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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Sugestão da Semana #734




Ficha Técnica:
Título Original: O Jacaré
Realizador: Basil da Cunha
Elenco: Alexandra Sena, Alexandre da Costa Fonseca, Paulo César Lima Fonseca, Nelson Carvalho, Pedro Diniz, Heidir Correia, Carlos Fonseca, Pedro Ferreira, Frederico Lopes, Verónica Lii, Maria Santos, Susana Costa, Ivo Bernardo, Carloto Cotta, Filipe Vargas
Género: Comédia, Thriller
Classificação: M/16
Duração: 92 minutos

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Crítica: O Jacaré (2026)

"Ele é calminho, ele é fofinho, ele é afável, mano..."

Nuno

*8.5/10*

Basil da Cunha regressa à sua (nossa) Reboleira com O Jacaré, aquele que será (mesmo?) o capítulo final do bairro amadorense como cenário e personagem das curtas e longas-metragens do cineasta. Depois de Nuvem (2011), Os Vivos Também Choram (2012), Até Ver a Luz (2013), Nuvem Negra (2014), O Fim do Mundo (2019), 2720 (2023) e Manga d' Terra (2023), O Jacaré (2026) - filmado na segunda metade de 2023 - continua o registo etnográfico de um local que está a desaparecer aos poucos e da sua gente.

Lentamente, as casas têm sido demolidas pela Câmara Municipal da Amadora, as pessoas têm partido, ficam os resistentes, que muito fazem para manter o espírito de alegria e união que caracterizava aquele cantinho da Reboleira. Sempre que Basil da Cunha lá regressa para filmar, consegue reunir actuais e antigos residentes e fundir, uma vez mais, o Passado com o Presente do local, com um realismo mágico muito característico seu enquanto autor.

Aventurando-se, pela primeira vez, numa comédia de acção, em jeito de filme de gangsters (ou não fosse grande fã de Tudo Bons Rapazes, de Martin Scorsese), Basil da Cunha filma um local cheio de vida, onde a velha guarda se confronta com os novos "rufias" da zona.

Na Reboleira, um assalto termina com um carro a despistar-se no bairro, mas ninguém sabe o paradeiro dos 180 mil euros roubados. Enquanto a polícia cerca a zona, instala-se uma verdadeira caça ao tesouro. Todos querem ser os primeiros a encontrar o dinheiro. "À medida que as alianças mudam e a tensão aumenta, as histórias cruzam-se numa sucessão de encontros inesperados, traições, humor e violência. E, no meio deste caos, começa a correr um boato impossível: há quem garanta ter visto um jacaré a vaguear pelas ruas da Reboleira."

Filmado em 2023, O Jacaré capta já o Futuro, o Presente actual. Mais do que uma prova de amor à Reboleira e à sua História, o filme é um memorial de alegria e celebração para os que já não estão presentes, um convite às boas lembranças. O sentimento de pertença que só quem ali viveu, cresceu ou foi acolhido consegue sentir, é transposto para o grande ecrã, para que todos os que assistam à longa-metragem possam, nem que seja por instantes, fazer também  parte da "família".

Neste filme, há personagens e histórias que se cruzam e entrecruzam, numa teia de desconfianças e ambição que coloca amizades à prova. Os homens da velha guarda, que se protegem e vivem como família, entram num tenso conflito com os novos gangsters, muito jovens e frios, onde é cada um por si. Há os que se perdem, os que se emancipam, num local em que o Poder pode ser sinónimo de sucesso ou de desgraça.

E se, por um lado, os homens é que mandam no bairro - com armas na mão e a constante ameaça de conflito -, o lado matriarcal do local volta a estar em foco: ali há um respeito imenso pelas mães, mulheres mais velhas que acolhem, protegem e perdoam os filhos, mas também não têm medo de os chamar à razão. São as mulheres que trabalham e sustentam a casa. E mesmo que as mais jovens sejam, muitas vezes, rebaixadas, o lugar da mãe ou da avó é tido como o porto seguro no meio da violência. O Jacaré revela, aos poucos, o poder e a influência que o colectivo feminino da Reboleira possui.

A predileção do realizador por répteis (e por animais, em geral) observa-se desde cedo na sua filmografia. Na curta Os Vivos Também Choram, há uma iguana junto da personagem de José Pedro Gomes; já o dragão barbudo de Sombra, em Até Ver a Luz, de nome Jacaré, parece ter crescido e revela-se em tamanho grande em O Jacaré. O animal do título proporciona dos momentos mais hilariantes da longa-metragem. Numa breve efabulação, estes animais escamosos e misteriosos, podem equiparar-se às personagens que vão aparecendo e desaparecendo, de filme para filme, mas que continuam a fazer parte da "família" do bairro e de Basil.

Tecnicamente, realizador e equipa continuam a revelar-se. Para além da forma tão característica como a câmara de Basil da Cunha se move entre as estreitas ruas do bairro e seus recantos, filmando revelações, planos de acção ou perseguições, a utilização de drones em O Jacaré é verdadeiramente cinematográfica, proporcionando planos picados da geografia do bairro ou mesmo planos "impossíveis", provavelmente nunca vistos no cinema português mais recente. Destaque ainda para os efeitos especiais - que bela explosão! -, e para a banda sonora, sempre certeira, realçando a Música enquanto figura central e contínua no dia a dia da Reboleira.

Se, por um lado, este é o filme de temática menos pesada da filmografia de Basil da Cunha, construído com humor, mistério e muita acção, por outro, não lhe falta uma inevitável melancolia latente. Se for mesmo o último filme rodado no bairro, ao menos a despedida foi em grande, com a energia, alegria e união que sempre caracterizou o local, muito woman power, e uma saudade imensa de outros tempos, olhando para o que ainda resta.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Cine Amadora 2026: Cinema, Música e Workshops nos Recreios da Amadora de 5 a 8 de Março

O Cine Amadora 2026 - Mostra Internacional de Cinema acontece de 5 a 8 de Março, nos Recreios da Amadora. O evento traz à cidade curtas e longas-metragens produzidas em países de língua portuguesa, workshops, cineconcertos e conversas com realizadores. As sessões e actividades são de entrada gratuita.


Na edição de 2026, a mostra inspira-se no conceito de "esperançar", a partir do pensamento do educador e filósofo Paulo Freire. "Mais do que esperar, esperançar significa agir, construir e transformar coletivamente. Num contexto global marcado por conflitos, desigualdades e desafios sociais, a mostra propõe o cinema como lugar de escuta, partilha e imaginação de futuros possíveis", explica a organização. 

Nos dias 5 e 6 de Março, haverá Sessões para Escolas, com curtas-metragens como O Casaco Rosa, de Mónica Santos; Água Mole, de Alexandra Ramires & Laura Gonçalves; Rui Carlos, de Margarida PaiasPasseio de Domingo, de José Miguel Ribeiro; e História Trágica com Final Feliz, de Regina Pessoa, entre outros títulos. Já no fim-de-semana, às 11h00, haverá a sessão Curtinhas - Miúdos e Família, no Sábado, e a Sessão Família, no Domingo.

Ao longo do Cine Amadora 2026 terão lugar três workshops: The Male Gaze, com Paula MirandaRevelação Analógica, com Circanalogique; e O Cinema e a Palavra, com Mia Tomé.


No primeiro dia do Cine Amadora, às 16h00, é exibido o filme A Memória do Cheiro das Coisas, de António Ferreira, que estará presente para uma conversa no final da sessão. Às 18h00, a Carta Branca à Escola Superior de Teatro e Cinema reúne "trabalhos finais de estudantes do 2.º ano, representativos da diversidade estética e temática desenvolvida na instituição"

Após a Sessão de Abertura desta edição (19h30), segue-se, às 20h00, a projecção da curta-metragem rodada no bairro da Reboleira, 2720, de Basil da Cunha, que estará presente para uma conversa depois da sessão. Às 21h00, a mostra exibe em estreia nacional do filme brasileiro Malês, de Antônio Pitanga.

Na tarde de dia 6 de Março, os Recreios da Amadora recebem, às 14h30, a estreia portuguesa da co-produção de Moçambique e Itália Wansati - As Flores do Mundo, de Alessio Garlaschelli. Às 16h00 é a vez do filme brasileiro, Perto do Sol é mais Claro, de Regis Faria. Às 18h00, é hora de uma sessão Especial Kleber Mendonça Filho, com a exibição de duas curtas-metragens (Recife Frio, 2009, e Eletrodoméstica, 2005) do realizador de O Agente Secreto e Bacurau. Às 19h00, é exibido o filme moçambicano de Sol de Carvalho, O Ancoradouro do Tempo.


A noite de dia 6 é marcada por cinema e música com uma Sessão Musical, às 21h00, com três filmes:  Terramoto – Capelinhos, de Marco Oliveira; As Aventuras de Angosat, de Resem Verkron & Marc Serena; e Happier, Happier, Happier, de Telmo Soares. O músico Noiserv, protagonista do terceiro filme, estará presente para um conversa depois da sessão. A música continua às 22h15 com um concerto de KNOT3Selma Uamusse & Toni Fortuna.

No Sábado, dia 7 de Março, a tarde começa às 14h30 com a projecção de Palco - Cama, de Jura Capela. Segue-se, às 16h00, a Sessão Especial de Antestreia de Mamã Guiné, de Mauricio Franco e Filipe Traslatti Mello. Às 19h00, o Cine Amadora passa Alma Negra, Do Quilombo ao Baile, de Flavio Frederico. À noite, pelas 21h30, é a vez de Paraíso, documentário de Daniel Mota, sobre o início dos anos 90 e o crescimento do fenómeno da música de dança e das raves em Portugal. O realizador estará presente para uma conversa após a sessão.


No último dia da mostra, 8 de Março, Fôlego - Até Depois do Fim, de Candé Salles, abre a tarde de cinema. Segue-se uma sessão dedicada às mulheres, com a exibição de cinco curtas-metragens: Limítrofe, de Aleph LoureiroQuebrando o Cobrão, de Maria Inês GomesAzul, de Luísa Pinheiro de AndradeRoma:Guaporé, de Gilberto Perin; e Tomorrow’s a New Day, de Mariana Macedo e André Lino.

Às 17h30, o documentário Jorge, o Fugitivo do FBI, de Sofia Pinto Coelho, é apresentado nos Recreios da Amadora, e a realizadora marcará presença na sessão para uma conversa. Às 19h00, é exibido Hanami, de Denise Fernandes.


A encerrar o Cine Amadora 2026 estará um Cine-Concerto, com a projecção de Os Faroleiros (Portugal, 1922), acompanhada por música ao vivo de Tó Trips, guitarrista e compositor, e Helena Espvall, violoncelista com carreira entre o folk e a experimentação. 

Toda a programação, reservas e outras informações em https://www.cineamadora.pt/.

domingo, 9 de junho de 2024

Sugestão da Semana #617

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme Manga d'Terra, de Basil da Cunha, protagonizado pela actriz e cantora Eliana Rosa, e, como é hábito na filmografia do realizador, rodado no bairro da Reboleira. Lê a crítica do Hoje Vi(vi) um Filme.



Ficha Técnica:
Título Original: Manga d'Terra
Realizador: Basil da Cunha
Elenco:  Eliana Rosa, Nunha Gomes, Evandro Pereira, Nuno Baessa, Lucinda Brito, Vera Semedo, Isabel Lopes, Camila Moniz
Género: Drama, Musical
Classificação: M/14
Duração: 96 minutos

terça-feira, 28 de maio de 2024

IndieLisboa 2024: Manga d'Terra (2023)

"Desde pequena que sonho ser cantora..."
Rosinha


*8.5/10*

Basil da Cunha regressa à Reboleira, o cenário primordial do seu Cinema, e cria Manga d'Terra, um musical que homenageia a Mulher cabo-verdiana.

"Rosa, 20 anos, deixa os dois filhos em Cabo Verde para se instalar em Lisboa, na esperança de lhes oferecer uma vida melhor. Presa entre o assédio de gangsters e a violência policial quotidiana, Rosa tenta encontrar consolo entre as mulheres da comunidade. Mas o seu verdadeiro refúgio é a música."


O universo da Reboleira é elevado a um musical pela mão de um realizador que não tem medo de desafios e se reinventa a cada filme, mesmo que o cenário de base continue a ser o (cada vez mais pequeno) bairro. Desta vez, o foco de Basil da Cunha são as mulheres da comunidade - em especial a protagonista, a actriz e cantora Eliana Rosa, numa extraordinária interpretação -, mas os temas já recorrentes na filmografia do realizador não deixam de estar presentes em pano de fundo, sendo a violência policial o mais destacado.


A música é o elemento de encontro dos sonhos e aflições de Rosinha. Cantar é o alento que faz a protagonista suportar, sozinha e longe da família, todas as provações que se colocam no seu duro caminho. É nas mulheres com quem se cruza que encontra apoio - mas é também principalmente entre elas que se sente excluída. Rosinha é uma estranha em terra estranha e são muitos os que desconfiam das suas intenções, outros tantos os que a vêem como uma nova possível conquista ou como uma ameaça. Ela, por sua vez, tenta integrar-se na medida em que lhe permitem e, se houver música, tudo se torna mais fácil. 

As superstições cabo-verdianas estão também muito presentes nesta longa-metragem, onde uma aura quase metafísica vai acompanhando Rosinha. Os jogos de luz e cor realçam o lado místico, mas igualmente os sonhos e a esperança da protagonista, tudo potenciado pela belíssima direcção de fotografia a cargo de Patrick Tresch.


Manga d'Terra é saudade e esperança, guiadas pela música de Eliana Rosa e da banda Acácia Maior, na intimidade de um bairro que é todo ele - e as suas personagens - Cinema.

domingo, 12 de maio de 2024

Sugestão da Semana #613

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca a sessão Entre Muros - Três Curtas Portuguesas, com os filmes 2720, de Basil da CunhaCorpos Cintilantes, de Inês Teixeira, e Natureza Humana, de Mónica Lima. Uma óptima oportunidade para aproveitar a Festa do Cinema, com bilhetes a 3,50€ em todos os cinema nacionais nos próximos dias 13, 14 e 15 de Maio.

ENTRE MUROS - TRÊS CURTAS PORTUGUESAS



Ficha Técnica:
Título Original: Corpos Cintilantes
Realizadora: Inês Teixeira
Elenco: Maria Abreu, Gaspar Menezes, Beatriz Forjaz, Maria Gil, Carla Maciel 
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 23 minutos

Ficha Técnica:
Título Original: Natureza Humana
Realizadora: Mónica Lima
Elenco: João Vicente, Crista Alfaiate
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 25 minutos

terça-feira, 7 de maio de 2024

IndieLisboa 2024 com programa fechado

A poucos dias do início da 21.ª edição do IndieLisboa, que acontece de 23 de Maio a 2 de Junho, o festival lisboeta anunciou a sua programação completa.

A Competição Nacional contará com oito longas e 18 curtas-metragens. Entre elas, encontram-se Banzo, de Margarida Cardoso, "que acompanha um médico de uma plantação numa ilha tropical africana que, em 1907, terá de curar um grupo de serviçais 'infectados' pelo Banzo, a nostalgia dos escravos"; O Ouro e o Mundo, de Ico Costa, que se foca "num jovem casal de uma pequena cidade de Moçambique"; O Melhor dos Mundos, de Rita Nunes, que viaja até 2027, e segue "um casal de cientistas frequentemente em pólos opostos", e dados que indicam uma forte probabilidade de "um enorme sismo poder atingir Lisboa"; Estamos no Ar, de Diogo Costa Amarante, acompanha Fátima, que "diz que não sente nada, mas sonha com o polícia que se mudou recentemente para o apartamento ao lado", e aqueles que a rodeiam; Manga d’Terra, de Basil da Cunha, que regressa à Reboleira "para contar a história de Rosa, jovem cabo-verdiana que trabalha num bar para enviar dinheiro para os filhos", vivendo "presa entre o assédio dos mafiosos e a violência policial quotidiana", "o seu verdadeiro escape é a música"; Mãos no Fogo, de Margarida Gil, "explora as características imateriais do cinema através de Maria do Mar, jovem estudante de cinema, e uma tese sobre o Real no Cinema"; Shrooms, de Jorge Jácome, uma "aventura poética" que traz consigo "cogumelos mágicos"; Greice, de Leonardo Mouramateus, acompanha "uma jovem estudante brasileira de 22 anos" que se envolve com Afonso e os dois são responsabilizados "por um estranho acidente que ocorre numa festa e precipita o regresso de Greice a Fortaleza"; Contos do Esquecimento, de Dulce Fernandes, "questiona o papel de Portugal no tráfico transatlântico de africanos escravizados a partir de achados arqueológicos recentes em Lagos"; e Nocturno para uma Floresta, de Catarina Vasconcelos, "sobre um muro erguido no sec. XV por monges no Buçaco, impedindo a entrada de mulheres". Todas as longas da Competição Nacional têm legendas descritivas. 

Manga d’Terra, de Basil da Cunha

Novidade no IndieLisboa 2024 é a nova secção Rizoma, "que apresenta um conjunto de filmes que pretende trabalhar questões relevantes da actualidade, cineastas de renome, e ante-estreias". Destaque para All of us Strangers, de Andrew Haigh, com Andrew Scott e Paul Mescal, que aqui terá a sua exibição única em Portugal em sala de cinema; No Other Land, "filme de um colectivo palestiniano sobre a destruição que Israel consegue causar na sua tentativa de ir ocupando maiores faixas de terreno" e também "sobre a ligação que se estabelece entre um jornalista israelita e um activista palestiniano"A Besta, de Bertrand Bonello, onde "Léa Seydoux é Gabrielle, uma mulher que vive numa sociedade futurista que abomina emoções que exaltem os seres humanos", e Pedágio, de Carolina Markowicz, onde Suellen, cobradora de portagens, "percebe que pode usar seu trabalho para fazer uma renda extra ilegalmente. Mas tudo por uma causa nobre: financiar a ida de seu filho à caríssima cura gay ministrada por um famoso pastor estrangeiro".

A secção competitiva Novíssimos, para jovens cineastas emergentes, conta com títulos como Conseguimos Fazer um Filme, de Tota Alves, Chuvas de Verão, de Mário Veloso, Anima, de Joana Patrão, Clotilde, de Maria João Lourenço, Sunflowers – A Strange Feeling of Existential Angst, de Carolina Bonzinho e Leander Meresaar, entre outros.

All of us Strangers, de Andrew Haigh

A Sessão de Abertura do festival conta com o filme I’m not everything I want to be, de Klára Tasovská, sobre Libuše Jarcovjáková "e o ambiente sufocante vivido depois da Primavera de Praga de 1968". "A câmara como companheira constante — e a origem do material do filme, composto pelas suas inúmeras fotografias e excertos dos seus diários — captura a ida dela para Berlim Ocidental, escapar para Tóquio, e o regresso à Europa". No encerramento, estará Dream Scenario, de Kristoffer Borgli, uma comédia negra com Nicolas Cage, que interpreta "um professor de biologia perfeitamente banal, a surgir nos sonhos de muitas outras pessoas" que se torna famoso e infame.

Na Piscina Municipal da Penha de França regressa o programa de curtas-metragens para famílias e, este ano, haverá, pela primeira vez, longas para adultos, "com dois clássicos que têm a água, ou a piscina, como tema central"Palombella Rossa, de e com Nanni Moretti, "sobre um líder comunista amnésico que é também jogador de polo aquático"; e "Piranha, paródia de culto realizada por Joe Dante".

O IndieLisboa 2024 acontece no Cinema São Jorge, Culturgest, Cinemateca Portuguesa, Cinema Ideal, Cinema Fernando Lopes e piscina da Penha de França. A programação completa do festival pode ser consultada em https://indielisboa.com/.

terça-feira, 5 de março de 2024

Cine Amadora - Mostra Internacional de Cinema: De 6 a 8 de Março sob o mote 'Cinema e Revolução'

A 1.ª edição do Cine Amadora – Mostra Internacional de Cinema acontece de 6 a 8 de Março, nos Recreios da Amadora, sob o mote Cinema e Revolução – Uma Ideia na Cabeça e uma Câmara na Mão (inspirado numa célebre frase do cineasta Glauber Rocha), inserida nas Celebrações dos 50 anos do 25 de Abril do município. A entrada é gratuita.

A abertura oficial da mostra realiza-se a 6 de Março, às 15h00, com a exibição do documentário 48, de Susana de Sousa Dias. Às 18h30, é a vez da Carta Branca à ESTC, com a exibição das curtas-metragens: Agora Frenesim, de Laura Andrade; Mistida, de Falcão Nhaga; Rubab, de Marta Vaz; Meia Luz, de Maria Patrão; e Amor, Avenidas Novas, de Duarte Coimbra.

Também no dia 6 de Março, às 21h30, é exibido O Fim do Mundo (2019), de Basil da Cunha, filmado no bairro da Reboleira.

O dia 7 de Março começa com a Masterclass Cinema e Paisagem Sonora, às 10h30, com Raquel Castro, investigadora de paisagens sonoras, realizadora e curadora. Às 15h30, o radialista Nuno Calado apresenta O Videoclip Enquanto Objecto Cinematográfico, com vários vídeos musicais da lusofonia. Às 18h30, é exibido o documentário Manguebit, de Jura Capela. Este dia, muito dedicado ao som e à música no cinema, termina com o Cine Concerto As Aventuras do Príncipe Achmed (1926), de Lotte Reiniger, musicado ao vivo pelo compositor e multi-instrumentista Sérgio Costa, às 21h30.

O último dia do Cine Amadora, 8 de Março, começa com um Workshop de Cinema Mobile, orientado por Luísa Sequeira e Sama, sobre o uso do telefone móvel como uma ferramenta para a realização de pequenos filmes. Às 15h30 terá início a sessão Curtas & Revolução, que conta com os filmes: Na Parede da Memória - Elis Regina, de Elizabete Martins Campos; Ashes of the Afternoon (134 Mortes), de Márcia Beloti e Luiza Porto; Os Cravos e a Rocha, de Luísa Sequeira; Quando a luz se Apaga, de Tânia Prates; e The Magnificent Women, de Mia Tomé.

Segue-se, às 18h30, o clássico Belarmino (1963), de Fernando Lopes, e, às 21h30, o documentário O Que Podem as Palavras?, de Luísa Sequeira e Luísa Marinho, sobre as escritoras Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa que, em 1972, publicaram As Novas Cartas Portuguesas, abordando temas proibidos e censurados durante o Estado Novo, como a Guerra Colonial, o adultério, a violação ou o aborto. 

Mais informações sobre o Cine Amadora - Mostra Internacional de Cinema em https://www.cineamadora.pt/programacao.

domingo, 16 de julho de 2023

Curtas Vila do Conde 2023: 2720, de Basil da Cunha

*9/10*


Basil da Cunha regressa ao bairro da Estrada Militar, na Reboleira, onde tem construído a quase totalidade da sua filmografia. Em 2720 (que é também o código postal desta zona da cidade), vários planos-sequência conduzem a plateia pelas casas, ruas, estradas e becos do bairro, seguindo alternadamente os dois protagonistas, entre encontros e desencontros.

"Um bairro clandestino na Reboleira acorda com a notícia de uma violenta rusga policial, que aconteceu na noite anterior. Camila, uma menina de 7 anos, parte em busca do irmão, Igor. Está preocupada. Igor anda desaparecido. Ao mesmo tempo, Jysone apressa-se: passados 6 anos na cadeia e 5 semanas em liberdade, Jysone finalmente encontrou trabalho e sabe que não pode chegar atrasado. Está à procura de alguém que lhe possa dar boleia enquanto caminha pelos becos do bairro, onde se vai cruzando com amigos e conhecidos, que o atrasam ainda mais. O destino dos nossos dois protagonistas vai acabar por se cruzar da pior forma possível."


Através da câmara de Basil da Cunha, eis que os habitantes do bairro levam a plateia numa visita guiada. Todos se conhecem e a maioria das portas estão abertas a quem chega, incluindo à visão do realizador, que espreita cada divisão e os seus moradores, evidenciando a enorme familiaridade que ali se vive. Em contraste, nas ruas impera um cenário triste e decadente, resultado das demolições que se vão sucedendo e começaram há alguns anos. Paredes que já não sustentam a casa que ali existiu, lixo e entulho do que foi deixado para trás pelos que partiram, e o abandono que paira sobre o bairro, com a polícia sempre à espreita. 

Em 24 minutos, consegue-se traçar um rápido retrato socioeconómico do bairro, entre crianças que cresceram mais rápido do que a idade faz crer, jovens desempregados, ex-reclusos que querem recompor a vida, o medo e a revolta para com a polícia - e da violência da relação entre as duas partes -, mas, principalmente, um espírito de união e companheirismo admirável.


A subtileza de Basil da Cunha vai deixando pistas ao longo da curta-metragem, e filma o bairro através do olhar e das emoções dos protagonistas - a pequena Camila é o principal reflexo disso. 

2720 é o seguimento do trabalho quase etnográfico que o realizador tem feito desta zona da Amadora, que tem desaparecido aos poucos, mas continuará sempre reunida na sua obra.

sexta-feira, 23 de junho de 2023

Curtas Vila do Conde 2023: Programa fechado

A 31.ª edição do Curtas Vila do Conde já tem programa fechado. O festival acontece de 8 a 16 de Julho.

Carta a Mi Madre Para Mi Hijo, Carla Simón

Destaque para as estreias nacionais das mais recentes obras dos veteranos: Lucrecia Martel (Camarera de Piso), Carla Simón (Carta a Mi Madre Para Mi Hijo), Antonin Peretjatko (Les Algues Maléfiques), Jean-Gabriel Périot (L'effort des Hommes) e a dupla Benjamin de Burca e Bárbara Wagner (Fala da Terra). Do lado dos novos autores, encontram-se obras da francesa Sarah-Anaïs Desbenoit, do egípcio Morad Mostafa, da francesa Julia Kowalski, do chinês Zhang Dalei, do franco-alemão Lucas Malbrun, do italiano Francesco Sossai e da espanhola Irati Gorostidi Agirretxe.

No que respeita a filmes nacionais, passam por Vila do Conde obras de António Pinhão Botelho, Basil da Cunha, David Ferreira, Dimitri Mihajlovic & Miguel Lima, Diogo Baldaia, Duarte Coimbra, Francisco Carvalho, Inês Teixeira, Mário Macedo & Vanja Vascarac, Marta Monteiro, Mónica Lima, Nuno Amorim, Pedro Bastos, Pedro Neves, Susana Abreu e Tomás Baltazar. A programação de filmes produzidos em Portugal integra ainda uma sessão especial com as três curtas que integraram o programa A Fábrica de Realizadores – Norte de Portugal, exibido em Cannes (Espinho, de André Guiomar e Mya Kaplan; Maria, de Mário Macedo e Dornaz Hajiha; As Gaivotas Cortam o Céu, de Mariana Bártolo e Guillermo Garcia Lopez), bem como as exibições, na sessão de Panorama Nacional, de Pátio do Carrasco, de André Gil Mata, Naquele dia em Lisboa, de Daniel Blaufuks, e O Homem das Pernas Altas, de Vítor Hugo Rocha

2720, Basil da Cunha

A abrir o Curtas 2023 estará, em antestreia nacional, 20000 Espécies de Abelhas, a primeira longa-metragem de Estibaliz Urresola Solaguren, que conquistou o Urso de Prata para Melhor Interpretação Principal na Berlinale deste ano. O filme é exibido no dia 8 de Julho, pelas 19h00, e terá estreia comercial a 20 de Julho. A encerrar o festival, a 15 de Julho, estará Retratos Fantasmas, de Kleber Mendonça Filho. A estreia comercial em Portugal está marcada para 24 de Agosto.

Na secção Cinema Revisitado (onde já tinha sido anunciado o foco na obra de Walerian Borowczyk), o FILMar e o Curtas juntam-se para revisitar a obra de Augusto Cabrita (1923-1993), no centenário do seu nascimento. O programa  integra sessões de cinema, conversas e uma exposição, "que sublinham as dimensões do atento observador do diálogo entre a paisagem, social e marítima, a sua transformação pela acção humana e o que se pode guardar de uma memória em fuga".

A secção New Voices (dedicada à obra de jovens cineastas) traça, este ano, um olhar sobre as obras do português João Gonzalez — com uma carte blanche que integra filmes seus, algumas escolhas e a exposição Ice Merchants: do Sub-Consciente ao Ecrã —, da espanhola Estibaliz Urresola Solaguren e do colectivo de media de guerrilha pseudo-marxista, Total Refusal

O Curtas Vila do Conde tem ainda um programa especial de cinema e oficinas dedicadas ao público infanto-juvenil e familiar (Curtinhas), tal como a competição de cinema de escola (Take One) e o Prémio do Público Europeu

Já anunciados para o Curtas 2023, estavam os programas centrados nas obras de Billy Roisz, Deborah Stratman e Radu Jude, bem como os dois filmes-concerto integrantes da secção Stereo: Bohren & der Club of Gore x Le Révélateur, de Philippe Garrel (13 de Julho,  23h30, Teatro Municipal de Vila do Conde), e Miaux x Carnival of Souls, de Herk Harvey (14 de Julho, 23h30, Teatro Municipal de Vila do Conde), e ainda o regresso aos palcos dos TURBO JUNK I.E. (10 de Julho, 23h30, Teatro Municipal de Vila do Conde).

Mais informações sobre festival vila-condense em www.curtas.pt

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Batalha Centro de Cinema apresenta programa para Junho e Julho

O programa do Batalha Centro de Cinema para Junho e Julho conta com retrospectivas a Basil da Cunha, Annemarie Jacir e Mai Zetterling; o ciclo temático Contra-Fluxos, dedicado à água; e o programa Oásis, que inclui cinema ao ar livre.

Entre 3 e 17 de Junho, é dedicada uma retrospectiva à obra do realizador luso-suíço Basil da Cunha, com a presença do cineasta, que inclui o seu mais recente filme, comissariado pelo Batalha. Premiado em Oberhausen, 2720 será apresentado em formato de filme-concerto. Segue-se, entre 8 de Junho e 15 de Julho, a primeira retrospectiva em Portugal dedicada a Mai Zetterling, realizadora, actriz e argumentista, que "firmou a sua assinatura na História do cinema realizando, a partir dos anos 60, filmes ousados e transgressivos que permanecem atuais até aos dias de hoje". De 22 de Junho a 7 de Julho, em foco estará a obra da realizadora palestina Annemarie Jacir, que marcará presença no Batalha. A cineasta "escreveu, realizou e produziu mais de 20 filmes e as suas três longas de ficção foram candidatas da Palestina ao Óscar e premiadas nos principais festivais de cinema".

2720

Entre 29 de Junho e 16 de Julho, o ciclo temático Contra-Fluxos "reflete sobre a água enquanto ponte entre continentes e elemento central da história e da sociedade". O programa tem curadoria de Almudena Escobar López e Margarida Mendes e inclui obras de Mati Diop, Kevin Jerome Everson, Basma al-sharif, Sky Hopinka, Ephraim Asili, Miryam Charles, Rosa Barba e Laura Huertas Millán.

No ciclo Luas Novas, dedicado a nomes emergentes do cinema português, é exibido Simon Chama, de Marta Sousa Ribeiro (18 de Junho), e a Constelação #2: El Dorado do ciclo Selecção Nacional — focada na problemática relação do cinema português com África — chega ao fim com sessões a 7 e 21 de Junho, a última com a presença do realizador João Botelho.

Nos dias 6 e 7 de Junho, o Batalha acolhe os Novos Encontros do Cinema Português, um fórum de discussão em torno do cinema nacional que vai reunir, no Porto, os profissionais do sector. A iniciativa — organizada pelo Centro de Cinema, a Fundação Calouste Gulbenkian e o Clube Português de Cinematografia–Cineclube do Porto — parte da Semana de Estudos sobre o Novo Cinema Português que aconteceu no Batalha em 1967, para propor um novo encontro com quatro painéis de debate: Educação, Produção, Crítica e Distribuição e Exibição.

Também em Junho, nas Matinés do Cineclube, serão apresentados alguns dos filmes que integraram a programação dos Encontros de 1967 e que definiram o movimento do Cinema Novo. No mês seguinte, o programa dedica-se às primeiras realizadoras que o Cineclube do Porto programou.

A primeira temporada do Batalha termina em festa com Oásis — programa anual que celebra a chegada à estação mais quente com propostas multidisciplinares dedicadas ao Verão e suas poéticas. Entre 19 e 22 de Julho, há propostas de filmes dentro e fora de portas — com sessões gratuitas, ao ar livre, na Praça da Batalha — e o filme-performance Olho da Rua, de Jonathas de Andrade.

Para os mais novos, além das Sessões para Famílias, o Batalha propõe o Mini Oásis, que acontece entre 12 e 14 de Julho, e apresenta um conjunto de filmes onde o sol, a praia e o calor estão sempre presentes.

No dia 1 de junho, é apresentada em estreia a performance Workers in Song, que resulta de uma colaboração entre o artista visual James Richards e o compositor Billy Bultheel. Um trabalho que junta som e imagem em movimento numa coreografia expandida, questionando a diferença entre o visível e o imaginário.

Já a 2 de Julho, Rita Natálio apresenta Spillovers, "uma performance-filme que constrói uma releitura fabulada da icónica obra feminista Lesbian peoples: material for a dictionary, escrita em 1976 por Monique Wittig e Sande Zeig".

Até 13 de Agosto, o Foyer 1 e Sala-Filme acolhem a instalação Escondidas na caverna que forjamos umas das outras, de CAConrad com Alice dos Reis e Isadora Pedro Neves Marques.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Crítica: O Fim do Mundo (2019)

"Temos que sonhar à noite para fazer de dia"
Giovanni


*7.5/10*

O Fim do Mundo leva-nos a um mundo de desencanto, naquele que outrora foi um bairro animado e cheio de vida. Basil da Cunha regressa à Reboleira e ao Bairro da Estrada Militar, onde já vem contando histórias há alguns anos.

A obra do realizador luso-suíço tem um caracter etnográfico de enorme valor (Nuvem,  Os Vivos Também ChoramAté Ver a Luz, Nuvem Negra e agora O Fim do Mundo), ao filmar locais que em breve desaparecerão, e as pessoas que os habitam. O Fim do Mundo era para ser o filme-despedida deste bairro da Amadora, mas a pandemia veio mudar os planos - e ainda bem. As demolições pararam alguns meses, e o realizador ganhou tempo de avanço para novos projectos, antes do fim anunciado.


"Após oito anos numa casa de correcção, Spira (Michael Spencer) regressa à Reboleira, um bairro de lata que está a ser destruído, nos arredores de Lisboa. Spira é bem recebido pelos amigos e familiares, mas Kikas (Carlos Fonseca), um velho traficante do bairro, fá-lo perceber que não é bem-vindo. Depois de Até ver a Luz (2013), Basil da Cunha quis contar em O Fim do Mundo as últimas horas do bairro da Reboleira através dos olhos da geração que ele viu crescer e tomar conta das ruas nos últimos anos."

Há frieza e desalento espelhados nos olhos do protagonista, um estranho no local onde cresceu, em  que o tempo ausente fez desaparecer casas, laços e memórias. Spira é de poucas palavras, fiel aos que o respeitam, introvertido, mas carregado de mágoa e violência. Este rapaz regressa a casa e quase não a reconhece. A sociedade, por seu lado, não o reintegrou nem lhe deu esperança nestes oito anos de reformatório. Spira não vê futuro e prefere não ter sonhos. É um jovem magoado e desconfiado, mas capaz de grandes loucuras por quem ama.


Destaque para o bom desempenho do protagonista, Michael Spencer, e dos seus dois amigos, Marco Joel Fernandes (Giovanni) e Alexandre da Costa Fonseca (Chandi) cada um com uma personalidade muito própria, formando um trio de jovens sem perspectivas e obrigados pelo mundo a crescer demasiado rápido. Na pele da madrasta de Spira, Luísa Martins dos Santos é a grande descoberta do realizador neste filme. A actriz demonstra confiança e emoções seguras na sua estreia cinematográfica.

Basil da Cunha faz de O Fim do Mundo um ciclo de vida e morte, um ritual de despedida, qual cortejo fúnebre, onde filma rostos, de olhos tristes que fixam a câmara - ou nos fixam a nós - e connosco ficam para a eternidade, muito para além do dia em que as retroescavadoras apagarem as memórias físicas de uma vida construída no bairro.


Manuel é a personagem que traz os momentos mais inusitados à longa-metragem e ao bairro. Um desafiador, que rouba sanitas ou torradeiras após a demolição das casas, ou coloca música alegre em momentos soturnos. Este elemento desestabilizador proporciona-nos a cena com maior magia latente, que nos anestesia, por momentos, da dor e decadência com que O Fim do Mundo nos confronta.

Uma fuga momentânea para uma realidade paralela - que existe, mesmo que ninguém acredite - e revela o maior encanto escondido daquele local, agora meio em ruínas, que guarda as memórias felizes de muitas gerações.

domingo, 20 de setembro de 2020

Sugestão da Semana #435

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme O Fim do Mundo, do  realizador luso-suíço Basil da Cunha, que continua a contar-nos as suas histórias passadas no bairro da Reboleira, nos arredores de Lisboa.

O FIM DO MUNDO


Ficha Técnica:
Título Original: O Fim do Mundo
Realizador: Basil da Cunha
Elenco: Michael Spencer, Marco Joel Fernandes, Alexandre da Costa Fonseca, Iara Cristina Cardoso, Luisa Martins dos Santos
Género: Acção, Crime, Drama
Classificação: M/16
Duração: 107 minutos

sábado, 5 de setembro de 2020

IndieLisboa'20: Vencedores

O IndieLisboa 2020 anunciou os vencedores desta edição, na cerimónia de encerramento que teve lugar esta noite. O festival aconteceu entre os dias 25 de Agosto e 5 de Setembro.


A Febre, de Maya Da-Rin, venceu o Grande Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa. Já na Competição Nacional, O Fim do Mundo, de Basil da Cunha, venceu o prémio para Melhor Longa-Metragem Portuguesa.

Fica a lista completa de vencedores:

JÚRI DA COMPETIÇÃO INTERNACIONAL DE LONGAS METRAGENS​
Caroline Maleville | Cristina Nord | Mamadou Ba
  
Grande Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa - 15.000 Euros
A FEBRE
Maya Da-Rin, Brasil / França / Alemanha, fic., 2019, 98’  

Prémio Especial do Júri Canais TVCine - Aquisição dos direitos do filme para Portugal
VICTORIA
Isabelle Tollenaere, Liesbeth De Ceulaer e Sofie Benoot, Bélgica, doc., 2020, 71’

JÚRI INTERNACIONAL DE CURTAS METRAGENS
Joana Pimenta | Jorge Jácome | Nuno Rodrigues

Grande Prémio de Curta Metragem - 4000 Euros 
TENDRE
Isabel Pagliai, França, doc., 2020, 43'  
  
Prémio Melhor Curta de Animação - 500 Euros
THIS MEANS MORE
Nicolas Gourault, França, doc. / anim., 2019, 22’
  
Prémio Melhor Curta de Documentário - 500 Euros
DOUMA UNDERGROUND
Tim Alsiofi, Líbano, doc., 2019, 11’

Prémio Melhor Curta de Ficção - 500 Euros
SHĀNZHÀI SCREENS
Paul Heintz, França / China, doc., 2020, 23’ 

JÚRI DA COMPETIÇÃO NACIONAL
Louise Rinaldi | Michael Wahrmann | Núria Cubas

Prémio Allianz para Melhor Longa Metragem Portuguesa - 7500 Euros
O FIM DO MUNDO
Basil da Cunha, Portugal, fic., 2019, 107′ 

Prémio Melhor Realização para Longa Metragem Portuguesa - 1000 Euros
A METAMORFOSE DOS PÁSSAROS
Catarina Vasconcelos, Portugal, doc. / fic., 2020, 101’ 

Prémio Dolce Gusto para Melhor Curta Metragem Portuguesa - 2000 Euros
MEINE LIEBE
Clara Jost, Portugal, doc., 2020, 6’ 

Prémio Novo Talento FCSH/NOVA - 1500 Euros
CORTE
Bernardo Rapazote e Afonso Rapazote, Portugal, fic., 2020, 28’ 

JÚRI DA COMPETIÇÃO NOVÍSSIMOS
André Miguel Ferreira | Felipe Bragança | Selma Uamusse

Prémio Novíssimos The Yellow Color + Portugal Film - 2000 Euros em serviços + promoção e venda
CONTRAFOGO
Carolina Vieira, Portugal, doc., 2020, 10′

Menção Especial 
NESTOR
João Gonzalez, Portugal, anim., 2019, 6’ 

JÚRI SILVESTRE
Paulo Cunha | Marta Lança | Pedro Borges | Alexandra Ramires | Filipe Raposo

Prémio Silvestre para Melhor Longa Metragem - 1500 Euros
EX-AEQUO

BREVE MIRAGEM DE SOL
Eryk Rocha, Brasil / França / Argentina, fic., 2019, 98’

TODOS OS MORTOS
Caetano Gotardo e Marco Dutra, Brasil / França, fic., 2020, 120’ 

Prémio Silvestre para Melhor Curta Metragem - 1000 Euros
APPARITION
Ismaïl Bahri, Tunísia / França, fic. / doc., 2019, 3'

JÚRI INDIEMUSIC
Joana Barra Vaz | Jorge Ferraz | Pedro Azevedo

Prémio IndieMusic - 1000 Euros
EX-AEQUO
WHITE RIOT
Rubika Shah, Reino Unido, doc., 2019, 80’

KEYBOARD FANTASIES: THE BEVERLY GLENN – COPELAND STORY
Posy Dixon, Reino Unido, doc., 2019, 63’

JÚRI ÁRVORE DA VIDA
Inês Gil | Helena Valentim | P. António Pedro Monteiro

Prémio Árvore da Vida para Melhor Filme Português - 2000 Euros
O FIM DO MUNDO
Basil da Cunha, Portugal, fic., 2019, 107′

JÚRI AMNISTIA INTERNACIONAL
Ivo Canelas | Sandra Dias Pereira

Prémio Amnistia Internacional - 1500 Euros
DOUMA UNDERGROUND
Tim Alsiofi, Líbano, doc., 2019, 11’  


PRÉMIOS DO PÚBLICO

Prémio Longa Metragem - 2000 Euros
A METAMORFOSE DOS PÁSSAROS, de Catarina Vasconcelos

Prémio Curta Metragem - 1000 Euros
MARDI DE 8 À 18, de Cecilia de Arce

Prémio IndieJúnior - 500 Euros
A MINHA VIDA EM VERSALHES, de Clémence Madeleine Perdrillat e Nathaniel H'limi
 

O IndieLisboa prolonga-se até dia 11 de Setembro com sessões adicionais no Cinema Ideal, onde serão exibidos os filmes premiados, e na Cinemateca Portuguesa, com projecções de filmes pertencentes às retrospectivas de Ousmane Sembène e 50 Anos do Forum Berlinale.

*artigo actualizado a 8 de Setembro de 2020, com vencedores dos Prémios do Público.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Crítica: Até Ver a Luz (2013)

"Vive de dia, descansa de noite."
Nuvem
*7.5/10*

O bairro da Reboleira serve, uma vez mais, de palco ao trabalho de Basil da Cunha. O realizador luso-suíço viu a sua primeira longa-metragem, Até Ver a Luz, na Quinzena dos Realizadores, no Festival de Cannes deste ano, e estreou-a agora no circuito comercial de cinema.

Um protagonista que vive de noite, na Sombra que lhe dá o único nome que lhe conhecemos, é o nosso guia pelas estreitas ruas do bairro. Ele leva-nos ao centro dos conflitos e da festa, a uma realidade ficcionada mas com personagens de carne e osso, e com uma espiritualidade muito singular. Até Ver a Luz quase que funde o documentário com a ficção, onde a segunda predomina claramente. Os actores são realmente os moradores da Reboleira, e a naturalidade com que agem perante as câmaras é fabulosa. 

Até Ver a Luz gira em torno de Sombra, que, acabado de sair da prisão, volta à vida de dealer no bairro da Reboleira. Entre o dinheiro emprestado que não consegue recuperar e aquele que deve, uma iguana pouco comum, uma jovem vizinha sempre por perto e um chefe de gang que duvida da sua boa fé, Sombra começa a pensar que, de facto, mais valia ter ficado dentro.


Basil da Cunha oferece-nos um argumento simples, com um cenário e personagens cativantes. A história de acção e desconfiança de Até Ver a Luz alia-se a um tom, por vezes, cómico, mas sempre eficaz nesse registo. As personagens são reais e credíveis, e é fácil criar empatia com elas - em especial, com Sombra, Nuvem e Clarinha.

Ao contrário do que seria de esperar de um filme que se passa neste tipo de ambiente (no caso, um bairro problemático dos arredores da capital), Basil da Cunha não pretende abordar qualquer temática moralista. Não há lições de moral a dar ou críticas sociais a lançar, disso está o mundo farto. Até Ver a Luz consegue ir mais além e ser mais profundo, até mesmo espiritual. Mostra-se a vida no bairro, de noite, o presente de Sombra, Olos, Mix, Nuvem, e de todos os outros que discutem, conversam, dançam, tocam... e que dão vida ao bairro e à longa-metragem a que assistimos. Em fusão perfeita com o realismo do filme, está a fantasia, uma espécie de estado de transe ou alucinação - onde não faltam as superstições -, que não surge, em momento algum, desfasada da narrativa. Pelo contrário, torna-a ainda mais próxima de quem assiste.

No elenco - amador, mas a demonstrar grande profissionalismo -, destaque para o protagonista, Pedro Ferreira, que veste a pele de Sombra. Ele anda pelos telhados da Reboleira, tem medo da luz do dia e um carinho especial por uma iguana de estimação que, como a si mesmo, priva da luz do Sol. Uma personagem que surge deslocada do seu mundo, mas que nutre sentimentos fortes pelos poucos que lhe dão algum tipo de conforto. Nelson da Cruz Duarte Rodrigues volta a ser Nuvem (depois de ter protagonizado a curta-metragem homónima de 2011) com um desempenho muito competente. A personagem, apesar de ter pouco tempo de antena, transmite as mensagens mais fortes. Já no trailer temos a inesquecível "Vive de dia, descansa de noite", um conselho a acatar. João Veiga, como Olos, e Paulo Ribeiro, como Mix, são outros dois desempenhos a realçar, bem como todo o restante elenco secundário, que nos diverte e envolve na acção.


Da competência técnica, à banda sonora cheia de ritmos africanos que nos põem a dançar, passando pela originalidade com que a narrativa é conduzida, Até Ver a Luz deveria ser o filme falado em português - e crioulo - (não é considerado filme português, já que a produção é apenas suíça) obrigatório do ano. Basil da Cunha prova, agora com a sua primeira longa-metragem, o jovem e prometedor talento que tem em si.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Sugestão da Semana #78

Até Ver a Luz, de Basil da Cunha, fez parte da Quinzena dos Realizadores em Cannes, chegou na passada Quinta-feira aos cinemas portugueses e é a Sugestão da Semana do Hoje Vi(vi) um Filme.

ATÉ VER A LUZ

Ficha Técnica:
Título Original: Até Ver a Luz
Realizador: Basil da Cunha
Actores: Pedro Ferreira, João Veiga, Nelson da Cruz Duarte Rodrigues, Paulo Ribeiro
Género: Acção
Classificação: M/16
Duração: 95 minutos