado na loja dos Porfírios em Lisboa. 

Um filme pode marcar-nos pelas mais variadas razões. E nem sempre se prende pela sua qualidade ou importância. Muitas vezes, as questões que nos tocam são misteriosas, profundas, insondáveis – só anos depois nos apercebemos do porquê. Um filme como este, hoje considerado um clássico da 7ª arte, mas na altura tão maltratado (como aconteceu com tantos outros) representa acima de tudo a liberdade de não saber nada da vida, de não saber donde se vem, onde se está, para onde se vai – como numa velha canção do António Variações. E essa inquietação sufocante atravessa todo o filme e culmina num deserto despovoado e cuja vida se resume a um bando de cavalos em perigo e em extinção: como um certo cinema, como fantasma dum cinema e duma forma de ver e viver o mundo. Os Inadaptados, como todos nós, com 16 ou com 41 nos, vive dessa existência febril que é a vida. Não a vida real, mas a vida interior. A vida verdadeiramente verdadeira – a que nos assola todos os dias dentro de nós e que não encontra espaço no mundo, no quotidiano, na comunidade. É um filme de alma, invisível, frágil, à beira da perdição. 

Os anos passaram e este filme ficou comigo. Volta e meia, volto a ele – como quem volta a casa ou a visitar uma pessoa que se conhece bem, que se ama. Porque este filme, se ele me ensinou alguma coisa, foi exactamente isso. A amar os filmes como quem ama pessoas – cheias de falhas, de erros, de defeitos e no entanto, com as qualidades precárias e belas que só um ser humano pode ter. E esse é o milagre da humanidade. E esse é o milagre do cinema. 

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Vicente Alves do Ó é realizador, escritor e argumentista. Escreveu argumentos para telefilmes da Sic, e, após três curtas-metragens, surge, em 2011, a sua primeira longa-metragem: Quinze Pontos na Alma. O seu mais recente filme data de 2012 e é o muito premiado Florbela, protagonizado por Dalila Carmo. Também o ano passado, Vicente lançou o seu primeiro romance, Marilyn à beira-mar.

Agradeço ao Vicente ter aceite o meu desafio.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O Filme da Minha Vida, por Luís Filipe Borges

MAGNOLIA FIELDS

por Luís Filipe Borges



Uma amiga mantém há anos as duas palavras do título desta croniqueta como essência do seu endereço electrónico. Só agora, perante o desafio lançado, me dou conta da probabilidade disto ter algo a ver com o filme que vimos juntos (terceiro visionamento para mim, no espaço duma semana; estreia para ela). Sim, Magnolia, escrito e realizado por Paul Thomas Anderson, é o filme da minha vida – se me apontarem uma pistola à cabeça e tiver mesmo de responder.

Não são os 10/12 minutos mais carismáticos da carreira de Tom Cruise (embora também); não é o miúdo abusado psicologicamente pelo pai que urina pernas abaixo em pleno concurso televisivo (contudo também); não é o William H. Macy vencido da vida, o monólogo de Julianne Moore na farmácia, um contido Philip Seymour Hoffman, esse fenómeno chamado John C. Reilly (e sua relação espectral com Melora Walters) – capaz do mesmo brilhantismo nos dois extremos do espectro, do mais profundo drama à mais desbragada comédia (todavia também); nem sequer a história em altmaniano mosaico nem a ideia subjacente sobre a magia inesperadamente lógica das alegadas coincidências (embora sejam alma e coração desta película de 3 horas).

Acho que o pormaior decisivo foi o que significou para mim este filme naquela idade e naquele momento da vida, nas precisas circunstâncias em que o escriba se encontrava (analogia: quando, com um dos meus maiores amigos, saímos de Fight Club a pontapear caixotes do lixo e sinais de trânsito rua fora). 

Tal como os livros ou os quadros nos fazem sentir. Não é à toa que muitos autores, depois da obra exposta ao mundo, afirmam deixar de sentirem-se seus donos, proclamam ser esse filho artístico de todos agora. Porque a arte depende da interpretação dela feita. E saberão os trintões - e daí em diante - que porventura lerem este texto que a maior parte das obras que nos enformam atingem-nos sobretudo num período particular da vida, quando as costuras da personalidade total ainda precisam duns retoques do alfaiate. 

Querem saber mais? Ponham-me num divã. Ou, como poderia dizer o “outro”: Respect the writer and tame the curiosity.

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O açoriano Luís Filipe Borges é humorista, guionista e apresentador de televisão. Actualmente - e já desde 2009 - podemos vê-lo na RTP1 a apresentar o programa 5 para a Meia-Noite.

Agradeço ao Luís ter aceite o meu desafio.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O Filme da Minha Vida: Apresentação

Estamos perto do Natal e o Hoje Vi(vi) um Filme traz como prenda uma nova iniciativa, que se irá prolongar por alguns meses com publicações esporádicas. Falo-vos de O Filme da Minha Vida.

Aqui, serão relevadas as preferências de vários nomes conhecidos de várias áreas - televisão, música, cinema, etc, etc, etc. -, a quem desafiei a escolher um único filme da sua vida e falar um pouco sobre ele. A escolha baseia-se numa obra que os tenha marcado, que esteja sempre presente nas suas vidas enquanto cinéfilos, que seja inesquecível.

Nos próximos dias lançarei o texto do primeiro convidado.